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Um
mestre brasileiro na poesia japonesa
Por: Mary Ellen Farias dos
Santos
Em dezembro de 2007
A forma explicativa e prática dos haicais em livros. Confira Burajiru:
haicais, de Nelson Savioli.
"O que é um haicai?". Ok. Ele não é um terrível bicho de sete cabeças, porém
nem todos, pelo menos os não tão achegados à leitura de poesias, sabem o que
é e como é possível identificar tal forma de escrita. Caso ainda não tenha
em mãos Burajiru: haicais, de Nelson Savioli, leia a seguinte
pesquisa no antigo, mas não ultrapassado Dicionário Enciclopédico
Ilustrado TUDO (1977), da editora Abril.
Haicai - aportuguesamento de haiku, forma japonesa
tradicional de verso, composta de três linhas de cinco, sete e cinco
sílabas, sucessivamente. Desenvolvida por Matsuo Basho e outros, por
volta do século XVII, a partir de uma forma mais antiga com trinta e uma
sílabas, tem por característica o emprego de imagens, muitas vezes tiradas
da natureza, para sugerir ou evocar um sentimento ou estado de espírito.
Valoriza-se pela densidade e intensidade. Foi transplantada para a poesia de
outras línguas, inclusive a portuguesa.
Calma! Você não terá de mergulhar em vários e vários livros para compreender
a obra de Savioli, pois Burajiru: haicais é uma verdadeira fonte de
sabedoria da poesia japonesa. No livro, em Notas, há o
significado, a história e haicais de grande mestres desta forma de escrita.
Outro ponto interessante está nos haicais do autor, separados de acordo com
as quarto estações do ano: primavera, verão, outono e inverno. Confira
alguns:
Primavera
"Uma estrada torta.
O jatobá centenário
domina a cena."
Verão
"Jabuti filhote.
Mas quem cuidará dele
no próximo século?"
Outono
"O grilo aparece
no meu livro de latim.
Dois analfabetos."
Inverno
"Geada na serra.
Na borda do copo brilham
nossas digitais"
Esta fonte do haicai impressa neste ano de 2007 é um pequeno livro em seu formato,
porém extremamente grande no conteúdo. Nele há também Apêndice I: Haicai no Mundo
Corporativo, Apêndice II: O Português no Cotidiano Japonês,
Bibliografia Básica, Bibliografia Extensiva,
Índice Remissivo e Agradecimentos, isto é, um prato
feito (muito bem feito, por sinal) para aqueles que gostam e querem soltar a
criatividade nesta
forma de poesia.
Na Introdução da obra Savioli lança a seguinte pergunta: "É possível
para um brasileiro, que não descende de japoneses, escrever haicais
minimamente aceitáveis nos moldes da tradição dos mestres dos séculos XVII e
XVIII?". Para o autor ainda paira uma antiga dúvida, pois esta expressão
poética teve duas portas de entrada no país, uma aberta pela linhagem
familiar, a outra pela naturalização. Contudo, ao ter Burajiru: haicais
nas mãos (um livro de cabeceira, certamente) percebe-se que esta dúvida não
existe, há apenas
uma resposta certeira: - Sim é possível um brasileiro escrever bons e intensos
haicais, pelo menos Nelson Savioli é certamente uma exceção.
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