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quinta-feira, 5 de março de 2026

.: Manual Crônico, de Thiago Sobral: Era pra ser um filme... mas não é


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", a ser publicado pela Editora Patuá.


Era pra ser uma emoção de cinema a cada míssil lançado sobre o inimigo. Uma iluminação fraca; paleta de cores em tons terrosos - marrom, cinza e verde-musgo - pra parecer sujo, desgastado e caótico. Era pra deixar os músculos tensos, os olhos arregalados, a mandíbula cerrada e a respiração suspensa. Contemplar aviões em voos rasantes sobre cidades semidestruídas, com antigos belos prédios virando escombros, o que excita a mente do telespectador.

Era pra ter soldados com cara de herói enfrentando inimigos maldosos que queriam destruir a humanidade, mas foram barrados pela “Nação boazinha”. Isso nos causaria orgulho, mesmo que a tal “Nação boazinha” não fosse a nossa, afinal, no fundo, sempre desejamos imitá-la.

Era pra ser emocionante ver metralhadoras cuspindo fogo e acertando balas em homens com feições diferentes, a cara da maldade. Seus rostos seriam focados, ocupariam, em primeiro plano, toda a tela e arrancariam sorrisos de satisfação do público logo que visse um corpo inimigo tombando.

Era pra ser um exército inimigo causando repugnância nos olhos atentos de quem foi à pré-estreia. Todos teriam comprado seus ingressos antecipadamente, ansiosos por ver o monstro fundamentalista ser combatido pela “Nação dos sonhos”.

Era pra ver os inimigos opressores serem derrotados pela nação imperialista. Assim, os ânimos do mundo se acalmariam e, no final da sessão, todos aplaudiriam, porque, apesar do saldo de mortes, teríamos mais uma guerra pra preencher as páginas dos livros de história e inspirar cineastas.

Era pra ser um grupo extremista sendo exterminado, porque no mundo não há espaço pra fundamentalistas opressores. Diante deles, o povo que cruzou o deserto no passado teria o direito de matar e destruir e assim livrar os vizinhos de uma opressão. Os streamings liberariam a película de graça, na faixa – porque é justamente na Faixa que o sangue molha o chão – e, sim, há quem goste disso.

Era pra tudo isso repercutir nas redes sociais o sucesso que foi tal produção. Um campo aberto aos experimentos de novas tecnologias que agilizam a guerra, fazem mais vítimas, se enquadram bem nas tomadas de cena e criam mercados pra inúmeros releases e notícias bombásticas.

Era pra ser retratado um mundo em lutas e embates generalizados, passado distante, sonho dissonante, sobre o qual apenas se lê, ao qual apenas se assiste, e depois gera debates boquiabertos que não conseguem conceber como foram capazes de realmente fazer isso no passado… Chamaríamos de arte, pois seriam belos filmes, com belos atores que ganhariam prêmios disputadíssimos e permitiriam a nós percebermos o quão bons somos em retratar nossas mazelas já superadas.

Era pra ser…

Mas não é.

Não é porque não é filme. Não é porque não é série da Netflix. Não é porque não é novela da Rede Globo. Não é porque não é filme cult iraniano. Não é porque não é aquela aula de história sobre guerras do passado que mais parecem ficção e que nunca mais vão acontecer.

É a realidade que nos rodeia, devora e aflora em nós o sentimento de medo de que tudo aconteça novamente. Os personagens não mudaram muito. Os motivos também não. Talvez o público de agora seja um pouco diferente de antigamente, pois parece que acompanha os fatos como se fossem uma obra de arte. Há ainda os que torcem por algum lado, como se os que promovem a guerra fossem equipes esportivas ou agremiações de carnaval. E isso não é só triste…

Era pra ser um filme… mas não é.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

.: Manual Crônico, de Thiago Sobral: Crime hediondo


Se é crime, me submeterei ao julgamento, ouvirei a sentença, aceitarei a condenação.

Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_.


Há pecados, pecadinhos, pecadões. Há crimes e crimes, diriam os relativistas. Pecado é sempre pecado, ressoa até hoje minha grudenta herança católica. Suporta-se mais ou menos o crime alheio conforme ele diz algo sobre nós. Disso decorre a absolvição ou sentença do réu.

Cometo crimes há muito tempo. O primeiro foi nascer, diz a Palavra. A mancha original, herdada do primeiro homem, firmou-se em mim até o meu batismo, coisa que ocorreu quase dois anos depois que fui parido. Três jorros de água em minha careca infante, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, amém, apagaram o pecado. Os banhos de mamãe, ainda que diários, não foram suficientes, tadinha.

Também cometi outros crimes mais ou menos dignos ou indignos, que talvez causem identificação no leitor. Já furei sinal vermelho, dormi sem escovar os dentes ou tomar banho, bebi água na boca da garrafa, furei fila, ouvi conversa alheia, etc., etc. Já até fui parar na delegacia. Mas há um crime do qual tenho muita vergonha (fazer faxina no nariz enquanto, no carro, espero o sinal abrir). Juro que é só de vez em quando, por isso não vou contar nunca, mas o amigo deve saber qual é.

Espero, de coração, que eu não seja o único pecador e criminoso deste século. Houve uma época em que tinha certeza da existência de outros… Havia gente que assassinava o semelhante, desviava dinheiro público, roubava o pertence alheio, difamava o irmão e tantas outras coisas. Crimes e pecados para todos os gostos e métodos. A depender da empatia dos demais, a sentença era dura ou branda — ou nem existia. Não sei se hoje ainda existem tais criminosos e seus pecados…

O fato é que o crime praticado nem sempre é transgressão. Pode ser um mero ato de sobrevivência, um protesto, uma subversão. A depender de quem o comete, a depender dos olhos que assistem, da cabeça que julga e da mão que condena, a condescendência, muita vez, é generosa, e deixamos passar. Afinal, um pecadinho a mais não deixará o inferno superlotado, e no céu há sempre espaço para mais um ladrão arrependido.

