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Asinidade Estratégica
por Luciano Pires *
Em fevereiro de 2006
Então
me pego pensando... como é que um sujeito tão inteligente... aliás, um
sujeito não, vários sujeitos, tão inteligentes, em papel de liderança na
empresa, conseguem tomar uma decisão idiota, em nome de uma estratégia?
Pois saiba que já participei de decisões assim. Já fiz parte, na verdade
faço, de tomadas de decisão das quais depois me envergonho. Compactuei com a
burrice e assinei embaixo...
Algumas vezes assino com a consciência de ser contra, mas de perder para a
maioria. Perder para o consenso. Outras vezes, por "deixar pra lá". E
outras, conscientemente fazendo parte da burrada.
O interessante - ou assustador - é que essas pessoas, eu inclusive, no
momento da tomada da decisão, estão usando a inteligência. Pensam, elaboram,
criticam, analisam e... Agem como asnos.
É o que eu chamo de "asinidade" estratégica. Poderia ser "asnidade", mas "asinidade"
soa melhor...
E se você não sacou, o termo vem de asno mesmo.
Na asinidade estratégica pensamos que estamos cortando gordura enquanto
cortamos os músculos necessários para o crescimento. A asinidade estratégica
vive do curto prazo, das decisões imediatas que vão representar um risco
gigantesco para quem vier lá na frente. Seja outro gerente, outro político
ou a próxima geração. A asinidade estratégica coloca as questões
egocêntricas à frente das questões práticas.
A asinidade estratégica é o recurso dos covardes e incompetentes.
O asno estratégico não faz nem deixa fazer. E é capaz de discorrer por horas
sobre a correção de seu ponto de vista, revestindo seu discurso com
argumentações consistentes, calcadas na "prudência", "ética", "interesses
dos acionistas", "imagem", "padrões" e outros jargões do mundo dos negócios,
que povoam o universo do asinino estratégico.
A asinidade estratégica floresce principalmente no consenso. Na opinião da
maioria, preocupada em manter-se nas áreas de conforto. Nasce da má
interpretação do conceito de "democracia". Para os ideologicamente
estressados, explico: democracia é bom, é necessário ouvir todos os
envolvidos, é bom ter a participação de todos. Mas só até um estágio. Dali
pra frente, alguém tem que assumir a bronca e partir pra decisão. É quando o
cagaço e a ignorância dão luz à asinidade estratégica.
A vacina contra a asinidade estratégica é a ação individual. É quando alguém
tem a luz, percebe o desastre, chama a atenção e luta com todas as forças
para mudar a decisão.
Mas esse alguém tem que ter um repertório. Tem que ter conhecimento. Tem que
se fazer respeitar. Tem que ter...culhões.
Culhões?
Na República do Cagaço? Pois é...
É fácil? Claro que não. Quando eu tinha meus vinte, trinta anos, esbanjava
energia suficiente para brigar o dia todo contra a asinidade dominante.
Mesmo perdendo em 99% das vezes...
Hoje, beirando os cinqüenta, não tenho mais saco. Fiquei ranheta,
impaciente, insuportável. Teimoso como um... Asno!
Odeio a asinidade estratégica. Por causa dela me sinto burro.
Felizmente tenho esperanças. Sou um asno consciente.
E é essa consciência que me dá esperanças de um dia, lucidamente, desasnar.
* Luciano Pires é jornalista, escritor, conferencista e cartunista. Acesse
www.lucianopires.com.br
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