Longa só se sustenta pela memória afetiva de um público que
já cresceu.
Os Mercenários é, assumidamente, uma bobagem. Logo na
primeira cena, talvez pelo colorido, fui remetido a dois
filmes antigos, de minha infância - Os Heróis Trapalhões
- Uma Aventura na Selva e Os Trapalhões nas Terras
dos Monstros. Não entro no mérito do boicote, é perda de
tempo, mas, se você não foi um moleque dos anos 90, não
veja.
Assim como Renato Aragão, Stalonne vai escalando famosos
para fazer algumas pontas ao seu bel-prazer. O roteiro segue
o mesmo estilo dos longas de ação que eram transmitidos à
tarde, na TV Bandeirantes, cheios de memória afetiva de
minha época de criança. Com medalhões do gênero, como Dolph
Lundgren (Soldado Universal), Jet Li, Jason Statham
(o protagonista de Carga Explosiva), e até o pai de
Todo Mundo Odeia o Chris, é tão ruim que tem seu
charme. Só faltou Van Damme.
Cheio de tiradas de efeito, todas "esquecíveis", algumas
cenas de ação forçadas, e um machismo que não chega a
incomodar, porque o próprio filme não se sustenta. Os
Mercenários é salvo pela memória afetiva de um público
que já cresceu. Quem foi moleque no auge de Sylvester
Stallone e brincou com os bonecos emborrachados do
S.O.S Comandos - me remeteu a isso também - pode se
reconhecer ali. Minha única pretensão era conferir o último
trabalho da fofinha Brittany Murphy, que não apareceu e me
frustrou um pouquinho, mas como ganhei os convites, em uma
ação de marketing da California Filmes para evitar o
"boicote" (?), estava ali para me divertir.
A percepção do que é "envelhecer mal" me incomodou em Os
Mercenários. Menos pelo botox e mais pela dificuldade em
partir para outros projetos mais dignos, íntegros, do ator
que está à frente disso. A participação de Bruce Willis só
se justifica pela afetividade. Ali, no cinema, vi o tempo
passar em frente a um Mickey Rourke irreconhecível, e também
quando não acreditei nas peripécias espetaculares de um
Stallone envelhecido, muito menos no olhar romântico de
Gisele Itié para o seu personagem. É como a mulher madura
que insiste em roupas de menina e maquiagem pesada: não dá.
Por
outro lado, só um filme como esse me deixaria acordado, em
um dia em que dormi às 4h, acordei às 7h, recomecei a
trabalhar o dia todo e encarei a sessão das 22h. Gisele Itié,
dublada por ela mesma, é uma atração à parte. Se fosse um
filme "bom", pode ter certeza de que eu dormiria, como já
aconteceu outras vezes, mas estava diante de algo em que não
conseguia parar de ver.
Um detalhe curioso foi quando o projetor apresentou algum
problema e o longa teve de voltar alguns minutos dos já
assistidos. As pessoas reclamavam quase que em unanimidade,
queriam ver o filme de onde estava, não precisava voltar.
Minha mulher, que começou a esboçar sinais de desespero,
também fez coro. Como imaginei que, em algum momento, os
personagens viram para cá, eu quis ver o Brasil pelos olhos
de Stallone. Mas não aconteceu também. Vale, também, por uma
cena em que o protagonista troca farpas, ridículas, com
Arnold Schwarzenegger e finaliza, com a única frase que me
lembro: "Ele quer ser presidente".
Filme: Os
Mercenários (The Expendables, EUA) Ano: 2010 Gênero: Ação Duração: 103 minutos Direção: Sylvester Stallone Roteiro: Dave Callaham, Sylvester Stallone Elenco: Sylvester Stallone , Jason Statham , Jet Li , Dolph Lundgren
, Eric Roberts, Randy Couture, Steve Austin, David Zayas, Giselle Itié, Gary
Daniels, Terry Crews, Mickey Rourke