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“O que me preocupa, no papel que a Igreja Católica tem na evolução humana, é
como eles têm mentido” - David Yallop
Por: Helder Miranda
Em janeiro de 2008
O Poder e a Glória: Para David Yallop, o papa João Paulo II foi colocado
no Vaticano com a ajuda dos comunistas poloneses. Nesta entrevista exclusiva
e histórica, ele fala sobre legalização das drogas, João Havelange, paz
mundial e que Bush não é inteligente.
Falar com um escritor internacional tão polêmico e controverso como David
Yallop não é uma das tarefas mais fáceis, pensei ao me preparar para o que
eu ainda não sabia: seria uma de minhas grandes entrevistas.
O
receio de minha parte era justificado: ele escreveu um livro para afirmar
que o processo de descaracterização do futebol começou com a eleição de João
Havelange, muitos outros com temáticas tão sisudas, e agora estava de volta
com o livro “O Poder e a Glória” (Planeta). Neste lançamento, baseado
em informações da CIA, KGB e do próprio Vaticano, afirma que João Paulo II,
interessado em difundir a palavra da Igreja tanto quanto exercer influência
política, deixou boa parte de seu pontificado imerso em sombras e
interrogações.
Só restava o nervoso de perguntar alguma bobagem, ou cruzar a linha tênue de
ultrapassar os limites de algum “assunto proibido” que só os grandes
entrevistados têm, mas a atenção que o próprio David Yallop deu a mim – um
(ainda) jovem editor do Resenhando –, enquanto outros (poucos, afinal livros
são livros no Brasil) veículos da grande imprensa esperavam com velados
sinais de impaciência, me desarmaram completamente.
O que você vai conferir aqui é o encontro de alguém muito simpático,
sorridente e atencioso, mas extremamente controverso que, com seu sotaque
britânico, respondeu o porquê das revelações assustadoras e as acusações
repercutirem tanto. Nesta entrevista exclusiva, falamos também de seus
outros livros (em sua maioria publicados pela editora Record) que partiram
para outros assuntos como legalização das drogas e paz mundial. Antes, um
surpreso Yallop pediu para que eu desligasse o gravador e me interpelou.
“Não esperava por essas perguntas, você é meu leitor?”. O que disfarcei com
um sorriso amarelo, afinal, não era eu o entrevistado.
RESENHANDO – O que os leitores podem esperar do seu livro
(O Poder e a Glória)?
David Yallop – Grandes surpresas. A personagem João Paulo II e seu
papado vão causar uma transformação.
RESENHANDO – Que tipo de transformação?
D.Y. – A Igreja Católica existe há mil anos e hoje seu efeito é menor do
que em qualquer outro tempo, ela tem menos influência hoje do que jamais
teve. O número de fiéis diminuiu e a população se mudou da Itália, da
Espanha, dos Estados Unidos... Os números não param de cair!
RESENHANDO – Mas há lugares em que os números não diminuíram...
D.Y. – Os únicos lugares em que os números crescem são América Latina e
África. E o que os preocupa aqui é a Igreja Evangélica, que vem crescendo
nos últimos dez, 15 anos. Muitas pessoas estão deixando a religião Católica
e indo para a Evangélica.
RESENHANDO – Qual o maior dos segredos que seu livro revela?
D.Y. – Depende da leitura, porque existem vários segredos revelados no
livro. O que este livro faz? Ele simplesmente desmistifica João Paulo II e a
história contada pelo Vaticano. Disseram que ele salvou a vida de muitos
judeus durante a Segunda Guerra Mundial, que trabalhou em condições escravas
durante a segunda guerra, mas ele não salvou a vida de nenhum judeu, nem
trabalhou em campos escravos. Ao contrário, trabalhou em regime assalariado,
tinha acesso a médicos, comida. A mais importante prova, que revela que ele
nunca esteve no front ou posto em um campo de concentração, é o carro que
ele possuía, o que significa que João Paulo II estava engajado em um
trabalho muito importante.
RESENHANDO – O que o senhor quer dizer com isso?
D.Y. – Ele tinha total proteção, assim como outros que faziam parte
deste trabalho. E essa é uma imagem diferente da que o Vaticano nos dá.
Então, em termos de segredos, são muitos.
RESENHANDO – Por que o senhor afirma em seu livro, que foram os comunistas
que colocaram João Paulo II no poder?
D.Y. – Ele não poderia ter sido nomeado Papa sem o suporte do regime
comunista da Polônia.
RESENHANDO
– Por que?
D.Y. – João Paulo II era bispo na Polônia, e havia uma vaga para
arcebispo. O regime comunista tinha de aprovar quem fosse ocupar a vaga. Não
era como na China, que nas vagas de bispo e cargos inferiores, se o governo
não aprova, eles não existem... Até hoje esses homens têm de ser nomeados
pelo regime Chinês, mas lá, o regime comunista tinha total controle. Então,
a Igreja selecionou três nomes e João Paulo II não era um deles.
