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 “Existe
uma ligação daquilo em que você está escrevendo com sua visão de mundo.
Quanto mais eu consigo colocar elementos da minha vida ou da forma em que
vejo a vida nos personagens, mais eles parecem reais para mim.” - Bruno
Bispo
“Todo mundo quando se apresenta diz: sou médico ou sou engenheiro e você? Eu
respondo: Eu desenho. Sim, mas você faz o quê? Sou professor de história em
quadrinhos! Trabalhar como desenhista é muito complicado." - Victor Freundt
Por: Tatiane Matheus
Em março de 2010
Uma conversa aberta com os quadrinistas Bruno Bispo e Victor Freundt,
criadores da minissérie de terror SEIS 6 e do site
www.arquivosbaldo.wordpress.com. Confira a entrevista!
Eles
poderiam ser mais um daqueles caras que amam histórias em quadrinhos e que
deixam suas ideias de HQ’s inacabadas em uma gaveta. Bruno Bispo e
Victor Freundt tiveram coragem para transformar suas histórias em
realidade. Em março, Bispo e Freundt publicaram mais uma HQ na Europa,
estrearam uma página de HQ de humor em uma revista paulistana e colocaram
mais quatro HQ’s curtas no site. Em breve, irão lançar um novo site para
agrupar todas as HQ’s que estão produzindo.
Tudo começou no dia 6 de junho de 2009. Neste dia, o detetive Miguel Matoso
“saiu da gaveta” para mais de 95 mil pessoas que acessaram o site
www.arquivosbaldo.wordpress.com. Durante seis meses, os leitores da
dupla, até então desconhecida, acompanharam a minissérie de terror SEIS6.
Dois meses depois da estreia na web, foram convidados a publicarem
uma HQ na revista portuguesa, Zona Negra. Para a surpresa daqueles
que acreditavam que a dupla só fazia terror, em março, publicaram uma HQ de
temática infantil na Revista Zona Fantástica, de Portugal e outra de
humor na Revista Young.
Os quadrinistas: Bruno Bispo, formado em Artes Plásticas, trabalha
como professor de Artes em escolas estaduais e municipais em Santos e no
Guarujá, litoral de São Paulo. Já Victor Freundt, formado em Publicidade e
Propaganda, trabalha como professor de HQ na Escola Oficina, em Santos.
RESENHANDO - Quando vocês começaram a pensar em fazer quadrinhos?
VICTOR FREUNDT - Com 11 anos já lia muito quadrinhos e tive um clique de
que poderia contar histórias com arte. Enfim, poderia transformar imagem em
história. Entre 1999 e 2000, vi que era o que eu queria como profissão.
BRUNO BISPO - Minha mãe me dava HQ’s quando eu era criança, pois
acreditava que estimulava a leitura. Quando era pequeno gostava de ler e
desenhar. Ao ler HQ’s com a narrativa parecida com a de um filme, passei a
me interessar na estrutura necessária para contar uma história.
RESENHANDO - Apesar de gostar desde pequenos de fazer HQs, vocês não
buscaram isso como uma profissão na hora de prestar vestibular. Por quê?
VF - Pensei muito em fazer Artes Plásticas, mas minha mãe achava que
Publicidade ia dar mais dinheiro. Pensei que iria aprender a fazer
ilustração e criação de embalagem, mas aprendi muito sobre marketing e
produção de eventos. Tinha de aprender a vender merda como se fosse Toddy!
Aí decidi voltar para os quadrinhos e fiz vários cursos.
BB - Prestei jornalismo porque gostava de escrever e de criar
histórias. Só que quando cheguei na Cásper (Faculdade Cásper Libero),
vi que aquilo não era o que eu queria para minha vida. Então fiz Artes
Plásticas. Quando terminei a faculdade, fiz um concurso para professor e
passei. O primeiro ano foi bem complicado. Eu entendia os alunos
bagunceiros, pois fui um. Mas isso não facilitava para eu dar as aulas.
RESENHANDO: Seus professores foram vingados?
BB - Acho que sim. Paguei meu carma. (Freundt dá uma longa gargalhada).
Dá aula também é uma forma de arte. É algo meio teatral. Convivo com pessoas
de idades bem diferentes e observar como elas agem no dia-a-dia me ajuda na
hora de escrever, pois dá para perceber as nuances do ser humano.
RESENHANDO:
Muitos desistem dos quadrinhos por ser uma área muito difícil. Como é o
mercado de trabalho?
BB - Há uma piada boa que diz: “quando eu era mais novo, eu tinha 15
amigos desenhistas, agora todos eles são advogados”.
