Os Filhos da Revolução: Patrick Selvatti faz revolução em seu
espetacular livro de estreia. Saiba mais!
O primeiro livro sempre é uma prova de fogo, uma espécie de suicídio ou
redenção. Neste, por exemplo, há muitas características extremamente
pessoais atiradas aos leões. Caso de vida ou morte, de fato. Que tem como
cenário Brasília, cidade marcada pelo sonho de milhares pessoas comuns, que
chegam por lá em busca de uma vida melhor. Assim, Os Filhos da Revolução,
do jornalista e escritor Patrick Selvatti, tem como pano de fundo é o início
dos anos 80, contextualizados pela campanha de eleições diretas e as
primeiras bandas de rock brasilienses, que começavam a despontar no Brasil.
Em meio a isso, um grupo de jovens, na transição entre a adolescência e a
vida adulta, enfrenta questões referentes ao encontro do grande amor,
indecisões sobre sexualidade, carreiras profissionais e o difícil
relacionamento entre pais e filhos. Tudo isso sem deixar passar por outros
assuntos contundentes e universais, como amizade, virgindade, gravidez,
aborto, drogas, delinquencia juvenil, homossexualidade e aids. Talvez,
tantos temas juntos tornassem a obra difícil de ler, mas o autor conduz a
obra com maestria.
Jornalista mineiro, “adotado” por Brasília, Patrick Selvatti coloca muito de
suas referências no texto, como a predileção pelas bandas brasilienses ou
pela segurança que a sua profissão lhe proporciona ao contar, com uma ótica
muito peculiar, parte da história recente brasileira.
A impressão que o romance passa, tamanha a profundidade dos temas e a
naturalidade em que eles são debatidos, é que o leitor está escutando uma
conversa muito intima, por uma porta entreaberta, escutando segredos que
prendem cada vez mais, como um vício – discutível e não assumido – de
escutar confidências. São personagens muito intensos, cheios de sonhos e
conflitos, que têm a trajetória contada, também, por trocas de
correspondências e diálogos fortes. É por meio deles que o autor se
autobiografa por completo. A narrativa tem um ritmo muito rápido, por vezes
lembra uma série brasileira, o que é um prato cheio para o autor, que além
de escritor é um roteirista competente – Patrick Selvatti foi um dos
finalistas no concurso de telenovelas promovido pela Rede Record.
Como na literatura pop, o fictício e o real transitam lado a lado, e é comum
ver os personagens discutindo assuntos que já saíram da boca do povo, como a
preferência entre Nelson Piquet e Ayrton Senna. A obra é produzida com
recursos do FAC – Fundo da Arte e da Cultura da Secretaria de Estado de
Cultura do Governo do Distrito Federal e mostra, o que demonstra o critério
na qualidade do que vem sendo publicado. Uma estreia diferenciada do que,
até então, vem sido mostrado ao grande público em meio a inúmeros
lançamentos inexpressivos. Um talento que surge, pronto para ser lido e
admirado depois de muito tempo de preparação. Só nos resta torcer para que
vem as próximas obras desse promissor “filho da revolução”.