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Outra
Cidade de Deus
Por:
Helder Moraes
Miranda
Em maio de 2005
A Editora Planeta que relançou o livro, O Beco do Pilão, romance
publicado originalmente em 1947 e contemplado com o Prêmio Nobel de
Literatura em 1988, tem o mérito de trazer para o escritor egípcio
Naguib Mahfuz esse prêmio, inédito até então para um autor de origem árabe.
É uma iniciativa corajosa comercializar um livro excelente, mas com pouco
apelo comercial, justamente por ser perfeito em termos de representar a
literatura como manifestação artística.
Em plena Segunda Guerra Mundial, grandes personagens circulam livremente
pelo Beco do Pilão, uma rua sem saída, parte antiga do Cairo. Lá, histórias
como a do barbeiro Helu, apaixonado pela ambiciosa Hamida, a sabedoria,
religiosidade e esperança de Radwan Hussein, as fantasias do cinqüentão
Alwan, ou a homossexualidade de Kircha, o dono do café, se desenrolam sem
interferir na continuidade do livro.
Narrado em episódios independentes e memoráveis, todos os personagens
tornam-se protagonistas de histórias que ocorrem em um bairro pobre. A rua
sem saída é uma analogia à situação dos personagens, jogados no tempo e no
espaço, em eterno estado de indiferença e esquecimento, expostos ao abismo
que os separa do restante do mundo.
O Beco do Pilão ainda é valorizado pela belíssima e expressiva foto de capa,
ilustrando a essência do livro, e seu ótimo acabamento, acaba por incentivar
o prazer a uma leitura desconcertante. Por esse motivo, arrisque-se a ler
algo que não é comercial e, com certeza, não irá se arrepender.
Mesmo sem ter nada a ver com o enredo do romance Cidade de Deus, de
Paulo Lins, este livro remete ao regionalismo e a realidade do livro
brasileiríssimo. A diferença é que a história do livro publicado pela
Editora Planeta se passa em uma cidade árabe. Embora com cultura e problemas
completamente diferentes, a temática pode ser analisada da mesma forma.
Sobre o autor: Um dos escritores mais representativos do Egito,
Naguib Mahfuz é considerado um dos inventores do romance moderno em sua
língua, já que a sua obra contribuiu para levar as linguagens das ruas para
os textos literários. Também escreveu Trilogia do Cairo.
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