Há um pecado, porém, que não pode ser cometido nunca. Para ele não há perdão. É o maior e mais ofensivo que se pode praticar. Um verdadeiro crime hediondo, diz a minha experiência. E, para mim, não há saída, pois o cometo frequentemente. Dele não consigo me livrar. É um vício: habita minha alma, corre nas minhas veias e domina minhas sinapses cerebrais. Sempre que o cometo, recebo olhares atravessados, reações de espanto, caretas de repulsa. Pessoas que não estão presentes me enviam mensagens de advertência, julgamento e condenação, preocupadas com minha sanidade mental.

Devo deixar claro que, apesar de hediondo, esse crime não me incomoda. Minha alma, ainda que batizada, já está condenada a ele. Cometo-o sem peso na consciência, antes, muito consciente da culpa e do dolo. Desconfio que a repulsa por esse crime diga mais sobre os outros do que sobre mim. Por isso, aviso a todos, grito a plenos pulmões: VOU CONTINUAR COMETENDO ESTE CRIME, DOA A QUEM DOER. E f*d@-53.

Mas que crime é esse, meu patrão? Confesso que é grave, gravíssimo, diria José Dias. O crime, caro leitor, é ler na praia. Algumas páginas bobas, um livrinho qualquer, nada demais. Não consigo agir de outro modo. Sou um praticante inveterado dessa tipologia criminal, mas o povo não se acostuma. Insiste em me julgar, em querer condenar. Ficam abismados com o fato de eu não aproveitar a praia com outras coisas, enquanto estou nela. Não dão conta de tamanha ofensa.

Paciência, Iracema, paciência…, diria Adoniran. Se ler na praia é pecado, morrerei pecando. Se é crime, me submeterei ao julgamento, ouvirei a sentença, aceitarei a condenação.

Factum est.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

.: Manual Crônico: Síndrome do pequeno imperador vencido


Quem não é visto, não é lembrado, e seria melhor continuar assim

Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_.

 Fui uma criança feliz.

Não que a minha infância tenha sido perfeita, longe disso. Nos anos noventa, ser criança em Cubatão não era lá essas coisas, já lhes adianto. Ainda assim, era totalmente possível. Embora eu tenha nascido na época do “Vale da Morte”, onde crianças nasciam sem cérebro, passei ileso, eu acho. Hoje, consigo fazer coisas básicas, organizar minha rotina, trabalhar um pouco (coisa de cinquenta e nove, sessenta aulas semanais, apenas) e escrever palavras no papel na esperança de ser lido. Enfim, deve ter alguma coisa aqui dentro.

Nesse período, este ex-menino franzino que aqui palreia abusava da liberdade não conquistada e se arriscava de bicicleta pelas ruas do bairro. Brincava de pega-pega e esconde-esconde, de polícia e ladrão, e até acreditava conseguir jogar bola. Nos dias mais ousados, ia mais longe, e catava maria-mulata (talvez você conheça por outro nome, paciência) no canal que desaguava no mangue. Quando me tornei rebelde, adentrei à mata para caçar passarinhos. Meu espírito ditador e carcereiro durou alguns anos, para a tristeza das belas avezinhas.

Morávamos numa edícula atrás de um prédio comercial, dotada de um quintal que formava um “U” no entorno da construção fronteira. Numa dessas laterais, fui chefe, dono, rei e imperador. Naquele meu pedaço, nada fugia às minhas garras. Como ali o chão era de terra, felinos zombeteiros de casa, e gatos quizilentos da rua invadiam para marcar território. Eu me enfurecia, bradava pela guerra, jurava de morte. Porém, quando dava a sorte de encontrá-los e capturá-los, sucumbia ante suas quatro pantufas e o ronronado sedutor.

No meu pedaço, cheguei a declarar-me prefeito. Já escrevi sobre isso. Fui prefeito da cidade das formigas. Construí dois montes de terra, liguei-os por uma ponte, atraí as pequenas e governei com mãos de ferro. Ai daquela que ousasse transpor a ponte sem o devido visto e passaporte! Aquele corredor era meu, invadido e tomado. Nessa época, o espírito do MST já me contaminava — desde que aquelas terras fossem apenas minhas, e de mais ninguém.

O problema estava no entorno. Sempre há vizinhos, e daquele lado havia muitos. Eram três casas ocupadas por inquilinos. Assim, a rotatividade de moradores era grande. Quando chegava alguma criança e eu conseguia travar alguma amizade, ganhava plateia. Adorava exibir o meu império, ostentar meus poderes, ser assistido em meu exercício democrático. Gostava de companhia também, é claro. Criança brinca melhor junto com outra, até mesmo eu.

Certa vez, chegou uma nova família. Fiquei ansioso por saber se havia criança. E havia. Às vezes, eu a ouvia falar. Aumentei meu tempo de atividade lúdica, toda hora espichando os olhos para saber se era visto. A criança, uma menina, nunca saía. Dias e dias se passavam, e nada. Os hábitos dos novos moradores eram diferentes, o que me deixava ainda mais incomodado e ansioso. Cheguei a ver a menina de longe. A curiosidade aumentou, mas nada além. Eu continuava a governar cruelmente as formigas, a declarar e perder guerras para os gatos, e a ser parcialmente feliz.

Não há choro que dure a noite toda, não há tristeza que dure para sempre.

Ou há.

