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sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

.: Entrevista com Flavia Couri, da banda The Courettes: um rock pop retrô


Por
 Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural. Foto: divulgação.

Um som com uma certa roupagem retrô ambientada nos anos 50 e 60, mas que soa ao mesmo tempo contemporâneo no pop atual. Essa é a primeira impressão para quem ouve o som do duo The Courettes, formado por Flavia Couri (guitarras, teclados e vocal) e Martin Couri (bateria e percussão). A dupla mostra influência dos grupos produzidos pelo mítico Phil Spector, o criador do chamado Wall Of Sound, efeito no estúdio que criava uma espécie de muro sonoro preenchendo todos os espaços da gravação. 

Flavia é brasileira e integrou a banda Autoramas antes de se mudar para a Dinamarca e se casar com Martin em sua terra natal (sim, ele é dinamarquês). E a formação do duo acabou acontecendo de uma forma natural, pois ambos tinham o mesmo gosto musical e muita disposição para produzir um som que se identificava com os dois. O resultado disso são os mais de 100 shows por ano pela Europa, Estados Unidos e Japão, cativando um público cada vez maior em várias partes do mundo. Em entrevista para o Resenhando, Flavia conta um pouco sobre a trajetória do duo e como eles encaram o momento atual para o rock. “A cena alternativa é muito grande pelo mundo”.


Resenhando.com - Como foi o inicio de vocês na música?
Flavia Couri - A música sempre me tocou de uma forma muito forte, desde os meus sete anos. Meu primeiro instrumento foi um xilofone de brinquedo, eu tocava o dia inteiro. Eu chorava muitas vezes nas aulas de música na escola, algumas canções me emocionavam tanto, eu nem sabia explicar. Nessa época eu assisti aquelas reprises do show da Tina Turner no Rio na televisão e eu fiquei obcecada com a Tina, penteava o meu cabelo ao contrário para dar volume e ir pra escola parecendo ela. A minha mãe era muito fã da Rita Lee, ela escutava muito lá em casa, e a Rita foi uma das minhas primeiras heroínas roqueiras e role model. Eu comecei a comprar fitas cassete sozinha com uns nove anos e me apaixonei pelos Beatles aos 11. Eu comecei a tocar violão também aos 11 anos, com aquelas revistinhas. Eu achei um violão no armário, meu pai tinha dado de presente à minha mãe, mas ela nunca aprendeu. Logo depois comecei a tocar baixo também, comprei um baixo Finch cópia de Rickenbacker de um primo de uma amiga do colégio, com o dinheiro do lanche que minha mãe me dava e que eu fui juntando por meses. Quando eu cheguei em casa com o baixo (surpresa!), minha mãe achou tão legal a minha dedicação que deu-me um amplificador. Eu nasci nos anos 80, uma época fantástica pro rock no Brasil, explodindo nas rádios FM, a Rádio Fluminense… A MTV chegou ao Brasil quando eu tinha 9 anos, e eu amava tudo e assistia por horas a fio, principalmente o programa Lado B que me apresentou a bandas como The Cramps e Ramones. Eu lembro da primeira vez que eu ouvi “Smells Like Teen Spirit” e pirei, ainda pre-teen. Eu fui no show do Nirvana aos 12 anos no Hollywood Rock e os Ramones aos 13, no Circo Voador. O grunge e depois o movimento riot grrrl e as guitar bands influenciaram muito minha formação, ao mesmo tempo que o meu amor pela música dos anos 60 ia crescendo enquanto eu ouvia e pesquisava muito bandas como o Velvet Underground, Byrds, Troggs, Sonics e Seeds. Comecei a tocar baixo em muitas bandas a partir dos 15 anos, e o The Courettes é a segunda banda onde eu toco guitarra. Apesar de ter começado autodidata, eu estudei música também, anos depois, e fiz um mestrado em baixo na Dinamarca e uma pós em composição. 


Resenhando.com - Como funciona o processo criativo musical do The Courettes? 
Flavia Couri
 - Nos nossos primeiros discos, eu compus todas as músicas sozinha, mas o Martin sempre teve um papel importante dizendo quais idéias eram boas e mereciam ser trabalhadas e quais eu deveria jogar fora. A partir do nosso segundo disco, “We Are The Courettes”, começamos uma parceria com o Søren Christensen, da banda dinamarquesa The Blue Van (que é maravilhosa, por sinal). Ele é um músico incrível e escreveu umas duas músicas conosco nesse disco, no disco seguinte, “Back in Mono”, 12 das 14 músicas. Ele é nosso produtor e parceiro de composição nos álbuns “Back in mono”, “Back in Mono B-Sides & Outtakes” e “The Soul Of… The Fabulous Courettes”.


Resenhando.com - A melodia vem primeiro ou a letra surge antes?
Flavia Couri
 - Sobre o que vem antes, melodia ou letra, não há regra, na verdade. Às vezes a parte musical fica pronta antes, inteira, com acordes e melodia, às vezes até o arranjo, e a gente luta pra escrever uma letra… Outras vezes tenho o conceito da letra, dois ou três versos prontos e a música só vem depois.


Resenhando.com - Como vocês têm avaliado o mercado fonográfico na Europa? As plataformas de streaming realmente estão em evidência ou ainda há mercado para o disco físico?
Flavia Couri
 - Ainda há um mercado bem grande para vinil, e só tem crescido nos últimos anos. Acho que depende muito do tipo de música que o artista faz. Na música pop e no público adolescente creio que o streaming domina quase totalmente. 


Resenhando.com - As plataformas de streaming realmente estão em evidência ou ainda há mercado para o disco físico?
Flavia Couri - No nosso nicho (rock / indie rock / garage rock / Wall of Sound) o público adora vinil, coleciona e compra muito. E compram CDs também, principalmente na Alemanha e no Reino Unido. O The Courettes vende muitos discos, somos a segunda banda que mais vende discos na nossa gravadora, a britânica Damaged Goods Records, com quem assinamos em 2020. Só ficamos atrás do lendário Billy Childish. Com ele não dá pra concorrer!


Resenhando.com - Nos shows ao vivo se apresentam somente os dois integrantes ou vocês contam com mais músicos de apoio?
Flavia Couri
 - Estamos há dez anos tocando ao vivo só nós dois no palco, e foi um longo processo para desenvolver um show eficiente em duo, não só musicalmente mas também o lado da performance, para envolver e entreter o público. Muitos duos tendem a cair na monotonia se o set é longo, então finalmente podemos dizer que criamos um show só com duas pessoas que enche um palco de festival não só a nível sonoro, mas de performance também, e não foi fácil, deu muito trabalho e custou muitos shows para amadurecer, estamos quase chegando na marca de mil shows como The Courettes. Alguns dos truques incluem usar um oitavador e separar o som da guitarra em dois canais ou em dois amplificadores. Temos muito orgulho do show que conseguimos criar através dos anos, só como duo. Dito isso, em 2024 começamos a experimentar com outras formações, para expandir o universo sonoro. Usamos um baixista em alguns shows, e, a partir do lançamento do álbum novo “The Soul Of… The Fabulous Courettes” em setembro, estamos usando backing tracks. Tudo isso agora é uma opção, não uma necessidade. No futuro, estamos abertos a experimentar mais, com backing tracks ou outros músicos, porque a gente sente que não precisa provar nada pra ninguém, a gente se vira como duo, como trio, ou como a gente quiser.

Resenhando.com - O cenário indie rock atual tem aberto espaço para muitas bandas alternativas. Vocês tem conseguido encontrar seu espaço ou ainda há dificuldades?
Flavia Couri
 - O The Courettes encontrou seu espaço e faz cerca de 125 - 150 shows por ano, tocamos por toda a Europa, Reino Unido, Estados Unidos e Japão. A cena alternativa é muito grande pelo mundo, ela sobreviveu a pandemia e ainda há muitos clubes de tamanho médio e um público interessado. Isso é o mais importante, ter um público interessado. Enquanto houver gente interessada em ir a shows, que paga bilhete e compra merchandising, as casas de shows e os festivais vão continuar existindo, vai ter uma cena alternativa paralela ao Live Nation e afins.


