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“Não
escreveria nunca, se não fosse um leitor apaixonado”. - Márcio Vassallo
Por: Mary Ellen Farias dos
Santos
Em julho de 2010
Histórias fascinantes escritas diretamente para os leitores mirins.
Conheça melhor o escritor e jornalista Márcio Vassallo.
Um jornalista, poeta e escritor de obras infantis seduzido pelo universo da
literatura infantil. O AMOR pela escrita é (definitivamente) o "pó mágico"
de Márcio Vassallo. Com sabedoria, o autor utiliza tal ingrediente em
suas
histórias encantadoras e, assim, enobrece a todos que têm a oportunidade de
fazer parte de uma história criada por nossa entrevistado do mês de julho. Com tanta sensibilidade na escrita direcionada aos leitores
mirins, não há leitor que passe ileso (independentemente de idade) desta
escrita fascinante.
BIOGRAFIA:
Márcio Vassallo nasceu no Rio de Janeiro, no dia 18 de dezembro de 1967.
Jornalista e escritor, faz palestras e oficinas, há mais de dez anos, em
todas as regiões do Brasil. O autor já publicou livros como, A
Princesa Tiana e o Sapo Gazé, O Príncipe sem Sonhos, O Menino
da Chuva no Cabelo, Valentina e A Fada Afilhada e de
Mario Quintana, primeira biografia do poeta gaúcho, publicada dentro da
coleção Mestres da Literatura. Livros que foram selecionados para o Catálogo
de Autores Brasileiros da Feira do Livro de Bolonha, na Itália, pela
Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, seção brasileira do IBBY -
International Board on Books for Young People, órgão consultivo da Unesco.
Valentina também foi escolhido como um dos trinta melhores livros do
ano publicados no Brasil, pela Revista Crescer, e O Menino da
Chuva no Cabelo foi selecionado para o catálogo The White Ravens 2006,
organizado pela Biblioteca Internacional da Juventude de Munique, na
Alemanha, entre milhares de livros enviados de todo o mundo. Junto com a
escritora Maria Isabel Borja, organizou as coletâneas Valores para Viver
e O Livro dos Sentimentos, reunindo textos de alguns dos mais
importantes escritores da língua portuguesa, além de publicar o livro de
entrevistas Mães - o que elas têm a dizer sobre educação. Organizou e
selecionou a obra Para viver com poesia, antologia temática com
pensamentos de Mario Quintana, lançada em 2008. Seu último lançamento é o
livro Da minha praia até o Japão.
Vassallo foi repórter do Segundo Caderno, do jornal O Globo, e
do suplemento cultural Bis, da Tribuna da Imprensa, além de
colaborar como free lancer em resenhas, entrevistas, matérias e
outros textos para os cadernos de cultura dos jornais O Globo,
Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil e O Estado de S. Paulo.
Vassallo também escreveu textos encomendados pelas revistas Você S.A.,
da editora Abril; Crescer, da editora Globo; e
Leituras Compartilhadas, da Ong Leia Brasil. Além de criar e
editar ao longo de três anos o jornal literário Lector, entrevistando
alguns dos principais autores, editores, agentes literários, professores e
especialistas em educação e leitura do Brasil.
Atualmente, presta serviço de consultoria para autores e várias editoras do
país, avaliando projetos, originais e linhas editorais. É o jornalista
responsável pelo site da Agência Riff (www.agenciariff.com.br),
que representa, no Brasil e no exterior, alguns dos mais consagrados autores
brasileiros. A agência também representa os livros de Márcio Vassallo. (Fonte:
http://www.marciovassallo.com.br)
RESENHANDO - O que a literatura representa em sua vida?
MÁRCIO VASSALLO - Tudo o que inspira a minha vida me move para escrever,
e tudo o que me move para escrever inspira a minha vida. Eu poderia ser um
leitor apaixonado e nunca me tornar escritor, claro. Mas não escreveria
nunca, se não fosse um leitor apaixonado.
RESENHANDO
- Como surgiu a história de "Da minha praia até o Japão"?
M. S. - Tenho visto muitos pais apressados para deixar seus filhos
felizes, enchendo a vida das crianças de passeios espetaculares, presentes
cobiçados, viagens incríveis, olhando mais no relógio que nos olhos delas.
Acho que pressa não combina com felicidade. É claro que temos que correr
para trabalhar, é claro que o dia a dia é uma correria desembestada. Mas a
felicidade exige demora e calma amorosa. Era essa demora e essa calma que o
meu pai tinha comigo, quando defendíamos a praia de terríveis monstros
marinhos e cavávamos um buraco para cabermos dentro e chegarmos até o Japão.
