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Sonhos
que se tornam crimes brutais
Por: Mary Ellen Farias dos
Santos
Em julho de 2007
Uma criança em busca do pai e um ladrão estuprador sem pudores. Confira
Na Hora do Sol, de Adelaide Carraro!
Sensualidade à flor da pele, uma linguagem direta, sem palavras requintadas
e a história do detento Ubirajara. Este é Na Hora do Sol, de Adelaide
Carraro, publicação de 1977, da Coleção Gama, com selo da Global Editora.
Um livro não muito indicado para leitores mais experientes (e porque não,
exigentes!). Digo isto pelo fato de o mercado literário atual oferecer livros
de grande qualidade como por exemplo, Rota 66: A História da Polícia que
Mata e Abusado: O Dono do Morro Dona Marta, ambos do jornalista
Caco Barcellos, publicados pela Editora Record. Em contraponto, Na Hora
do Sol, pode ser encontrado em sebos a preços bem mais acessíveis, porém
ao considerarmos o período da produção e sua publicação, percebe-se que
publicações neste segmento foram grandes impulsionadores para conquistar
novos leitores. Afinal de contas uma capa apelativa, fatalmente colaborava
nas vendas destes.
Ok! Vamos ao conteúdo do livro. Já no início temos: Trecho da Carta
Enviada por um Detento a Adelaide Carraro. "Eis que isto é Brasil.
Brasil de tanto orgulho bem merecido. Mas, nele existem tantos homens
manchando esforços por heróis que jamais fariam isto, pois, os nomes deles
só figuram como exemplo. Só de exemplo, porque os mais favorecidos pela lei
fazem questão de transgredir e saciar o desejo de destruir seres humanos
como nós presos" e finaliza "Ao lembrar que ainda existem pessoas como você,
tenho esperança de um dia ver estourar nos corredores dos presídios
multidão de homens famintos, gritando seu nome. Dia haverá em que
ex-detentos erguerão sua estátua, não em praça pública e sim no coração.
Haverá um dia em que mães, irmãs, mulheres e amantes de presos gritarão bem
forte seu nome como sendo a madrinha dos menos visados...". -
Detentos/Brasil, 1976.
Na Hora do Sol conta a história de Ubirajara, apelidado ao longo do
livro de Bira. Ele que começou a vida criminosa aos cinco anos e tornou-se
ladrão e estuprador, antes tinha pai e vivia em uma casa rodeada de flores.
"Tinha rua de verdade com calçamento e eu tinha meus amigos e meu
cachorrinho e também podia assistir a televisão na casa de meus amigos". A
realidade de Bira muda drasticamente quando seu pai "some" e a mãe dele lê a
reportagem: "DOPS Passa a Investigar Espancamento de Operários".
Sem pai, a vida criminosa o acolheu de maneira convidativa, porém ao chegar
na prisão muda de personalidade. Toda reviravolta acontece na vida de Bira
após matar uma antiga amiga de sua família e mãe de Adriana, garota a quem
amava e planejava um belo futuro. Arrependido ele "entrega-se" nas mãos de
Deus. "Algum dia nós todos vamos aprender que, do dedão do pé ao couro
cabeludo, somos o próprio caminho para conhecermos o mundo que Jesus disse
antes de ser pregado na cruz: O Reino de Meu Pai".
Com tanto amor no coração e desejo de ter a alma limpa dos crimes cometidos,
ele chega a ouvir dos outros presidiários comentários dos mais variados,
como por exemplo o de Zé: "Chiii, Bira acho que você vai sair daqui padre.
Sabe que você fala mais bonito que o Capelão, o Pastor e o Macumbeiro?".
Ao leitor curioso: "Por que Na Hora do Sol?". Calma! Acredito que ler é
importante, embora a obra não seja muito instigante... blá blá blá blá blá
blá. Até que o título é bastante interessante (e por que não inteligente?).
Entretanto, o leitor só poderá descobrir o motivo de tal título quando
estiver lá pelas últimas páginas do livro.
Apesar de a história não ser bem escrita é possível identificar pontos
positivos como por exemplo, o desejo do eu-narrador de colocar fim à
criminalidade e tudo, tudo o que a envolve. Eis que entramos na teoria do
caos, uma coisa leva à outra e como se diz por aí: "Quem rouba um alfinete,
rouba muito mais". Contudo, deseja-se muito que esta frase mude. A vontade
de ordem no Brasil também fica expressa na página 154, em que há uma
exaltação ao ex-presidente do Brasil Jânio Quadros "que visitava tudo de
sopetão, prisões, repartições públicas, escolas, e até o próprio palácio.
Moralizou tudo. É o passado... O preso tinha voz".
Enfim, Na Hora do Sol, de Adelaide Carraro, retrata de maneira
modesta, porém bastante engajada, o descaso com as classes desfavorecidas.
Mostra o brasileiro que cresce com sonhos que tornam-se pesadelos na favela,
numa casa de quarto e cozinha, feita de madeiras velhas e papelões. A
criminalidade, para quase todos é a grande aliada para uma vida "feliz". Eis
que isto (ainda) é Brasil.
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Livro: Na Hora do Sol |
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Autora: Adelaide Carraro |
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204 páginas |
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Ano: 1977 |
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Coleção: Gama |
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Editora: Global |
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