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Viagem
no tempo
Por:
Helder Bentes
Em abril de 2007
Uma viagem no tempo por meio do conto "Eros e Psiqué", da mitologia
clássica, escrito pela primeira vez por Lúcio Apuleio. Disponível na versão
em Espanhol para download em
http://www.dominiopublico.gov.br/, e ainda, na versão impressa:
BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia grega. Petrópolis, Vozes, 1987, vol.II
Havia um casal de rei e rainha que tinham três filhas, sendo que a mais
jovem era a mais bela das mortais e estava sendo adorada no lugar de
Afrodite, como deusa do amor e da beleza.
Afrodite com ciúmes ordenou a seu filho Eros que fizesse Psiqué se apaixonar
pelo homem mais monstruoso. O pai de Psiqué consultou o oráculo de Apolo
sobre o destino de sua filha, e a resposta foi que ela deveria ser levada ao
alto de um rochedo onde se uniria a um monstro horrível.
Eros, no entanto, ao tentar atingir Psiqué com uma de suas flechas, acabou
se ferindo e se apaixonando por ela. Pediu então ao vento Zéfiro que a
transportasse para o seu palácio. No palácio de Eros, Psiqué foi servida,
nos seus desejos, por vozes. Eros vinha à noite, se unia a Psiqué, sem se
deixar ver, e desaparecia antes do amanhecer.
As duas irmãs de Psiqué foram à montanha chorar a ausência desta, que,
entristecida, pediu a Eros que as trouxesse ao palácio. As irmãs foram
trazidas ao palácio, mas ao verem-na tão rica e feliz sentiram muita inveja
e quiseram conhecer o marido de Psiqué. Esta, prevenida por Eros, não
respondeu às perguntas e mandou-as de volta.
As duas irmãs eram infelizes com os maridos – um deles era feio e avarento,
e o outro era velho e doente. Psiqué, pouco tempo depois, já estava chorando
novamente de saudades das irmãs e pedindo a Eros que as deixasse visitá-la
de novo. Novamente as irmãs foram levadas pelo vento Zéfiro ao palácio, e
desta vez foram mais convincentes e conseguiram fazer Psiqué acreditar que
seu marido seria uma serpente gigantesca e monstruosa. Psiqué estava
grávida, mas segundo suas irmãs, o marido monstruoso não tardaria a
devorá-la.
Psiqué, então, confusa com a conversa das irmãs, acabou lhes confessando não
saber quem era seu marido. As irmãs então a fizeram preparar uma lamparina e
um punhal. Com a lamparina ela deveria iluminar o rosto de seu esposo e com
o punhal cortar-lhe fora a cabeça. À noite, quando Eros já dormia, Psiqué
acendeu a lamparina e viu o rosto do marido – um homem belíssimo. Não
conseguindo mais pensar em matá-lo, deixou cair o punhal. Ao ver sua aljava,
foi tocá-la e se feriu numa das flechas, desta maneira, ficando perdida e
eternamente apaixonada por ele. Sem se dar conta, deixou pingar uma gota de
óleo quente da lamparina no ombro de Eros, acordando-o e fazendo-o fugir do
palácio.
Psiqué, desesperada com a ausência do marido, tenta se matar, jogando-se num
rio, mas as águas a devolvem a terra. Pan, que estava por perto, aconselha-a
que chame e procure pelo esposo. Enquanto isso, Afrodite fica sabendo que
Eros está ferido, e pior ainda, apaixonado por sua rival Psiqué. Curiosa,
vai ao encontro do filho. Psiqué, depois de pedir em vão ajuda às deusas
Hera e Deméter, e cansada de procurar por Eros, resolve ir ao encontro de
Afrodite, para lhe pedir perdão.
Afrodite, no entanto, a recebe muito mal, humilha-a, espanca-a e ainda lhe
impõe quatro tarefas: A primeira tarefa seria separar uma montanha de
sementes por espécie, durante o período de uma noite. Psiqué sabia ser uma
tarefa impossível para ela, mas vê aparecerem várias formigas que a ajudam e
as sementes são rapidamente separadas.
Afrodite, furiosa, lhe passa a segunda tarefa: exige que Psiqué lhe traga,
sem falta, flocos da lã de ouro dos carneiros ferozes que existiam ali
perto.
Psiqué pensa mais uma vez em se jogar no rio, mas um caniço da beira do rio
lhe sugere uma solução para o problema – ela não deveria se aproximar dos
carneiros com o sol a pino porque eles estariam enfurecidos e poderiam
matá-la. Ela deveria aguardar o calor diminuir, os carneiros, indo
descansar, deixariam flocos de lã presos nas árvores do bosque. Seria então
fácil para Psiqué colher a lã de ouro que precisasse. E assim foi feito.
