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Meus segredos pelos seus, minha vida pela sua
Por: Helder Miranda

Em dezembro de 2009


Por que uma relação de amor termina no auge? Marian Keyes tem a resposta em romance que flerta com o espiritismo e desconstrói a mais maluquinha das irmãs Walsh.




Um dia você acorda e percebe que está só. Não sei isso acontece com todas as pessoas, nem tenho noção se de fato isso é recorrente, mas a sensação, e a constatação de estar só, independentemente do motivo, geralmente é péssima. O novo livro de Marian Keyes, Tem Alguém Aí?, flerta com o espiritismo e fala sobre o reencontro consigo próprio em momentos de adversidade. Além disso, é justamente uma das resenhas mais desafiadoras que já fiz, pelo cuidado que tenho de ter para não escrever algum spoiller.

Tem Alguém Aí? é o sétimo romance da autora lançado no país pela Bertrand Brasil, e o quarto da série protagonizada pelas irmãs Walsh. Confesso que quando soube qual seria o próximo título a ser lançado, não fiquei empolgado, já que o livro gira em torno de Anna, até então, a menos carismática das outras.

Nos livros anteriores, Claire (Melancia, que também apresentou a autora no mercado brasileiro) havia sido abandonada pelo marido no dia do nascimento da primeira filha, gerando a expectativa de uma urgente volta por cima. Rachel (Férias!) é internada em uma clínica de reabilitação, e precisa sair de lá o quanto antes para reconquistar tudo o que perdeu, principalmente o namorado. Maggie (Los Angeles), a mais certinha de todas, surpreende a todos quando resolve se divorciar do marido, passar uma temporada na casa da amiga e, por lá, transgredir regras. Anna aparece, então, como coadjuvante de todos esses livros e nunca me prendeu a atenção como leitor.

Explico: meio “maluquinha” e “zen demais”, ela não tinha a credibilidade suficiente para me convencer de que sua a história rendesse um bom romance. Desde que soube que ele havia sido escrito, torci para que não chegasse a terras tupiniquins. Talvez pensando nas características da personagem, a escritora precisou dar uma reformulada em Anna, mas nem por isso negou todo o seu passado “hippie” – que me causava tanto desinteresse. O que Marian Keyes fez na narrativa foi digna de um mestre: desconstruiu a personagem para contar uma boa história.

Anna – que começa o livro toda machucada e medicada com antidepressivos, calmantes e remédios para dor – está bem diferente dos livros anteriores, afinal, já se passaram 12 anos que ela era a garota “quietona” de Melancia. Depois de formada, incentivada pelo cunhado, Garv (o cunhado adúltero de Los Angeles), como explica a autora logo no início, ela consegue um emprego de relações públicas em uma conceituada empresa de cosméticos, deixando para trás roupas constrangedoras e um cabelo ensebado. No aconchego de seu lar, na Irlanda, ela percebe que chegou o momento de reconquistar o que deixou em Nova Iorque, como o seu emprego de sonhos – que lhe dá a possibilidade de levar e presentear a todos com cosméticos bons –, recuperar os amigos e, sobretudo, enfrentar a realidade do seu marido Aidan, que há tempos não volta para casa.
De volta à vida normal, retoma o trabalho e, aos poucos, à vida social. O curioso, porém, é que Aidan não responde aos e-mails de Anna, não retorna os recados dela na caixa postal de seu celular, e não aparece no apartamento dos dois. Há momentos em que você pensa que a protagonista do livro não tem autoestima alguma, pois, ao que tudo indica, ela foi vítima de violência doméstica. O leitor pode ficar com raiva da personagem, por se humilhar tanto para um homem que não a responde, embora esteja está em todos os lugares que ela vê.

Em outros momentos, quem lê o livro chega a acreditar que Anna cometeu uma grande besteira, para afastar um homem aparentemente tão próximo e leal com seus sentimentos, de acordo com o que ela descreve. Ou não? O amor, pela ótica de uma mulher apaixonada, é capaz de enfeitar a realidade? Pode acontecer de pessoas que se amam, do nada, se separarem no auge de um romance? E por qual motivo?

A impressão que se tem, quando se lê Marian Keyes, é que a literatura chick-lit vem se aprimorando ao longo dos anos. Embora se enquadre nesse estilo de literatura rotulada “para mulherzinhas”, Marian Keyes está a anos luz de distância de todas as outras, da mesma geração, que escrevem histórias carregadas no açúcar. É a melhor escritora estrangeira da atualidade e, em cada romance, inova colocando em pauta algum assunto diferente.

Engajada, já abordou, em Sushi, a situação de moradores de rua, a decisão entre abortar ou não em É Agora... Ou Nunca, o alcoolismo em Casório?! e também os problemas de habitação em Um Bestseller pra Chamar de Meu. Desta vez, falando sobre questões espirituais, a autora vai além e mostra que, às vezes, é necessário perder algo aparentemente muito valioso para conquistar o que pode estar esquecido – dentro de nós.


Livro: Tem Alguém Aí?
Título original: Anybody Out There?
Autora: Marian Keyes
Tradução: Renato Motta
602 páginas
Ano: 2009
Editora: Bertrand Brasil

.: Avaliação :.

Excelente

 

Ruim / Regular / Bom /  Ótimo / Excelente

 
 
 
 
 
 

 

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