Meu pai é oficial de Marinha. Passou a minha infância e a minha adolescência
viajando muito, e trabalhando mais do que um bocado, mas sempre teve
interesse e paixão por se espalhar no chão comigo e meus dois irmãos. E a
minha mãe também tem uma importância essencial nessa história. Afinal, foi
ela que me ensinou a contemplar beleza onde quase ninguém vê. Dedico esse
livro para ela. Meu pai sempre encheu o meu coração de fantasia. Mas se não
fosse pela minha mãe, se eu não tivesse aprendido a olhar, não teria me
tornado escritor.
RESENHANDO - Ainda sobre este lançamento editorial. Para um carioca, como
é escrever um livro infantil ambientado na praia?
M. S. - Antes de começar a escrever, não costumo pensar na geografia das
minhas histórias. Para mim, são os personagens que puxam os enredos, as
cenas, os ambientes, não o contrário.
RESENHANDO - O que diferencia "Da minha praia até o Japão" de seus outros
livros?
M. S. - Ainda não tinha escrito um livro na primeira pessoa, assim, tão
íntimo.
RESENHANDO - Fale um pouco sobre a questão da "educação para o
encantamento".
M. S. - Educar para o encantamento é ensinar aos outros a fazer suas
próprias escolhas e aprender a lidar com os próprios sentimentos de forma
leve, profunda, autêntica e inspiradora. Viver com encantamento no dia-a-dia
não é só um dom, uma vocação, um destino. Acima de tudo é uma escolha, uma
questão de educação. Há mais de dez anos, tenho conversado com públicos de
todas as regiões do Brasil, em palestras e oficinas, sobre essas e outras
tantas questões, e constato, de Norte a Sul do país, que esse é um tema cada
vez mais irresistível e cheio de desdobramentos. Aprender a parar, reparar e
se surpreender, sem pressa e sem cansaço, são passos essenciais na educação
para o encantamento. E, mais do que tudo, o que é essencial na educação para
o encantamento? Qual a serventia da beleza no dia a dia da gente? Como
apurar o olho para viver em estado de poesia? Tenho respondido perguntas dos
leitores sobre esse assunto, numa coluna, toda quinta-feira, no meu site
(www.marciovassallo.com.br).
RESENHANDO - Por que mergulhar no universo infantil? Por que esta
escolha?
M. S. - É o universo infantil que mergulha em mim. Gosto do olhar de
assombro, perplexidade e descoberta das crianças diante das coisas, dos
momentos, das pessoas, das cenas aparentemente mais simples e sem
importância. É esse olhar que mais seduz para escrever e para viver.
RESENHANDO - Você lia muito quando criança?
M. S. - Lia muitos gibis, nem tantos livros. Comecei a ler mais livros a
partir dos onze, doze anos. Mas passei a infância toda ouvindo histórias
maravilhosas das minhas avós, na hora de dormir. Meus pais também liam um
bocado para mim. Minha mãe desdobrava imagens no meu pensamento. Meu pai
fazia sonoplastias e fundos musicais para as cenas. O encantamento sempre
fez parte do meu dia a dia.
RESENHANDO
- Como e quando começou a escrever? O que escrevia?
M. S. - Escrevi a minha primeira história aos quatorze anos. Era uma
história de horror das mais horrorosas. Eu obrigava todo mundo a ler e a
gostar dela. As pessoas liam porque gostavam de mim, evidentemente. Acho que
o boca a boca desses meus leitores não foi tão forte. Meu primeiro livro eu
publiquei aos quinze anos. Os meus pais resolveram reunir as crônicas que eu
escrevia, nessa época, a maioria falando de futebol, e rodaram o livro numa
gráfica, por conta própria. Esse foi um gesto de bondade amorosa deles. Não
para exibir o filho, atender um capricho dele, ou investir no futuro do
garoto. Foi só para dar ainda mais poesia, encantamento e beleza na minha
vida. Depois, meu primeiro livro publicado no mercado foi A princesa
Tiana e o Sapo Gazé, pela Brinque-Book. Essa é a história de uma
princesa cansada dos príncipes e de um sapo metido a conquistador, que se
gaba com os amigos de fazer as lagartixas subirem pelas paredes.
RESENHANDO - Como é encontrar um personagem perdido na literatura
infantil?
