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“Duvido muito que uma tradução possa transformar um ‘mau’ livro num ‘bom’
livro, mas o contrário é bem possível”. - Luiz Marcondes
Por:
Helder Miranda
Em janeiro de 2010
Blá-blá-blá Cibernético: Twitteiro, escritor de primeira viagem e
tradutor de uma famosa revista sobre música fala sobre os personagens que
cria em torno de si mesmo, lista as cinco canções mais importantes de sua
vida e muito mais.
A entrevista do mês começou de maneira inusitada, o que me fez pensar que
talvez a abordagem, em um tempo completamente informatizado, pode (e deve)
ser mais rápida, sem desmerecer o trabalho dos assessores de imprensa. Luiz
Marcondes, escritor principiante, divulgava que responderia perguntas feitas
a ele no Formspring, site de perguntas e respostas ligadas ao Twitter.
Juro que procurei os diálogos que sucederam a partir daí, como não
encontrei, segue uma reconstituição, meia boca, com menos que os 140
caracteres permitidos pelo Twitter: “@luizmarcondes, Já que vai responder no
Formspring, me dá uma entrevista para o site cultural Resenhando?”. “@heldermm
Claro! Manda as perguntas!”.
A partir daí, uma série de e-mails formaram um pouco do que é o entrevistado
do mês. Mais do que um escritor de primeira viagem que tem o objetivo de
divulgar o livro de contos A Fase Azul, Marcondes comprovou que tem
maturidade literária, mostrando, assim, que não é tão estreante assim. A
vida, também, o assinala: foi redator e acumula passagens em multinacionais
como Motorola, Telefônica e Volkswagen, mas vai além disso.
Formado em Comunicação Social pela ESPM (Escola Superior de Propaganda e
Marketing), teve a ousadia de apresentar, pela internet, um programa cuja
temática era arte e cultura (http://www.youtube.com/loungecultural). Hoje,
traduz uma famosa revista sobre música que é ícone no exterior. Também é
colunista de duas revistas mensais online, Results On e Pix.
RESENHANDO – O que é luxo e lixo na literatura da atualidade?
LUIZ MARCONDES – Da atualidade, a única autora que li foi a Mayra
Dias Gomes, mas ela não é nem luxo, nem lixo: é uma moça inteligente,
talentosa. Creio que ainda está longe de desenvolver todo seu potencial – o
que, aliás, deve ser até natural, considerando que ela mal completou 22
anos. Do lixo, não sei, fico longe desse tipo de coisa, percebo pelo cheiro.
Tem gente que gosta de chafurdar nisso aí, adora falar mal, se lambuzar na
merda, eu não. Se está fedendo, saio de perto. É só.
RESENHANDO – Sua imagem foge do estereótipo que as pessoas ainda têm de
escritores – geralmente senhores ou nerds. Isso interfere em sua
credibilidade como escritor?
LM – Clara Averbuck não é nada disso, é uma mulher toda tatuada e, que
eu saiba, não é nerd. Fernanda Young também não é nerd. Mayra Dias Gomes é
uma gata e super roqueira e tal. Carol Teixeira é linda, deslumbrante,
tatuada e gostosa pra caralho. O mais perto de um senhor, que eu saiba,
talvez seja o Mirisola. Agora... Credibilidade... Nem sei, lancei o livro em
13 de novembro! Não sei se tenho credibilidade. Tenho? Não sei.
RESENHANDO – Explique o que é “a fase azul”?
LM – Uma fase depressiva, de paixões idealizadas, impossíveis. De muita
solidão do pior e mais verdadeiro tipo, a existencial, quando se está
sozinho, mesmo cercado de gente. Não é pra qualquer um, meu amigo. Nem eu
sei como escapei. Às vezes me sinto como um sobrevivente de alguma guerra,
mas o conflito é interior, sempre.
RESENHANDO – Por que você, como publicitário, resolveu se lançar na
literatura?
LM – Eu escrevo desde os dez anos. Publicitário veio depois. Eu sempre
inventei histórias. Comecei a escrever “a sério” (ou seja, com pretensões de
ser lido) aos 22 anos, no último ano da faculdade de publicidade. Eu não
estou nem aí pra publicidade, mas tenho contas a pagar, como (quase) todo
mundo.
RESENHANDO – Quais as diferenças e semelhanças entre as criações
publicitária e literária?
LM – São imensas! Criar para um cliente, que está pagando, criar para um
produto, marca, serviço. Criar para um público bem definido. Isso é
publicidade. Criação literária: o público sou eu. A motivação vem do
subconsciente, ou da alma. Nem seu sei por que escolho escrever isto e não
aquilo. Quem manda é minha cabeça, não eu, eis aí um paradoxo interessante!
RESENHANDO – Dos contos de seu livro, qual considera o melhor?
LM – O último. Porque ele tem suspense, fala de temas existenciais
interessantes sem encher o saco do leitor e prende a atenção do começo ao
fim (dizem). Além disso, só o desfecho dele, se tomado isoladamente, já é
uma obra-prima, coisa de gente grande, nem eu sei como cheguei àquilo,
sinceramente. Aponta talvez para o escritor que virei a ser nas próximas
décadas, se Deus permitir.
RESENHANDO – Em que você se inspirou para criar os personagens e
situações do livro, como o sujeito que acredita que sua vida está sendo
encenada, uma vila no deserto em que só vivem mulheres grávidas e a empresa
que vende morte e ressurreição?
