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Em
marcha para canudos
Por:
João Ricardo
Em junho de 2005
O Teatro Oficina encena a primeira parte de A Luta, o último e
mais emocionante capítulo do clássico de Euclides da Cunha, Os Sertões.
A Luta – Primeira Parte, é o começo de uma batalha crônica. Essa
peça, em cartaz até 19 de junho no Teatro Oficina, figura como uma
alternativa de oxigenação da arte teatral frente a indústria cultural, que
empurra atores globais como sinônimo de qualidade e diversão. E pior,
empurra a idéia de que teatro é apenas diversão e entretenimento e não
reflexão e fruição, ou tudo isso ao mesmo tempo, como ocorre há quase três
anos na encenação de Os Sertões pelo grupo Oficina.
A peça foi dividida em cinco espetáculos e é dirigida por Zé Celso Martinez
Correia, que conta no currículo a direção das peças Roda Viva, de
Chico Buarque e O Rei da Vela, de Oswald Andrade. Zé Celso desde o
início da encenação de Os Sertões faz questão de mostrar que o livro
é extremamente atual, podendo inclusive explicar episódios recentes de nossa
história, como o massacre dos sem terras em Eldorado dos Carajás ou a
invasão do Afeganistão pelos Estados Unidos.
Os Sertões, que começou com um clima de festa e celebração em A
Terra, gradativamente foi incorporando um pesado e sombrio clima de
morte e guerra nos episódios que se seguiram. Após encenar o capítulo O
Homem em duas partes, o Oficina finalmente chegou em A Luta. E é
nessa peça que o público percebe todo o hermetismo e densidade do livro de
Euclides da Cunha.
Uma metáfora com a aridez e complexidade do sertão nordestino pode ser
utilizada quando se fala dessa parte da peça. Afinal, são oito horas
praticamente ininterruptas de espetáculo. Uma pausa de trinta minutos
oferece o necessário, porém curto, intervalo que o público necessita para
usufruir a grande carga de informação recebida do corpo de atores do Teatro
Oficina. Além disso, a tradicional participação do público – o que
aparentemente engana o possível e provável cansaço da peça – no espetáculo,
praticamente se resume a uma única e primorosa cena, na qual a platéia é
levada à galeria subterrânea do Teatro Oficina e retirada do outro lado do
palco, representando assim as almas dos sertanejos mortos pelo massacre
republicano.
No entanto, toda a genialidade e ousadia presentes no espetáculo, são
quebradas no instante em que Silvio Santos é praticamente louvado em vários
momentos da peça. Parece que Zé Celso aparenta fazer uma média com o homem
do baú, com o qual tem uma disputa pelo espaço referente ao Teatro Oficina.
Apesar disso, A Luta – Primeira Parte é imperdível para um bom fã de
Teatro, pois contém todos os requisitos necessários para se ter uma boa
peça. Um ótimo diretor, um bom texto, excelentes atores, e boas tiradas de
humor dentro da maior tragédia da história desse país.
Os Sertões, A Luta – Primeira Parte
Teatro Oficina – r. Jaceguai, 520, São Paulo, tel. (11) 3106-2818.
Site: www.teatroficina.com.br
Apresentações aos sábados e domingos às 18 horas, até o dia 19 de junho.
O ingresso custa 30 reais.
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