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Propostas
de amor que visam dinheiro e vida boa
Por:
Mary Ellen Farias dos Santos
Em março de 2005
A literatura brasileira é rica na inclusão dos costumes de épocas e regiões.
Na obra Casa de Pensão, de Aluísio Azevedo, há grandes marcas de degradação
da família formadas por um jogo de interesses que tem em vista o dinheiro.
Na obra de Aluísio Azevedo o jogo de interesses movido pelo dinheiro é o
centro das relações entre as personagens: Coqueiro e Mme. Brizard, Coqueiro
e Amâncio, Amâncio e Amelinha, Lúcia e Pereira, Amâncio e Lúcia.
O interesse de João Coqueiro em relação a madame Brizard acontece pelo fato
dela ser uma viúva rica a qual deseja que Coqueiro seja alguém conhecido na
sociedade. Em contraponto, Brizard está interessada em fazê-lo feliz
materialmente. O espertalhão aceita a proposta, mesmo por que deseja deixar
um dote para a irmã, Amelinha, para ela fazer um bom casamento.
A proposta da Mme. Brizard à Coqueiro é feita da seguinte forma: “Queria
casar-se, porque entendia que isso se tornava necessário à felicidade de
Coqueiro. Toda a sua vida, todos os seus recursos, dela, seriam empregados
para o mesmo fim: - facultar o marido os meios de estudar, os meios de
crescer, desenvolver-se, luzir. Alcançasse ele um nome, uma posição
brilhante, uma atitude gloriosa, e tudo o mais lhe seria indiferente”.
É por esse motivo que há planos de ressuscitar uma antiga casa de pensão, e
assim, fazer com que Coqueiro seja muito feliz: “Até já tinha projetos, já
tinha as suas idéias sobre a instalação da casa!... [...] E concluiu,
jurando inda uma vez, que – para si não queria nada! Que só desejava a
felicidade do Coqueiro e de sua irmã, dele. / Era assim que entendia o
amor!”
No entanto, Amélia chega aos 23 anos e não se casa. Eis que Coqueiro conhece
Amâncio por meio de Paiva Rocha, amigo do jovem maranhense recém-chegado.
João Coqueiro como um bom irmão, arquiteta um plano: Casar Amâncio e
Amelinha.
“- É um achado precioso! Ainda não há dois meses que chegou do Norte, anda
às apalpadelas! Estivemos a conversar por muito tempo: - filho único e tem a
herdar uma fortuna! Ah! Não imaginas: só pela morte da avó, que é muito
velha, creio que a coisa vai para além de quatrocentos contos!... / Mme.
Brizard escutava, sem despregar os olhos de um ponto, os pés cruzados e com
uma das mãos apoiando-se no espaldar da cama. / - Ora, - continuou o outro
gravemente. – Nós temos de pensar no futuro de Amelinha... ela entrou já nos
23!... se não abrirmos os olhos... adeus casamento! / - Mas daí... –
perguntou a mulher, fugindo a participar da confiança que o marido revelava
naquele plano. / - Daí – é que tenho cá um palpite! – exclamou ele. – Não
conheces o Amâncio!... A gente leva-o para onde quiser!... Um simplório, mas
o que se pode chamar um simplório / Mme. Brizard fez um gesto de dúvida. / -
Afianço-te, - volveu Coqueiro – que, se o metermos em casa e se conduzirmos
o negócio com um certo jeito, não lhe dou três meses de solteiro!”.
Com muita astúcia e um certo 'veneno' Coqueiro consegue tirar Amâncio da
casa de Campos e leva-o para a Casa de Pensão. Depois do plano de Coqueiro
entrar em ação, Amélia não se faz de rogada e faz a sua parte no jogo de
sedução à Amâncio. “...Nesse dia estava encantadora.[...] Amâncio bebendo
aos goles distraídos a sua cerveja nacional, via e sentia tudo isso, e sem
perceber, deixava-se tomar de graças de Amélia”.
Mas Amâncio não vê Amélia como uma mulher, mas como uma menina e deixa-se
seduzir por Lúcia. Esta é uma mulher interesseira que vive com o senhor
Pereira. Após engravidar do primo em segundo grau, este vai e não volta mais
do Rio Grande do Sul. Pereira estava sempre na casa dos pais de Lúcia, e daí
surge a idéia de utilizar-se do pachorrento Pereira.
Ele aceitava as imposições de Lúcia e após quatro dias de lua-de-mel, e
muita insistência de Lúcia com idéias matrimoniais, Pereira revela que desde
os dezoito anos, o haviam casado com uma velha. Foi então que o tio de
Pereira ajudou Lúcia, enquanto que uma irmã dele muito bondosa cuidou do
filho do bacharel.
Com o passar do tempo Coqueiro, como todo ser acomodado, começa a fazer de
Amâncio o pagador de suas contas. “Agora o irmão de Amélia não punha o menor
escrúpulo em lhe aceitar os obséquios e a casa ia ficando a pouco e pouco às
costas do provinciano”.
Após muito se oferecer Amélia consegue ficar com Amâncio. Entretanto após
ela se entregar à Amâncio por amor e esperanças em se casar com ele.
Detalhe: este não corresponde. Ela se vinga dele e exige coisas.
“A cachorra da pequena tinha gosto. Exigiu tapetes, espelhos, cortinas de
chita indiana para a sala de jantar, cortinas de renda para a sala de
visitas; quis moldura douradas nos quadros, estatuetas pelas paredes; não
dispensou nos aparadores e nos consolos jarras de porcelana das mais à moda.
[...] E só com essas coisas e só com a satisfação de tanta exigência é que
Amâncio conseguia paliar as revoltas da amante. O desgraçado já não tinha
ânimo de contrariá-la, porque bem conhecia o preço das resingas e, sem achar
meio de reagir, via claramente que as reconciliações se tornavam mais caras
de dia para dia”. Cap.XVII p. 262
Após
a leitura de Casa de Pensão, pode-se concluir que o jogo de interesses pelo
dinheiro levou as famílias à degradação. A vontade de fazer um bom pé de
meia sem nenhum esforço é o que faz as personagens enveredarem por caminhos
mais fáceis, mais auto-destrutivos.
Todas as personagens ambicionam ter uma vida de luxo, mas ficaram a ver
navios. Coqueiro ficou com Brizard e continuou com a sua vidinha, mas sem a
Casa de Pensão. Amélia perdeu o seu grande amor e ficou desonrada
abandonada. Lúcia permaneceu com Pereira, numa vida sem eira e nem beira, e
mudando de casa de pensão para casa de pensão, pois não pagavam os alugueis.
A personagem principal, Amâncio que veio do Maranhão para tentar a vida e
estudar no Rio, se deixou envolver com os gozos da vida na cidade grande,
até que foi surpreendido pelos terrores da vida boêmia e não completou o seu
curso de Medicina. Coqueiro o matou por uma questão de honra própria, já que
todos faziam chacota com o nome dele e além, de deixar Amélia desonrada.
Enfim como o próprio Aluísio Azevedo fala nesta obra: “Quem tudo quer, tudo
perde”.
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Livro: Casa de Pensão |
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Autor: Aluísio Azevedo
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