Viagens ao passado e personagens conhecidas dão agilidade ao texto de O
Dia do Curinga, deixando toda a história de Jostein Gaarder ainda mais
intrigante e irresistível.
Um livro com capítulos nomeados de Espadas, Paus, Curinga,
Ouros e Copas, sendo que cada um dos citados contém
subcapítulos de títulos bastante curiosos como por exemplo o
primeiro e o último: "Ás de espadas ... um soldado alemão passou
pedalando pela estrada..." e "Rei de copas ...as lembranças se afastando
mais e mais daquilo que um dia as criou...". É desta forma que o leitor irá
perceber em suas mãos o livro O Dia do Curinga, de Jostein Gaarder.
É certo que aqueles que já leram algo de Jostein Gaarder não terão algum
estranhamento quanto a esta forma criativa do autor de "anunciar" o que há melhor nos
próprios livros. Já em O Mundo de Sofia, também publicado pela
Companhia das Letras, o autor mostra este seu dom ao trazer para o público
uma garota às vésperas de seu aniversário de quinze anos. Sofia Amundsen
começa a receber bilhetes e cartões postais bastante estranhos. Os bilhetes
são anônimos e perguntam a Sofia quem é ela e de onde vem o mundo em que
vivemos. Os postais foram mandados do Líbano, por um major desconhecido,
para uma tal de Hilde Knag, jovem que Sofia igualmente desconhecia. Em meio
a tanto mistério e "lições" o leitor trilha a história da filosofia
ocidental.
Ok. O livro em questão é O Dia do Curinga que tem como protagonista o
jovem Hans-Thomas. Entretanto, nesta história, ele também mergulha no túnel
do tempo e viaja no passado e não deixa sua vida naufragar. Tudo começa
quando o garoto
e seu pai, seguem à procura da mulher que os deixou oito anos antes, e
assim, cruzam a Europa, da Noruega à Grécia.
"Há seis anos, em frente às ruínas do antigo temo de Posêidon, no cabo Súnio,
eu olhava para o mar Egeu. Há cento e cinqüenta anos o padeiro Hans chegava
á misteriosa ilha no Atlântico. E há duzentos anos o navio da Frode
naufragava na viagem entre o México e a Espanha.
Tenho de voltar tantos anos no tempo para entender por que mamãe nos deixou
e fugiu para Atenas...
Gostaria muito de pensar em outra coisa. Mas sei que preciso tentar escrever
tudo enquanto restar em mim um pouco da criança que fui.
Sentado à janela da sala de Hisoy, observo as folhas caindo das árvores.
Elas planam no ar e pousam na rua formando um acolchoado macio. Uma
garotinha brinca lá fora, amassando com os pés as folhas e as castanhas que
caem das árvoes por entre as cercas dos jardins.
Nada parece ter sentido.
Quando penso nas cartas da paciência de Frode, tenho a impressão de que o
equilíbrio da natureza desapareceu por completo".
Reflexões sobre a própria história, como por exemplo, ao analisar a história
de vida dos avós de Hans-Thomas que seu pai contava quando pararam em um
posto de estrada, perto de Hamburgo. Chegar a entender quem ele é, passa a
ser interessante, pois caso seus avós não tivessem encontrado-se por causa
de um pneu furado e anos depois, seus pais não tivessem permitido que
Hans-Thomas nascesse ele não seria ele, e sim, uma outra pessoa.
É no meio desta viagem em família (e na história desta família), que surge um livro
misterioso que desencadeia uma narrativa paralela, em que mitos gregos,
maldições de família, náufragos e cartas de baralho que ganham vida
transformam a viagem de Hans-Thomas numa autêntica iniciação à busca do
conhecimento - ou à filosofia. Também pudera o pai do garoto adorava
filosofar e se interessava por robôs, pois para ele um dia a ciência
conseguiria produzir seres artificiais e pensantes.
"Achei um tanto estranho que a padaria estivesse aberta à tarde. Antes de
tomar qualquer decisão, olhei para a estalagem Zum Schönem Waldemar, só para
ver se por acaso meu já não tinha saído, satisfeito com a degustação da
aguardentes dos Alpes. Como não o vi, abri a porta da padaria e entrei.
[...]
O velho padeiro entrou num outro cômodo que havia nos fundos da padaria.
Pouco depois, voltou com quatro pãezinhos, que colocou num saco de papel.
Entregou-me o embrulho e disse, num tom sério e solene:
- Você precisa prometer uma coisa. Uma coisa muito importante, meu filho.
Prometa-se que deixar o pãozinho maior por último e que só vai comê-lo
quando estiver sozinho. E não conte nada a ninguém, entendeu?".
O que dizer desta passagem do livro? Pura magia literária. Já no primeiro subcapítulo quando
pai e filho estão em Legoland, local em que há
enormes bonecos feitos de peças de Lego o pai comenta: "- Imagine se de repente
tudo isso ganhasse vida, Hans-thomas - disse ele. - Imagine se, de uma hora
para outra, todos esses bonecos saíssem andando no meio dessas casinhas de
plástico. O que nós faríamos?", e ainda conclui seu pensamento dizendo: "No
fundo somos todos figuras de Lego, só que vivas".
O Dia do Curinga é a história de muitas
viagens fantásticas que se entrelaçam numa viagem única e ainda mais
fantástica - e que só pode ser feita por um grande aventureiro: o leitor.
Seja um curinga, diferente, "pois ele veio ao mundo com defeito de ver
coisas demais e de ver todas elas em profundidade".
Agora não lhe restam dúvidas se deve ou não ler O Dia do Curinga, não
é? Espero que
não, pois este é um dos pouquíssimos livros que garantem com tranqüilidade
100% no quesito qualidade de texto aliada à uma excelente criatividade. Faça
como Hans-Thomas, entre na sua casa, pegue o seu volume e comece a ler, pois
é certa a "sensação de estar entrando num outro mundo". Alguma
dúvida? A única que ainda resta é em saber porque nenhum dos fantásticos
livros de Jostein Gaarder foram transpostos para a telona, nem mesmo O
Mundo de Sofia!
O Autor: Jostein Gaarder nasceu em 1952, na Noruega. Estudou
filosofia, teologia e literatura, e foi professor no ensino médio durante
dez anos. Estreou como escritor em 1986, tornando-se logo um dos autores de
maior destaque em seu país, e a partir de 1991 ganhou projeção internacional
com O Mundo de Sofia, já traduzido para 42 línguas. Pela
Companhia das Letras publicou ainda Através do Espelho,
A Biblioteca Mágica de Bibbi Bokken, O Castelo do Príncipe
Sapo, Ei! Tem Alguém aí?, A Garota das Laranjas,
Maya, Mistério de Natal, O Pássaro Raro,
O Vendedor de Histórias e Vita Brevis. Mora em
Oslo, com a mulher e dois filhos.