Resenhando.com - Vocês citam o lendário produtor Phil Spector como referência. Como o trabalho dele ajudou a nortear a sua proposta de conceito musical?
Flavia Couri
 - O Martin e eu somos muito fãs dos girl groups dos anos 60, até no nome da banda a influência é óbvia. Quando nos conhecemos há 11 anos atrás, no Brasil, e começamos a conversar sobre música, o Martin me disse que ficou ainda mais apaixonado por mim quando eu disse que eu tinha o box set “Back To Mono”, com a obra do Phil Spector. Então a obra de Phil Spector sempre esteve presente. Musicalmente, a influência de Spector no nosso trabalho de estúdio ficou mais nítida no nosso terceiro álbum, “Back in Mono”, onde a proposta foi emular as técnicas de gravação e produção spectorianas para criar o nosso próprio Wall of Sound, o The Courettes´ Wall of Sound. A gente foi bem fundo nessa proposta, construímos nosso próprio estúdio, uma câmara de eco, e gravamos muitos overdubs no álbum. Algumas faixas têm 17 tracks só de guitarras, mais baixo, piano, órgão, violão de 12 cordas, guitarra de 12 cordas, tímpanos, castanholas… Foi uma evolução musical enorme pra gente. Na gravação do primeiro disco, nós queríamos evitar overdubs e gravar o mais orgânico e cru possível, para que não ficasse diferente ao vivo. A partir do segundo álbum, “We Are The Courettes”, eu comecei a gravar também órgão e piano, além de côros e harmonias vocais, mas sempre tendo em vista a versão ao vivo, como as músicas soariam sem os overdubs. Foi com “Back in Mono” que nos permitimos experimentar no estúdio, sem limites e sem preocupações. Decidimos não frear nossa criatividade limitando os arranjos ao que poderíamos tocar ao vivo como duo. Eu tive uma revelação: uma música boa é uma música boa, independente de ser tocada por uma orquestra de 20 músicos ou só no piano ou no violão. Então desde “Back in Mono”, e graças ao Phil Spector, que dividimos o trabalho de estúdio e o ao vivo como duas coisas diferentes, que a gente ama igual. Nosso foco agora é a composição, é escrever músicas cada vez melhores. E depois vemos como essas músicas vão funcionar ao vivo. Às vezes sentimos que é um pouco como se os Beatles tocassem os arranjos de “Sgt. Pepper´ s” ao vivo no Cavern Club, com aquela energia cru e só com os quatro músicos. (Sem querer nos comparam com os Beatles, é claro). E vale repetir que nossa admiração pelo Phil Spector é limitada ao seu trabalho como compositor e produtor, separamos bem o artista da sua vida pessoal. 


Resenhando.com - Como está sendo feita a divulgação do mais recente trabalho de vocês?
Flavia Couri
 - O disco recebeu resenhas incríveis no Reino Unido e na Europa, nas principais revistas de música como Rolling Stone (França), Vive Le Rock, Record Collector, Louder Than War, Shindig!, Vintage Rock e Clash (Reino Unido), Ox (Alemanha)… teve até um artigo no britânico The Guardian. Nós fizemos uma Live Session na lendária Rádio BBC, e também na Radio 3, a maior rádio espanhola. “The Soul Of…” entrou em muitas listas de melhor álbum de 2024, incluindo o site da Rough Trade, Shindig! e Louder than War. A turnê de divulgação começou em setembro, passou pelo Reino Unido, Dinamarca, Espanha e França, non stop, foi uma loucura total, 33 shows em um més e meio! Só agora estamos curtindo umas férias merecidas depois de 124 shows em 2024. Em 2025 vamos voltar à estrada e tocar em muitos festivais pela Europa, EUA e Reino Unido, como o Rebellion (UK), SXSW e Evolution (USA), Kilkenny Roots Festival (Irlanda), Zwarte Cross (Holanda), Folk & Fæstival (Dinamarca), além de shows na Alemanha, Suécia, Finlândia e França. Espero que a turnê passe também no Brasil, estou com muita vontade e saudade de tocar por aí! 

The Courettes - "Want You! Like a Cigarette"

The Courettes - "California"

The Courettes - "Shake!"

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

.: Entrevista: Claudia Ohana comemora retorno de "Tieta" e relembra gravações


Atriz revela que, antes de receber o convite para a novela, estava se preparando para viver uma versão italiana da personagem; Foto: TV Globo / Bazilio Calazans

A novela "Tieta" está de volta nesta segunda-feira, dia 2 de dezembro, no "Vale a Pena Ver de Novo". Livremente inspirada no romance "Tieta do Agreste", de Jorge Amado, a obra de Aguinaldo Silva, Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares, que completou 35 anos em 2024, nunca saiu da memória do público. Claudia Ohana, que dá vida à protagonista homônima na primeira fase da novela, celebra a volta da obra. “Fico muito feliz em saber que uma nova geração vai assistir a essa novela que marcou época. Para mim, 'Tieta' só traz boas lembranças. Não sou de assistir aos meus trabalhos antigos, mas com certeza não vou resistir”, comenta a atriz.

A novela tem direção geral de Paulo Ubiratan e direção de Reynaldo Boury, Ricardo Waddington e Luiz Fernando Carvalho. Antes de retornar rica para Santana do Agreste, Tieta sofreu maus bocados, o que lhe trouxe muita experiência de vida e sabedoria. Bonita, vistosa, passional, mas também debochada, desbocada e rebelde, foi expulsa da cidade aos 18 anos. O comportamento da jovem acaba levando o pai, Zé Esteves (Sebastião Vasconcelos), irritado e influenciado pelas intrigas de sua outra filha, Perpétua (Adriana Canabrava), a escorraçar Tieta de Santana. Humilhada e abandonada pela família, ela segue para São Paulo, fugindo do conservadorismo de sua terra natal. Volta 25 anos depois com o firme propósito de se vingar de toda a hipocrisia da cidade. Na entrevista abaixo, Claudia Ohana relembra um pouco mais sobre o trabalho em "Tieta".

Qual foi a sensação ao saber que "Tieta" iria voltar no "Vale a Pena Ver de Novo"?
Claudia Ohana - Fico muito feliz em saber que uma nova geração vai assistir essa novela que marcou a época. Para mim, 'Tieta' só traz boas lembranças. As gravações nas dunas de Mangue Seco e esse personagem maravilhoso que é a Tieta em si. Não sou de assistir aos meus trabalhos antigos, mas com certeza não vou resistir!

Desde a exibição original da novela, há 35 anos, "Tieta" é lembrada como uma das protagonistas mais marcantes da teledramaturgia. A personagem-título era vistosa, sensual, passional, desbocada, obstinada, e na primeira fase, uma jovem rebelde. Como foi a experiência de dar vida a uma personagem com uma personalidade tão forte?
Claudia Ohana - Quando o diretor Paulo Ubiratan me chamou para fazer a Tieta, não pensei duas vezes. Eu já tinha estudado a personagem porque eu ia fazer o filme sobre ela na Itália, mas o projeto acabou não acontecendo. Então, quando veio esse convite, eu pude finalmente viver a minha Tieta, esse personagem icônico do Jorge Amado. Eu fiz de uma maneira bem simples, conforme o texto e a direção me induziam.

Você se recorda da cena mais desafiadora, e também a mais divertida, que fez na novela?
Claudia Ohana - As cenas rodadas em Mangue Seco foram tranquilas, lúdicas e maravilhosas. Lá tudo era muito mágico. Sobre a cena mais desafiadora, com certeza a da praça, onde Tieta é espancada pelo pai. Foi a cena mais forte que eu fiz na novela.

E quais são os seus próximos projetos?
Claudia Ohana - No momento estou com um espetáculo em São Paulo, "Toc Toc".

sábado, 30 de novembro de 2024

.: Entrevista: Jhonatas Nilson reflete sobre a capacidade de sobreviver a traumas


Com milhões de leituras online e vendas de e-booksJhonatas Nilson foi autor best-seller da revista Veja e constantemente encontra-se na lista dos mais vendidos da Amazon Brasil. Agora ele lança "O Filho que Eu Não Amei", um drama familiar sobre luto, rejeição e esperança. A trama acompanha Vincenzo, que, após uma tragédia familiar, vê-se obrigado a recomeçar a vida e a resgatar o tempo perdido com o filho Giovanni D’Angelo, acostumado a lidar com a falta da figura paterna. 

Por meio de uma narrativa visceral e sensível, o autor bacharel em Psicologia apresenta uma profunda reflexão sobre a força do afeto e a capacidade do amor de sobreviver a diferentes traumas. Em suas obras, ele busca incluir temáticas sobre a complexidade das relações humanas, criando uma atmosfera realista que permite os leitores se conectarem com o interior dos personagens. Em entrevista, Jhonatas Nilson comentou as inspirações por trás da trama e falou sobre a importância das redes sociais para ampliar a carreira de escritor. Compre o livro "O Filho que Eu Não Amei" neste link.

O que o inspirou abordar temas como luto, rejeição e esperança no relacionamento entre pai e filho em “O Filho que Eu Não Amei”?
Jhonatas Nilson - 
A inspiração surgiu de vários questionamentos que me vieram sobre as complexidades de uma possível relação entre um pai ausente e um filho em busca de aceitação. Por um tempo, hesitei em iniciar essa história por medo de não conseguir conclui-la devido ao peso emocional que a envolve. Mas, ao me permitir explorá-la, mergulhei fundo nos sentimentos, principalmente os de luto e rejeição - até mesmo chorei diversas vezes no processo de escrita. Hoje, fico imensamente feliz por ter seguido em frente e por ver como os leitores se conectaram com essa narrativa que tanto me marcou. 

Quais elementos psicológicos você incorpora na narrativa para explorar o impacto da rejeição e da reconciliação familiar? 
Jhonatas Nilson - 
Como psicólogo, sempre me pergunto como posso abordar temas reais e intensos sobre o emocional humano. Com "O Filho que Eu Não Amei", não foi diferente. Cada interação entre os protagonistas revela camadas de dor, busca por aprovação e os mecanismos de defesa que desenvolvemos ao nos sentirmos rejeitados. Através desses elementos, quis mostrar que recomeços são possíveis não só pelo amor, mas pela disposição de mudar de dentro para fora. 

Como o personagem Vincenzo lida com a necessidade de superar o rancor e construir uma relação afetiva com seu filho Giovanni? 
Jhonatas Nilson - 
Inicialmente, Vincenzo lida muito mal com essa necessidade e chega a agir de forma extremamente tóxica com o filho. Durante a escrita, eu senti de perto a luta interna que ele trava com suas dores e ressentimentos. Porém, foi emocionante conduzi-lo à autorreflexão e fazê-lo perceber que nossas dores não justificam causar sofrimento aos outros.