RESENHANDO – E o que essa informação comprova exatamente?
D.Y. – O homem no controle, que rejeitou os três nomes apontados,
sugeriu outros nomes. Talvez eles tenham indicado uma dúzia de nomes, e o
regime não aprovou. Então alguém do regime falou para a Igreja que eles
continuariam a rejeitar os nomes até que fosse colocado o nome de João Paulo
II, porque ele não tinha preferências políticas. O futuro Papa vivia
tranqüilamente e, após ter seu nome sugerido, ficou com a vaga. Sem ser
arcebispo, nunca poderia ter se tornado cardeal, e sem ser cardeal, nunca
poderia ter se tornado Papa. Os comunistas, na essência, colocaram ele no
lugar.
RESENHANDO – Como a igreja católica tem acompanhado a evolução humana?
D.Y. – O que me preocupa, no papel que a Igreja Católica tem na evolução
humana, é como eles têm mentido. Na América Latina, mentem sobre os líderes
dos países. O papa João Paulo II foi o único que foi ao Chile, conhecer
Pinochet, nenhum outro líder religioso daria esse crédito a ele. João Paulo
II deu apoio ao presidente Reagan, nos anos 90. Naquela época, se ele
tivesse reprovado a política na América Central em público, creio que muitos
poderiam ter sobrevivido.
RESENHANDO – Em sua opinião, qual foi o Papa com papel mais importante?
D.Y. – Posso dizer, com muita facilidade, que foi João XXIII, que
direcionou a Igreja católica para o século XX. Foi ele o responsável por
muitas reformas. No meu coração, foi João Paulo I, que exerceu a função de
Papa por apenas 33 dias. Penso que ele foi assassinado antes que pudesse
colocar sua proposta em prática.
RESENHANDO – O que mudaria, se ele as tivesse colocado em prática?
D.Y. – Uma das coisas que ele iria fazer, e já tinha anunciado para seu
secretário, era fazer uma varredura no banco do Vaticano, que estava sendo
movimentado de forma corrupta. Outra iniciativa era liberar as políticas de
natalidade da Igreja. Tenho anotações sobre isso em outro livro meu, “Em
Nome De Deus”, que mostram quais eram os reais pensamentos dele sobre
controle de natalidade. Se ele tivesse vivido, teria construído um novo
conceito de concepção para a Igreja Católica. Um dos maiores problemas do
mundo é a superpopulação, um fatos que contribuem para o aquecimento global,
considerado o maior problema da atualidade. Quando nasci, em 1937, havia
menos de três bilhões de pessoas e, no meu tempo de vida, esse número mais
que dobrou.
RESENHANDO – Há manipulação no número de fiéis contabilizado pelas
religiões?
D.Y. – A Igreja maquia o número de fiéis. Assim como se faz na época de
eleição, existem muitas pessoas que nasceram no Brasil, e em outros países,
que são registrados como católicos porque seus pais seguem essa religião,
mas essas pessoas não praticam o catolicismo. A Igreja ainda conta como
número de fiéis pessoas que não seguem os preceitos: os que têm uma relação
fixa sem estarem casados, homossexuais que mantêm relações sexuais com
parceiros do mesmo sexo e divorciados... Há muitas coisas que você não pode
fazer, mas eles continuam como membros da Igreja para manter os números
altos.
RESENHANDO – No seu livro “Como Eles Roubaram o Jogo”, o senhor afirma
que o processo de descaracterização do futebol que começou com a eleição de
João Havelange para a presidência da FIFA. Por que?
D.Y. – João Havelange nunca recebeu salário, enquanto presidente da
FIFA, e se orgulha muito disso. Ele disse que não recebia salário, só
reembolso do que gastava, mas seus gastos eram entre dois e três milhões de
dólares ao ano! E eram gastos que muitas vezes não tinham a ver com seu
trabalho. Enquanto escrevia esse livro eu fui a conferência da FIFA, e já
sabia que estavam comprando votos na eleição para o novo presidente, no
mundo todo. Eles planejaram comprar 20 votos. Porque quando você vai a
países como Quênia ou qualquer país do leste da África, 50 mil dólares, é
uma quantidade imensa de dinheiro. Um homem na África poderia garantir a
segurança de sua família por 50 mil dólares. Eles compraram votos até em
países da União Soviética. Eles gastaram 1 milhão de dólares. Essa eleição
abriu as portas para a movimentação de outros negócios envolvendo altas
quantias de dinheiro. João Havelange trouxe muito dinheiro para a FIFA
porque ele abriu as portas para uma grande soma de dinheiro. Não há nada de
errado com isso, a princípio, contanto que você utilize o dinheiro de forma
apropriada.
RESENHANDO – Qual a maneira apropriada de usar esse dinheiro?
