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A
liberdade fora das redações
Por:
Luíz Horácio
Em março de 2005
Até que enfim meu papagaio conseguiu ser aprovado no vestibular para
jornalismo. Depois de 18 tentativas onde não foi compreendido em sua
sabedoria, a décima nona fez justiça. Tirando proveito do sistema de cotas,
provou que tinha um pé, ou seria asa?, na África e também era miserável.
Duplamente beneficiado, hoje é um acadêmico. Pela mesma fresta também entrou
uma coruja, mas como não era alfabetizada não conseguiu se matricular. Já
impetrou mandado de segurança.
Pois meu papagaio, depois da aprovação deu pra ficar marrento. Dia desses,
mesmo quando cheguei da praia encontrei o futuro colega em cima da mesa
lendo o El País. Foi só o tempo de me livrar do guarda sol pra acabar
com a alegria do penado estudante. Mas que negócio é esse de ler logo o
El País. Tem que ler O Dia, no máximo O Globo. Não quero
mais saber desse jornal aqui em casa.
Como o acadêmico é poliglota, fala papagaiês e já decorou 15 palavras
da inculta e bela, não encontrará dificuldades para conseguir emprego no
Globo. Sem contar que na digitação leva enorme vantagem pois faz uso das
patas e do bico ao mesmo tempo.
No Globo ele pode se candidatar a vaga do Joaquim Ferreira dos
Santos, um zé mané entre tantos outros, que informa quem está comendo quem
no elenco de celebridades globais além de ser porta voz de um muquifo
chamado Buraco da Lacraia. Particularmente me agradaria muito ter meu
papagaio como responsável pelas manchetes do Globo. Pior que as que
seguem, duvido que ele consiga: “Polícia investigará fumaça”., “Fim de Vagas
Temporárias Eleva Desemprego”, “Juros Bancários Sobem para 46,8%”. A
atuação, eufemismo primário pra só agora dizer roubalheira, dos bancos é um
capítulo à parte onde as páginas estão grampeadas, ninguém fala, deixa assim
por que o patrão está devendo. E ainda temos que aturar campanhas de
marketing dizendo que o jornal tal é independente. Caso o aspirante a
emprego em grandes jornais não se enquadrar nos quesitos citados, nem tente,
aconselho lixar os restos de humanismo que por ventura ainda conserve e
volte à carga. Meu papagaio, possuidor de um humanismo muito mais honesto
que o da maioria dos coleguinhas, acha graça, percebe cada vez menos
concorrentes.
Depois é só informar omitindo e estamos conversados. Citei o Globo
para não perder meu tempo com os menores que só reproduzem as indicações dos
grandes, os oficiais. Mas a idéia é a mesma, nunca cutucar a ferida, o
importante é ser simpático, afinal de contas como denunciar potenciais
anunciantes, como não acobertar políticos que votaram a favor dos suspeitos
interesses patronais? O povo? Mas que importância tem o povo para os
jornais? Podemos dizer que a mesma importância que os jornais têm para o
povo?
Aí também corremos o risco de repetir a fórmula política, temos os Severinos
e os Lulas por que os merecemos. Quem sabe... A verdade é que os jornais
atualmente são mais compêndios estatísticos do que órgãos ocupados em tomar
conhecimento dos fatos, conferir dados, antes de emitir opinião que, quanto
mais medíocre o jornal, mais credibilidade alcançará junto ao público. Como
uma novela da TV, um exemplo à altura.
Que o leitor faça a experiência: quando estiver lendo ficção interrompa a
leitura e passe logo ao jornal. Reproduzindo o experimento algumas vezes,
garanto, sem medo de errar, que logo não saberá mais onde começa um e
termina o outro. Infelizmente.
Fausto Wolff não tem nenhum compromisso com o jornalismo ridículo citado
anteriormente, Fausto é um jornalista que enobrece, para não dizer que
salva, a profissão e por motivos abjetos, inexplicáveis, daqueles que
envergonham a inteligência e cultura de um país é deixado à margem, ora
pelos jornais, ora pelos coleguinhas. As exceções no caso são cada vez mais
exceções se levarmos em conta a grandeza do profissional. Um homem justo que
jamais se deixou levar pelo canto da sereia e não aprendeu a minimizar ou
esconder sequer os seus os equívocos. Mesmo que tal engano não seja fruto de
sua vontade ou falta de talento.Exemplo: Eleitor de Lula não economizou
críticas, nas páginas do saudoso Pasquim 21, diante da bandeira de
frustrações precocemente desfraldada pelo ex-lider sindical. Mais tarde os
coleguinhas caolhos perceberiam-se ultrajados com o anúncio de uma agência
para controlar a imprensa. Não sei se eles sabem, mas do Fausto não duvide,
Marx já avisava que o espírito do estado se manifesta mais claramente nos
debates sobre a imprensa. Dá ou não dá para sentir o bafo do autoritarismo
de Lula et caterva?