LM – As mulheres grávidas vi num videoclipe, nem lembro de que banda, em
2003, mais ou menos. O sujeito que acredita que sua vida está sendo
encenada... Não sei de onde saiu isso, mas depois descobri que existe um
episódio de Twilight Zone com um tema parecido, embora bem mais
simplificado. A empresa que vende morte e ressurreição... bom, eu penso
nisso o tempo todo. Vida, morte, ressurreição (ressurreição mesmo em vida,
isto é, renovação de energias e de propósitos). Acho que são temas básicos
para um ser humano, uma vez que a nossa vida um dia acaba. Penso nisso o
tempo todo e me espanta muito que mais gente não fale sobre esses temas,
acho o básico do básico da condição humana.
RESENHANDO - Você tem algum ritual antes de começar a escrever?
LM – Tenho: viver. Só isso. Escrevo dentro da minha cabeça, não na hora
que sento na frente do micro; nessa hora, só ponho no papel, ou melhor, na
tela. Já escrevi contos no ônibus, indo pro trabalho. É só ir pensando.
RESENHANDO - O que diferencia o homem Luiz Marcondes, do personagem que
se mostra na internet?
LM – Ah, se eu contar perde a graça. Digamos apenas que o homem é mil
vezes mais doce e gentil que a “persona” ou personagem. E fisicamente mais
bonito também (risos).
RESENHANDO - O que faz você querer escrever mais, e o que trava seu
processo criativo?
LM – Quando escrevo sou tomado por isso, pela “Mão do Diabo”, que desce
sobre mim. Nem paro pra pensar, é algo necessário. Essa pergunta pra mim é a
mais difícil, não consigo encarar a questão com objetividade, nem quero.
Paro por aqui. Sorry.
RESENHANDO – Você declarou que se considera um solitário e seu livro é
sobre a relação homem-mulher e paixões não correspondidas. Também fala de
depressão e solidão numa cidade gigantesca, como São Paulo. Como viver em
uma metrópole interfere na maneira de pensar e agir das pessoas?
LM – Não sei, mas já morei num lugar muito menor, na praia, e aqui em
São Paulo as pessoas têm neuroses mais interessantes. Só isso.
RESENHANDO – Por que Jorge Luis Borges é seu autor preferido?
LM – Não sei exatamente, mas foi o único escritor até hoje que me deu
vontade de ler a obra toda e li mesmo, todos os contos e boa parte dos
ensaios. Ele me transmite superioridade espiritual quando escreve, não é um
autor de picuinhas nem mágoas, nem raivinhas. Quando fala de literatura,
fala com amor. Quando escreve, é distante. Só há uma cena de sexo em toda a
obra dele, que me lembre, apenas mencionada, no conto Ulrica. Esse
distanciamento me encanta. É intelectual, quase espiritual.
RESENHANDO – No blog de seu livro (www.afaseazul.blogspot.com), há um
conto dividido em vários textos sobre os anos 90. O que essa década
representa para você?
LM – Uma década cansativa, uma década perdida, de tentar montar bandas
que não deram em nada, uma década em que perdi muito tempo deprimido, bêbado
ou dormindo. A diferença é que agora estou acordado, em mais de um sentido.
É doloroso estar lúcido e de pé, mas é o único jeito. A consciência é um
monstro que uma vez desperto, não volta mais a dormir. O lado bom da década
de 90 ficou no seu início, tempo de faculdade. Época divertida. A partir de
95, a coisa ficou preta, ou melhor azul, porque meu pai faleceu etc. e tal.
Há um conto sobre isso, também. Ele se chama Um Minuto de Silêncio.
RESENHANDO – Como faz para conciliar os quadrinhos, a música, a escrita,
e as atividades pela internet?
LM – Quadrinhos é coisa que tem mais a ver com minha adolescência, não
leio mais hoje em dia. Música, escuto o tempo todo, é meu suprimento de
oxigênio. A escrita é menos frequente, não sou prolífico, levei 14 anos pra
escrever o livro. O problema mesmo são as atividades na internet, um vício,
uma perda de tempo divertida.
RESENHANDO – Falando em internet, por que seu programa acabou? Pretende
voltar com ele?
LM – Acabou por falta de patrocínio. Adoraria continuar, se tivesse
patrocinador.
RESENHANDO – Na revista em que você trabalha, em vez de traduzir
reportagens, ou artigos, não seria mais interessante publicar reportagens
elaboradas por aqui?
LM – Também tem matérias elaboradas aqui, mas preferia que fosse inteira
traduzida de ponta a ponta, pra eu poder ganhar mais.
RESENHANDO – Ter na capa Roberto Carlos e Ivete Sangalo não foram
escolhas óbvias demais?
LM – Eu não tenho nada a ver com a linha editorial da revista. Mas Ok,
se pudesse mudar algo: colocaria a Ivete Sangalo, porém pelada. E o Rei é o
Rei, sei lá. Pra mim, está legal.
RESENHANDO – Em sua opinião, o que pensa do nível das traduções que são
feitas de best-sellers internacionais?
LM – Graças a Deus, não tenho lido esse tipo de coisa, acabo de ler
O
Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar. É chato, muito chato, mas é bom. Se é
que me entende.
RESENHANDO – Dizem que Paulo Coelho é bem visto pela crítica
internacional porque os tradutores são bons. O que tem a dizer sobre isso?
LM – Desejo sucesso a ele, prazer a seus leitores; sigo lendo o que bem
entendo, não acho o assunto relevante.
RESENHANDO – Nesse sentido, a tradução pode elevar, ou destruir, um
livro?
LM – Duvido muito que uma tradução possa transformar um "mau" livro num
"bom" livro, mas o contrário é bem possível.
RESENHANDO – Se fosse fazer uma lista dos cinco cantores/bandas, e das
cinco músicas favoritas, quais seriam?
LM – Jane´s Addiction, “Three Days”. Soundgarden, “Room a Thousand Years
Wide”. Queen, “Under Pressure”. David Bowie, “Sweet Head”. Red Hot Chili
Peppers, “Give It Away”. |
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