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A
história de Cristo contada de maneira diferente
Por: Gustavo Klein
Em junho de 2004
A Paixão de Cristo.
Essa história já é bem conhecida, né? Há dois mil anos ela é contada e, além
do mais, toda a programação da tevê, em época de Páscoa ou Natal é
recheada de filmes sobre Jesus Cristo. Martin Scorcese já fez um filme sobre
Cristo, também polêmico. Franco Zefirelli dirigiu Jesus de Nazaré. Todo
mundo, ou quase todo mundo, teve uma criação em que pelo menos noções de
religião foram passadas. Ninguém iria ao cinema só para saber como foram as
12 últimas horas de Cristo na Terra porque todo mundo já conhece a história.
Ela está na Bíblia. Por esse lado o marketing poderia até funcionar contra o
filme de Jesus no cinema. Há um ano, se eu te convidasse para ver um filme
de Jesus no cinema, você iria pensar duas vezes, achando que eu estava
querendo te levar para uma igreja mais tarde.
Chegando à questão do sucesso do filme nas bilheterias: tanto se falou sobre
o projeto nos últimos tempos! Pra começar, o próprio fato de um cara como o
Mel Gibson, que já ganhou Oscars, estar ligado ao projeto, já é
chamariz suficiente pra levar muita gente aos cinemas. Depois, o marketing
que foi feito não foi convencional, por meio de anúncios pagos em revistas,
mas funcionou muito bem, atiçando o lado mais fofoqueiro da pessoas, que
liam algo diferente sobre o que estava sendo feito e iam comentar com os
amigos, no trabalho, em casa, na escola.
E olhe que notícias não faltavam, elas chegavam toda semana. Há mais de um
ano eu já noticiava na coluna que escrevo no caderno AT Revista, do Jornal A
Tribuna, de Santos, que o filme seria falado em Aramaico e Grego, sem
legendas. É algo fora do convencional, gera comentários. Depois, a notícia
de que a produção ganharia legendas. Aí começaram a aparecer as notícias de
que lideranças judaicas teriam desaprovado o filme, que o Papa teria visto e
não teria gostado, depois que o Papa teria aprovado, depois o desmentido do
vaticano, depois a declaração do pai de Mel Gibson dizendo que acha os
judeus culpados, de fato, pela morte de Cristo... tudo isso somado foi
gerando uma expectativa absolutamente fora dos padrões.
A propaganda boca-a-boca funcionou e o cara que freqüenta cinema se sente
quase obrigado a assistir ao filme, para poder opinar ao discutir com os
amigos. Isso tudo independente dos méritos artísticos do filme. Não
importava se o filme fosse bom ou ruim, ele já estava destinado a ser um
sucesso comercial pela curiosidade que provocou. E tudo isso, claro, foi
intencionalmente direcionado pelo produtor e diretor Mel Gibson, que mesmo
sob todos os ataques sofridos nos últimos anos, fez questão de não se
defender e ainda ressaltar que a polêmica ficaria pior depois que o filme
estreasse.
Mesmo depois da estréia, as notícias continuam chegando: é o
casal que, na saída do cinema, foi preso depois que a discussão teológica
ficou violenta, é o pastor presbiteriano que morreu do coração ao ver o
filme, é a mulher americana que também morreu na sala de cinema... O
resultado? Mel investiu US$ 30 milhões de seu próprio dinheiro no filme. De
lucro seu, pessoal, já embolsou dez vezes mais, US$ 300 milhões. Isso mostra
ou não mostra esperteza?
Efeitos - O efeito especial tem que ser escravo da história e não o contrário. Ele tem
que ajudar o diretor a contar a história. E acho que, no caso específico de
A Paixão de Cristo, a maquiagem e a fotografia de fato ajudam Mel Gibson a
chegar ao seu objetivo, que era horrorizar o público, dar uma dimensão
humana e realista da carnificina e da selvageria que deve ter sido a
crucificação.
Alguém acha que, depois de ter sido obrigado a andar quilômetros carregando
um objeto pesado, no meio do deserto, e de ter sido torturado, Cristo
estaria tão limpinho quanto aparece em outros filmes do gênero?
Pelo menos esse objetivo de Mel Gibson atingiu: ele conta a história
exatamente do jeito que planejava, com toda a violência que ele acredita ter
sido a que, de fato, Cristo foi submetido. E ele faz o cidadão que ao cinema
sentir esse asco, esse nojo a todo o horror que está sendo mostrado na tela.