Afrodite agora mais furiosa, achando que Psiqué só conseguira se desincumbir
das tarefas por estar sendo ajudada por Eros, ordenou-lhe que cumprisse mais
uma: com um vaso de cristal dado por Afrodite, Psiqué deveria apanhar água
da fonte dos rios Cocito e Estige (rios infernais – sua nascente era
guardada por dois dragões).
Psiqué novamente pensou em desistir de tudo, mas desta vez foi ajudada pela
águia de Zeus, isto é, o próprio Zeus metamorfoseado em águia cumpriu a
tarefa por ela.
Veio então a quarta tarefa, e a mais difícil de todas: Psiqué deveria buscar
no Hades, o reino dos mortos, com Perséfone, sua rainha, uma caixa que
continha a "poção da beleza imortal" para ser entregue a Afrodite.
Psiqué, totalmente desesperançada, subiu a uma torre alta para se jogar lá
de cima. A torre, no entanto, aconselhou-a a como se desincumbir
satisfatoriamente desta empreitada: deveria levar na boca duas moedas para
pagar a passagem de ida e volta ao barqueiro Caronte. Em cada mão levaria um
bolo de cevada para dar ao cão Cérbero que guardava a entrada e saída do
Hades. Ela sofreria quatro tentações ao longo do caminho: primeiro passaria
por um homem coxo, puxando um asno também coxo que carregava lenha. Deveria
recusar-se a ajudá-los. Depois, já no barco de Caronte, um velho surgiria da
água e lhe pediria "carona" no barco. Psiqué não poderia ajudá-lo. A
terceira tentação seria quando passasse por tecedeiras que também lhe
pediriam ajuda, e mais uma vez deveria se negar em ajudar.
Por fim, a quarta tentação seria quando encontrasse Perséfone, não deveria
aceitar o seu convite para jantar, o mais importante de tudo: logo que
conseguisse a caixa, teria que retornar rapidamente sem abri-la. Psiqué
seguiu as instruções da torre em quase tudo, mas não resistindo à
curiosidade sobre a caixa da beleza, acabou por abri-la e caiu num sono
mortal.
Eros então, penalizado, vem agora em socorro de sua esposa. Guarda de novo o
conteúdo na caixa e desperta Psiqué novamente para a vida. Zeus eleva Psiqué
à imortalidade do Olimpo. Do casamento nasce uma menina chamada Volúpia.
EROS E PSIQUÉ –
SOBRE A INDIVIDUAÇÃO DA MULHER
Para entender melhor a leitura deste artigo, você precisa primeiro conhecer
o conto "Eros e Psiqué", pois aqui se propõe um rastreamento simbólico da
formação individual da mulher, a partir deste conto, que usa atributos de
deuses mitológicos, para criar uma história arquetípica. Recompondo-a,
compreendemos o eu feminino individual e socialmente.
Há um conflito no processo de individuação do feminino. Este conflito parte
das expectativas da sociedade sobre a mulher, dos papéis que lhe são
reservados, e de seus anseios individuais.
Ao lermos o mito de Eros e Psiqué, podemos interpretar instâncias
relacionadas ao universo social feminino, tais como o casamento e os papéis
de filha e de mãe.
O casamento é um rito que marca a transição entre papéis tipicamente
femininos: os de filha, de esposa e de mãe. Toda mulher, ao vivenciar o amor
com um homem, rompe o cordão umbilical que a liga à sua mãe. Esse rompimento
compara-se à morte simbólica da filha e à passagem para as condições de
esposa e de mãe, para as quais a menina deve tornar-se mulher.
A evolução narrativa do mito de Psiqué corresponde ao processo de
individuação da mulher, que parte da condição de filha para a disputa com
Afrodite (mãe de Eros), motivada pela vaidade ou busca de um ideal de
beleza, como condição para encontrar seu próprio caminho. Para perceber
isto, basta ao leitor fazer correlações entre a simbologia do conto e os
processos psíquicos de formação do eu.
Psiqué: personagem feminina cuja beleza provoca os ciúmes de
Afrodite. Representa a mulher que, motivada pela competição feminina em
benefício da vaidade, parte em busca de seu próprio eu.