Numa tarde, a janela do quarto vizinho estava aberta e dela saía, alta e fina, a voz da menina. Estava brava, fazia birra e chorava. Eis a chance mais real de contato que tive até aquele momento. Comecei a me movimentar e a cantar alto. Quem não é visto, não é lembrado, pensei no alto da sabedoria dos meus nove anos. A voz revoltada começou a se aproximar. Fiquei aguardando, afoito.

Da janela, brotou o rosto choroso, ranhento e descabelado da garota branca, que, ao me ver, proferiu, agora sem choro, nem vela, e cortante:

— Eita menino feio da gota. Parece um macaco.

E logo sumiu janela adentro.

Foram segundos arrebatadores que fizeram ruir o meu império, acabar com o meu governo e sentir, talvez pela primeira vez, que as diferenças existem e marcam.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

.: Crônica: Novo "O Morro dos Ventos Uivantes" e o despertar de lembranças

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora e criadora do Resenhando.com

Em fevereiro de 2026


Tive a oportunidade de relembrar a história de amor de Catherine Earnshaw e Heathcliff nas telas da Cineflix Cinemas de Santos com a nova adaptação de "O Morro dos Ventos Uivantes", de Emily Brontë. Em meio a algumas sequências aguardadas, -a cena da pedrada na janela-, fiquei encantada com a produção um pouco apimentada e repleta de amor. Assim, recordei da primeira vez que li a obra.

Era  uma edição pequena, em papel jornal com letras miúdas que não sei se ainda tenho comigo. Livro usado e com manchas de velhice suficientes para gerar crises de espirros. Foi difícil seguir a leitura, mas dei o meu melhor. Contudo, ao cursar a minha segunda graduação, tive o prazer de ter Rosicler Martins Diniz Monteiro como professora de literatura inglesa e língua inglesa.

Ela, com sua doçura e inteligência, numa aula, contou toda a história em inglês. Lembro de estar na primeira fileira, bem pertinho, anotando e prestando atenção em cada evolução da trama trágica que a professora me fazia recordar, afinal a antiga leitura foi complicada por espirros e olhos lacrimejando.

Assistir a nova produção para o clássico que me marcou com Ralph Fiennes e Juliette Binoche no protagonismo, tem um gostinho de encantamento, mas também traz boas lembranças vividas enquanto leitora e aluna. "O Morro dos Ventos Uivantes", de Emily Brontë é uma história linda e que todos deveriam conhecer.


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

.: Manual crônico, de Thiago Sobral: O não-retorno da Fênix


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_.

Se criar hábito leva vinte e um dias e eu criei em apenas um, sou incomum?

Eis o retorno, não o da Fênix, que julgo ter morrido faz tempo, mas o meu. Declaro, com lágrimas nos olhos e dedos enferrujados, que não estou mais de férias. Nesse ponto, tenho alguma semelhança com a Fênix. Não a popular, que ressurge das cinzas, mas a do meu imaginário, defunta.

Dizem por aí que levam-se vinte e um dias para criar um novo hábito, ideia popularizada pela autoajuda nos anos sessenta. A sabedoria popular contemporânea, muito mais rica e pautada pela alta e valiosíssima cultura dos memes, deu fundamentação prática a isso, e foi além: “Se criar hábito leva vinte e um dias e eu criei em apenas um, sou incomum?”. Isso brotou na tela de meu celular recentemente e me causou profunda estupefação.

Sim, sou incomum (duvido que você seja), tal como minha Fênix morta, pois no primeiro dia das minhas férias, já estava completamente adaptado e afeiçoado a elas, de modo que agora custa-me muito voltar ao batente. “Ai, que preguiça!”, diria Macunaíma. “Ai, que preguiça!”, digo eu sempre. E digo mais forte ainda nestes primeiros dias de retorno ao labor, sem hábito algum.

Minha alma boêmia aposentada gosta da vagabundice, da vida faceira, das costas na rede, dos olhos nas páginas e do copo na mão - seja de café ou de cerveja. Nada de sala de aula, nem de zum-zum-zum de aluno; nada de tec-tec do teclado, nem de revisão de texto; zero edição de postagem em rede social, nem desejo de likes ou aumento de engajamento. Apenas eu, minha preguiça, meu Karamázov e o empurrar com a barriga de tudo o que não era estritamente necessário à minha parca sobrevivência.

Não queria escrever, mas… Se me tens aqui, querido leitor, é por amor a ti, que talvez não me ame tanto assim — e com razão. Mas voltei. Valorize-me, pois!  Essas semanas de ausência minha devem ter lhe causado extrema falta nenhuma. Já que voltei, leia-me, comente-me, curta-me, compartilhe-me. O algoritmo gosta, o engajamento agradece. Eu não gosto, senti zero falta disso, mas preciso. Assim, eis-me aqui, de novo, a deitar palavras à toa. Pelo menos isso combina com o copo que tanto segurei nos últimos dias, seja ele quente ou frio.

E como ficou o mundo nesses dias de minha ausência? Conte-me! Dê-me notícias alvissareiras, por favor. Está difícil me habituar de novo ao trabalho. Vez ou outra, espiei o mundo lá fora. Fiquei com medo, confesso. Até avisei à Fênix popular (não à minha, falecida) que não retorne, porque a coisa está feia.

Nem tudo são flores, mas também nem tudo é choro. Se em um dia me habituei à vadiagem, estes quatro dias de trabalho não fizeram nem cosquinha. Neste prelúdio de dois mil e vinte e seis, há alguma flor em meu caminho, em meio a muitas pedras, mas hei de colhê-la. Ah, como hei! É o que desejo a todos. Talvez a minha Fênix até tente renascer; vou pensar no caso.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

.: Nasce-pisca-morre: manual crônico sobre como amarrar o tempo no poste


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_.