VF - Meu amigo João Vitor, que fazia HQ’s comigo, hoje é advogado.
Quando encontrei com ele há poucos dias, disse: “estou brincando de ter uma
profissão e você de terno e gravata!” Todo mundo quando se apresenta diz sou
médico ou sou engenheiro e você? Eu respondo: Eu desenho. Sim, mas você faz
o quê? Sou professor de história em quadrinhos! Trabalhar como desenhista é
muito complicado.
RESENHANDO: Como se conheceram?
VF - Na casa do nosso professor de quadrinhos, o Junior, há uns dez
anos. Muitos personagens da SEIS6 nós criamos naquela época.
RESENHANDO: É muito difícil trabalhar juntos?
VF - É um casamento sem sexo e aliança. Ainda bem! (Freundt dá outra
gragalhada)
BB - Tem momentos difíceis na hora da criação da história e muita
cobrança na hora da montagem, mas sempre buscando o melhor produto final.
Ajuda muito sermos amigos nessa hora, pois sabemos que podemos contar um com
o outro. Mesmo quando a tensão aperta não levamos isso para o lado pessoal,
pois é tudo para um bem comum.
RESENHANDO: Victor, seu traço de desenho é bem característico.
Principalmente, a maneira que você desenha os narizes de seus personagens..
VF - Me identifico com a luz e sombra do expressionismo. Conheço muitos
artistas, mas tive algumas crises com o meu desenho até achar algo que desse
uma identidade para ele.. Um exemplo são os narizes e queixos. Certa vez vi
o trabalho de uns grafiteiros que faziam uns narizes engraçados. Gostei e
também comecei a brincar com isso. Quando comecei a fazer narizes fálicos e
queixos que pareciam uma bunda, muita gente detestou. Mas achei super legal.
RESENHANDO: Bruno, quem acompanha o seu trabalho, percebe que os
personagens que você escreve sempre estão questionando algo. Isso tem a ver
com seus pensamentos?
BB - Não é algo planejado. A história vai se formando na medida em que
vou escrevendo e conversando com o Victor. A primeira pergunta é: o que eu
quero contar? Depois vêm as imagens que usaremos para contar essa história.
A primeira ideia é como se fosse um sonho, algo abstrato. Existe uma ligação
daquilo em que você está escrevendo com sua visão de mundo. Quanto mais eu
consigo colocar elementos da minha vida ou da forma em que vejo a vida nos
personagens, mais eles parecem reais para mim.
RESENHANDO: Como vocês conseguem administrar o tempo de vocês para fazer
as HQs?
VF - Desenhar não é um dom divino, é preciso estudar, pois nada no
desenho é feito por acaso. É um trabalho que consome muitas horas. Uma
página desenhada e finalizada demora de 7 a 12 horas. À tarde faço os
estudos que tenho de fazer e de madrugada desenho.
BB - Comecei a estabelecer horários dentro da carga horária do meu
trabalho para que eu possa me dedicar aos quadrinhos. Tiro os domingos de
manhã para escrever. Na época que estávamos fazendo a SEIS6 cheguei a virar
muitas madrugadas de finais de semana nas páginas da HQ.
RESENHANDO: A internet é um meio importante para divulgar a arte em
geral?
BB - Somente quando montamos o site na internet que começamos a receber
oportunidades de participar de outros projetos, como exposições e workshops
além de convites para colaborar em revistas independentes. A internet também
expande o conceito criado nos quadrinhos, podendo conter outros materiais
como vídeos e áudios que complementam a experiência proposta pela HQ.
RESENHANDO:
Quais artistas influenciaram o seu trabalho?
VF - Frank Miller em Sin City é genial. O traço de Mike
Mignola, no Hellboy, é muito interessante. O Lourenço
Mutarelli tem um jeito muito especial de conduzir a arte dele, como
também os argentinos Eduardo Rizzo e o Alberto Breccia. Eles
trabalham muito bem a luz e sombra expressionista.
BB - Acho que o primeiro trabalho que me chamou a atenção para o
roteiro foi o Asilo Arkham, do Grant Morrison, até hoje minha
maior influência de roteiro. Outro criador que considero genial é o Alan
Moore. Watchmen, V de Vingança e o Monstro do pântano
mudaram a forma como eu via a criação e o roteiro. Gosto muito dos livros do
Neil Gaiman também. Hoje, procuro comprar HQ’s dependendo de quem as
escreve, não importando muito o personagem da história, mas sim quem está
por trás do roteiro.
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