Obra lançada pela Agir aproxima leitor dos pensamentos de Nelson Rodrigues. Saiba mais de
O Reacionário – Memórias e Confissões!
O Reacionário – Memórias e Confissões, o célebre livro de crônicas de
Nelson Rodrigues lançado em 1977, tem o maior mérito de toda a extensa obra
do controverso escritor e dramaturgo: aproximar do leitor parte dos
pensamentos do homem que está por trás de toda a polêmica de seus textos e
ideias neles contidos. Agora, relançado pela Agir, promete superar o feito
de quando chegou às livrarias.
À época, ainda vivo, Nelson Rodrigues era visto com certa desconfiança, sob
o rótulo de “reacionário”. Agora, anos depois de sua morte, é material de
estudo, respeitado e há quem o considere um gênio. Tudo isso muda a maneira
de ler as 130 crônicas desta coletânea. Juntas, como um quebra-cabeça, elas
dão um panorama sobre quem é Nelson Rodrigues, pergunta difícil de ser
respondida em um primeiro momento.
Tornar os pensamentos de Nelson Rodrigues acessíveis é difícil, mas o livro
cumpre essa tarefa com maestria. Personagens absolutamente reais, como Otto
Lara Resende, o inimigo político Alceu Amoroso Lima, o psicanalista Helio
Pelegrino e o jornalista Cláudio Mello de Souza, entre tantos outros perfis
conhecidos da vida real surgem, misturados com outros, como a ricaça com
nariz de cadáver, a estagiária de sandália e calcanhar sujo, a atriz
inteligente, todos reunidos para contar grandes histórias da vida real.
São crônicas, escritas de março de 1967 a dezembro de 1973 para as colunas
Memórias (do jornal Correio da Manhã) e Confissões (O Globo), que não perdem
em nada para a ficção rodriguiana. Confirmam-se nelas algo que já se
desconfiava na ficção: o escritor julgava, e qualificava muito, as pessoas.
Há, também, a ideia de que Nelson Rodrigues, discreto e um tanto tímido,
passava como testemunha ocular dos fatos, muitas vezes despercebido –
encontrando seu lugar, e a merecida notoriedade, nas letras.
Características
pouco divulgadas de Nelson Rodrigues, como quanto o assassinato de seu
irmão, Roberto Rodrigues, na redação de A Crítica, o deixou traumatizado, ou
a delicadeza, ao confessar que sempre teve medo de ser cego, e o mal veio em
sua filha, que nasceu sem visão, podem ser vistas. Mais do que a chance de
reencontrar, ou redescobrir Nelson Rodrigues em um momento muito mais
propício a conhecer alguém que foi vítima do seu tempo e de duas ideias, o
livro passa longe de ser um apanhado de frases de efeito.
A reedição, muito bem cuidada – seja pela encadernação luxuosa, pela
diagramação de qualidade ou pelas notas de rodapé com informações relevantes
– ainda vem complementada por um quadro cronológico, com fatos-chave da
época em que as crônicas foram escritas, ajudando, assim, o leitor construir
um panorama geral do contexto em que os textos foram elaborados.
Reacionário? Não, a temática confessional do livro aponta para apenas uma
resposta: um libertário, que não existiria sem as suas repetições, é
verdade.