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Sucesso
e os pecados capitais dos livros de autoajuda
Por:
José Augusto Wanderley
Em julho de 2009
Um dos assuntos que costuma provocar muita controvérsia é o
da autoajuda. E o conjunto de reações pode variar dos que
acreditam piamente, sem nenhuma consciência crítica e
restrição, aos incrédulos, céticos e cínicos. Para os que
acreditam piamente, tudo o que leem são verdades absolutas
que não podem ser questionadas. Para os céticos e cínicos
todos os livros de autoajuda não têm nenhum mérito ou valor
e os autores, além de não serem pessoas sérias, não passam
de oportunistas que estão se aproveitando da ingenuidade
alheia.
Para estes últimos podemos dizer que autores considerados
sérios, sem nenhuma sombra de dúvida, escreveram livros de
autoajuda. Entre eles, o filósofo e matemático inglês
Bertand Russell, autor de A Conquista da Felicidade,
e o psicólogo americano Albert Ellis, que criou a TCER -
Terapia do Comportamento Emotivo Racional, e escreveu vários
livros, entre eles Como Conquistar sua Própria Felicidade.
Ellis não tinha nenhuma vergonha de dizer que escrevia
livros de autoajuda, relatando casos de pessoas que leram
seus livros e que tiveram melhoras consideráveis face as
adversidades da vida. Mas também relata casos de pessoas que
leram tudo sobre pensamento positivo e tiveram que se
internar em clínicas psiquiátricas ou acabaram tomando doses
cavalares de tranquilizantes. Portanto, em termos de
autoajuda, mais do que nunca, é fundamental saber separar o
joio do trigo. Além disto, deve ser ressaltado que compete a
quem ler o livro, interpretar e tirar conclusões
apropriadas, o que nem sempre é fácil.
Em oposição a autoajuda está a ajuda advinda através de
outras pessoas, um conhecido, um amigo, um terapeuta ou um
coach. E será que esta ajuda vinda por meio de
terceiros, sempre ajuda? A resposta é não, tanto assim que
já houve casos de pessoas que estavam em processo
terapêutico e chegaram ao suicídio. Isto quer dizer que um
tratamento psicológico pode provocar danos, que em alguns
casos são irreversíveis.
Mas o fato é que não existe ninguém que tenha chegado ao
sucesso, ou que tenha superado as adversidades da vida, que
não tenha tido algum tipo de ajuda de outros, seja através
da comunicação direta, seja de leituras ou ambas. É claro
que também existe uma terceira categoria, que é a daqueles
dominados pelo VOA: vaidade, orgulho e arrogância. Estes são
autossuficientes, onipotentes e oniscientes e não precisam
de ajuda de quem quer que seja. Pelo menos é no que
acreditam.
A fim de alertar para as armadilhas e perigos dos livros de
autoajuda, vamos a alguns dos pecados capitais que podem ter
consequências extremamente perniciosas. Mas de qualquer
forma, é importante enfatizar que o pecado tanto pode estar
no livro como no modelo mental do leitor.
1) Divinizar os gurus ou autores, sem se dar conta de que
eles também erram. Por exemplo, em 2000, Gary Hammel, um dos
gurus do pensamento estratégico e da liderança, no seu livro
Liderando a Revolução, cita a Enron como um exemplo
de criatividade, ousadia e inovação. Entretanto, no final de
2001, a Enron estava envolvida num mar de fraudes e faliu.
Assim, vale o que dizia Budha: “Não acredite em nada
simplesmente porque foi dito. Nem em sábios, nem na
autoridade de mestres e professores. Só acredite quando os
escritos, doutrinas e dizeres forem corroborados pela razão
e consciência”. Portanto, nunca abdique de duas coisas
fundamentais: lucidez e consciência crítica;
2) Querer ter certeza absoluta. Vivemos num mundo de
probabilidades e incertezas. Há algum tempo, tivemos o
acidente aéreo do avião da Gol com o Legacy. Qual era a
probabilidade de que aqueles dois aviões se chocassem
naquele imenso espaço aéreo? Mínima, talvez desprezível,
mas, no entanto o acidente ocorreu. Assim, vale desenvolver
a sabedoria da insegurança, ou seja, sair da área do
conforto e do familiar e poder viver o risco, a incerteza e
o desconhecido. É sempre bom lembrar que “mar tranquilo não
faz bom marinheiro”;
3) Tirar conclusões equivocadas e não ter a menor
consciência disto. O autor de um livro pode querer dizer uma
coisa, mas em função do DOG - distorção, omissão e
generalização-, fenômenos comuns ao processo de percepção,
pode-se ter interpretações bastante distintas daquelas que o
autor pretendia. Além disto, um mesmo fato pode permitir
conclusões inteiramente distintas. Um exemplo desenvolvido
por Einstein pode esclarecer melhor a questão. Se uma pessoa
estiver num trem em movimento e deixar cair um objeto, para
esta pessoa, o objeto vai cair numa linha reta vertical.
