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O
livro mais triste do mundo e a identificação alheia
Por: Helder Miranda
Em novembro de 2007
Quer saber mais? Fernanda Young está de volta às prateleiras com o livro
mais ousado de sua carreira.
Pessoas lidam com a dor de diferentes formas. Algumas, se vestem com a
melhor roupa para se atirarem na frente do primeiro carro. Outras, abafam
gritos no travesseiro. Umas, menos intensas, simplesmente choram. Essas
lavam almofadas com lágrimas ou se trancam em qualquer banheiro público,
dispostas a esconder o choro do olhar alheio e, ao sair dali, fingirem que
está tudo bem. Nunca está, e a nova protagonista de Fernanda Young, no
romance Tudo Que Você Não Soube – lançado pela Ediouro no final de
setembro – exterioriza isso de forma inusitada: tenta matar a mãe a
marteladas.
Pela primeira vez um livro traz uma narrativa de Fernanda Young em primeira
pessoa. O romance gira em torno das desventuras, em ordem não-cronológica,
de uma personagem homônima que resolve contar tudo ao pai em um livro
escrito para ele, porque não se falam há anos. Uma mulher que sempre reage:
tentando martelar a mãe bruaca, se envolvendo com uma mulher na cadeia, se
casando com um homem que na verdade representava uma tábua de salvação,
tendo filhos com ele e, por fim, escrevendo um livro que remexe em feridas
abertas. Tudo em busca da felicidade, ou de objetivos que possam transformar
a vida em algo menos amargo.
Explicitamente, a personagem é uma carente. Como todos nós, que vivemos e
morremos em busca da aprovação de olhares alheios. O que choca não é a
tentativa de assassinato de uma mãe por meio de um martelo, é a maneira
evidente de como cada um reage a dor. É um livro truncado, duro, que mostra
uma escritora amadurecida, mas nem por isso menos intensa. Não chega a ser o
melhor livro de Fernanda Young, mas está acima da média porque é escrito com
uma verdade dificilmente identificada nos lançamentos que surgem nas
prateleiras das livrarias. Se O efeito Urano é o livro mais provocativo de
Fernanda Young, Tudo Que Você Não Soube é o mais ousado até agora.
Este lançamento também tem o mérito de comprovar uma característica que vem
se firmando com a evolução a cada romance: Fernanda escreve como homem,
característica que não tem qualquer conotação machista. Explico, ela não é
mulher de escrever literatura feminina. Não afirmo, com isso, que homens têm
textos melhores que as mulheres, ou que escritoras que produzem a rotulada
“literatura feminina” são inferiores. O que quero dizer é que tem fôlego
para escrever, de uma tacada só, coisas que fogem da ternura, sem que perca
o lirismo.
Integra e honesta, seja em suas respostas durante as entrevistas, seja em
seus livros sempre aguardados por um público cativo, ela se reinventa a cada
livro. Relações entre pais e filhos nunca foram as melhores, desde que o
mundo é mundo, e exteriorizar a raiva é sempre uma maneira de dizer que se
está vivo e não ceder a hipocrisia que nos rodeia. Tudo Que Você Não
Soube é um livro que mostra que não estamos sós com nossa raiva, embora
cada frustração seja única e compartilhá-las com alguém seja impossível. Não
estamos sozinhos na dor, mas estamos. Entende?
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