Férias! faz Maryan Keyes superar a síndrome do segundo livro Por:
Helder Moraes Miranda
Em junho de 2004
Toda escrita é autobiográfica? Para Marian Keyes parece que sim. Seguindo a
bem-sucedida fórmula de O Diário de Bridget Jones (Helen Fielding,
Ed. Record), a escritora vem aglomerando admiradores ao se especializar em
escrever os problemas de mulheres comuns: personagens que não são exatamente
beldades, têm problemas de auto-estima baixa como qualquer mortal, e contas
a pagar.
Em seu segundo best-seller, Férias!, o universo das drogas é o
foco principal. Alternando senso de humor com cenas desconcertantes, a
autora se mostra mais amadurecida e ousada ao experimentar situações-limite
em sua escrita adocicada Não deixa de ser uma tarefa árdua para uma mulher,
advogada que nunca exerceu a profissão, que só obteve o sucesso quando
largou as drogas.
Lançado no País pela Bertrand Brasil, Férias! promete surpreender os fãs, já
arrebatados com o mega-sucesso editorial anterior, Melancia, que ano
passado e retrasado ficou nas listas dos mais vendidos nos principais
periódicos do mundo.
O novo romance segue a mesma fórmula do primeiro livro, mas revela uma
Marian Keyes mais ousadinha e com mais liberdade do que a
descompromissada estreante do primeiro livro, ainda não aclamada pelo
público e crítica, que sequer sonhava em ser uma celebridade, muito menos em
vender suas próximas obras a peso de ouro, por onde são publicadas. A
diferença está na responsabilidade de manter o público e o patamar de
Melancia, na nova empreitada, e conseqüentemente atrair novos leitores.
Com abordagem leve, Marian se aventura a colocar o dedo na ferida,
misturando cenas de puro deleite irônico com a descrição de imagens
contundentes, como cenas sugeridas de overdose e o dependente químico que
agride fisicamente a esposa e não admite o que faz. Ela também se permite
descrever cenas de sexo com uma precisão de detalhes bem mais corajosa do
que no primeiro livro.
O enredo poderia ser considerado banal, já que Férias! é praticamente uma
continuação de Melancia. Para ter idéia, a personagem principal, Rachel, é
irmã da protagonista do primeiro livro, Claire. Os enredos dos romances se
assemelham: enquanto Claire tem que voltar para casa por ter sido abandonada
pelo marido ainda na maternidade, logo após dar a luz à primeira filha,
Rachel retorna para a casa dos pais porque é viciada em drogas.
Ela perde o emprego, é abandonada pelo namorado, pela amiga e é obrigada
pelo pai a se internar em uma clínica para dependentes químicos na Irlanda.
Pensando que se tratar e tirar férias em um spa, com saunas,
academias e banheiras de hidromassagem, Rachel se decepciona a perceber que
o lugar não oferece nada do que esperava. Para piorar a situação, ela,
disposta a se vingar do ex-namorado – o brega Luke Costello -, se envolve
com um dos pacientes da clínica, Chris, que tem um passado duvidoso.
Uma coisa é certa: ela não é escritora de uma só obra, e passou pelo
obstáculo que pode acabar com a carreira de muitos escritores da nova
geração: superar, em termos de escrita e enredo, o antigo sucesso depois de
ter escrito algo genial.
Marian Keyes escreve sobre o cotidiano, o que poderia ser considerado
banalidade para os críticos de plantão, mas ela aproveita, deita e rola em
seu diferencial: a atitude das personagens. Mais que uma boa leitura, o
livro nos proporciona o aprendizado de que as adversidades devem ser
enfrentadas com senso de humor e respeito às diferenças de cada um.