Em algum destes dias, devo ficar mais velho, meu capitão. Não sei ao certo quando, mas sei que é por agora. Isso me pegou de um jeito que não consigo mais pensar em outra coisa. Quase quarenta anos vividos nesta terra de meu deus. O que se faz com isso? E o que se faz depois disso? Aguardo sua resposta. Se não puder me responder, paciência. Fica este manual comprometido, mas não incompleto.

Não incompleto porque há sábios no mundo. Dou-lhe a prova: “A vida, senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem para de piscar chegou ao fim, morreu”, disse uma boneca de pano a um certo Sabugo, conhecido como Visconde de Sabugosa. Veja só, capitão: a vida é um pisca-pisca. Pois bem. Providenciarei uma árvore de Natal, que já se aproxima, onde depositarei toda a minha vida. Há de ser um Ipê-amarelo frondoso, com quase quarenta galhos, piscando, piscando, piscando…

E como a fala da boneca é linda, penso que o senhor gostará de saber do restante, que transcrevo aqui: “A vida das gentes neste mundo, senhor Sabugo, é isso. Um rosário de piscados. Cada pisco é um dia. Pisca e mama, pisca e brinca, pisca e estuda, pisca e ama, pisca e cria filhos, pisca e geme os reumatismos, e por fim pisca pela última vez e morre.”

Já parou para pensar nisso, capitão? Fiquei boquiaberto com as palavras dela. Mais ainda com o que vem na sequência:

“— E depois que morre?, perguntou o Visconde.

— Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?” *

Acho que é isso mesmo: hipótese, não só depois que morre, mas desde sempre. A cada manhã, ao acordar, levantamos uma hipótese. Aí, partimos para o mundo, e seja o que deus quiser. Vamos vivendo atabalhoados nos afazeres, sem perceber o que acontece durante a piscada. Uma sucessão de minutos, de horas, de dias e de fatos vai se unindo e tecendo a trama do que chamamos vida. Até que uma hora, tudo para. Não há mais vida.

E o que fica depois?

Aumenta-se a hipótese, talvez. Perdi o interesse por esse depois. Basta-me o desenrolar de cada segundo entre o intervalo da primeira e da última batida do meu coração, ou piscadas.

Até porque, "O Tempo só anda de ida. / A gente nasce, cresce, envelhece e morre.” Não tem escapatória, meu capitão. Temos todos o mesmo fim. Ambos aqui não sabemos quando ele ocorrerá. Mas ainda bem que temos a poesia e que ela nos deu Manoel de Barros, que continua esses versos nos ensinando um macete dos bons:

Pra não morrer

É só amarrar o Tempo no Poste.

Eis a ciência da poesia:

"Amarrar o Tempo no Poste!"

Ainda não é tempo para isso “na vida de minhas retinas tão fatigadas.” Mas, quando esse tempo chegar para mim, arranjarei uma corda bem forte e um poste bem firme, calejado por cãezinhos marotos, darei um nó muito bem dado, e porei em prática a ciência da poesia.

E quando cansar, meu capitão? O poeta já deixou a resposta: "dia que a gente estiver com tédio de viver, é só desamarrar o Tempo do Poste.", e voltar ao pisca-pisca.

Ainda quero piscar muito, meu capitão. Piscar e amar, piscar e criar filhos, piscar e escrever, piscar e perder, piscar muito antes da última piscada.

E quando eu não mais quiser amarrar o Tempo, deixe-me com os cãezinhos amigos do poste. Eles cuidarão de meus olhos cansados.


* Monteiro Lobato, em “Memórias de Emí­lia”.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

.: Machado de Assis sabia: um manual crônico para enfrentamentos urgentes


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. Na imagem, representações das personagens machadianas Helena, Capitu e Marcela

"Oh, captain, my captain", as notícias que trago hoje não são nada alvissareiras. O mundo, que sempre foi perigoso, anda perigoso e meio. Para as mulheres, perigoso à décima quinta potência. Andar por este vale de lágrimas, para elas, é cair no olho do furacão. Onde vamos parar? "Marcela amou-me por quinze meses e onze contos de réis." Lembra-se, capitão? Pois é… Marcela teve sorte (e, cá entre nós, foi muito esperta). Brás Cubas não era flor que se cheire e, com certeza, não perderia a chance de se tornar um risco iminente para a espanhola. Ela, nada boba, botou prazo de validade e valor de custo.

O Bruxo do Cosme Velho não dava ponto sem nó. Disse o que disse já sabendo o tipo de homem que o defunto viria a ser. Brás desesperou-se enquanto cruzava o Atlântico e, já do outro lado, lançou-se em novas vivências. De volta ao RJ, foi cruel com Eugênia e aproveitador com Virgília. Ainda falando do velho Machado, Capitu é que era das boas! Não deu asas ao lunático Casmurro. Com seus olhos de ressaca, partiu para longe do marido e se salvou. Quem garante que ela continuaria segura? “Por que essa divindade nos dá golpes tão fortes de realidade e parte nossos sonhos?”, perguntava-se ela. Na prática, não é a divindade que dá golpes, meu capitão…

E ainda tem a Helena. Ah, que menina! Não teve medo dos julgamentos e se lançou à vida. Em meio a homens, se impôs e decidiu o próprio destino. Ignorou o patriarcado oitocentista. “E meu espírito gosta, às vezes, de trotar livremente na solidão." Não foi à toa que ela disse isso. Uma mulher dessa, capitão! Com um nome desse! O passado não deu trégua para as mulheres. O presente, não dá tempo. Ele ceifa vidas femininas com crueldade sem limites. E a palavra? A palavra, às vezes falta, não dá conta, mas se sustenta. Não dá para fazer literatura branda.