Qual é a mensagem que você pretende passar com isso para os leitores?  
Jhonatas Nilson - 
Através dessa jornada, quis transmitir que recomeços emocionais são possíveis, desde que tenhamos coragem de enfrentar nossos próprios padrões de dor. 

Em sua opinião, o que torna a jornada de um pai e filho em busca de reconciliação relevante para leitores que enfrentam conflitos familiares? 
Jhonatas Nilson - 
Acredito que conflitos familiares são tão universais quanto o luto e a rejeição. Em algum momento, todos nós somos obrigados a lidar com desentendimentos com aqueles que amamos. Trazer esses temas para a minha obra permite que a realidade humana toque o leitor através de uma ótica esperançosa, oferecendo um espelho de suas próprias experiências e mostrando que, mesmo nos relacionamentos mais difíceis, há espaço para a compreensão e o crescimento. 


Você é autor best-seller, com mais de 60 obras publicadas. Como “O Filho que Eu Não Amei” difere das suas outras produções?  
Jhonatas Nilson - Sinto que este ano me desafiei em muitos aspectos da minha carreira literária, explorando temas que não são tão habituais para mim. "O Filho que Eu Não Amei" exemplifica essa fase de experimentação, pois, embora eu já tenha abordado traumas familiares antes, nunca foi exatamente como tema central. Normalmente, escrevo romances românticos, mas criar uma história totalmente voltada para o amor familiar foi uma experiência mágica e enriquecedora. Espero poder explorar mais esse tipo de narrativa no futuro. 


Com mais de 30 mil seguidores no Instagram, como você enxerga a importância de escritores estarem nas redes sociais? Como o meio virtual pode ser aliado para a produção literária? 
Jhonatas Nilson - As redes sociais permitem que o leitor se sinta mais conectado com o autor. Como fã de muitos escritores, confesso que adoro acompanhar suas rotinas e estilos de vida. Além disso, com as ferramentas tecnológicas atuais, o meio virtual abre portas para divulgar as obras a um público mais amplo. Hoje, meus livros alcançam pessoas que talvez nunca os conhecessem sem a presença digital. As redes se tornaram uma aliada na construção e ampliação de uma base de leitores, sem dúvidas. 


Sobre o autor
Jhonatas Nilson já escreveu mais de 60 obras, tendo histórias traduzidas para o inglês, espanhol e italiano. Com milhões de leituras on-line e vendas de e-books, foi best-seller da revista Veja, está constantemente na lista dos mais vendidos da Amazon Brasil e alcançou o topo das vendas na Itália com "Il Piacere Nella Seduzione". Também é autor de "Um Dia no Verão”, "Quando as Estrelas Tocam o Céu” e "A Minha Vida Depois Daquele Dia”. Garanta o seu exemplar de "O Filho que Eu Não Amei" neste link.

terça-feira, 26 de novembro de 2024

.: Entrevista: Rodrigo Cabral fala sobre a estreia poética com o livro “refinaria”


A obra reflete sobre emoções e vivências a partir das mudanças cenográficas da Região dos Lagos, no Rio de Janeiro. Foto: Mariana Ricci


A poesia de Rodrigo Cabral ganha forma em “refinaria”, primeiro livro dele, lançado pela Sophia Editora durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) 2024. O livro mergulha na transformação da paisagem da Região dos Lagos (RJ) e da memória do autor, utilizando versos acompanhados por ilustrações de Rapha Ferreira. O prefácio foi escrito por Júlia Vita, que também editou a obra, e a orelha é assinada por Thiago Freitas

Rodrigo Cabral, 34 anos, nasceu em Campos dos Goytacazes e cresceu em Cabo Frio, onde fundou a Sophia Editora. Poeta e editor premiado, foi segundo lugar no prêmio Off Flip de 2024 na categoria Contos e destaque na categoria Poesia. Em 2023, conquistou o terceiro lugar no Festival de Poesia de Lisboa. Entre suas influências, estão nomes como Ferreira Gullar e Carlos Drummond de Andrade, além de obras como “Água-mãe”, de José Lins do Rego.

Nas páginas de “refinaria”, os poemas de Cabral traduzem o movimento incessante da vida e do território, a partir de uma linguagem que une referências locais e universais. Inspirado por Cabo Frio, cidade onde observa a Laguna de Araruama e a figueira centenária de sua infância, o autor reflete sobre memória, família e os processos internos da escrita. A obra também explora paralelos entre a geologia do pré-sal e a história da cana-de-açúcar em Campos dos Goytacazes. Leia abaixo a entrevista completa com o autor sobre o processo de composição do livro. Compre o livro "refinaria" neste link.

Se você pudesse resumir os temas centrais do livro, quais seriam?
Rodrigo Cabral - Nasci em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, e fui criado em Cabo Frio, na Região dos Lagos. Tenho uma ligação forte com a cidade, sobretudo porque praticamente vim ao mundo numa redação de jornal, já que meu pai, também jornalista, começou a editar, no ano do meu nascimento (1990), o periódico Folha dos Lagos. Fui criado na Rua Alice Torres, conhecida como “rua da árvore” devido a uma imponente figueira empostada perto do Canal do Itajuru, que liga a Laguna de Araruama à Praia do Forte. Durante a infância, caminhávamos pelas salinas até chegar ao mercado. Era um descampado, uma paisagem de sol e de sal que ainda faz pratear a memória. Todo esse cenário mudou. As salinas deram lugar a um novo bairro, o Novo Portinho. A “rua da árvore”, antes de terra, agora é asfaltada. Um antigo hotel jangada, onde crianças experimentaram os primeiros goles de Coca-Cola, também não está lá. Essas transformações estão na raiz de um poema cujo título é justamente “refinaria”. No livro, trato dessa refinaria de memórias, de cenários, do próprio texto editado, e isso com um olhar para o território: a restinga, as águas da Laguna de Araruama, as casuarinas, o sangue do operário cuja história e identidade o vento levou… Como editor da Sophia, tenho trabalhado há anos para formar catálogo com o objetivo primeiro de trazer à luz temas pertinentes à história, à memória e ao patrimônio histórico material e imaterial. Isso se tornou uma das principais características da editora. Naturalmente, a produção da Sophia também deságua na minha escrita.

O que motivou a escrita do livro?
Rodrigo Cabral - Comecei a escrever “refinaria” no início de 2022. Naquele período, tinha algumas ideias e livros pela metade, na gaveta. Em algum momento, percebi que o primeiro precisava partir daqui, do meu lugar. Precisava ser um abrir de janelas para os cenários que estavam diante de mim. Era necessário ouvir o que esses cenários diziam sobre as memórias, sempre borradas e fragmentadas. É claro que isso, no poema, transforma-se em outro espaço, em outro tempo, e é reescrito de acordo com as percepções de quem lê. De todo modo, o que me moveu, primeiro, foi me reconhecer como um poeta da restinga. Ou um “poeta da orla”, como escreve a Júlia Vita no prefácio.


Como foi o processo?
Rodrigo Cabral - Boa parte da produção surgiu durante a oficina do Marcelino Freire e da formação em poesia promovida pela Escola da Palavra, coordenada por Rafael Zacca e Lucas van Hombeeck. Na sequência, conheci a Júlia Vita, poeta e autora do livro “Água-viva”, publicado pela Córrego. Júlia foi a editora de “refinaria”. A partir das provocações e da sensibilidade dela, deixamos poemas de lado, acrescentamos outros e, então, depois de tantos processos, chegamos à versão final.


Em sua análise, quais as principais mensagens que podem ser transmitidas por “refinaria”?
Rodrigo Cabral - 
O livro é uma tentativa de apreender o que está lá fora. Ou seja, a poesia não está no livro. Está no que foi vivido.  Acredito na poesia que se aproxima da vida com toda a sua camada de complexidade, controvérsia, dualidade e mistério. Concebo a obra, portanto, como refinaria, não em busca de compreender, tampouco de decifrar, mas, sim, de contemplar os processos de transformação de um território, de um indivíduo, de uma escrita; e, também, de analisar, com a ponta dos dedos, aquilo que não evapora, aquilo que permanece.

Você acredita que a escrita te transformou de alguma forma?
Rodrigo Cabral - 
Durante o processo de montagem de “refinaria”, não apenas a escrita mudou, como o escritor, ao se deparar, de repente, com fragmentos de memória no espelho d’água. O livro, aliás, parte do pressuposto de que tudo é, necessariamente, mudança contínua. A partir da escrita de “refinaria”, passei a me interessar cada vez por vasculhar cenários e palavras pertinentes aos lugares que habito ou que habitei. Durante o processo, por exemplo, escrevi o conto “O Encontro do Lamparão com a Galesca”, que trata de um diálogo entre o linguajar de Arraial do Cabo, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, e o de Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense. O conto ficou em segundo lugar no Prêmio Off Flip de Literatura em 2024.


Como a bagagem do que você escreveu anteriormente ajudou na construção da obra?
Rodrigo Cabral - 
Como autor, carrego a bagagem dos livros que escrevi e que não publiquei e, principalmente, dos que vivi e ainda não escrevi — ainda. Afinal, “refinaria” é meu primeiro livro. Como editor, posso falar que fui muito influenciado pelas obras publicadas pela Sophia e pelos estudos de pesquisadores da Região dos Lagos, como Ivo Barreto, Meri Damaceno, Leandro Miranda, Luiz Guilherme Scaldaferri, Gessiane Nazario, João Cristóvão, José Correia Baptista, entre tantos outros.