M. S. - É como encontrar um amor. A gente só encontra quando não está
procurando por ele. Mas é preciso ficar de coração arreganhado para isso. E
saber o que fazer com ele depois.
RESENHANDO - Qual a sua dica para os pais que pretendem tornar seus
filhos em bons leitores? Como balancear escola, videogame, internet e
leitura?
M. S. - Olha, não transformar o livro em dever de casa é um passo
importante. Ler não é dever. Não existe suspiro obrigatório. Antes de
despertar o encantamento pela leitura em alguém, a gente precisa se encantar
com os livros, de verdade, não só para encantar leitores. Por isso, não
tente dizer para os seus filhos que ler é importante para o futuro deles.
Não acredito nessa história de leitor do futuro. Para mim, quem lê o futuro
é cartomante. A formação de leitores é essencial. Mas não devemos achar que
uma criança lê hoje a Sylvia Orthof, ou a Christiane Griebel, só para um dia
ler o Guimarães Rosa, ou o Machado de Assis. A literatura considerada
infantil (que pode ser lida por crianças e adultos) não é um mero passo para
uma verdadeira literatura, que um dia vai chegar. É isso o que eu penso.
Podemos balancear escola, videogame, internet e leitura, sim, desde que a
leitura seja apresentada de uma forma sedutora, e não entre no cotidiano das
crianças ou dos adolescentes como uma tarefa, um dever, uma obrigação para
que eles sejam alguém na vida. As crianças e os jovens não precisam ser
alguém na vida. Eles já são alguém.
RESENHANDO - Na hora da leitura, qual o seu estilo preferido?
M. S. - Histórias e poemas deliciosos, apaixonantes, belos e
perturbadores. Se um texto não me tira o ar, se não me clareia um
sentimento, se não me amansa o coração, se não me surpreende, se não me
encanta, se não me lateja o corpo, se não me desembesta a alma, se não me
puxa, de alguma forma, é porque não mexeu comigo. Livros têm que mexer com a
gente, fazer a gente pensar, suspirar, se emocionar de todo modo.
RESENHANDO - Como você analisa o cenário editorial infantil brasileiro da
atualidade?
M. S. - Há livros maravilhosos publicados, mas a maioria dos lançamentos
ainda é bem ruim. As edições estão cada vez mais caprichadas e cuidadosas,
mas sinto falta de mais textos arrebatadores, emocionantes, originais,
realmente encantadores. Afinal, a literatura é o texto, a frase que nos
provoca um sobressalto, a palavra certa no momento inesperado, as
entrelinhas de uma cena, as brumas de uma personagem feita sob medida para
se espalhar na gente para sempre.
RESENHANDO - Entre os novos escritores de literatura infantil, qual nome
destaca? Por quê?
M. S. - Ah, eu destaco a Janaína Michalski, que é uma estrela da
literatura infantil brasileira. Ela tem um texto forte e macio que demora
dentro da gente. De fato, a Janaína é uma escritora brilhante. Seu livro de
estreia é um dos mais bonitos e mais líricos que eu já li até hoje. Espero
que ela já esteja escrevendo belezas novas. Bem, esse livro que eu recomendo
se chama Onde o sol não alcança, e foi publicado pela Nova Fronteira. Como
eu escrevo na quarta capa desse lançamento, mais do que contar a deliciosa
história da amizade entre duas meninas vizinhas, e de um muro que as
aproxima em vez de afastá-las, a Janaína atravessa fundo os sentimentos mais
simples e sublimes que vamos deixando de lado ao longo do tempo, por causa
das nossas pressas, dos nossos atropelos, das nossas perdas, dos nossos
medos, da nossa falta de reparo no que é realmente essencial.
PING-PONG
Gosto de: ouvir o riso mais desembestado do meu filho.
Detesto: gente que passa a frente de menino na fila.
Vivo por: um prazer irresistível.
Meus escritores favoritos são: Mario Quintana, Luis Fernando
Verissimo e Carlos Drummond de Andrade.
Escrevo por: uma vontade profunda de me aproximar das pessoas e de
mim mesmo, dos meus sentimentos, das minhas emoções, dos meus pensamentos.
Mensagem para o público: Fico bem feliz quando percebo que um leitor
encontrou nos meus livros um silêncio de sono tirado, um suspiro preso no
tempo, uma voz que ninguém ouvia, um reparo sem pressa, um sentimento que eu
nem imaginava que existia na história. Não escrevo para passar mensagens. Eu
escrevo para passar, e ficar, passar e ficar.
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