O que fazer, então, meu capitão? As respostas não chegam de imediato. Braços, para que vos quero, se não para apedrejar a mão vil que finge afagar os lábios de quem a beija? É isso: tirar as pedras do caminho delas e fazer da palavra uma pedra contra quem mata. Antes, esses detratores tivessem sido os filhos que Brás Cubas não teve. Não teriam materializado o legado de nossa miséria. Machado sabia, meu capitão, sabia muito…


quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

.: Carta de demissão: um manual prático para desistir de desistir


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_

Praia Grande, 4 de dezembro de 2025.

Senhores editores do Portal Resenhando.

Lamento informar que estou me demitindo do cargo de colunista deste respeitável veículo. Meu último dia será em quatro de dezembro de dois mil e vinte e cinco — vulgo hoje — por motivo de inaptidão para a função.

O teco-teco das teclas e o plic-plic das telas me cansam os dedos e me enjoam a vista. Ainda que eu seja um sujeito moderno, prefiro o tec-tec das máquinas de escrever, engenhoca que eu pediria às vossas senhorias de bom grado, se coragem e humildade eu tivesse. Mas não tenho. Tenho muito é melancolia e estresse pós-moderno, que me assolam e maltratam toda vez que ponho os pés nas ruas, e as rodas no asfalto.

Por falar em asfalto, ele deve começar a ficar mais quente, já que o verão se aproxima. Então, terei de redobrar a audácia para continuar andando descalço por aí. Como sou um sujeito arquetípico, não posso me furtar de sentir a natureza tocando meus pés a cada passo que dou pelas ruas da cidade.

Neste longo período desde que assumi esta coluna — duas semanas —, sinto-me deveras cansado, o que me abriu os olhos para a minha incapacidade de mantê-la com o decoro e o luxo que ela requer. Outrossim, não sei a quem pode agradar a existência de um Manual Crônico como este. Andei conversando com meu capitão, e ele me aconselhou a deixar pra lá, empurrar com a barriga, escrever qualquer coisa, “ninguém há de notar”, disse-me à boca pequena. Peço-lhe a finesse de não contar isso aos leitores.

Além disso, há um antigo manuscrito por aí que diz: “a quem muito tem, muito mais será dado. Mas a quem pouco tem, até o pouco lhe será tirado”, ou algo parecido. Se isso for verdade, é outro motivo a se acrescentar à minha demissão. Quando isso acontecer - hoje -, “nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas”. Serei eternamente grato, apesar de minha ingratidão em abandonar este sagrado encargo.

Peço a dispensa do cumprimento do Aviso Prévio. Não carece estender o contrato. “Deixe que os mortos sepultem seus mortos”, diz o mesmo antigo manuscrito. Mortos não estamos, mas não custa deixar avisado: não haverá velório, muito menos sepultamento (e nem despedida). Nunca poderei agradecer o suficiente pelas oportunidades que este distinto portal cultural me proporcionou. Trabalhar aqui foi imprescindível para o meu crescimento profissional. Esperem… Um minuto! Silêncio. Ouço ruídos. Preciso ir até a sacada nesta quinta-feira modorrenta que insiste em prosseguir.




Voltei.

“Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu”.

Depois de avistar a cena que me tragou para a sacada agora há pouco, puxei da estante “A Rosa do Povo”. Foi pelo ocorrido que procurei esse verso que há muito eu não lia. Repito:

“Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu”.

Por favor, queridos editores, desconsiderem meu pedido. Podem rasgar esta carta de demissão, não a exponham aos leitores, imploro. Continuarei com esta coluna, porque “uma flor nasceu na rua!”. “É feia. Mas é flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.” Vou comunicar ao meu capitão.

Atenciosamente,

Thiago Sobral.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

.: Manual Crônico, de Thiago Sobral: Sujeito moderno


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_

Sou um sujeito nojentamente moderno e afeito às inovações tecnológicas deste milênio, meu capitão. Não deixo passar nada. Toda e qualquer novidade chega às minhas mãos na velocidade da luz. Porque de luz eu entendo e posso provar: fui eletricista por quatro anos, divididos em duas empresas. Na primeira, o serviço manual durou quatro dias (depois, mandaram-me trabalhar no escritório); na segunda, durou cinco (mandaram-me novamente ao escritório, para não me mandarem a outro lugar).

Não lamentei os ocorridos, apenas sacudi a poeira dos pés e proferi aos meus opositores patronais: se aqui não me querem, o mundo me quererá, porque de luz eu entendo. Fui ao mundo e bradei: “Faça-se a luz!”. E a luz se fez. E assim tem sido, my captain. Sou o lume fumegante que alumia as novidades deste século. Por exemplo: entendo de aparelhos celulares. Celulares, não, smartphones. Há muito abandonei os tijolões. Carrego comigo um arrojado Samsung A21S há cinco anos, e ninguém o domina tão bem quanto eu.

A “artificial intelligence” — ou IA, como dizem por aqui — bebeu das letras de minha pena para se construir. O resto é história. Quem vive sem ela hoje em dia é um verdadeiro espécime dos Australopithecus (perdoe-me a franqueza, capitão, mas essa é a verdade). Este texto mesmo foi escrito sob ímpeto do algoritmo, acredite se quiser. A prova são os travessões. Já me empolguei com os carros elétricos, mas cansei. Não quero ficar para trás e, por isso, já estou tendo aulas de direção em veículos a células de hidrogênio. O capitão ficará boquiaberto quando me vir pelas ruas da Baixada Santista montado numa nave destas.