Desde quando escreve poesia?
Rodrigo Cabral - 
Rabisco poemas desde novo. As produções iam ficando por cadernos e arquivos em antigos computadores. De repente, dei-me conta de que a vida é curta e de que precisava organizar meus textos. Publiquei um fanzine com o Subverso, selo literário independente coordenado pelo meu amigo e poeta Frederico Tavares, e depois também passei a colaborar com alguns sites literários, como o Fazia Poesia.

Por que escolheu esse gênero? 
Rodrigo Cabral - 
A poesia não foi uma escolha racional. Foi algo que se impôs naturalmente diante de uma pulsão, uma necessidade de escrever por meio de imagens, recortes, melodias descompassadas, delírios. E a poesia é, também, um lugar da rebeldia, da desordem, da alucinação por meio da palavra, da invenção e da desinvenção. Um grito contra dias maquinais e automatizados.


Quais são suas principais influências artísticas e literárias?
Rodrigo Cabral - 
Entrei no processo de escrita sob muita influência de escritores como Roberto Piva, Claudio Willer, Lawrence Ferlinghetti (este também um poeta-editor, fundador da lendária City Light Books), Jack Kerouac, Allen Ginsberg, Ferreira Gullar, Carlos Drummond de Andrade, Olga Savary, entre tantos outros. Aliás, conheci o Rapha Ferreira, artista plástico que assina as ilustrações do livro, enquanto ele declamava “A piedade”, poema do Piva, durante uma feira literária. 

Quais influenciaram diretamente a obra?
Rodrigo Cabral - Destaco especialmente a influência de José Lins do Rego, mais especificamente sua obra “Água-mãe” (1941). Trata-se do primeiro romance do escritor paraibano a ser ambientado fora do Nordeste. Foi justamente Cabo Frio que inspirou José Lins do Rego a escrever o livro. Ele esteve aqui durante a década de 1930 a trabalho — era fiscal de imposto de consumo. Apaixonou-se pelas paisagens e as colocou em seu livro — as casuarinas, a figueira, a fantasmagórica casa azul e a Laguna de Araruama, muitas vezes referenciada por ele apenas como “Araruama”, espécie de entidade. Fato curioso é que, no poema “refinaria”, falo sobre uma imponente figueira, a única coisa que não muda na “rua da árvore”. Em “Água-mãe”, José Lins do Rego também descreve uma figueira que estaria localizada bem próxima às águas da Araruama. O historiador Elisio Gomes diz que a figueira da Rua Alice Torres — a “rua da árvore” — é a mesma narrada escritor. Coincidências à parte, fato é que um trecho da obra de José Lins do Rego serve de epígrafe principal do meu livro e para um dos poemas. O título é dividido em dois capítulos. Cada um deles carrega uma epígrafe: o primeiro é um poema escrito por Olga Savary enquanto esteve em Arraial do Cabo e publicado em Sumidouro (1977); e, o segundo, extraído de uma canção de Victorino Carriço, chamada “Baixo Grande”. Aliás, o contato com a obra poética de Carriço, poeta nascido em São Pedro que se transformou em flâneur, indo e vindo sempre com um versinho no bolso, também foi bastante significativo. Estive em contato com a poesia dele a vida inteira, já que se trata do autor do hino da escola em que estudei desde os seis anos e, também, do hino de Cabo Frio e de outros municípios da região. Tanto tempo depois, tive a oportunidade de conhecer sua produção com ainda mais intimidade, já que me tornei amigo de sua filha Ercilia Carriço (in memorian) e de seus netos Fernanda Carriço e Junior Carriço, este um grande poeta e autor de um dos meus livros de cabeceira — “Recovecos” (2017, Editora Comunicação). 


Como você definiria seu estilo de escrita? Que tipo de estrutura você adotou ao escrever a obra?
Rodrigo Cabral - 
No início dos processos de composição, estava interessado na imagem em estado bruto; no poema em estado bruto também, como forma. Queria escrever poemas longos, em fluxo de consciência, guiando-me por flashes de memória. Depois, fui trabalhando e retrabalhando, refinando, mas ainda assim muitos dos poemas mais longos venceram a imposição do refino e continuaram com essa característica, digamos, impolida. Em contraposição, mais adiante passei a me interessar mais pela concisão, pelo lampejo que um poema curto pode oferecer. Lembro que fiz um arquivo chamado “pitadas de sal” com esses poemas menores para apresentar à Júlia Vita, editora do livro. Então, “refinaria” traz também essa contraposição de formas, mas não de forma segmentada. Os poemas caudalosos e os enxutos estão entrelaçados. Falo sobre os processos de refino de memórias, de sentimentos e de percepções e, em contraponto, digo que é necessário inaugurar uma antirrefinaria, o que tem a ver com a espontaneidade, com a vida que precisa ser vivida de bate-pronto, com o texto escrito sem tanta racionalização, pelo menos num primeiro momento. O que é a vida sem um porém?


Você escreve desde quando?
Rodrigo Cabral - 
Praticamente nasci numa redação de jornal, que a frequentei desde muito novo para esperar meu pai no trabalho. O cheiro de jornal impresso sempre foi muito forte durante toda a minha vida. Durante a adolescência, quis entrar para aula de música. Pedi um violão ao meu pai. Ele negociou que atenderia a meu pedido, mas, antes, eu deveria fazer uma espécie de “estágio”, para que eu escrevesse algumas redações. E lá fui eu. Os textos eram sempre corrigidos com muita tinta vermelha. No fim das contas, ganhei o violão, que me acompanha até hoje, e um gosto pela escrita e pela edição, também. Veja bem, não tenho medo da caneta vermelha. Essa é a refinaria — editar e ser editado, inclusive pelo leitor — necessária para viver, para terminar uma obra. Algumas dessas memórias estão no poema “chefe”. Anos depois, decidi cursar Jornalismo. Acontece que, confesso, a objetividade e a realidade muitas vezes sufocam. Escreveu Mallarmé: “É de ficar admirado que não exista uma associação, em todas as grandes cidades, entre os sonhadores que aí permanecem para supeditar um jornal que observe os acontecimentos sob a luz própria do sonho”. Estou tentando, ao meu jeito.


Você tem algum ritual de preparação para a escrita? Tem alguma meta diária de produção?
Rodrigo Cabral - 
Tenho feito diário de escrita, o que ajuda bastante. Algumas vezes, palavras ou frases se intrometem na minha mente. Digo que são “galhos”. Posso puxar e descobrir uma árvore inteira. Ou posso ignorar, deixar para lá, dizer que depois me sento para escrever — geralmente é a pior opção, porque o próximo dia pode ser de terra arrasada.


Quais são seus projetos atuais de escrita?
Rodrigo Cabral - 
Quero continuar a refinaria. Não esta, pois agora já é texto consolidado. Meu desejo é escrever mais poemas e um romance. Meu desejo é escrever. 

sábado, 23 de novembro de 2024

.: Entrevista: Antonio Pokrywiecki expõe medo do futuro em conversa


Uma geração criada em meio às consequências do neoliberalismo, assistindo filmes apocalípticos e observando a degradação ambiental em escalada, parece compartilhar uma série de temores. Utilizando-se da sátira e do potencial inventivo do conto para forçar as barreiras entre realidade e ficção, o autor Antonio Pokrywiecki aborda esses temores em “Dentes de Leite”, lançamento do selo Cachalote, da editora Aboio. As narrativas da obra, mesmo que  fragmentadas, conseguem criar um retrato certeiro da realidade contemporânea.

Pokrywiecki nasceu em Joinville, em Santa Catarina, e atualmente vive em São Paulo, capital. Ele estreou na literatura com o romance “Tua Roupa em Outros Quartos” (Patuá, 2017) e tem contos publicados nas antologias “2020, o Ano que Não Começou” (Reformatório, 2021), “Antologia - Contos” (Selo Off Flip, 2022) e “Realidades Estilhaçadas” (Mondru, 2023). Compre o livro "Dentes de Leite" neste link.


Quais são os temas centrais de “Dentes de Leite”?
Antonio Pokrywiecki - Embora o livro não tenha a intenção de debater temas específicos, após a escrita eu me dei conta de que alguns temas permeavam todos os textos: o medo do futuro, a opressão pelo trabalho e o hedonismo deprimido.


Por que você decidiu abordar esses temas?
Antonio Pokrywiecki - A consciência do fim do mundo é algo que faz parte da minha identidade, da minha forma de viver, das escolhas que faço desde quando acordo até quando me deito, embora eu sempre tenha recalcado esse sentimento. Acredito que muitas pessoas da minha geração se identifiquem com isso. Em meu livro há uma miríade de personagens erráticos ou fetichistas, escravos de um prazer individualizado e cada vez menos possível. Essa busca incessante e solitária pelo prazer é resultado de um esgotamento de alternativas políticas e sociais ao neoliberalismo. A sensação é de impotência coletiva, algo que Mark Fischer cunhou como hedonismo deprimido, e que permeia muito do meu texto. 


