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::Resenha de Eu, Um Outro
 

Crônicas soltas temperadas com ironia
Por: Cadorno Teles

Em maio de 2008


Um diário de notas em forma de livro escrito pelo húngaro  Imre Kertész. Saiba mais!



Desejar conhecer uma nova cultura, com seus aspectos e sentimentos que aprofundem a imaginação é algo que muitas pessoas almejam. Contudo, muitos pairam na angústia de nunca sair de seu quintal e "sonham" viajar para um outro continente. A resposta para a maioria fica na literatura, onde a prosa conduz a muitos mais desejos e geografias. Inclusive para quem procura um livro (um eixo) que saia do eixo anglo-americano, o melhor achado é o caminho em direção a outras pontes.

Exemplo de uma prosa que absorve esse desejo, é a obra do húngaro Imre Kértész (Budapeste, 1929), que servirá como ponte a um mundo novo e inexplorado, com sentidos e sentimentos bem diferentes do que conhecemos, a literatura para os lados de Budapeste. No caso de Kértész, em seus romances que podemos chamar de semiautobiográficos, analisa a experiência individual durante os tempos bárbaros, como foi o Holocausto.

O autor traça em seus livros uma ponta de existencialismo, contudo são difíceis de se classificar dentro de uma tendência estilística. Tratando a história e o cotidiano, com personagens únicos que retratam a força do judeu perante as diversas adversidades que enfrentaram. Um boa escolha para conhecer sua prosa, é o livro, recém-lançado, Eu, Um outro (Valaki vas: a változás krónikaja, tradução de Sandra Nagy, Planeta do Brasil, 286 páginas). Escrito em 1997, a nova obra soma a livros como Sem Destino ou Fiasco, à força do seu lápis, onde transmite o uso da violência e do trauma extremos.

Eu, um outro é um livro onde a história se confunde com a autobiografia, (aspecto típico do autor), em que o húngaro leva o leitor a acompanhar seus passos por caminhos de ruínas. Escrito em forma de crônicas soltas, estas são simultaneamente irônicas e jocosas, em torno das diversas situações sociais vividas pelo autor e que podem ser comparadas com algumas situações atuais.

"Vocês já notaram que neste século tudo ficou mais verdadeiro, mais autêntico? O soldado tornou-se assassino profissional, a política virou criminalidade, o capital virou uma grande indústria equipada de incineradores de cadáveres para exterminar seres humanos, a lei virou a regra do jogo sujo, a liberdade mundial virou a prisão dos povos, o anti-semitismo virou Auschwitz, o patriotismo virou genocídio. Nossa época é a época da verdade, quanto a isso, não há dúvida. No entanto, todos continuam mentindo (...)". página 95

O título lembra um famoso verso de Rimbaud, "Eu é um outro". Neste, constata-se a distância do auto-conhecimento, de quanto é amargo revelar um mundo que precisa apenas ser enxergado. Como um diário de notas, Imre escreveu, antes mesmo que o agraciassem com o Nobel, esta pequena obra, que resume sua vida e ao mesmo tempo mostra algumas de suas visitas a grandes cidades históricas, como Viena ou Amsterdam, repleta de referências.

Eu, um outro é amargura pura, os totalitarismos são passados a limpo, primeiro o nazista dos campos de concentração e logo depois, o soviético, com suas máquinas burocráticas e mortais. Uma reflexão sobre os sofrimentos e sobre a incapacidade de muitos de se integrarem e adaptarem a sua própria individualidade. A morte da esposa, que conheceu quando eram cativos de uma racionalidade mortífera, é revelada nas páginas deste livro sentimentalista e existencialista. Desta forma, os leitores são absorvidos numa atmosfera de opressão e beleza ímpar.

AUTOR: Imre Kertész nasceu a 9 de Novembro de 1929, em Budapeste. Descendente de uma família judaica, foi deportado em 1944 para Auschwitz e Buchenwald, sendo libertado em 1945 pelas tropas norte-americanas e regressando como único sobrevivente de uma família inteira dizimada pelos nazis. De volta a Budapeste trabalhou de 1948 a 1951 como jornalista na publicação Világosság, do qual foi despedido quando o jornal passou a órgão do Partido Comunista Húngaro. Após ter cumprido serviço militar durante dois anos dedicou-se à escrita e à tradução para húngaro de autores alemães como Nietzsche, Hofmannsthal, Schnitzler, Freud e Wittgenstein, entre outros, o que influenciou fortemente a sua escrita. Escreveu ainda musicais e teatro de diversão. Durante cerca de 10 anos trabalhou no livro, Sem Destino, o seu primeiro romance. Da sua prestigiosa carreira literária fazem parte inúmeros prémios entre os quais se destacam o Brandenburger Literaturpreis em 1995, o Leipziger Buchpreis zur Europäischen Verständigung em 1997, o Herder-Preis e o Welt-Literaturpreis em 2000, o Ehrenpreis der Robert-Bosch-Stifung em 2001, o Hans Sahl-Preis em 2002 e o Prémio Nobel da Literatura 2002.


Livro: Eu, Um Outro

Autor: Imre Kertész

286 páginas

Editora: Planeta do Brasil

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