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Voragem de sonhos e medo real
Por:
Luiz Horácio
Em outubro de 2004
Se há um tema que me dá nos nervos é o tal de "literatura feminina". Quando o
que caracteriza é o fato de se ter um livro escrito por alguém do sexo
feminino até entendo, mas a razão de tal ênfase é que "não me desce". Nunca
falta um sábio e sensível critico para dizer que fulano escreve como mulher,
que beltrano conhece como ninguém a alma feminina, mas raramente se escuta
alguém dizer que dona tal escreve como homem.
Meus queridos ingênuos, homens e mulheres são capazes das mesmas atrocidades
e similares belezas, é a tal da condição humana. Não entendo essa palhaçada
de isso ser coisa de homem e aquilo coisa de mulher. Nos meus três
casamentos estaria condenado a viver de roupas sujas ou morrer de fome caso
não me familiarizasse à força com tanque e fogão. Entendo que o que torna
esta ou aquela obra mais relevante é o fato de o escritor estar comprometido
com seus sentimentos, com suas experiências. Isso tornaria sua obra tão mais
próxima do leitor o que facilitaria uma identificação tão importante a
ambos. De modo que não tenho saco para essa mediocridade de literaturas
masculina e feminina.
Porém podemos tratar do assunto dizendo que tal tema é pouco abordado pelos
homens ou que não é comum mulher escrever sobre sexo, sexo mórbido e suas
variações. É aqui por essas veredas escuras do estranhamento, diminuindo a
distância entre ficção e realidade, que Maria Luísa Ribeiro conduz este seu
Os Cordeiros do Abismo e... sem lanterna... Caso ao final da leitura o
leitor pressentir a sombra da transgressão, lamento informar mas estará
equivocado.
Não é visível o menor traço de escândalo, o que se apresenta é
uma trama normal que graças a galopante estupidez humana logo merecerá o
carimbo de "corriqueira". O ser humano é capaz das mais sórdidas atitudes e
sendo assim não deve causar maior espanto ao mais inocente colegial saber
das peripécias de um psicopata que faz sexo com fotografias de cadáveres, da necrofilia, da perversidade sexual, do incesto, diante disso tornam-se
matérias de jardim de infância o cândido homossexualismo e algumas
aberrações derivadas da hipocrisia, esse dejeto do puritanismo.
Não satisfeito em copular com as fotos arquivadas no cartório Leopoldo
perseguia também viúvos e viúvas como um vampiro em busca de um gole de
sangue. Como podem ver não há motivo para espanto.
Se Maria Luisa não economizou horrores também apresentou, segundo seu
pessimismo, a comunhão de arte e vida, arte e loucura, de animalidade e
humanidade, de desejos e frustrações, de culpa e prazer.
Os Cordeiros do Abismo é a trajetória de Leopoldo e similar ao Bloom, de
Joyce o Dornellas, de Maria Luísa não tem nenhum cacoete do herói, muito
pelo contrário, ambos são personagens moralmente arruinados. O Leopoldo de
Maria Luísa não guarda a menor intimidade com a verdade, embora a onda de
questionamentos que "verdade" venha ensejar a quem tenha por hábito essa
prática. O atormentado Leopoldo tem em Marina a única verdade que conheceu e
o leitor perceberá ser ela a exclusiva depositária de sua confiança.
"Os Cordeiros do Abismo", assim como Ulisses tem lá suas explicações
cabalísticas no que diz respeito a sua divisão em travessas ou capítulos-
14- e sua organização matemática está a merecer estudo de alguém bem mais
apto que este modesto aprendiz.
Tudo começa em um cartório na Av. Dias da Cruz , onde os arquivos alimentam
a compulsão do protagonista, é o ponto de partida do romance.Foi nesse
cartório que Leopoldo aos 13 anos experimentou a maior emoção de sua vida.
"...o mais intenso orgasmo e a maior emoção foram brotados dos seios tesos
de uma mulher que teria a idade de sua mãe,e de cujo perfume nunca se
esquecera."