O que te motivou a escrever essa obra?
Antonio Pokrywiecki - Eu vinha trabalhando na escrita de um romance, e a verdade é que o processo de escrita de romance, para mim, é sempre torturante. Você se enfia em um buraco e não sabe como sair dele, fica meses sem encontrar o caminho de volta. Você fica travado, passa meses travado. Aí você se encontra e retoma a escrita, ou desiste. Foi o que eu fiz.


Por que você optou por contos?
Antonio Pokrywiecki - Desisti de escrever o romance e passei a escrever contos como uma forma de reencontrar a diversão na escrita, na invenção. Escrever contos, para mim, é como passar uma noite divertida com alguém, em que tudo pode acontecer. Você não tem um compromisso de longo prazo com a forma, com o estilo. Suas decisões podem ser revertidas em poucas páginas, quando uma nova história se inicia. Isso dá ao autor uma liberdade que o romance nem sempre permite.


De onde surgiu o título “Dentes de Leite”?
Antonio Pokrywiecki - De certa forma, o título veio antes do livro. “Dentes de Leite” foi um título que pensei aos  dezoito anos, para um livro que reunisse meus primeiros contos. Acabei desistindo da ideia, até que, dez anos depois, conforme o livro ganhava forma, eu escrevi um conto no qual um menino tem seus dentes arrancados em um episódio de violência escolar. É um conto muito especial para mim, porque explora essas experiências definidoras da infância e da juventude, que deixam marcas permanentes, algo que também está presente em outros contos. Os dentes são descartados, mas fica a lembrança de tê-los arrancados. “Dentes de Leite” foi uma escolha óbvia de título para mim e acabou, meio que sem querer, amarrando o livro.


Por que você escolheu contos fragmentados para essa obra?
Antonio Pokrywiecki - Quando eu começo a escrever um conto, eu nunca sei o que vai acontecer ao fim da história. Geralmente começo por uma cena, que puxa outra, que puxa outra. Isso faz com que meu processo de escrita seja fragmentado por si só. Eu vou descobrindo a história conforme avanço, e o leitor também. No fim, a soma das partes gera uma compreensão do todo. Esse é o motivo pelo qual os contos deste livro são fragmentados, é meu processo de criação. Existe uma tendência geral a fragmentação de conteúdo em vídeos curtos, parágrafos curtos, filmes curtos, músicas curtas. Tudo são pílulas e cortes, com a liberdade para acelerar e pular o que for. Existe uma obsessão por eficiência comercial, conquistar a atenção do consumidor exigindo o mínimo atrito, para se manter competitivo mercadologicamente. Minhas intenções passam longe disso, e evito pensar muito na experiência de leitura. Na literatura, paradoxalmente, a fragmentação exige mais do leitor, que leva mais tempo para entrar no texto, exigindo mais concentração e dedicação. Acaba sendo menos como uma história, mais como um quebra-cabeças que se monta a dois. Embora eu não queira propor um contraponto à lógica do algoritmo, acredito que ignorá-la e escrever sem abrir concessões seja uma forma de recusa. 

Quais são suas inspirações na escrita?
Antonio Pokrywiecki - O livro levou quatro anos para ser escrito, e foi influenciado, em forma e conteúdo, por muita coisa, além de literatura e arte. Eu sou fascinado por autoajuda, por exemplo, e às vezes sou influenciado por uma peça publicitária, desenho animado, reality show, livros técnicos e de negócios. Eu me divirto em livrarias de aeroporto, por exemplo.


Quais escritores te influenciaram?
Antonio Pokrywiecki - Na literatura, sou um entusiasta do Oulipo, especialmente influenciado por Georges Perec, do pós-modernismo norte-americano e do conto argentino. Destacaria também Roberto Bolaño, Lydia Davis, George Saunders e Donald Barthelme, que são autores-chave, para mim, quando se trata de escrita em formas breves.


Qual sua principal estratégia para desenvolver seu processo criativo?
Antonio Pokrywiecki - Meu processo criativo se baseia em fazer longas caminhadas pelo bairro e tentar escrever todos os dias. Sou bastante disciplinado nesse sentido, e acredito que a constância viabilize  a criatividade. Caminhar é a parte mais importante, para mim. Quando estou bloqueado, geralmente é porque não andei o bastante. Boa parte dos contos surgiram de ideias que tive caminhando, e anotei imediatamente. Com "Nico e Kira" tive a ideia inicial do conto enquanto caminhava na praia, sem nada para anotar. Lembro que naquele dia interrompi a caminhada ali mesmo, e voltei apressado para casa, repetindo a ideia em voz alta para não esquecer. Esquecer uma ideia é a pior coisa que pode acontecer, é imperdoável. De modo geral, meus contos surgiram com algum estalo, uma coceira, uma dor de dente. Nunca começo a escrever com uma ideia clara de como vou finalizar. É o trabalho diário de escrita - e investigação - que orienta o caminho da história, permitindo que o texto se mova em direções não planejadas. E para isso, é necessário constância e paciência. A maior parte dos contos deste livro levaram meses para serem escritos. 

Na sua obra, há uma recusa à verossimilhança, por que você fez essa escolha?
Antonio Pokrywiecki - Para mim, o realismo é uma doença, e a tradição literária brasileira está molecularmente contaminada. O compromisso com a verossimilhança impõe limitações criativas ao texto, impede que a história se desenvolva de tantas outras maneiras mais inventivas. Meus contos, de modo geral, são enquadrados dentro de parâmetros realistas, mas deixo o caminho aberto para outras possibilidades.  


Escrever o livro te ajudou de alguma forma a encarar os desafios da atualidade e a realidade que você aborda nos contos?
Antonio Pokrywiecki - Escrever me ajuda todos os dias a encarar o insólito da vida. Quando não estou escrevendo, estou ansioso e perdido. Minha vida só está em ordem quando estou trabalhando em alguma história, quando sinto que a roda está girando dentro da minha cabeça. Assim, consigo lidar com o que for. A única forma que tenho de lidar com os problemas, do mundo e os meus, os que controlo e os que não controlo, é escrevendo. O processo de escrita, que é um processo de investigação e descoberta, cria um paradoxo interessante, em que aquilo que me causa incômodo é a principal, a melhor e talvez a única ferramenta de trabalho que tenho. É um ciclo de dependência, vicioso mas também virtuoso, onde dependo do insólito para exercer o que amo - e em consequência, acabo por amar também o insólito.



sábado, 26 de outubro de 2024

.: Entrevista com a escritora Claudia Schroeder, a poesia que veio do Sul

Por Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Claudia Schroeder está com novo livro, “Gatos Falando Alemão”, o quarto de sua carreira. A autora gaúcha reuniu 51 poemas que falam do cotidiano, mas o erotismo continua presente, sempre de forma direta, sem rodeios, mostrando os tantos lados das questões humanas. Estão lá temas como a maternidade, a angústia, a felicidade. Os poemas são numerados e o título do livro vem de um dos textos, que conta a história de uma mãe manipulada pela filha. Com uma produção editorial constante e incentivada pelo amigo escritor Pedro Gonzaga - que assina a apresentação -, ela reuniu alguns textos e enviou para o edital da Isto Edições, que já conhecia o seu trabalho e decidiu lançar a obra tendo Claudia como autora convidada.  Além de Pedro, o livro conta também com um texto da escritora Martha Medeiros na quarta capa.

Claudia Schroeder nasceu em 1973, em Santo Ângelo, Rio Grande do Sul. Estrategista criativa, cria conversas e palestras sobre temas femininos abordados em sua literatura. Foi premiada com o 2º lugar no Concurso Nacional de Poesia Helena Kolody com o poema “Jantar”, que acabou sendo publicado na coletânea portuguesa “A Poesia é para Comer” (editora Babel), ao lado de nomes como Hilda Hilst e Chico Buarque de Holanda. Além desse trabalho atual, ela teve outros três livros publicados: “Leia-me toda” (Dublinense, 2010) - que conquistou o terceiro lugar no Prêmio Biblioteca Nacional e, por ter a capa em braille, chegou a ser finalista do Prêmio Açorianos de Literatura -, “As partes nuas” (Francisco Alves, 2021) - finalista do Prêmio Ages e Academia Rio-Grandenses de Letras -; e “As línguas são para outras coisas” (Taverna, 2022).

Em entrevista para o Resenhando, ela conta sobre suas influências no início da carreira e comenta sobre o momento atual do mercado literário. “A rede social ampliou o acesso do público para obras de poesia”.


Resenhando.com – Como foi seu início na Literatura e quais foram suas principais influências?

Claudia Schroeder – Eu comecei muito cedo. Escrevi minha primeira poesia quando tinha nove anos. Nessa época acompanhava meu pai, que recebia os amigos para tocar música em casa. Tive acesso às obras de Cartola, Tom Jobim e outros nomes conhecidos da MPB, além das canções que meu pai e seus amigos compunham e cantavam. Desde então, no início, já adolescente, tive contato com a obra de Mário Quintana e me apaixonei pelo estilo dele. As escritoras Fernanda Young e Adélia Prado foram outras referências importantes para mim. Hoje em dia passei a ter contato com a obra de vários autores internacionais contemporâneos que admiro muito.


Resenhando.com – Nesse seu quarto livro, o erotismo é notado na sua obra. Como foi que você passou a incorporar esse tema nas poesias?