Há um bom tempo, guardo dólares e libras esterlinas para comprar um apartamento em Marte. Terá sacada gourmet e tudo! Lá do alto, olharei para a Terra retrógrada, da qual não sentirei saudades. Prometo escrever ao senhor, capitão, já que prefere não me acompanhar nas evoluções. Tenho feito contato com médicos da Coreia do Sul e de Cingapura. Levando em consideração meu estado corporal, eles disseram que conseguirão aumentar meu tempo de vida (que era de noventa e cinco anos) em mais três décadas. Isso porque terei acesso a uma pesquisa supersecreta que eles vêm desenvolvendo. Agora, entende por que vivo rindo à toa?

Mas tem uma coisa, meu capitão… que me pega de jeito. É a tecnologia mais sublime de que se tem notícia. Nada a supera, está sempre em evolução e não cansa de me surpreender, lançando luz sobre as trevas o tempo todo — e olha que de luz eu entendo, já disse. O mais curioso é que ela não surgiu hoje, nem ontem e, muito menos, surgirá amanhã. Acho um disparate que tal tecnologia tenha sido criada antes de mim, um sujeito moderno.

Tudo bem, aceito a precedência. Afinal, o que sou eu - apesar de moderno - diante do livro? Como não sou bobo nem nada, há muito tempo estendi a mão em direção às páginas, deitei meus olhos no papel e me pus a ler. É ou não é uma invenção dos diabos, meu capitão? Sei que essa alta tecnologia não está tão na moda assim aqui em nossas terras. Temo que, daqui a algum tempo, um desavisado tente usar um livro arrastando para cima, na capa, ou procure um botão de curtir ou compartilhar. E, por isso mesmo, quero registrar aqui neste Manual o que é e o seu modo de uso, em cinco passos. Vamos lá.

Segundo o dicionário Michaelis:
livro (s.m.). 1. Conjunto de folhas de papel, impressas ou manuscritas, coladas ou costuradas num dos lados, cobertas por uma capa; 2. Considerando-se o seu conteúdo, geralmente de caráter literário, artístico, científico, técnico etc., constituído por um ou mais volumes; 3. Cada um dos volumes que constituem uma determinada obra; 4. Cada uma das partes que compõem uma obra extensa; 5. Etc.

Modo de usar:
1. Aponte os olhos para a capa e identifique o título;
2. Coloque as mãos no objeto, abra-o e decodifique as letras;
3. Penetre “surdamente no reino das palavras”;
4. Desvende o que há por trás das palavras e nas entrelinhas;
5. E seja feliz.

Que este texto não se perca, meu capitão! Tão rara e rica tecnologia não pode se extinguir por falta de adeptos. Nenhuma outra tecnologia seria suficiente para cobrir o rombo que o fim dos livros traria. Caso isso venha a acontecer em algum século, voltarei das profundezas para falar ao mundo aquilo de que mais entendo: “Faça-se a luz”, e então surgirei com a lâmpada nas mãos: um livro.

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

.: Manual Crônico, com Thiago Sobral: no princípio, o verbo


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_

No princípio, havia o nada, e do nada, criou-se o tudo. Do tudo veio o todo e do todo fizeram-se as partes; ou das partes fez-se o todo, tanto faz. Digo isso porque aqui temos o princípio do que antes era o nada para mim. Devo confessar que esta é a primeira vez que me cedem uma coluna. Estou lisonjeado, encantado e um pouco tímido, mas não deixarei isso transparecer. Antes, fingirei costume e erguerei o nariz; deslizarei a pena, deitando ao papel palavras que se pretendem como um manual crônico para aqueles que tiverem a gentileza e a paciência de as ler.

Ainda que não lhe faça promessas, juro que trarei aqui palavras leves, mesmo que carreguem o peso do sentido. Não ofertarei reflexões profundas, embora, vez ou outra, possamos dar algum mergulho no reino das palavras. Não farei filosofia, mesmo quando quisermos saber o porquê. Não serei proselitista, ainda que, por vezes, queira convertê-lo ao verbum literário. Na verdade, meu capitão, pretendo oferecer um verdadeiro "Manual Crônico" da vida prática, a saber: a beleza escondida em um verso qualquer, o fiat lux de um movimento literário ou o sorriso banguela de um cãozinho de rua que tenha cruzado meu caminho. 

Sim, tudo isso pode vir a ser objeto do nosso "Manual Crônico" da vida prática, que lhe ofertarei em troca do módico valor de sua atenção. Esse é o meu devir. Talvez seja muito o que lhe peço, mas peço de coração. Se assim puder agir, prometo - sem jurar - retribuir-lhe com palavras de mentira e fingimento, pois não posso trair nossa divindade suprema, Fernando Pessoa (sou politeísta, confesso), que determinou que “o poeta é um fingidor”. Acolhi esse verso como um mandamento.

E por que deve você, meu capitão, dar-me fé e atenção? Digo sinceramente que não sei, mas desejo ardentemente que faça isso. Sou um modesto professor de Língua Portuguesa e Literatura, estudante de Filosofia, autor de romances e crônicas, que busca ardentemente o apodo de escritor. Se me leres, serei mais feliz. Se não, paciência - nem todo céu se dá ao homem, nem todo inferno se dá ao ser. E, quando um não quer, dois não brigam.

Como sou politeísta (sei que já disse isso e não quero amolar mais, mas sinto-me obrigado), rendo graças aos deuses editores deste nobre veículo que me cedem esse espaço, ainda que talvez paguem um preço alto por isso. Mas eles são pessoas de bom coração, e juro - sem prometer - que farei de tudo
para não decepcioná-los.

Como no princípio havia o nada, já agora temos alguma coisa, talvez uma parte de um todo que se pretende construir com crônicas, ensaios e artigos literários. E, se os deuses quiserem, permitirem e me inspirarem, alguma poesia, porque ninguém é de ferro. Espero alcançar tal intento. Por ora, é o que temos: a palavra se fez texto e esta coluna está entre nós. Eis o nosso "Manual Crônico".