Leopoldo desfila sua morbidez por sete travessas onde perversão, compulsão e
a permanente imagem da mulher perfumada do cartório vão escurecendo seu
caminho. Na sétima travessa- ida- reencontra em Marina, trinta anos depois,
o tênue relâmpago que acompanhará suas culpas através do seu retorno -
Leopoldo fugindo de si e ao mesmo tempo tentando se reencontrar. Não existe
futuro em seu horizonte - pelas sete travessas margeadas pela auto punição e
arrependimento.
É justamente na travessa quatro do retorno que o leitor poderá opinar se
está diante do surrealismo, do realismo mágico ou quem sabe, de ambos.Para
ser mais claro, o leitor é convidado a opinar muitas vezes durante A Via
Cruz de Leopoldo. Maria Luisa soube contornar a armadilha simplória que
enclausura personagens sem profundidade onde apenas o rótulo em quatro cores
chama atenção do leitor e fez do seu Leopoldo um personagem pouco comum
apesar de trágico, misto de Édipo e serial killer.
Aparentemente fruto de clichês- garoto
angustiado, mãe sem tempo para ele, coadjuvante de experiências sexuais mal
resolvidas- Leopoldo tinha tudo para repetir a chatice. Entretanto, no meio
do caminho do garoto tinha Maria Luisa e Leopoldo não reinventa o romance,
tampouco reinventa a humanidade mas coloca a autora entre os grandes. Um
simples detalhe. A armadilha estava pronta bastava a autora puxar a cordinha
e colocar o ponto final, seria uma solução cômoda, convencional, novelesca
no pior sentido - o televisivo - porém Maria Luisa não conclui, não fecha
questão, aqui nada é definitivo, o final fica por conta de um dia qualquer.
Eu havia dito que ela aproximara arte e realidade, lembram?
A história de Leopoldo, como de todo ser humano, é sua forma singular de
lutar contra a morte no caso do protagonista o sistema de oposição na luta
contra a morte nomeado por Freud apresenta falhas. Localizadas na sua
herança biológica ou quem sabe na mítica?
A derradeira análise de Os Cordeiros do Abismo, moto perpétuo onde o amor é
personagem ausente, ainda será feita por algum profissional dos labirintos
da mente humana, psiquiatra, psicólogo ou algo do gênero.
O recurso utilizado pela autora de compartir o ponto de vista entre Leopoldo
na primeira pessoa e o narrador, também personagem, na primeira e terceira
pessoa exige do leitor redobrada atenção para não perder nenhuma
particularidade. E é justamente nas minúcias que está reservado o vigor
deste Os Cordeiros do Abismo. Um instigante trabalho de uma grande
escritora, infelizmente, "longe demais das capitais ."
Gabriel Nascente é a grande expressão poética de Goiás e também o mais
plagiado. Ops! meu bisavô, apagando o palheiro no teclado, me corrige
dizendo ser Cora Coralina. Tá certo vovô. Então Gabriel Nascente é o
expoente da poesia do Cento Oeste na atualidade e na prosa, graças ao
conservadorismo e polpuda mediocridade que grassa entre os escritores
goianos divididos em grupelhos anões em busca de promoção, Maria Luísa
talvez ainda leve mais tempo que o justificável para ter seu imenso valor
reconhecido. Plagiada vergonhosamente por uma conterrânea ela já foi. Ficou
por isso mesmo.
Não será a primeira vítima dos ciumentos covardes. Vocês já leram Fausto
Rodrigues Valle - Confraria de Marimbondos - Edival Lourenço - A Centopéia
de Néon ? Alguém conhece um pouco que seja da literatura
infantil/inteligente de Ciça Fittipaldi?
São goianos e assim como Maria Luisa e Gabriel Nascente também são grandes.
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Livro:
Os Cordeiros do Abismo |
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Autor: Maria Luísa Ribeiro |
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Editora: O. R. Editor |
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