Claudia Schroeder – Na verdade vem desde o início, quando eu decidi ser escritora. Porque achava que o tema (erotismo) ainda era visto como um tabu pela sociedade. Hoje em dia ele já é visto de uma forma diferente. Acho que o fato de minha obra ser objetiva e direta ajudou o público a compreender melhor o tema, sem criar falsas expectativas.


Resenhando.com – Como você avalia o mercado literário na atualidade?

Claudia Schroeder – No campo da poesia ainda há muito o que avançar. Penso que a rede social, de uma certa forma, foi positiva para a poesia. Temos vários autores divulgando seus trabalhos por intermédio da rede social. Facilitou o acesso do público, porque na poesia o texto é mais curto do que o de uma obra de prosa, por exemplo. Mas acho que as redes de ensino poderiam incorporar o tema poesia de uma forma mais efetiva, porque há uma ampla gama de possibilidades que pode ser explorada pelos educadores. Enfim, acho que podemos avançar ainda mais.

livro, “Gatos falando alemão”, de Claudia Schroeder está disponível aqui: https://amzn.to/4fnvAC1

As línguas são para outras coisas


Poema do livro "As línguas são para outras coisas" por Ana Beatriz Nogueira



sexta-feira, 11 de outubro de 2024

.: Entrevista: Tom Schuman entra em nova fase com disco solo


Por
 Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

O músico Tom Schuman, que por mais de 40 anos integrou o grupo Spyro Gyra, está iniciando uma nova fase da carreira solo. Morando atualmente na Espanha, ele acaba de lançar o álbum "I Am Schuman" nas plataformas digitais e começa a divulgar esse novo trabalho autoral, no qual tem o controle total da produção e mixagem e segue a linha do chamado smooth jazz com influência direta do estilo fusion. Destaque para as faixas "Loose Change" e "Set It Off", onde ele demonstra sua habilidade como solista no teclado. Em entrevista para o Resenhando.com, Schuman explica o conceito utilizado para esse trabalho e revela seus planos para o futuro. “Este álbum representa minhas capacidades de produção”.


Resenhando.com - Como você define o conceito musical do seu novo CD," I Am Schumam"?
Tom Schuman - O conceito musical para "I Am Schuman" começou como uma série de faixas que criei usando improvisações improvisadas. Eu as executei no meu estúdio e/ou no meu piano em Las Vegas nos últimos 15 anos. Já lancei dois singles com esse conceito em mente. "The Candy Store is Open" e "Syntropy". Esses dois singles também estão sendo relançados neste álbum. Meu título inicial era "I'm Only Schuman". Mas quando Sandeep Chowta concordou em promovê-lo em seu selo Namma Music na Índia, ele o chamou de "I Am..." em vez de "Im Only...". Então, para mim, este álbum representa minhas capacidades de produção, bem como meu trabalho de teclado sozinho no estúdio. Com exceção de dois cortes, ("Comfortable Silences" e "Loose Change"), executei cada parte e mixei o álbum inteiro sozinho. "Comfortable Silences" apresenta o guitarrista indiano, Abhay Nayampally. "Loose Change" incorpora os ritmos ofegantes de Kevin Whalum.

Resenhando.com - Qual é a diferença entre esse trabalho atual e o que você fez no Spyro Gyra?
Tom Schuman - Este trabalho atual é um esforço completamente solo. Tenho controle sobre todos os aspectos da música, som, performance e mixagem. Enquanto Spyro Gyra era um ambiente mais democrático, incorporando muitas pessoas que influenciam o resultado final.

Resenhando.com - Como funciona seu processo de criação musical?
Tom Schuman Meu processo de criação geralmente começa com um sentimento inspirado por um solo de piano improvisado ou um groove de um orquestrador de ritmo ou patch de sintetizador. O resto do processo é deixado para a performance improvisada, conforme eu sinto ao longo do tempo. Às vezes, edito muitas improvisações diferentes juntas para criar algo único para mim. Outras vezes, a peça inteira sai de mim em uma tomada. Então, eu a produzo usando patches de baixo, ritmos, pads, cordas ou outros sons para aprimorar a performance básica. Eu chamo isso de método Zawinul. O falecido e grande Joe Zawinul do Weather Report falou sobre esse método de escrita durante uma entrevista. A maioria de suas composições surgiu de uma improvisação básica que ele então escreveu para outros músicos interpretarem. Descobri que essa era a melhor maneira de escrever algo novo e interessante, pelo menos para meus ouvidos.


Resenhando.com - Você tocou com vários nomes atuais do jazz, como Jeff Lorber e Jeff Kashiwa, entre outros. Há planos para novas parcerias musicais no futuro?
Tom Schuman Ainda não há planos, mas estou sempre aberto a trabalhar com qualquer um que queira pensar fora da caixa. Recentemente trabalhei com Paul Brown em algumas faixas. Ele tem uma técnica de mixagem linda que faz tudo soar como uma lufada de ar fresco!


Resenhando.com - Como o novo CD está sendo promovido? Há planos para shows?
Tom Schuman Estou deixando Sandeep Chowta e o consórcio Namma Music liderarem o caminho na promoção e distribuição. Quanto aos shows, tenho algo marcado na Sardenha, Itália, com meu trio de jazz. É para o Culture Fest de 2024 lá. Será no dia 16 de novembro e contará com Ameen Saleem no baixo e Guido May na bateria. O material de "I Am Schuman" exigiria muito mais músicos e ensaios para representá-lo adequadamente ao vivo. Então, espero poder apresentá-lo em um futuro próximo. Fique ligado!


"Set It Off"

"Loose Change"

"How Sensitive"

terça-feira, 24 de setembro de 2024

.: Entrevista: Bruno Haulfermet traz representatividade gorda, LGBT+ e racial


"Que a gente não se permita viver uma vida pela metade, sem plenitude"
, defende o autor Bruno Haulfermet integra uma nova geração de escritores nacionais que lutam para trazer representatividade real na literatura brasileira. Autor gay, ele escreveu a romantasia young adult "Depois das Cinco", publicada pela Buzz Editora, para abordar a pluralidade de existências brasileiras por meio de protagonismo gordo, racial e LGBTQIAPN+. Em entrevista, ele fala sobre a importância da real representatividade na literatura brasileira.

Romance, fantasia, uma boa dose de mistério e muita diversidade: essa é a premissa de "Depois das Cinco", que narra a jornada de Ivana, uma adolescente que deixa de existir todas as tardes, quando o relógio marca seis horas em ponto, e ressurge somente depois das cinco da manhã do dia seguinte.  Enquanto tenta esconder esse segredo a sete chaves, a garota acaba se apaixonando por Dario, um menino desconhecido por todos na província onde moram. O rapaz vive a mesma condição corporal, mas de forma oposta: sempre que ela retorna ao mundo físico, ele desaparece. Com encontros limitados a breves minutos diários, quando seus corpos estão translúcidos, os dois iniciam uma busca para descobrir como driblar o impasse temporal e viver essa paixão. Mas se deparam com uma teia de mentiras capaz de colocar seus destinos em risco.  

Em entrevista, Bruno Haulfermet revela as inspirações por trás do enredo e as reflexões humanas presentes na obra, além da relação com quadrinhos e o gênero de terror. O autor destaca principalmente a importância da representatividade na literatura jovem brasileira, por meio de personagens que dão voz à pluralidade de existências. Ele sempre foi ligado à arte. Seu amor precoce pela leitura se deu graças aos quadrinhos da "Turma da Mônica" e, com o passar dos anos, foi se estendendo aos livros. Ainda na adolescência, começou a escrever contos de terror e fantasia baseados nos volumes de "Goosebumps". Entusiasta da cultura pop, sobretudo a dos anos 1990, Bruno é designer por formação, já foi colunista do blog Plugcitários e embaixador do Wattpad, onde se tornou líder de curadoria de conteúdo. É fã de animes e filmes hollywoodianos, adora frappuccinos e generosas fatias de bolo caseiro. Depois das cinco é o romance de estreia do autor. Leia a entrevista na íntegra. Compre o livro "Depois das Cinco" neste link.


Ivana e Dario vivem um amor quase impossível em "Depois das Cinco", por causa da diferença temporal que dificulta a convivência entre o casal. Como surgiu a ideia de criar um romance no qual os protagonistas estão em tempos opostos, e qual lição de vida os leitores podem levar dessa leitura?
Bruno Haulfermet - A inspiração veio do filme "A Casa do Lago", com a Sandra Bullock e o Keanu Reeves, onde eles ficavam nessa casa, mas cada um em um dado ponto do tempo. Havia uma diferença de dois anos entre eles. Eles começam a se corresponder, se apaixonam e tentam encontrar uma forma de viverem esse amor, apesar da questão do tempo. Daí veio a ideia de a Ivana só existir em um período do dia e do Dario em outro. O livro traz um alerta sobre o quão incompletos a gente pode se sentir ao longo da vida, à medida que nos conformamos com os acontecimentos que nos chegam. E carrega uma mensagem de que a gente fique atento e não se permita viver uma vida pela metade, sem plenitude. Temos o direito de ser quem quisermos e lutar por isso.  