D.Y. – Um exemplo de como realmente eles não usaram o dinheiro de forma
correta, quando eu estava no Rio para pesquisar sobre o livro que você
citou, andei pelo parque do Flamengo e havia garotos de cinco a 20 anos
jogando futebol. Eu procurava por um homem que iria entrevistar, que não
consigo lembrar o nome agora, um jogador profissional que se machucou e não
podia mais jogar, mas sempre teve o sonho de ajudar aos jovens carentes e se
dedicava ao trabalho com jovens carentes. Então, ele fundou uma “escolinha”
de futebol, gratuita, para jovens da favela. Ele foi tremendamente
bem-sucedido nisso. Essa escola tinha níveis, como na escola, e ele tinha os
garotos progredindo. O homem, então, fotografou alunos que viraram
profissionais famosos. E eles jogavam com uma bola muito velha, cheia de
papel, tinham camisetas, doadas, somente para dias de jogo. Esse homem ele
foi até o Ricardo Teixeira (presidente da Confederação brasileira de Futebol
– CBF) e disse: “eu produzi todos esses jovens, que se tornaram bons e
trouxeram crédito ao nome do nosso país e não recebo nada... nem bolas, nem
equipamentos... nada!”, e a CBF recebe milhões de dólares. Teixeira, que
estava embolsando dinheiro, tanto que não cabia mais em seus bolsos, disse
ao jogador que mantinha a escolinha: “não, eu não posso ajudá-lo!”. Essa é
apenas uma das histórias sobre Ricardo Teixeira.
RESENHANDO – Mas em um livro inteiro sobre futebol, existem outras...
D.Y. – De fato. O Brasil estava jogando nas classificatórias da Copa
contra a Colômbia ou Uruguai, e só as duas melhores continuariam e Teixeira
foi ver o homem que dirigia a Federação do Equador para ver quais eram as
chances deles contra o Brasil. E a única vantagem deles era jogar na
altitude. E Ricardo Teixeira disse: “ajudaria se eu desse dinheiro?”. E o
equatoriano disse: “quanto dinheiro você pretende me dar?”, ao que ele
respondeu: “25 mil dólares”, que é muito dinheiro no Equador, mas o
equatoriano disse que isso não ajudaria muito, mas 50 mil ajudaria muito
mais. Então, eles mudaram o local da partida e o jogo não foi realizado na
altitude.
RESENHANDO – O tráfico e o uso de drogas são o tema de seu livro “Aliança
Profana”. Por que o cartel das drogas tem tanta influência na América
Latina?
D.Y. – A América culpa a Colômbia e a Bolívia pelo alto número de
viciados em drogas, mas esse problema não existe se houverem consumidores.
Entrevistei chefões do tráfico enquanto escrevia esse livro e concluí que
eles não se importam com as conseqüências das drogas que vendem, não têm
essa moralidade. Quando tem a ver com a família deles, aí sim, são bem
moralistas, já que ninguém se droga. Eles, que comandam os negócios, também
não podem se drogar. Apesar da grande quantia de dinheiro que possuem, são
obrigados a viver discretamente para não chamar a atenção. Afinal, fazem
algo ilegal.
RESENHANDO – Nesse contexto, a guerra contra as drogas pode ser vencida?
D.Y. – Para mim, a guerra contra as drogas não pode ser vencida. Pelo
menos, não pelas políticas que estão sendo aplicadas no mundo. O único meio
de vencer a guerra é legalizar todas as drogas.
RESENHANDO – De que forma a legalização das drogas pode ser o caminho?
D.Y. – Quando o álcool era proibido nos Estados Unidos, as pessoas
gostavam da proibição porque as pessoas conseguiam a bebida a qualquer hora.
Quando legalizado, ficou muito mais difícil de comprar. “Até o Fim do
Mundo” é um livro dedicado a todos aqueles que estão perdendo para a
luta contra as drogas. Não estou dizendo que as pessoas devem sair às ruas
vendendo drogas livremente, porque sabemos os danos que ela pode causar,
tanto para as pessoas quanto para a economia. Esse dinheiro poderia
construir escolas públicas, hospitais, etc.
RESENHANDO – Em seu livro “Aliança Profana”, o senhor faz uma minuciosa
investigação sobre a infiltração terrorista em diversas esferas
governamentais que liga tragédias que marcaram a história recente do mundo.
Ainda existe a possibilidade do mundo, hoje, viver em paz?
D.Y. – Como poderia haver paz? No Oriente Médio, a chave para a paz
serão os palestinos. E isso só será resolvido quando o governo israelesnse
for maduro o suficiente para dar aos palestinos ao menos uma parte de seu
território de volta a eles. Em um mundo perfeito, eles voltariam a 1967.
Para haver paz, os israelenses precisam devolver essas terras. Veja, o Osama
Bin Laden também é um problema gigante. Ele quer tirar os americanos da
Arábia Saudita, mas ele prejudica a Palestina. Nenhum líder palestino nunca
falou com ele, mas todos associam seus atos e ataques aos palestinos. Logo,
Osama Bin Laden só prejudica a imagem dos palestinos. A situação exige
governos maduros e um presidente americano inteligente, tipo de gente que
não se encontra na casa Branca há algum tempo.
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