A Imprensa Livre de Fausto Wolff, editado pela L&PM, é um título
irônico e triste para uma coletânea de artigos que vai dos últimos dias da
administração FHC até a eleição do língua solta que ora nos impinge seu
populismo insosso. Irônico por que é uma das mais vigorosas características
do autor só perdendo para sua gigantesca erudição, triste por que se o livre
se refere a independência de Fausto, lamenta-se sua ausência das páginas dos
grandes jornais. Tristeza maior só mesmo no interior das redações, onde
bobos da corte lançam mão de textos cada dia mais edulcorados protegidos por
sofismas que a linguagem apressada lhes confere, no intuito de agradar as
elites.
“Parem as máquinas.” Acabo de ser informado do ingresso de Guilherme
Rodrigues, meu sobrinho, na faculdade de jornalismo. Estou providenciando um
amarradinho com os livros do Fausto Wolff. Vai me custar uma pequena
fortuna, o guri mora em Santa Catarina, mas ele merece. Recomendo que leia,
do contrário jamais tomará o lugar do meu papagaio.
Duvido que a leitura de “A Imprensa Livre de Fausto Wolff” venha a ser
recomendada em alguma faculdade de jornalismo visto que seu autor não é
daqueles acostumados à manutenção e sim um apaixonado defensor das
transformações. No livro de Fausto um retrato, ou seria uma radiografia?,
deste país que pensávamos fosse nosso. Da indisfarçável emoção, quase
tietagem, provocada com a eleição do Ofélia barbudo à imediata decepção,
Fausto desfia ética, isenção e cuidado com a matéria analisada. A opinião
emitida pelo autor, nunca de forma gratuita, está sempre em sintonia com o
fato e esse talvez seja o motivo principal pelo qual a imprensa está livre
do Fausto, honestidade.
Recomendo aos estudantes de jornalismo e jornalistas de pouco estudo a
leitura de um outro livro do Fausto, “Os Palestinos –Judeus da Terceira
Guerra Mundial”. Ed. Alfa-Omega..No livro encontrarão a célebre e histórica
entrevista que Fausto realizou com Yasser Arafat em Beirute no ano de 1982.
Sei que não faltarão os surpresos que dirão: Mas logo os palestinos, Yasser
Arafat, um terrorista, enquanto os coitadinhos judeus..... Por falar em
judeus, já repararam que o povo judeu é o único povo vítima de crueldades? O
quê? Você lembrou dos negros arrancados de sua terra e escravizados. Ainda
bem que não estou só.
Mas leiam e releiam Fausto Wolff sempre, um jornalista a serviço do
jornalismo. Se é Arafat, Pasolini, Dario Fo, pouco importa. O importante é o
jornalismo. De preferência, com a honestidade e a liberdade de Fausto.
Agora já não sei mais se deixo ou não deixo meu papagaio ler A Imprensa
Livre de Fausto Wolff.
Hoje leio em O Globo que a “ofensiva dos movimentos sociais está
incomodando Lula; que a radicalização dos aliados – segundo José Genoíno - ,
como é o caso do MST, pode criar na sociedade uma imagem de que o PT não tem
autoridade para governar o país. O presidente do PT acha que os movimentos
sociais cometem suicídio se crêem que Lula pode resolver demandas sociais
que se arrastam há décadas sem solução.” Mas é cinismo demais. Lula é o
presidente e chefe das Forças Armadas. Acreditávamos que ele e seus
ministros quisessem realmente botar os ladrões na cadeia, desprivatizar o
que foi privatizado, fazer reforma agrária, mas o que vemos agora é um
governo subserviente ao Consenso de Washington e obediente ao FMI. Lula já
deu um tapa na cara dos seus eleitores ao colocar no Banco Central um homem
do Bank Boston e no ministério da Agricultura um latifundiário. Agora, se
quiser se penitenciar e fazer a reforma agrária bastam três medidas: 1)
convocar as Forças Armadas: 2) comprar pelo valor declarado pelo
latifundiário o seu latifúndio improdutivo: 3) recensear os camponeses,
criar silos, e armazéns que levem o produto do agricultor ao consumidor e,
finalmente, distribuir as terras dando a cada um de acordo com sua
necessidade. Seríamos o maior país agrícola do mundo e nos libertaríamos
para sempre dos grilhões que nos mantêm escravos. Isso ainda é possível,
pois a maioria do povo continua ao lado do operário.O que se pede ao
operário é que não se afaste do povo.
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Livro: A Imprensa Livre de Fausto Wolff |
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Editora: L&PM |
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