A pluralidade é um aspecto muito presente na obra, a partir de personagens gordas, com diversidade racial e que se identificam como LGBTQIAPN+. Como escritor e homem gay, de que forma você enxerga hoje a importância da representatividade na literatura nacional?
Bruno Haulfermet - Obrigatória, não apenas na literatura nacional, mas em todos os veículos artísticos. Cresci nos anos 90 e não tive oportunidade de me ver representado em personagens. E, não vendo personagens gays, foi mais difícil me sentir parte do mundo. E como você – ainda muito jovem, com uma personalidade em formação – faz quando simplesmente percebe que não se encaixa em nada? Por ter vivido isso diretamente, assumi o compromisso de não ter essas “ausências” nas minhas obras. É de extrema importância apresentar personagens diversos, não apenas em situações pouco/não-convencionais, mas também dar voz e relevância a eles. É assim que, a meu ver, o leitor vai se sentir visto, respeitado e vai vislumbrar para o seu futuro um milhão de possibilidades. 


Província de Rosedário, com as rosas de caule rosado e seus mistérios, pode ser considerada até mesmo uma personagem secundária do livro. O que inspirou a criação desse cenário e como ele reflete os temas abordados?
Bruno Haulfermet - As próprias rosas são tão protagonistas quanto Ivana e Dario, na mesma medida. Eu quis criar um cenário que fosse bastante visual e que conseguisse transmitir a atmosfera intimista de forma bem fácil. Me inspirei em cidadezinhas da Itália e da França, rústicas e pequenas, para que a Província de Rosedário pudesse encantar pela beleza e, ao ser revelado o plot, tivesse um contraste bem grande com a coisa terrível que acontece por lá. Ser um lugar de poucos habitantes também reforçou o quesito “fofoca”, onde todo mundo se conhece e qualquer passo errado pode e vai repercutir em todos os cantos de lá, o que, por si só, já é bem assustador.  


Como designer por formação, de que maneira sua bagagem profissional influenciou a forma como você descreve cenários, personagens e as cenas no livro?
Bruno Haulfermet - Carrego comigo a máxima de que quando algo é bem-conceituado, absolutamente tudo pode encantar. Então sempre fiquei atento para que o conceito do livro não se perdesse. É muito importante ver – e não esquecer – que o livro é um produto. E como tal, precisa estar lapidado para o leitor/consumidor. Capítulos objetivos, descrições claras e sem delongas, diálogos interessantes e reais, entre tantos outros aspectos que precisam ser levados em conta para, ao mesmo tempo, não frustrar o leitor e proporcionar uma experiência de imersão inesquecível. Da parte visual: capa e todo material de apoio, impresso ou digital, também vai conversar com esse conceito. E, como designer, fica bem mais fácil conduzir esses alinhamentos de forma que se crie uma identidade sólida, porque eu sei o que vai funcionar ou não diante daquele contexto.  


O seu amor pela leitura começou com quadrinhos e evoluiu para livros de terror e fantasia. Como essas influências moldaram seu estilo de escrita no young adult "Depois das Cinco", em que você mistura romance, fantasia e suspense?
Bruno Haulfermet - Os quadrinhos tiveram um papel fundamental no desenvolvimento do meu vocabulário, antes dos livros, além de ter esse “elemento fantástico” bem visual. Embora eu escreva/assista romance e fantasia, meu gênero da vida é o terror. É o que mais consumo desde sempre, e é o gênero que mais me traz inspirações. Por conta disso, é inevitável que as minhas obras tenham elementos de mistério, suspense e até uma dose macabra. Em "Depois das Cinco" não foi diferente: apesar do romance e da fantasia, a obra não é totalmente água-com-açúcar e tem momentos de prender o fôlego.


Antes de ser publicado pela Buzz Editora, "Depois das Cinco" foi um sucesso no Wattpad. Agora, você lança a obra com exclusividade durante a Bienal de São Paulo. Como essa transição do digital para a publicação tradicional impactou sua carreira enquanto autor estreante?
Bruno Haulfermet - "Depois das Cinco" teve uma grande aceitação no Wattpad, tendo inclusive sido shortlist no The Wattys (premiação interna e oficial da plataforma) e semifinalista em um concurso da Galera Record. O impacto do digital para o físico é enorme: a primeira coisa – a mais legal e também a mais clássica – é poder ver o resultado do seu trabalho literalmente na palma da sua mão. O livro físico ainda tem uma força muito grande e isso facilita a aproximação com o leitor, em uma sessão de autógrafos, por exemplo. Aprendi muito com o processo em si, desde a assinatura do contrato até a distribuição. Conheci profissionais incríveis. O próprio convite para a publicação foi um reconhecimento muito gratificante e que mostra que meu trabalho está sendo bem-visto.

sexta-feira, 13 de setembro de 2024

.: Entrevista com Fagner, muito além do futuro


Por
 Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

O cantor e compositor Raimundo Fagner está em plena atividade. Depois de realizar um disco conceitual com canções da época da seresta e trabalhos em parceria com Zeca Baleiro, Elba Ramalho e Renato Teixeira, o cearense lançou um tributo ao amigo Belchior, um novo (e ótimo) disco de canções autorais ("Além do Futuro") e já está finalizando um novo disco com canções de forró pé de serra. Trabalhos esses que mostram não só a sua versatilidade mas também o seu apreço pelo som popular sem perder a força da poética e do romantismo. Em entrevista para o portal Resenhando.com, Fagner conta um pouco do conceito do seu trabalho autoral e seus planos para o futuro, ou melhor, além do futuro. "A música sempre esteve presente na minha vida".

Resenhando.com - Com 50 anos de carreira, você ainda encontra força para lançar álbuns autorais. Qual é o segredo dessa vitalidade criativa?
Raimundo Fagner -
Acho que muito dessa vitalidade que você citou vem do fato de eu ter muitos parceiros. Fausto Nilo, Caio Silvio, Abel Silva...a lista é bem grande. Tem momentos que estou trabalhando em uma melodia e imagino que determinado parceiro pode acabar gostando e se identificando. Mas não nego que gosto de compor também. A música sempre reinou em minha vida e vai continuar reinando por muito tempo, se depender de mim.


Resenhando.com - Esse seu disco autoral, "Além do Futuro", parece soar saudosista. Isso foi intencional?
Raimundo Fagner - A intenção foi ressaltar a força da poética dentro da música. Realmente algumas canções soam nessa toada mais saudosista. Mas não tive essa intenção. Eu deixei a coisa fluir como ela deveria ser. O ponto de partida foi a faixa Noites do Leblon, que canto com o Zeca Baleiro. Logo depois veio a faixa que deu título ao disco (Além do Futuro), com letra de Fausto Nilo. A partir daí já tinha o conceito do disco e tudo fluiu muito bem.  Há uma releitura de Onde Deus Possa me Ouvir, do Vander Lee, que eu já queria gravar há algum tempo

Resenhando.com - Há uma bela canção intitulada "Filho Meu", que foi composta para seu filho, que você conheceu mais recentemente.
Raimundo Fagner - Foi uma felicidade imensa esse reencontro com meu filho. Essa canção eu fiz com o Caio Silvio, que percebeu a beleza dessa história e fez uma homenagem sutil ao meu filho Bruno. É uma das músicas que mais gosto desse disco. Tenho mostrado para amigos e não tem quem não se emocione.


Resenhando.com - Você já fez discos em parceria com Zeca Baleiro, Renato Teixeira e Elba Ramalho recentemente. De onde vem essa facilidade para fazer essas parcerias?
Raimundo Fagner - Como eu disse anteriormente, a lista de parceiros que tenho é bem grande (risos). Eu gosto de trabalhar em parceria porque sempre rende algo positivo musicalmente. Todos esses trabalhos que você citou me deixaram realmente realizado.


Resenhando.com - É verdade que você tem uma relação afetiva com Santos?
Raimundo Fagner - Você mora na cidade do clube do Rei Pelé. Então já tem algo muito especial. Eu tive amizade com Pelé e com o Zito, que chegou a ir em shows meus. Sou amigo do filho do eterno capitão santista. Eu estava na arquibancada da Vila Belmiro quando o Pelé se despediu do futebol em 1974. E cheguei a jogar com ele na época em que ele estava no Cosmos de Nova York, que tinha outros jogadores lendários, como o Carlos Alberto Torres, Beckenbauer e outros. Tenho um carinho enorme pela Cidade de Santos, no Litoral Paulista.

Resenhando.com - Você segue fazendo os shows ao vivo?
Raimundo Fagner - Com certeza. Estamos acertando apresentações em Minas Gerais. E espero poder levar aí, para Santos. Quem sabe ainda dá tempo para jogar um pouco de futebol na Vila Beimiro?  Seria perfeito.

"Além Desse Futuro"

"Noites do Leblon"

"Recomeçar"

.: Entrevista com Jay Beckenstein: Spyro Gyra completa 50 anos de boa música


Por
 Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Há 50 anos, um grupo de jovens músicos começava nos Estados Unidos uma incrível jornada pelo jazz instrumental, influenciado pelo estilo fusion que estava em alta na época. E a receita deles trazia um certo tempero pop ao som, que acabou se tornando sua irresistível marca registrada e conquistou centenas de fãs pelo mundo afora. Mundo esse que não se cansou nunca de presenciar o som mágico da banda Spyro Gyra em todos os seus continentes. E mesmo com as mudanças na formação, a sonoridade se manteve intacta.

Líder e fundador do grupo, o saxofonista Jay Beckenstein, continua tocando seu instrumento com a mesma vitalidade do início, contando com Julio Fernandez (guitarra), Scott Ambush (baixo), Lionel Cordew (bateria) e Chris Fisher (teclados) como integrantes fixos atuais. Em entrevista para o Resenhando, Jay Beckenstein conta como foi seu início na música, comenta sobre o panorama atual do jazz e não descarta lançar mais um álbum com canções inéditas. “Espero que a gente crie um conceito para outro disco no futuro”.


