Ficção e
realidade na literatura de Ghosh
Por: Cadorno Teles
Em dezembro de 2008
Obra de Amitav Ghosh narra uma intrincada aventura que acontece no presente
e no passado. Saiba mais de
Maré Voraz!
Amitav Ghosh, junto com Salman Rushdie e Arundhati Roy, é uma das vozes mais
importantes da literatura indiana atualmente. Jornalista, ensaísta,
professor de Antropologia na Universidade de Columbia, Nova Iorque, onde
mora com a mulher e dois filhos, o autor (Calcutá, 1956), em duas
décadas de carreira literária, escreveu romances surpreendentes, o último,
Maré Voraz (The hungry tide), lançado recentemente no Brasil
pela Alfaguara/Objetiva, retrata como poucos a vitalidade e a tragédia na
Índia.
Após O palácio de espelhos, no qual mostrou como o imperialismo
ocidental afetou a Índia, em seu novo romance recria uma história de amor e
aventura, numa região não muito usual como cenário, as ilhas indianas
conhecidas como Sundabans, um arquipélago que mais parece um labirinto de
pequenas ilhas na baía de Bengala, no litoral oeste, na foz do rio Ganges.
“A esfarrapada franja do sari” da Índia, assim como o arquipélago, é
definido pelo autor como um cenário traiçoeiro e sedutor brilhantemente
descrito. Numa matiz sutil, Ghosh usa o pano de fundo das ilhas para narrar
uma intrincada aventura que flui no presente e no passado, fictícia, mas com
precisão histórica.
As marés fazem do local difícil de viver mais um paraíso da flora e da
fauna. Os manguezais são dominantes e que proporcionam abrigos para muitas
espécies de animais, específicos do lugar e raros em qualquer lugar da
Terra. Um exemplo, é o Tigre real de Bengala, o famoso devorador de homens,
juntamente com várias espécies de golfinhos e crocodilos.
Nessa região exótica, onde a vida é mais que difícil, três personagens irão
se encontrar. Piyali Roy (Piya), uma bióloga marinha norte-americana,
descendente de indianos, atravessa as ilhas para encontrar uma espécie de
golfinho que habita a região e que muitos dizem ter desaparecido. A
jovem pesquisadora torna-se amiga de um empresário, Kanaï Dutt, quem servirá
de interprete. Ele que, vindo de Nova Délhi, chega na região para recuperar
um jornal de um falecido tio e de um pescador analfabeto, Fokir, que a leva
a um enclave do rio Ganges, abundante da espécie tão almejada pela
pesquisadora.
Por meio da vida de Nirmal, um ex-diretor de escola, revolucionário para a
época - Ghosh reconta a história das ilhas com uma melancolia sentimental. O
sítio de Morichjhapi em 1979, onde centenas de colonos miseráveis foram
brutalmente expulsos pelo governo indiano para preservar um santuário da
vida selvagem é apresentado com uma perspicaz análise, comprovando sua pena
precisa que atravessa a fronteira entre a ficção e a não-ficção.
A narrativa é alternada entre os capítulos que envolvem a ação que Piya e
Kanaï vivem, mas a leitura que o comerciante faz das memórias de seu tio é o
melhor da composição textual construída pelo autor indiano de Maré Voraz.
Neste são relatados acontecimentos que conduziram a morte de Nirmal. Eventos
que são naturalmente a essência da história mais recente das Sundarbans, o
falecido professor cita poemas de Rilke ao longo de suas anotações e uma
evocação a deusa Bom Bibi, que se encaixam perfeitamente na história tecida
por Ghosh.
O romance é extraordinário, com personagens poderosos. Cada protagonista tem
características distintas, compreendendo o cotidiano das ilhas com seu ponto
de vista. Fokir está enraizado nas antigas tradições, Kanaï é a figura da
atual sociedade hindu, capitalista com lembranças dolorosas de seu passado
colonial e Piya representa aqueles que fugiram daquelas paragens e
esqueceram-se de suas raízes. Ghosh com profundo conhecimento de
antropologia utiliza sua análise para compor uma obra comovente, combativa e
comprometida com a realidade.
Livro: Maré Voraz Título Original: The hungry tide Autor: Amitav Ghosh
432 páginas Ano: 2008 Tradução: Fernanda Abreu Editora:Objetiva/Alfaguara
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