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

.: Crônica: meu discman da adolescência que foi ao chão em pleno 2024

Por: Mary Ellen Farias dos Santos

Em setembro de 2024


Não lembro ao acerto quantos anos eu tinha quando meu pai mandou eu olhar bem no pé da árvore de Natal e encontrei o meu primeiro (e único) discman anti-shock recarregável, pretinho, um Panasonic. Veio com um fone de ouvido grande de arco que logo deixei em casa e passei a usar fone de ouvido simples. 

Que felicidade! Momento inesquecível. Lembro até hoje a embalagem embrulhada e o meu desejo tornando-se realidade, afinal eu já tinha um walkman de braço e outro que tocava fita.

Eis que estamos em pleno 2024 e o discman segue em pleno uso. Sim! Conecto as caixinhas de som de um outro aparelho, um sonzinho que imitava um mini som, que meu irmão trouxe para mim, de Aparecida do Norte, uma fonte que na tomada e ouço meus CDs. Pois é! Sou dessas. O som é fraquinho, fraquinho a ponto de meu pai dizer que "liguei a ratoeira".

Estamos reformando para nos mudarmos e, domingo, maridão resolveu subir o discman e todo o aparato para ouvirmos melhor o álbum The Best So Far da Whitney Houston. Para fechar o dia, eu tive a "brilhante" ideia de colocá-lo na beirada da janela gradeada e coloquei de volta o CD One of The Boys, da Katy Perry. Tocou.

Contudo, para fechar a janela, pensando em não me aborrecer com a vizinha que vive de olhos voltados para a nosso quintal e o quartinho dos fundos, rapidamente, fechei sem tirar o aparelho da beirada da janela que foi diretamente ao chão. A tampa de um lado, enquanto aparelho em si, seguiu com o CD de Katy como se nada tivesse acontecido.

Maridão logo soltou que se tratava de uma tragédia anunciada. De fato, não tinha onde deixá-lo seguro ali, somente diretamente no chão, porém estávamos passando massa corrida nos rodapés dos quartos. Achei por bem deixá-lo travado entre o beiral e a grade.

A verdade é que fiquei muito, muito chateada. Fosse por minha total estupidez ou por além de ver as partes soltas, tinha ainda um pedacinho pequeno que parecia ser parte da molinha que faz a tampa abrir. Arrasada?! Totalmente.

Peguei um saquinho transparente e coloquei o aparelho com o CD, as caixinhas de som (que somente uma delas funcionar) e a fonte, trouxe tudo para casa. Limpei. Hoje, logo cedo, maridão foi trabalhar e já peguei meu silicone tentando colar o tal pedacinho que parecia segurar a molinha que faz o movimento de a tampa abrir.

Deixei de lado até que resolvi encaixar a tampa de volta, tendo que remover a minha "colagem" de silicone. O fato é que o discman agiu como se nada tivesse acontecido na noite anterior. Assim que conectei tudo e coloquei na tomada, tocou Katy Perry normalmente. Assim, passei a tarde também ao som de Britney Spears, Roxette e Mariah Carey.

Produto antigo?! Com certeza... eu não devia nem ter 18 anos quando o ganhei e hoje tenho 42. Se fiquei feliz?! Ah! Não tenho nem palavras para tanto. Ficou a lição, quando não tiver onde colocar algo delicado e que tenha apreço, mesmo que o chão não esteja como gostaria, forre um pedaço e coloque seu aparelho, pois do chão, ele não vai passar.

* Mary Ellen é editora do site cultural www.resenhando.com, jornalista, professora e roteirista, além de criadora do photonovelas.blogspot.com. Instagram: instagram.com/maryellen.fsm


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terça-feira, 23 de abril de 2024

.: Amazon entrega produto danificado, após devolução faz cobrança de valor

Uma das imagens do estado em que o produto foi entregue. Não foi a primeira entrega a chegar desse jeito. Foto: Mary Ellen Farias dos Santos

Por: Mary Ellen Farias dos Santos

Em abril de 2024


Mal imaginava eu que uma simples compra iria virar um verdadeiro inferno, sendo que até o presente momento, não há indicação de término. Em janeiro fiz a compra de uma Barbie do filme em macacão rosa, paguei por boleto. Chegou com a caixa amassada. Pedi a troca. Aconteceu.

Eis que dias depois, a mesma boneca baixou R$ 20,00. Optei por pagar em cartão de crédito e foi aí que o meu maior erro começou, em 29 de janeiro. O produto, que veio somente num "plastiquinho" de nada com o símbolo da Amazon, foi entregue na casa dos meus pais. Dias depois fui buscar e, claro, a caixa da boneca colecionável estava amassada -assim como tantas outras compradas via Amazon, recentemente.

Solicitei o código para retirada do produto no site da Amazon, colei com durex a mesma embalagem da Amazon que veio e assim foi deixada para ser retirada. Logo cedo alguém dos Correios a levou, junto com outra boneca, que também havia chegado com a caixa também danificada.

Eis que solicitei a devolução do valor pago, no caso R$ 219,90. Inicialmente, a cobrança do valor foi cancelada. Entrei em contato, eu fui acalmada de que estava tudo certo, pois o reembolso havia sido feito em 19 de fevereiro. O tempo passou -meses- e, certo dia, vendo como estava o reembolso, surgiu a mensagem de que o produto não havia sido devolvido.

Voltei a entrar em contato. Não mais por e-mail -em que as mensagens eram bastante confusas e nada explicativas, uma delas veio até com símbolos misturados no corpo da mensagem-, mas procurei a Amazon no Facebook, quando fui encaminhada a um chat que me tranquilizou, uma vez que o produto havia sido devolvido, sim. 

