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::Resenha de O Senhor das Almas
 

A vida de uma escritora em ficção
Por: Cadorno Teles

Em abril de 2008



Companhia das Letras traz aos leitores brasileiros uma história de vida na França e muita ficção. Saiba mais!



“ O que os une, a todos esses que vejo aqui, o que torna semelhantes não é a necessidade de dinheiro, (...) mas a necessidade de aguentar, sempre. Aguentar mais tempo que o adversário. Esconder suas fraquezas, esconder suas feridas. Pois a força nervosa que têm é o único capital com que se sustentam. Quantas doenças, quantas angústias, fobias inexplicáveis para esses infelizes condenados ao sucesso eterno! Ah, se eu atrevesse... Eles precisam mesmo é de um confessor, é de alguém que conheça seus horrendos segredos, que os escute e os despache como um te absolvo, que permita sobretudo que se satisfaçam sem remorsos.. Dopá-los!(...)”. - página 116



Ambição, duplicidade, avidez são os temas que o romance O Senhor das Almas (Le mâitre des âmes, tradução de Rosa Freire d'Aguiar, Companhia das Letras, 232 páginas, R$) apresenta. Escrito de forma áspera e pungente por Iréne Némirovsky, a obra que disseca os mecanismos e os vícios do mundo que a escritora judia conheceu de perto, a França dos anos 1920 e 1930.

Narrado por Dario Asfar, o protagonista do romance, um jovem médico levantino, nascido na Criméia, que emigra para a França, fugindo da revolução russa. Ao fixar-se em Nice, tenta exercer seu ofício na cidade situada ao sul francês. Contudo não consegue clientela para sustentar sua mulher e seu filho recém-nascido. Aflito, aceita praticar um aborto na desconcertante aventureira norte-americana Elinor, mas, as circunstâncias não acontecem como previsto, continuando sem dinheiro. Envergonhado pela situação e por sua origem judaica, luta obsessivamente por dinheiro e reconhecimento social ante a hierárquica sociedade francesa, fútil e xenófoba.

O encontro com um próspero empresário irá lhe garantir sua ascensão tão almejada. Philippe Wardes, um homem torturado pelo álcool, pelo vício do jogo e pelas belas mulheres, empresta a Dario um bom dinheiro por um ano. Essa ajuda, dá ao imigrante a oportunidade de crescer, deslanchando sua carreira, tornando-se médico da alta sociedade parisiense. Usando a novíssima teoria psicanalítica, cura os achaques existenciais dos ricos e poderosos, e é considerado um guru, un mâitre des âmes, o senhor das almas.

Assim, entre o charlatanismo e a falta de escrúpulos, entre a generosidade e as palavras amigas, o dr. Asfar faz uma revanche perante a sociedade que o humilhou, como no trecho citado no topo da página. No prefácio, escrito por seus biógrafos Olivier Philiponnat e Patrick Lienhandt, O Senhor das Almas é uma sátira do “desprezo burguês”, um conto que recorre aos meios do conto, uma resposta aos embustes do Ocidente.
 
A caracterização da personagem que a autora compõe, mostra a surpreendente mudança de sua personalidade, de pobre que lamentava nas portas dos amigos, a um rico manipulador e ávido. Gozando da felicidade e dos privilégios dos ricos, Dario pretende “curar” as almas, mas acaba perdendo a sua.

Iréne consegue interpretar o espírito crítico dos levantinos, dos judeus do Oriente Próximo, nesse romance publicado em formato de folhetim, em 1939 no semanário parisiense anti-semita Gringoire, baseando-se em sua própria história. Némirovsky nasceu na Ucrânia, e conviveu de certa forma na alta sociedade, demonstra com maestria um pórtico das ambições humanas. Dario, oscila entre o estereótipo de judeu sem escrúpulos, o modelo do usurário judeu da peça shakespeariana O Mercador de Veneza e o animal e o ser domado pelo Ocidente, que vive confuso ante a responsabilidade e a culpabilidade. Asfar é responsável pelo seu destino e a sua degradação moral; contudo, é realmente culpado? Fica a pergunta.

Autora: Irène Némirovsky nasceu em Kiev em 1903, filha de financeiros russos judeus. Seu pai era o banqueiro mais rico da Rússia. Recebeu uma educação francófona, língua que aprendeu antes do russo, por causa da revolução russa de 1917, Irène instala-se com a família em França, é aí que conhece o seu futuro marido Michel Epstein, russo judeu. A jovem mulher começa a escrever e a sua primeira obra, David Golder (1929), é imediatamente um sucesso. Irène Némirovsky torna-se pouco a pouco num fenômeno literário fazendo parte do círculo de autores como Cocteau ou Kessel. Todas as suas obras são elogiadas pela crítica. Mas será esquecida e abandonada quando a guerra começa. Irène e Michel Epstein decidem ficar em França, convencidos que os franceses protegerão os judeus, mas pouco a pouco vêm-se obrigados a adoptar os mesmos rituais que todos os outros judeus. Conseguirão no entanto esconder as duas filha que têm. Em 1942, Irène é deportada para Auschwitz onde morre de tifo poucas semanas depois, o seu marido morrerá também em Auschwitz nas câmaras de gás.

O Senhor das Almas: O jovem médico Dario Asfar, judeu da Criméia, luta desesperadamente para conseguir uma clientela em Nice, nos anos 20. Sem dinheiro, com mulher e filho pequeno, um dia aceita praticar um aborto clandestino. É o primeiro passo do caminho acidentado que o conduzirá, em lances de extrema audácia, a práticas na fronteira do charlatanismo. Num percurso vertiginoso, Asfar revela-se hábil para explorar os meandros da teoria psicanalítica que começava a se irradiar do consultório vienense do dr. Freud. Troca, assim, a cura do corpo pela cura do espírito, e se torna o senhor das almas. Mas ao tentar curar as almas alheias, acaba perdendo a sua.


Livro: O Senhor das Almas

Título Original: Le mâitre des âmes

Autora: Irène Némirovsky

232 páginas

Tradução: Rosa Freire d'Aguiar

Editora: Companhia das Letras

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