Personagem de si mesmo, Nelson Rodrigues nos presenteia com a autobiografia
no pseudônimo Suzana Flag, a misteriosa mulher que havia escrito os
folhetins anteriores: Meu Destino é Pecar e Escravas do Amor (em 1944), os
quais fizeram grande sucesso.
Tanto que Suzana virou celebridade nacional, recebendo cartas de homens
apaixonados (até mesmo de presidiários). Poucos sabiam que a verdadeira
Suzana Flag se barbeava com "Gilette". O alter-ego da personagem era o
polêmico escritor que refugiava no pseudônimo feminino para fugir da censura
que imperava na época.
Ao contar a história mirabolante da "pobre" escritora, Nelson descreve
detalhes da própria vida, como as tragédias que presenciou na juventude. No
folhetim mais ousado (porque não?) de Suzana Flag, ele difundiu as idéias
mais polêmicas que, até então, eram apresentadas somente em suas peças
teatrais. A verdadeira face da "escritora" começa a ser esboçada.
Nunca uma autobiografia de um personagem refletiu tanto o autor. Afinal,
como Suzana estava contando a própria vida, tinha a liberdade de contar
apenas a verdade nada mais que isto, embora o pseudônimo confesse no início
de romance a tentação de criar em cima dos fatos. Essa foi a única menção à
escrita de Suzana Flag. Na obra, se tratando de uma "autobiografia"
romanceada de uma escritora, ficou faltando explorar mais o assunto.
Era impossível que os leitores acreditassem no que liam. Antes de morrer, a
mãe de Suzana lhe roga uma praga: "Você há de encontrar o homem que vai te
fazer...", antes de terminar a frase ela morre, para o alívio da filha,
assombrada.
Pouco tempo depois, o pai se mata com um tiro na cabeça, nenhuma mulher da
família gosta da personagem principal. Todas a consideram uma biscate, como
a mãe, e não é raro uma delas dizer: "Você não pode ver rapaz!" Para
complicar a situação, Suzana quer vingar a morte dos pais, casando-se com o
suposto amante da mãe (Jorge), o qual "teria" causado toda a tragédia no
lar.
O que a mocinha não espera é que o seu tio Aristeu, odiado pela calculista
avó, planeja levá-la junto com a sua família e a do noivo para uma ilha
perdida, em que não há regras e as únicas leis são ditadas por ele. Lá
Suzana irá ficar dividida entre três homens: Jorge, Aristeu e Cláudio,
melhor amigo do próprio tio. No entanto, a personagem acaba envolvida em uma
trama diabólica. Bom para quem quer sentir novamente, ou pela primeira vez,
o delicioso sabor de uma época perdida e marcada pela inocência.
Livro:Minha Vida Autora:Suzana Flag (Nelson Rodrigues)
238 páginas Editora:
Companhia das Letras