Eis que em abril, recebo um e-mail alegando que pela não devolução do produto, a fatura seria cobrada. De fato, estou sendo cobrada, embora tenha o comprovante dos Correios do item devolvido. O caso está no PROCON e a devolutiva da Amazon (feita à noite, na data limite de resposta, dia 22 de abril) foi de que não devolvi o item. Detalhe: a boneca foi devolvida dia 19 de fevereiro, junto com outra que foi trocada, inclusive. 

Respondi que o comprovante foi enviado na reclamação entre os tantos anexos, e que a boneca foi devolvida na mesma embalagem em que foi enviada, assim como destaco em vídeo no canal Photonovelas (publicado em 16 de fevereiro de 2024) sobre o caso. Agora, o próprio PROCON deu uma nova data limite: 03/05/2024. 

Resumo: MUITO cuidado ao comprar na Amazon.com.br, pois se enviarem o produto amarrotado e você devolver e pedir reembolso, você pode ser ENROLADO por meses e, passados quase 3 meses, ainda serão capazes de cobrar o produto devolvido alegando a não devolução do item. Atendimento péssimo.

* Mary Ellen é editora do site cultural www.resenhando.com, jornalista, professora e roteirista, além de criadora do photonovelas.blogspot.com. Twitter:@maryellenfsm 

A resposta padrão de quem não abriu o anexo do comprovante de devolução


sábado, 6 de abril de 2024

.: Crônica: Ziraldo parte, mas o autêntico menino maluquinho deixa um legado

Ziraldo. Foto: Divulgação

Por: Mary Ellen Farias dos Santos

Em abril de 2024


A lenda partiu aos 91 anos para ser, definitivamente, eternizado entre as futuras gerações. Assim, fica o legado traçado com perfeição pelo gigante cartunista, chargista, pintor, escritor, dramaturgo, cartazista, caricaturista, poeta, cronista, desenhista, apresentador, humorista e jornalista brasileiro Ziraldo. 

De múltiplos talentos, o brasileiro, mineiro de Caratinga, deixa para muitos aquela figura que o público aguardava ver todos os dias a cada Bienal do Livro de São Paulo -assim como o também marcante Mauricio de Sousa. Era lindo de se ver admiradores rondando o tão gentil Ziraldo que sempre estava em algum estande dando autógrafos ou andando livremente pelo evento.

Na infância, entre os primeiros anos escolares, lembro da leitura da professora aos alunos de "Chapeuzinho Amarelo". Aquela capa do livro na mão da professora, enquanto ela lia a história da garotinha que tinha medo de tudo ajudava a fazer a imaginação embarcar na trama. Como passar impune a "Flicts"?!

Foi na minha primeira graduação, Comunicação Social com ênfase em Jornalismo que tive o prazer de conhecer a história revolucionária a qual ele fez parte, principalmente com "O Pasquim", semanário alternativo contra o regime militar. 

No MIS São Paulo, na megaexposição "Quadrinhos" lá estava um Ziraldo em 3D, num espaço com tantas criações do artista.

E pensar que, por esses dias,conversando com meu marido perguntei:

- Esse ano tem Bienal do Livro. Será que veremos Ziraldo e Mauricio de Sousa?! 

Para nós, ficam suas produções geniais. Valeu, Zap! Vá em paz Ziraldo! 

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

.: "Falar em nome de terceiros é crime" e nada é solucionado

Por: Mary Ellen Farias dos Santos

Em dezembro de 2023


Nunca usamos cartão de crédito aqui em casa. No auge dos nossos 41 anos, fomos "intimados" (ainda que se demonstre total desinteresse em possuir ou usar) pelo banco, por conta do parcelamento de um imóvel. Mesmo a contra gosto, fizemos uma comprinha. 

Após nos informarmos, no próprio banco, sobre a necessidade de continuar com o cartão de crédito, quando fomos abater certo valor do parcelamento do imóvel, soubemos de que exista um outro cartão de crédito sem taxas. Para nós que não usamos tal forma de pagamento seria uma boa.

Assim, trocamos de cartão de crédito. Passado algum tempo, do próprio banco, vieram questionar sobre o não uso do mesmo, até o momento. Eis que, por livre e espontânea pressão, uma outra compra foi feita, usando o novo cartão. 

Acompanhando pelo app, o pagamento da fatura não liberava. E o tempo foi passando. Eis que dia 27 de dezembro, ao consultar o extrato da conta, em picadinhos foram descontados o total de R$ 200,10, referente ao uso do cartão, sendo que a compra chega ao total de R$ 248,40.

Ao entrar em contato com quem nos fez usar o novo cartão, fomos encaminhado a resolver tal problema usando o 0800 que está atrás do próprio cartão de crédito.

Enquanto meu marido tentava explicar, logo foi informado de que, naquele momento não havia sistema. Contudo, tínhamos uma dúvida sobre o tal débito em conta do próprio cartão. Afinal, o que já foi descontado não totaliza o valor da compra, que também constava como em aberto, sendo que, no app, informa que o vencimento acontece dia 28.

Eis que ao repetir a explicação, mais detalhada, meu marido direcionou o telefone para que eu falasse, quando ouvimos: "que falar em nome de terceiros é crime". Do outro lado, ficamos com cara de interrogação, enquanto que meu marido riu daquela fala.

Em que momento, a minha voz feminina, se fez passar por ele ou disse ser portadora dos documentos?

Enfim, ficou claro que a atendente "não quer trabalhar", como destacou me marido. Assim, a bucha segue em aberto para nós resolvermos.


* Mary Ellen é editora do site cultural www.resenhando.com, jornalista, professora e roteirista, além de criadora do photonovelas.blogspot.com. Twitter:@maryellenfsm 


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