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Vale
tudo: quem é a favorita do mal?
Por Patrick Selvatti
Em junho de 2009
De Odete a Flora, o jornalista e escritor Patrick Selvatti lista as seis
maiores vilãs de todos os tempos da teledramaturgia brasileira.
Por muitos anos, ela foi a mais odiada e odiosa personagem da
teledramaturgia brasileira. Esnobe, preconceituosa, prepotente e má,
Odete Roitman, em Vale Tudo - novela que foi ao ar em 1988 -
desprezava pobres, tinha pavor de brasileiros, fez a própria filha acreditar
que havia sido culpada da morte do irmão – sendo que a culpa era sua, a
própria mãe dos dois -, sabotava projetos da concorrência e foi morta por
engano, embora tivesse uma lista vasta e variada de desafetos que seriam
assassinos em potencial. Beatriz Segall deu vida a uma personagem tão
extraordinariamente cruel que conseguiu ofuscar o brilho sombrio de sua
colega de cena, Glória Pires, que interpretou magistralmente a aprendiz de
vilã Maria de Fátima, aquela que foi capaz de deixar a mãe na rua da
amargura, roubar o namorado da melhor amiga e vender o próprio filho depois
de tentar o aborto rolando escada abaixo...
Personagem
de Gilberto Braga e Aguinaldo Silva, Odete Roitman foi imortalizada e
deu origem a diversas outras cópias. Muitas tentaram o gancho, como a
Laurinha Figueiroa de Rainha da Sucata. Na novela de Silvio de
Abreu, a personagem de Glória Menezes era a matriarca de uma família
quatrocentona de São Paulo que se descobre falida ao mesmo tempo em que seu
enteado – por quem é apaixonada – envolve-se com uma Regina Duarte popular e
sem o menor traquejo social - porém milionária.
Além disso, não se dava bem com os próprios filhos, prejudicando muito suas
vidas em nome de um status social que insistia em ostentar mesmo sem ter um
único ovo na geladeira. Laurinha era tão má que, enlouquecida, chegou ao
cúmulo de cometer o suicídio para colocar a culpa em sua rival.
Apesar
de tanta maldade na personagem de Glória Menezes, a vilã que chegou mais
próximo de Odete Roitman foi a vivida por Eva Wilma em A indomada,
novela de Aguinaldo Silva levada ao ar quase dez anos depois. A diferença é
que, tendo o cinismo e a crueldade como características desfavoráveis, a
Altiva de Eva Wilma, ao contrário de Odete e Laurinha, caiu no gosto
popular, transformando sua maldade – como rejeitar e humilhar seu próprio
filho, fruto de uma traição - em diversão perversa.
A cada aparição da megera – que habitava a fictícia cidade de Greenville e
misturava o sotaque nordestino com expressões inglesas -, o público dava
boas risadas. Assim, em vez de odiá-la, o telespectador exercia com ela
certa cumplicidade, como se torcesse para que ela se desse bem ao final. O
que não aconteceu, já que a vilã foi morta em um incêndio armado para
exterminar a mocinha vivida por Adriana Esteves – mas ressurgiu na fumaça
anunciando seu retorno triunfal em um sonoro “I´ll be back”.
Assim como Aguinaldo Silva, seu co-autor na criação da perversa personagem
antológica de Beatriz Segall, Gilberto Braga testou algumas vezes, mas
somente em 2003, na novela Celebridade, conseguiu dar vida a uma personagem
tão odiada quanto a poderosa empresária de Vale Tudo. Eis que surge a
inesquecível Laura Prudente da Costa, estreia da até então intérprete
de mocinhas Cláudia Abreu no rol das intérpretes de grandes vilãs.
Com
um jeitinho meigo, suave, humilde e, por vezes, ingênuo, Laura aproximou-se
de seu alvo - uma bela, rica e famosa produtora de eventos vivida pela musa
do verão Malu Mader – fazendo-se de fã abnegada e tornou-se sua fiel
assistente para, assim, dar-lhe uma tremenda rasteira e roubar tudo o que
lhe pertencia. Assim, no meio da novela, Laura tornou-se bela, famosa, rica
e poderosa, protagonizando cenas hilárias com seus amantes.