Entretanto, este mesmo objeto, visto por uma pessoa que
estiver fora do trem, vai cair em forma de curva. Assim
sendo, acostume-se a ver a realidade por vários pontos de
vista e sistemas de referência;
4) Falta de feedback ou retro-alimentação. O fato do leitor
não se comunicar com o autor gera o problema do
arco-de-distorção, que é a diferença entre o que o autor
quer transmitir e aquilo que o leitor capta da mensagem.
Isto é bastante comum na comunicação de sentido único. Um
outro problema com relação à falta de feedback é o da área
cega, isto é, aquilo que os outros percebem em nós, mas que
não temos idéia a respeito. Ou como diz a expressão bíblica:
“É mais fácil ver um cisco no olho do outro do que uma trave
no próprio olho”. Para evitar este tipo de coisa, passou a
ser bastante usual nas empresas a avaliação 360 graus, em
que uma pessoa recebe feedbacks dos que estão no seu
entorno. E esta é, na verdade, uma vantagem da ajuda vinda
através de terceiros, que não pode ser alcançada por meio
dos livros de autoajuda;
5) Não ter precisão com relação à questão dos limites,
adversidades e ter sentimentos de onipotência. Limites fazem
parte da nossa vida. Existem dois tipos de limites: os
autoimpostos e os reais, o que nem sempre é fácil
diferenciar. Certa vez uma pessoa que tinha medo de mar leu
um livro sobre a importância de se ter uma auto confiança
inabalável. Feito isto, foi nadar e morreu afogada. Não se
deu conta de que só ter auto confiança não basta. Também é
preciso ter habilidades e competências;
6)
Supersimplificar as coisas desconsiderando sutilizas,
ambigüidades e a necessidade da visão holística, isto é, que
o sucesso não é consequência de um único fator, mas de um
conjunto deles. Talvez uma das figuras mais importantes, mas
também das menos conhecidas atualmente, em termos de
autoajuda, é a do farmacêutico francês Emile Coué, cujo nome
está associado às pesquisas sobre efeito placebo e é
considerado o pai da auto-hipnose. Ele ficou conhecido, no
início do século passado, pela frase: “Todos os dias sob
todos os pontos de vista, vou cada vez melhor”. Numa viagem
aos Estados Unidos, Coué foi injustamente difamado pela
combinação de ignorância e arrogância da imprensa americana
e ficou profundamente abatido até morrer em 1926. Ou seja, a
frase famosa não surtiu efeito para ele. Uma
supersimplificação, muito comum hoje em dia, tem a ver com a
ilusão dos sonhos ou do peça, acredite e receba. Parece que
basta sonhar e está tudo resolvido. Ora, o sonho é apenas o
início de um processo e existem muitos outros parâmetros a
serem considerados. Um deles, como muito bem enfatiza Paul
Stoltz, é a capacidade de enfrentar adversidades. O jogador
de futebol Zidane, na Copa do Mundo 2006, tinha um sonho,
estava altamente motivado e tinha uma fantástica
competência. No entanto, deu uma cabeçada num adversário e
botou tudo a perder. Ou seja, sem que se saiba entrar em
estados mentais e emocionais ricos de recursos nos momentos
importantes e decisivos, de nada adianta sonhar.
Para concluir: Um livro de autoajuda pode ajudar? Sim, pode
e muito. Mas é sempre bom ter presente uma música cantada
pelo Paulinho da Viola: “O que dá para rir também dá para
chorar”.
* José Augusto Wanderley é Consultor
em Negociação, Liderança e Excelência de Desempenho e autor
do livro Negociação Total (Editora Gente).
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