Mesmo assim eu percebi algumas sacadas legais da área dos efeitos especiais.
Se você prestar bem atenção vai ver que todos no filme são feios, são
apagados. Só Cristo parece bonito, quase celestial, mesmo durante o
sofrimento. Ah, sim, um detalhe, o diabo também aparece como um ser muito
bonito. Mel fez questão de enfeiar o resto de elenco todo. Até a belíssima
Monica Belucci, que apareceu há pouco tempo na trilogia Matrix, está
apagada, não chama a atenção.
Críticas -
Eu li o texto de Rubens Edwald Filho e concordo com o argumento dele:
para o olho treinado de um crítico, ainda mais de alguém com tanto tempo de
profissão quanto ele, certas coisas podem soar absurdas, como as chamas de
látex, que talvez tenham ficado realmente um pouco artificiais. Mas eu não
acho que o público comum, que vai ao cinema só para se divertir, tenha tempo
para perceber esses detalhes. O cidadão quer acreditar no que está vendo,
ele fica mais ligados na história, nos personagens, e só em casos muito
grosseiros, o que não é o caso aqui, é que ele se dá conta da pobreza nos
efeitos especiais.
As cenas são apelativas a partir do momento em
que não se criou, antes, uma empatia com o personagem. O filme já começa,
praticamente, na paixão, não se mostra quem é Cristo, ou porque ele atraiu o
ódio dos judeus. Se por um outro lado ele foi fiel ao mostrar o sofrimento,
por outro ele foi falho, extremamente falho: qual é o sentido de se fazer um
filme sobre Jesus em que quase não se mostre o que o levou até a cruz? Sem
mostrar tudo o que aconteceu antes, o filme acaba caindo na violência pela
violência. Tudo bem, os judeus e os romanos foram cruéis e Cristo sofreu
bastante. Alguém duvidava disso? O quê, de novo, o filme acrescenta? Que
tipo de reflexão ele provoca? Não vejo outra intenção na quantidade e na
dimensão da violência nesse filme que não seja, justamente, provocar
polêmica. Polêmica, claro, que vai se transformar em ainda mais bilheteria.
Marketing - Novamente esquecendo o filme em sim, qual é o mal de
você promover uma campanha de marketing para tornar sua obra conhecida? Os
produtores daquele filme de terror A Bruxa de Blair iniciaram uma
campanha de marketing, mais de um ano antes do filme chegar às telas,
espalhando a história da bruxa na Internet como se ela fosse real. Essa
história foi se espalhando, sites pessoais foram criados falando da
história.
Quando o filme estreou, se transformou rapidamente em um fenômeno de
bilheteria. Por esse lado, simplesmente, da propaganda, Mel Gibson tem de
receber parabéns, foi genial em atrair a atenção para seu produto. Questões
de conteúdo à parte, claro.
Proibição - Eu acho que essa é uma questão complicada. Censura, em
qualquer ocasião, é detestável. Não acho que seja bom alguém querer proibir
alguém de ver alguma coisa. mas há outro aspecto em questão: a violência
gráfica extrema do filem, que já provocou duas mortes por enfarte no meio da
sessão. Como será que as crianças, mesmo as já acostumadas a desenhos
violentos como Dragon Ball Z, Meninas Superpoderosas e a
videogames como GTA ou
Counter Strike, vão reagir a algo agressivo o suficiente para matar
dois adultos do coração? Será que elas vão ter estômago?
Talvez o filme pudesse vir acompanhado de uma mensagem desaconselhando
menores de 18 anos a vê-lo. Mas o que questiono mesmo é o porque nós, que
vivemos em um mundo pós 11 de setembro, em um Brasil que enfrenta guerras
diárias do tráfico de drogas, que só ouvimos notícias sobre barbaridades nos
telejornais, vamos querer entrar em uma sala de cinema para ver um filme que
só trata da crueldade e da selvageria, oferecendo pouco conteúdo, teoria,
ensinamentos em troca? Masoquismo?
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Avaliação |
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Atuação |
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Visual |
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Direção |
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Nota
Geral: |
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Filme: A Paixão de Cristo
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Ano: 2004 |
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Gênero: Drama |
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