O retrato de todos os sentimentos da humanidade (os bons e os ruins, os
sagrados e os pecaminosos, os encantadores e os desencantadores...) e
costumes que passam de geração em geração. Saiba mais de 103 Contos de
Fadas!
Os contos de fadas são retratados (na maioria das vezes) como histórias
inocentes, puras e totalmente infantis. E assim, de um modo delicado, quando
pequenos, conhecemos a história encantadora de A Chapeuzinho Vermelho,
A Bela e a Fera, Cinderela e assim por diante. No entanto,
é na fase adulta que nos deparamos com o sentido real e cruel dessas
histórias. E assim, descobrimos o porque de o lobo ter comido a Chapeuzinho,
porque a Bela, tão mocinha e indefesa teme a Fera que tanto a deseja e como
que as "irmãs" de Cinderela tem os olhos brutalmente arrancados pelos
passarinhos. Ok. O lado cruel (e na sua forma original) já nos foi
apresentado em publicações maravilhosas como Contos de Perrault, de
Charles Perrault (Editora Paulus) e Contos
dos Irmãos Grimm, de Clarissa Pinkola Estés (Editora
Rocco).
103 Contos de Fadas, de Angela Carter, publicado pela
Companhia das Letras, vai muito além e segue
até o final desta trilha impactante. Dividido em 13 partes, a obra traz
histórias de personagens corajosas, ousadas, obstinadas, astutas,
desesperadas, infelizes e trapaceiras. De acordo com a publicação
Observer, esta é "uma seleção mundial de histórias (para adultos)
brutais e divertidas."
Já na Introdução da autora o leitor é alertado: "Embora este trabalho
se apresente como um livro de contos de fadas, os leitores encontrarão
poucas fadas nas páginas que se seguem; já animais falantes, muitos. Seres
que são, em maior ou menor medida, sobrenaturais; mas fadas mesmo são raras,
porque a expressão contos de fadas é uma figura de linguagem, usada
de forma bastante livre, para descrever o grande volume de narrativas
infinitamente variadas que eram e ainda são oralmente transmitidas e
difundidas mundo afora - histórias anônimas que podem ser reelaboradas vezes
sem fim por quem as conta, o sempre renovado divertimento dos pobres".
De fato, em meio a esta renovação constante, os contos populares desta
publicação são bastante variados, tanto na dosagem da sensualidade quanto ao
tamanho do texto. Enquanto que alguns equilibram a brutalidade em que a
história se encaminha outros podem até receber o rótulo de uma história de
"mau gosto". Um exemplo é o conto montanhês, americano, O lilás
mexeriqueiro, página 317.
"Em certa época, um velho e uma velha viviam no vale do rio Tygart. eles
Brigavam havia anos. Poucas pessoas os visitavam, por isso se passou algum
tempo antes que se percebesse que a mulher desaparecera misteriosamente. As
pessoas desconfiaram que o velho a matara, mas o seu corpo não foi
encontrado, e o assunto acabou esquecido.
O velho vivia uma vida alegre depois do desaparecimento da mulher até certa
noite em que alguns rapazes que estavam sentados no alpendre da casa dele
começaram a comentar as várias festas que o velho andava organizando.
enquanto falavam, uma moita de lilases que crescia ali perto começou a bater
na vidraça e a acenar para eles como se estivesse querendo dizer alguma
coisa. Ninguém teria imaginado nada disso, se estivesse ventando. Mas não
havia vento nenhum - nem uma fraca brisa.
Ignorando os protestos do velho, os rapazes desenterraram a moita de
lilases. Ficaram estupefatos ao verem que as raízes cresciam da palma da mão
de uma mulher.
O velho soltou um grito, correu colina abaixo em direção ao rio e nunca mais
foi visto".
Ódio e morte marcam este conto, e como a própria Angela Carter destaca, não
há se quer uma fada perambulando ou fazendo mágica. Um dos pontos fortes do
livro são as notas sobre os contos inseridas, as quais complementam ou
explicam os contos. Na página 479, sobre O lilás mexeriqueiro,
sabemos que este foi contado a Keith Ketchum em 1963 pela senhora Sarah
Dadisman de Union, Monroe Country, West Virginia. (De The telltale lilac
bush and other West Virginian ghost tales, coligidos por Ruth Ann Musick [University
of Kentucky Press, 1965], p. 12.)
Em contos que retratam as várias formas do amor, de traições, da vingança e
do poder que 103 Contos de Fadas, definitivamente agarra o seu
leitor. Seja no emaranhado dos contrários ou no final inesperado -destes
contos-, não há como deixar de ler esta obra. Confira!