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A
morte em suas várias formas
Por: Cadorno Teles
Em agosto de 2007
Obra séria e bem amarrada ao estilo Greene.
Considerado um "romancista católico" pela crítica, uma alcunha que não
gostava, preferia se chamado de escritor que tem como religião o
catolicismo, o escritor inglês Henry Graham Greene (1904-1991) deixou
diversos livros de ficção que marcaram a literatura mundial. Greene agrupava
sua obra em duas categorias: romances e entretenimentos. Sua marca pessoal
era tratar de questões morais e políticas do seu tempo por meio de histórias
de suspense, mistério e drama, desenvolvidas em cima de uma meditação
subliminar sobre os pecados. Bem que mereceu o Nobel de Literatura,
premiação a qual foi indicado algumas vezes, mas que nunca levou.
Um autor que caprichou na ação e enveredou em conjunto as angústias do ser
humano. Escritor tão popular, que era difícil de imaginar que há algum tempo
não se via obras suas nas prateleiras dos lançamentos. Contudo, após o
sucesso da adaptação para o cinema Fim de Caso, com Julianne Moore e
Ralph Fiennes, seus títulos ganharam reedições.
Entre os quais, o livro O Cerne da Questão (The heart of the matter,
tradução de Otacílio Nunes, 400 páginas, R$ 34,00) que a editora Globo
publicou recentemente. Uma de suas obras mais marcantes, por mostrar os
conflitos humanos em seus personagens – outro aspecto de sua obra – e que
travam uma guerra impessoal em torno de questões como o livre arbítrio ou a
graça. Algo que remete ao catolicismo, religião que Greene abraçou em 1926.
Sentidos ocultos em lugares distantes seria uma crítica resumida de suas
características narrativas.
Com o brilhante prefácio do critico e professor Carlos Vogt, O Cerne da
Questão é uma obra séria, bem amarrada ao estilo claro que Greene
construiu. Publicado originalmente em 1948, ganha agora uma nova tradução,
bem reformulada deste o seu título, anteriormente O Coração da Matéria
ao final da narrativa.
Ambientada num país africano da África Ocidental, que sabemos ser Serra
Leoa, por meio das memórias escritas pelo autor, O Cerne da Questão,
narra os problemas enfrentados por Henry Scobie, major da policia colonial
inglesa, durante o período da II Guerra Mundial.
Vivendo naquele local com sua esposa, Louise, uma mulher solitária que adora
poesia, que se sente estranha e isolada naquela sociedade. O major inglês
sente-se responsável por sua felicidade, e tenta ajudá-la, mas traumatizado
com a morte da filha em um naufrágio e descontente com tudo ao seu redor,
sente-se incapaz de amar alguém, somente a Deus.
Católico, Scobie prefere enviar sua esposa para a África do Sul, para não a
ver sofrer. Principalmente após perder a chance de ser nomeado Comissário,
afligindo mais ainda Louise, por suas esperanças pessoais. Nesse ínterim, um
novo naufrágio faz reaparecer a dor da perda em Scobie ao testemunhar a
morte de uma menina, entre os sobreviventes estão um garoto para quem lê
histórias no hospital e Helen Rolt, que fica viúva no acidente e se torna
amante do major.
A chegada do novo inspetor, Wilson, que se apaixona por Louise e a chantagem
de Yusef, contrabandista sério que descobre o seu adultério são elementos
perturbadores do enredo deste romance. Scobie se encerra em seu desejo de
perfeição à sua esposa, a sua amante, ao mundo, e nesse anseio em ser
virtuoso a todo custo se rivaliza com Deus, em seu interior e a punição são
a culpa e o castigo.
Um romance realista e na carreira de Greene, o romance é um livro capital. A
temática do suicídio no final, colocado em dúvida aos personagens, e que
para o leitor seja uma asserção de que o suicídio do protagonista é uma
confissão do fracasso diante dos desígnios divinos ou um derradeiro ato de
soberba de quem quer governar a própria morte.
Scobie é um personagem que lembra outras figuras que Greene construiu, como
o jovem delator de contrabandistas em O Outro Eu (The man within,
1929), ou o desesperado Pinkie de O Condenado (Brighton Rock, ) ou
ainda o sacerdote indigno de O Poder e a Glória (The Power and the
Glory). Todas perseguidas por seus infortúnios, com a diferença que o
perseguidor e a vítima são uma só pessoa; a caça aqui é simbَólica, ou
serve, como uma intriga opaca que Greene desenvolve em seu convencionalismo.
Um livro que culpa e expiação são os fios condutores de suas personagens.
Vale a pena ler.
Graham Greene: foi um escritor inglês, com uma obra composta de
novelas, contos, peças teatrais e críticas literárias e de cinema. Formou-se
na Oxford University e começou sua carreira como jornalista,
trabalhando como repórter e subeditor do Times. Publicou cerca de 60
romances. E fluiu com eles, com belas descrições visuais para as telas
rapidamente, e muitas de suas obras marcaram a história do cinema, O
Terceiro Homem, O Americano Tranqüilo, O expresso do Oriente
, tornando um dos autores mais adaptados de todos os tempos.
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Livro: O cerne da questão |
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Título Original: The heart of the matter |
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Autor: Graham Greene |
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400
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Ano: 2007 |
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Tradução: Otacílio Nunes |
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Editora: Globo |
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