Em sua fase vilã assumida, Laura tornou-se irônica, divertida, elegante e
sensual – mas sempre má, muito má, mas má mesmo, capaz até de matar a sangue
frio quem cruzasse seu caminho. Mas, como castigo, levou uma surra da sua
rival dentro do banheiro de uma boate – surra esta que a conduziu ao
hospital sem um dente da frente – e foi tratada como escrava pelo marido
igualmente crápula - que, no final, acabou assassinando-a juntamente com seu
amante michê.
Na
sequência, o Brasil nem mesmo conseguiu superar o desaparecimento de sua
vilã até então mais charmosa e emblemática quando surgiu aquela que poderia
ser considerada a segunda maior vilã da história da teledramaturgia.
Nazaré Tedesco foi o grande presente que a atriz Renata Sorrah recebeu
de Aguinaldo Silva e, por meio de quem, a atriz pôde nos presentear.
Ex-prostituta, ela se passou por enfermeira e roubou a filha de uma
retirante nordestina para justificar sua falsa gravidez, utilizada para
fisgar o amante casado. Durante toda a novela Senhora do destino, Nazaré fez
e aconteceu. Não roubou apenas a filha da protagonista Suzana Vieira, mas
também a sua cena, mesmo matando, matando e matando para ocultar seu crime
inicial. Divertida era pouco: Nazaré era hilária, irônica, sarcástica,
debochada e amoral. Punha apelidos ácidos em seus desafetos, fazia cara de
nojo ao se deparar com sua rival e maltratava os homens com quem se
envolvia.
Ao contrário de suas antecessoras, entretanto, não reinou absoluta o tempo
todo. Do meio da novela para a frente, começou a comer o pão que a “anta
nordestina e seus flageladinhos” amassaram: levou uma surra da mãe da filha
que roubou e, fugindo da polícia, percorreu o País pegando carona em
caminhões, dormindo em hotéis sujos e rodoviárias e chegou até a retomar o
metiê de prostituta em uma “boite” de beira de estrada. No final, louca,
infelizmente veio a falecer, jogando-se do alto de uma ponte no Rio São
Francisco, ao tentar roubar a filha da filha que havia seqüestrado no
passado.
Vinte
anos depois do surgimento da maior vilã da história da teledramaturgia, eis
que desponta para o topo do ranking uma malvada à altura de Odete Roitman. A
Flora, de Patrícia Pillar, em A favorita, não é tão diferente de suas
antecessoras, mas sua vilania desbanca Altivas, Lauras e Nazarés por um
único e importante detalhe: ela não somente enganou os demais personagens
como, durante alguns meses, até mesmo os telespectadores torceram por ela,
acreditando ser ela a mocinha da trama: um grande trunfo do autor João
Emanuel Carneiro.
De ex-presidiária injustiçada, humilde e abandonada, Flora foi se mostrando
uma assassina fria, calculista e sanguinária, capaz de cometer as piores
atrocidades em nome de uma psicopatia absoluta. Flora foi o precipício na
vida da Donatella de Cláudia Raia: separou-a de seu filho, matou o seu
marido e, depois, conseguiu colocar nela toda a culpa, ocupando o seu lugar
no seio da família Fontini. Como se não bastasse, Flora seqüestrou a própria
filha, internou o pai em um sanatório e foi responsável pela morte do sogro
– aliás, o crime mais aterrorizante e criativo da televisão brasileira.
Flora era o cão, o demônio, a face mais horrenda da crueldade. Entretanto,
mesmo Donatella sendo a mocinha, era ela, a vilã, a grande favorita do
público. Desta forma, não deixa dúvidas: a personagem de Patrícia Pillar
merece o posto de maior vilã da teledramaturgia dos últimos tempos e, de uma
vez por todas, Beatriz Segall pode argumentar para que seu maior desejo se
realize: depois de Flora, Odete Roitman deve ser cremada e suas cinzas
atiradas no Rio Ganges do Caminho das Índias. Até porque, dessas vilãs
todas, Flora foi a única que terminou a novela viva e, a qualquer momento,
pode retornar à cena para tirar o sono das criancinhas e dos velhinhos...
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