Vozes: servem Psiqué no Palácio de Eros, depois deste haver se
apaixonado por ela, ao tentar atingi-la com uma flecha, para cumprir as
determinações de Afrodite e fazer Psiqué apaixonar-se por um monstro. Como o
feitiço volta-se contra o feiticeiro, Eros apaixona-se por Psiqué e
arrebata-a ao seu Palácio, onde vozes a atendem em todos os seus desejos.
Essas vozes representam à fase ideal do enamoramento por que passam as
relações amorosas.
A chegada de Psiqué ao Palácio de Eros: representa a descida ao
inconsciente. A auto-análise requer uma fase em que há vozes a serviço do
eu, em que a felicidade parece haver sido encontrada definitivamente. Isto
corresponderia à fase imediata ao já referido rompimento do cordão
umbilical, em que a menina torna-se mulher pela experiência de enamoramento,
pela sensação de casamento, sem estar necessária e legitimamente casada, mas
apta a assumir os papéis de esposa e mãe.
As duas irmãs invejosas: exercem os papéis de filha e mãe dentro de seus
casamentos, em relação a seus maridos, pois um é velho e feio (filha), e o
outro é doente (mãe). Somente Psiqué parece não haver estagnado no papel de
filha ou pulado para o de mãe, mas vive uma fase ideal importantíssima no
processo de individuação da mulher, em que o ideal de felicidade se lhe
afigura na presença amorosa de um homem provedor/protetor, para o qual a
mulher parece predestinada.
O punhal e a lamparina: Psiqué, induzida pelas irmãs, aproxima-se de
Eros com um punhal e uma lamparina, enquanto ele dorme, a fim de desvendar
seu mistério e assassiná-lo. Porém, descobre nele um homem lindo e, ferida
por uma flecha de sua aljava, apaixona-se por ele também. Mas deixa cair
óleo quente da lamparina sobre seu ombro e o desperta. Ele foge, deixando-a
sozinha. O punhal é o elemento que corta e separa, representa o corte
racional necessário para a individuação da mulher, o distanciamento
emocional necessário à compreensão de sua própria condição feminina,
independente da figura masculina ou de qualquer outra. A lamparina é a luz
da consciência, não dissociada do punhal.
A saída do Palácio: representa a busca independente da mulher por seu
próprio eu, através do amor personificado em Eros.
A partir deste momento, na narrativa, a mulher enfrentará obstáculos, mas
contará com o auxílio de outras entidades em benefício da auto-superação.
Essas entidades são representações de virtudes essenciais no processo de
individuação, tais como, o deus Pan (representa o instinto), Hera, Deméter e
Afrodite (representam à rivalidade, a indiferença e a própria violência
intrínseca ao processo de individuação, pois essas entidades negam ajuda a
Psiqué, aumentando-lhe a dor e o sofrimento necessários à maturação
individual).
Afrodite lhe impõe quatro tarefas impossíveis que representam situações de
auto-superação:
1. Separar uma montanha de sementes por espécie, durante o período de uma
noite: tarefa onde Psiqué conta com a ajuda das formigas. A montanha de
sementes por espécie simboliza os complexos inconscientes que,
individualmente, constituem elaboração e crescimento virtuais. As formigas
representam à paciência, a diligência e a sabedoria instintiva para
distinguir os complexos amontoados.
2. Trazer flocos da lã de ouro de carneiros ferozes: representam à
impulsividade agressiva, irreflexiva e negativa. Esta tarefa leva Psiqué a
pensar em suicídio pela segunda vez, mas ela conta com a ajuda de um caniço,
que representa a salvação e a sabedoria, a necessidade de esperar para agir,
de meditar primeiro para não agir precipitadamente.
3. Apanhar água da fonte dos rios Cócito e Estige, com um vaso de cristal
dado por Afrodite: esses rios referidos são infernais e guardados por
dois dragões, mas Psiqué conta com a ajuda do próprio Zeus que se transforma
numa águia e cumpre a tarefa por ela. A água representa a vida no seu fluir
até a morte que, por não poder ser retida ou controlada pela humanidade,
deve ser manipulada apenas pela divindade, donde a intervenção de Zeus na
narrativa.
4. Buscar a caixa da beleza imortal para entregá-la a Afrodite: essa
caixa estava com a rainha Perséfone, no reino dos mortos (Hades). Mas desta
vez Psiqué conta com a ajuda da própria torre na qual sobe para suicidar-se
diante da dificuldade da tarefa. A torre simboliza uma construção humana
como sua própria consciência, a introversão e o isolamento necessários à
amplitude da mesma consciência.
