|
“Precisamos
desenvolver mecanismos que tornem o investimento no cinema brasileiro um bom
negócio financeiro.” - Caio Vecchio
Por: Mary Ellen Farias dos
Santos
Em dezembro de 2009
Em entrevista ao Resenhando.com o diretor Caio Vecchio
comenta detalhes sobre seu primeiro filme, Um Homem Qualquer, sobre o
cenário cinematográfico e o que está lendo atualmente.
Confira!
O entrevistado do R.G. de dezembro é o diretor de uma
tragicomédia metropolitana que discute o que realmente importa, o que não
importa e o que é relativo. Caio Vecchio, diretor de Um Homem Qualquer,
seu primeiro filme, com previsão de
lançamento para o primeiro semestre de 2010, fala ao Resenhando.com
sobre o processo de produção deste lançamento nacional, além de falar da
importância do cinema na sociedade e seus planos dentro do cenário
cinematográfico para até 2011.
O diretor:
Estudou Cinema na FAAP, em São Paulo. Iniciou a carreira em 1996, como
assistente de produção do filme Cronicamente Inviável, de Sérgio Bianchi.
Trabalhou como assistente de direção e produção em inúmeros
curtas-metragens, documentários e séries para a TV. Dirigiu os curtas
Metástase (2002), Keró (documentário, 2003) e Amor de Mula (2004). Para a
TV, dirigiu o documentário Catástrofe de Caraguá (2008). Um Homem Qualquer é
seu primeiro longa-metragem.
RESENHANDO – Comente um pouco sobre o filme “Um homem qualquer”.
CAIO VECCHIO - É um filme que fala sobre o drama de um homem que se
encontra perdido e sem rumo. Além disso, ele está desempregado, sua companheira terminou o
relacionamento com ele e, por isso, está pensando em se matar. Nesse momento de
desespero, Jonas (Eriberto Leão) questiona os dogmas religiosos que aprendeu
durante a vida. Muitas coisas tidas como certas passam a virar dúvidas e ele
vai em busca de respostas.
RESENHANDO - Na sua opinião, qual foi o momento mais marcante na produção do
filme?
CAIO VECCHIO - Nas cenas em que Isy (Carlos Vereza) contracena com Jonas
no abrigo para moradores de rua. No final de cada take a equipe aplaudia a
atuação dos dois. Foi emocionante, mas acho que o momento mais marcante foi
depois da gravação da última cena. Depois de muitas dificuldades, havíamos
acabado uma etapa importante - as quatro semanas de gravação - e nos abraçamos e
comemoramos juntos no bar da Rua Augusta onde gravamos as cenas de Tico (Norival
Rizzo) sequestrando o gringo (Javier).
RESENHANDO - O que o público pode esperar de "Um homem qualquer"?
CAIO VECCHIO - Uma identificação muito grande. Acho que todos passam por
momentos em que a vida parece que não esta dando certo. Momentos de grande
questionamento sobre o sentido da vida. Por tratar de temas
existenciais, o filme agrada a todos os públicos. O amor, a política e a
religião... os caminhos para se questionar a realidade... a dificuldade de
ser feliz. Acho que outro diferencial está no fato de tratar alguns
questionamentos básicos à Instituição Igreja que poucas vezes são citados no
cinema: a invenção do pecado, a divinização do Jesus crucificado e não do
Jesus redentor, a eterna dúvida da origem do homem, o conflito do Deus
vingativo do antigo testamento ("olho por olho, dente por dente") com o Deus
amoroso do novo testamento.
RESENHANDO - Como foi dirigir atores brasileiros importantes como Carlos
Vereza, Eriberto Leão, Nanda Costa, Pedro Neschling e Norival Rizzo?
CAIO VECCHIO - Foi muito tranquilo... uma harmonia muito grande no set.
Até hoje nós somos grandes amigos. Estava muito ansioso antes do início das
filmagens. Nunca imaginei que teria atores tão talentosos e renomados.
Acontece que eles gostaram do roteiro e se dispuseram a entrar nesse
processo coletivo de realização, que é o cinema. Cada um com sua forma de
interpretar, trouxe para o filme uma carga dramática fantástica e fez o
filme criar "corpo". Mesclando essa nova safra de atores - Eriberto Leão,
Nanda Costa e Pedro Neschling com atores mais experientes como Carlos Vereza
e Norival Rizzo, conseguimos fazer um belo filme!
