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O lado cruel dos contos de fadas
Por: Mary Ellen Farias dos Santos


Em março de 2009




O retrato de todos os sentimentos da humanidade (os bons e os ruins, os sagrados e os pecaminosos, os encantadores e os desencantadores...) e costumes que passam de geração em geração. Saiba mais de
103 Contos de Fadas!




Os contos de fadas são retratados (na maioria das vezes) como histórias inocentes, puras e totalmente infantis. E assim, de um modo delicado, quando pequenos, conhecemos a história encantadora de A Chapeuzinho Vermelho, A Bela e a Fera, Cinderela e assim por diante. No entanto, é na fase adulta que nos deparamos com o sentido real e cruel dessas histórias. E assim, descobrimos o porque de o lobo ter comido a Chapeuzinho, porque a Bela, tão mocinha e indefesa teme a Fera que tanto a deseja e como que as "irmãs" de Cinderela tem os olhos brutalmente arrancados pelos passarinhos. Ok. O lado cruel (e na sua forma original) já nos foi apresentado em publicações maravilhosas como Contos de Perrault, de Charles Perrault (Editora Paulus) e Contos dos Irmãos Grimm, de Clarissa Pinkola Estés (Editora Rocco). 

103 Contos de Fadas, de Angela Carter, publicado pela Companhia das Letras, vai muito além e segue até o final desta trilha impactante. Dividido em 13 partes, a obra traz histórias de personagens corajosas, ousadas, obstinadas, astutas, desesperadas, infelizes e trapaceiras. De acordo com a publicação Observer, esta é "uma seleção mundial de histórias (para adultos) brutais e divertidas."

Já na Introdução da autora o leitor é alertado: "Embora este trabalho se apresente como um livro de contos de fadas, os leitores encontrarão poucas fadas nas páginas que se seguem; já animais falantes, muitos. Seres que são, em maior ou menor medida, sobrenaturais; mas fadas mesmo são raras, porque a expressão contos de fadas é uma figura de linguagem, usada de forma bastante livre, para descrever o grande volume de narrativas infinitamente variadas que eram e ainda são oralmente transmitidas e difundidas mundo afora - histórias anônimas que podem ser reelaboradas vezes sem fim por quem as conta, o sempre renovado divertimento dos pobres".

De fato, em meio a esta renovação constante, os contos populares desta publicação são bastante variados, tanto na dosagem da sensualidade quanto ao tamanho do texto. Enquanto que alguns equilibram a brutalidade em que a história se encaminha outros podem até receber o rótulo de uma história de "mau gosto". Um exemplo é o conto montanhês, americano, O lilás mexeriqueiro, página 317.

"Em certa época, um velho e uma velha viviam no vale do rio Tygart. eles Brigavam havia anos. Poucas pessoas os visitavam, por isso se passou algum tempo antes que se percebesse que a mulher desaparecera misteriosamente. As pessoas desconfiaram que o velho a matara, mas o seu corpo não foi encontrado, e o assunto acabou esquecido.

O velho vivia uma vida alegre depois do desaparecimento da mulher até certa noite em que alguns rapazes que estavam sentados no alpendre da casa dele começaram a comentar as várias festas que o velho andava organizando. enquanto falavam, uma moita de lilases que crescia ali perto começou a bater na vidraça e a acenar para eles como se estivesse querendo dizer alguma coisa. Ninguém teria imaginado nada disso, se estivesse ventando. Mas não havia vento nenhum - nem uma fraca brisa.

Ignorando os protestos do velho, os rapazes desenterraram a moita de lilases. Ficaram estupefatos ao verem que as raízes cresciam da palma da mão de uma mulher.

O velho soltou um grito, correu colina abaixo em direção ao rio e nunca mais foi visto
".

Ódio e morte marcam este conto, e como a própria Angela Carter destaca, não há se quer uma fada perambulando ou fazendo mágica. Um dos pontos fortes do livro são as notas sobre os contos inseridas, as quais complementam ou explicam os contos. Na página 479, sobre O lilás mexeriqueiro, sabemos que este foi contado a Keith Ketchum em 1963 pela senhora Sarah Dadisman de Union, Monroe Country, West Virginia. (De The telltale lilac bush and other West Virginian ghost tales, coligidos por Ruth Ann Musick [University of Kentucky Press, 1965], p. 12.)

Em contos que retratam as várias formas do amor, de traições, da vingança e do poder que 103 Contos de Fadas, definitivamente agarra o seu leitor. Seja no emaranhado dos contrários ou no final inesperado -destes contos-, não há como deixar de ler esta obra. Confira!


Livro: 103 Contos de Fadas
Título original: Angela Carter´s Book of Fairy Tales
Autora: Angela Carter
500 páginas
Ano: 2007
Tradução: Luciano Vieira Machado
Editora:
Companhia das Letras
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.: Avaliação :.

Excelente

 

Ruim / Regular / Bom /  Ótimo / Excelente





































 
 
 
 
 
 
 

 

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