Essas quatro tarefas têm em comum o grau de dificuldade desanimador que
culmina com o desespero da personagem, sendo, no entanto, compensado pelo
auxílio das formigas, do caniço, de Zeus e da torre que representam
instâncias reguladoras do processo de maturação feminina.
As tentações de Psiqué:
A torre a aconselha a munir-se de duas moedas para pagar a passagem de ida e
volta do Hades a Caronte, e de bolos de cevada e mel para dar a Cérbero, mas
a alerta para tentações que têm em comum a motivação do lado bom de Psiqué.
O processo de maturação do eu feminino requer, às vezes, uma renúncia à
bondade, uma indiferença às necessidades alheias e periféricas diante da
necessidade individual da mulher, por isso a torre pede a Psiqué que tenha
forças para resistir à tentação de ser piedosa. Essas tentações estão
representadas no conto por:
1. Um homem e um asno coxos: Este homem chama-se Ocnus e deixa cair a
corda com que puxava o asno. Ele seria a representação da hesitação à medida
que, naquelas circunstâncias, não se poderia sair do lugar (a busca da
perfeição feminina não pode desobstinar-se diante da imperfeição humana ou
animal).
2. Um velho que lhe pediria carona no barco de Caronte: esse velho
representa neuroses, que às vezes dominam a consciência. Há pessoas que
surgem no caminho da individuação feminina e cuja aparência madura pode
indicar benefícios a este processo pessoal, mas deve haver resistência por
parte da mulher, pois se tal processo é individual, a ajuda mútua recorrente
pode não ser útil. Digo recorrente porque, em outros momentos do conto,
Psiqué já fora ajudada por entidades mais experientes, estando inclusive
gozando desta ajuda para discernir a tentação do velho. Quando você ajuda
alguém, você tende a identificar-se com este alguém e Psiqué não poderia
identificar-se com a maturidade do velho, como não o pôde com as limitações
físicas do homem e do asno, e como não o poderá com o enredamento dispersivo
das tecedeiras.
3. Um grupo de tecedeiras: essas tecedeiras seriam em número de três
e estariam associadas às três moiras (Cloto, Láquesis e Átropo), as
divindades do destino na Grécia. A lição aqui seria não dar atenção ao
destino, não tentar entendê-lo e nem manipulá-lo, mas deixar que as coisas
aconteçam. As tecedeiras poderiam representar, entre os fios de tecidos de
seu trabalho, caminhos que poderiam dispersar Psiqué de sua tarefa principal
àquele momento.
4. O convite de Perséfone para jantar: nada, por mais prazenteiro que
seja, deve atrapalhar o alcance de sua meta. Estabelecer relações com as
pessoas no seu caminho pode desviá-la de sua meta.
Finalmente, todas essas categorias de tentação são vencidas, cada uma com
seu próprio ensinamento. Apesar de serem uma luta contra a própria natureza.
Há, porém, uma tentação relativa à curiosidade feminina, que leva Psiqué a
abrir a caixa da beleza e cair em sono mortal.
Isto lhe vulnerabiliza e a condiciona à intervenção masculina e divina
personificadas respectivamente em Eros, que a ajuda e a desperta para a
vida, e Zeus, que a imortaliza no Olimpo, dando origem à outra entidade
feminina que recebe o nome de Volúpia.
Psiqué, ao desincumbir-se das tarefas e manter sua beleza, desperta medo em
Eros por parecer com Afrodite. Mas, ao vulnerabilizar-se, reacende os
cuidados de Eros.
Ser mulher é isto: um entre-lugar onde força, vaidade, autoridade e
fragilidade se misturam para provocar o imaginário masculino.
Indicação de leitura:
BOECHAT, Paula Pantoja. Eros e Psiqué – sob o ponto de vista da individuação
da mulher (p.97-112) In: BOECHAT, Walter (Org.). Mitos e arquétipos do homem
contemporâneo. Petrópolis, Vozes, 1995, 198 págs.
Um estudo da mitologia à luz da psicologia junguiana. Os símbolos
mitológicos ou literários tratados neste livro representam arquétipos de
nossa formação individual. O símbolo pode iluminar o desenvolvimento
psicológico do indivíduo e os problemas sociais da cultura atual.
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Artigo: Eros e Psiqué – sob o ponto de vista da individuação da
mulher (p.97-112) |
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Autora: Paula Pantoja Boechat |
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Livro: Mitos e arquétipos do homem contemporâneo |
|
Organizador:
Walter Boechat |
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198 páginas |
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Ano: 1995 |
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Editora: Vozes |
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