RESENHANDO - "Um homem qualquer" é uma tragicomédia metropolitana que
discute o que realmente importa, o que não importa, e o que é relativo. Como
esse assunto é tratado na película?
CAIO VECCHIO - O filme trata basicamente dessa busca por respostas, por
verdades que nem sempre são absolutas, da busca de si mesmo. Mas trata desse
tema com muito amor e humor, por isso se trata de uma tragicomédia. Nela os
dramas são apresentados de forma leve e despretensiosa. É como se o filme
desse risada dele mesmo.
RESENHANDO - Como você analisa o cenário das produções cinematográficas
brasileiras dos últimos anos?
CAIO VECCHIO - Acho que em termos de qualidade técnica houve uma melhora
significativa... Temos bons profissionais e bons equipamentos. O que precisa
ser desenvolvido é a indústria do cinema: uma indústria constante e
sustentável. Os profissionais precisam de garantias para se dedicarem ao
trabalho com mais segurança. Precisamos desenvolver mecanismos que tornem o
investimento no cinema brasileiro um bom negócio financeiro. O empresário
precisa ver atrativos de retorno financeiro no investimento. Não podemos
depender eternamente de subsídios fiscais e os filmes que atingirem o grande
público precisam começar a andar com as próprias pernas...
RESENHANDO - Tendo em vista que o Resenhando é um site cultural e publica
resenhas de livros, nós queremos saber se você gosta de ler. Há alguma obra
que tenha lido e gostado? Qual? Por que?
CAIO VECCHIO - Gosto muito de ler assuntos ligados a arqueologia antiga.
Pesquiso muito as descobertas recentes, trechos de manuscritos antigos e
tento traçar um paralelo com a Bíblia. Não vejo a Bíblia unicamente como um
livro espiritual e sim com uma coletânea de livros (como biblioteca) que
contam a história da origem da humanidade. Entretanto as religiões
soberanas de suas épocas escolheram os textos de acordo com seus interesses.
Os canônicos foram aceitos e passados para outras gerações e os apócrifos
foram tidos como farsas e excluídos da história. A partir dos textos
originais (pelo menos até que sejam descobertos outros mais antigos) que
foram muito alterados no decorrer do tempo eu busco interpretar e desvendar
passagens do nosso longínquo passado.
RESENHANDO - O que está lendo atualmente?
CAIO VECCHIO - Nesse momento particularmente estou lendo "A epopeia
de Gilgamesh", da Editora Martins Fontes. É talvez a história mais antiga
registrada na forma escrita pelos Sumérios em cita, pela primeira vez, o caso
do dilúvio. Eu fico fascinado!
RESENHANDO - O que o cinema representa na sua vida?
CAIO VECCHIO - O cinema é uma forma de atuação social. Eu gosto muito de
trabalhar com histórias próprias e que tratem de questionamentos que levam a
mudanças individuais e coletivas. Pelo menos é o que eu tento. Acho que
precisamos nos reinventar como indivíduos e como nação. Acredito que precisamos
fazer cinema para crianças, intelectuais, para os questionadores e para o
grande público. Não é a toa que a indústria cinematográfica do Estados
Unidos é uma das mais
importantes. Assim como o cinema foi usado nas últimas
décadas para vender cigarros e bebidas, jeans, carros luxuosos, justificar
guerras e abusos políticos, também pode ser usado para plantar sementes de
questionamentos que possam levar a construção de um país e de um mundo
melhor.
RESENHANDO - Já tem planos na carreira de diretor cinematográfico?
Comente.
CAIO VECCHIO - Vou dirigir um curta metragem chamado "Gogó da Ema
Futebol Clube" em fevereiro. É um projeto infanto-juvenil sobre um time de
garotos de 10 a 12 anos que está na última colocação de um campeonato.
Também já tenho mais dois roteiros de longas escritos. As coisas não são tão
rápidas como planejamos. Caso tudo dê certo, estarei gravando meu próximo
longa metragem em 2011. |
|