Resenhando.com - Como e quando foi que a música chegou até você?
Jay Beckenstein -
Nasci em 14 de maio de 1951 no Brooklyn, Nova York, e cresci cercado por música. Minha mãe era cantora de ópera e o amor do meu pai pelo jazz me apresentou a Charlie Parker e Lester Young antes que eu pudesse falar. Comecei a tocar piano aos cinco anos de idade, quando minha família se mudou para Farmingdale. Ganhei meu primeiro saxofone por meio do programa de música na escola primária aos sete anos de idade. No meu primeiro ano na faculdade, comecei a trabalhar em clubes em Buffalo e, quando me formei, tinha um trabalho estável nos clubes. Os próximos anos foram gastos tocando em algumas grandes bandas de blues e Rhythm & Blues.


Resenhando.com -Nesses 50 anos, você viu muitas mudanças no mundo da música. Como avalia o momento atual?
Jay Beckenstein - Acho que há tanta coisa que foi feita musicalmente que muito do que está acontecendo parece ser uma repetição de ideias antigas. Não parece haver muito espaço para novas descobertas e música agora, mas é claro que ainda há ótima música sendo feita. Mas muito disso parece ser uma repetição do passado.

Resenhando.com - Apesar das mudanças na formação, o som do Spyro Gyra continua intacto. Qual é o segredo da longevidade?
Jay Beckenstein - Permanecendo fiéis a nós mesmos. Sabe, nunca perseguimos um estilo. Sempre fizemos o que parecia natural, o que era natural e acho que nosso estilo foi formulado em uma época na música em que havia muita riqueza e ecletismo. Havia tantos tipos diferentes de música dos quais se basear na época. Então, esse amálgama particular de música nos moldou.


Resenhando.com - Em 1992, você tocou na gravação da música "Another Day", com o grupo Dream Theater. Como foi essa experiência?
Jay Beckenstein - Primeiro de tudo, eu gostei muito. Eu era dono de um estúdio de gravação, o BearTracks, e o Dream Theater estava gravando lá. Então foi tudo muito, muito casual. Eles estavam lá em cima gravando e alguém disse: "Você quer tentar um solo de sax?" Então eu subi e levou cerca de 15 minutos. Pareceu muito natural, foi ótimo. Essa foi minha introdução inicial a eles. Aquele solo de sax entrou no disco deles e estou orgulhoso disso. É um solo muito legal. Mas então fomos um pouco mais longe com isso e eu me apresentei com eles algumas vezes. E ainda sou amigo de Jordan Rudess (o tecladista do Dream Theater), que mora na minha área.

Resenhando.com - Desde o começo, a influência da música brasileira pode ser notada no som do Spyro Gyra. Fale sobre a relação com a nossa música.
Jay Beckenstein - Como um jovem que estava apenas desenvolvendo meu som, eu estava imensamente interessado em Samba. Era simplesmente a música mais bonita, alegre e ainda incrivelmente sofisticada. Acho que fui apresentado a ela pela colaboração de Stan Getz, João Gilberto e Tom Jobim. Mas sim, meu apego à música brasileira remonta a quando eu tinha 14 e 15 anos, com aquelas coisas maravilhosas de jazz samba acontecendo.

Resenhando.com - Qual é a sua opinião sobre o momento atual do jazz?
Jay Beckenstein - O jazz é uma forma de arte grande demais para desaparecer. Quer ele permaneça em algum tipo de estado puro ou não, sua influência continuará sendo imensa. Eu sinto que o jazz, junto com a música clássica, são os pináculos da musicalidade. Eles exigem tanta dedicação. Eles exigem tanto trabalho que são realmente uma arte elevada no mundo da música. E esse é o tipo de coisa que não desaparece. Bach não desaparece e nem 'Trane” (apelido dado ao renomado músico de jazz John Coltrane).

Resenhando.com - A banda já está em turnê para comemorar seu 50º aniversário. Há alguma intenção de gravar um novo álbum?
Jay Beckenstein - Essa é uma pergunta muito boa. Eu acho que eu consideraria gravar um novo álbum se eu sentisse que tenho algo novo a dizer. Qualquer reticência de que eu teria que não fazê-lo é mais que, agora, eu não tenho uma ideia totalmente nova para onde ir. Não valeria a pena apenas refazer o que fizemos em mais de 30 discos. Por outro lado, no passado, quando começamos a gravar projetos, eles me energizaram e energizaram a banda. Então, espero que a gente crie um conceito para outro álbum no futuro.


"Morning Dance"

"Catching The Sun"

"Shaker Song"

domingo, 1 de setembro de 2024

.: Entrevista: escritora gaúcha Marina Monteiro fala sobre o livro “Açougueira”


Marina Monteiro leva o leitor a assumir o lugar da acusada e oferecer-lhe o benefício da dúvida, criando uma reflexão sobre a culpabilização feminina. Fotos: Manu Deça

A violência doméstica e as opressões sofridas pelas mulheres, bem como a discussão das posições sociais dos gêneros são alguns dos assuntos que a autora e dramaturga Marina Monteiro escolheu abordar no romance de estreia “Açougueira”, publicado pela editora Claraboia. O enredo deste romance provocativo acompanha as investigações do assassinato e esquartejamento de um homem e é narrado por meio dos depoimentos dos moradores da cidade, uma cidadezinha interiorana onde todos se conhecem.

A principal suspeita de ter cometido o crime é a esposa do assassinado, que detalha em seus depoimentos a história da vida do casal, desde seu enlace até a decadência da relação. Por meio deste formato narrativo, a autora leva o leitor a assumir o lugar da acusada e oferecer-lhe o benefício da dúvida, criando uma reflexão sobre a culpabilização feminina. Marina Monteiro é atriz, arte-educadora, produtora e gestora cultural, possui licenciatura em teatro pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), e ainda o título de bacharela em filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ela nasceu em Porto Alegre, em 1982, e vive atualmente entre as capitais Rio de Janeiro (RJ) e Florianópolis (SC). A autora é vencedora na categoria de narrativas curtas do Prêmio da Associação Gaúcha de Escritoras (AGES) de 2020 com o livro “Em Nossa Cidade Amarelinha Era Sapata”, e do Prêmio Minuano de 2022, na categoria contos com o  livro “Contos de Vista Pontos de Queda”, obra que também foi indicada na mesma categoria ao Prêmio Açorianos de 2023. Compre o livro "Açougueira", de Marina Monteiro, neste link.


Por que você escolheu abordar temas referentes à justiça em sua obra?
Marina Monteiro - O tema da justiça é algo que me inquieta desde muito nova. É uma temática que me move bastante. O papel da justiça, seu ideal de imparcialidade, sua realidade muitas vezes parcial em uma sociedade tão desigual quanto a nossa. Os embates morais e éticos que advém quando refletimos sobre os processos da justiça me inquietam. Quando li a peça "Antígona" na faculdade de teatro já fiquei atenta e anos depois na faculdade de filosofia a revisitei com diversas matérias e debates sobre ética, moral, justiça e as relações com as realidades sociais, e sempre fiquei muito motivada. 


De onde veio a ideia do romance?
Marina Monteiro - 
A ideia do romance surgiu de uma dramaturgia que finalizei em março de 2020, chamada “Carne de Segunda”. Esta dramaturgia surgiu de uma prática de escrita coletiva, de um trio de atrizes escritoras que eu participava junto com Érida Castello Branco e Sônia Alves, no Rio de Janeiro. Fizemos uma determinada dinâmica que funcionava assim: escrevíamos nossos nomes em papéis e dobrávamos, escrevíamos situações em outros papéis e dobrávamos. Depois cada uma sorteava um nome e uma situação. A ideia era escrevermos textos teatrais para a outra atuar. Meus papéis foram Sônia e júri. Lembro que fui pra casa e joguei no google as palavras júri e mulher e a quantidade de matéria sobre violência doméstica foi absurda. O que me fez querer ir mais a fundo. Fiquei pesquisando casos de violência doméstica e feminicídio e o papel da justiça nesses casos, em muitos a mulher saía perdendo, condenada mesmo sendo vítima e de ter perdido a própria vida. Tem um fato estranho no meio disso tudo que é o seguinte: eu juro que achei uma reportagem sobre uma mulher, moradora de uma cidade do interior, que toda a cidade era testemunha de que o marido corria atrás dela com um machado em volta da casa, e ninguém fazia nada. Um belo dia este homem aparece morto, esquartejado, e toda a cidade se volta contra a mulher, ela é tratada como o monstro, mas nem um pio sobre o cara cercar ela com um machado. Lembro de um vizinho dizer a frase absurdamente clássica “em briga de marido e mulher não meto a colher”, só que para condená-la estava metendo. O fato curioso é que esta reportagem me fez começar a pensar na história da dramaturgia que depois foi semente para o romance, desapareceu, eu não salvei o link e nunca mais consegui encontrar. Este embate moral me interessa, dessa mulher da reportagem, ela era perseguida e violentada diariamente, o marido aparece morto e é ela acusada por todos, e mesmo sendo ela a responsável pelo crime, ainda assim, onde estavam todos quando essa mulher precisou de ajuda? E como a justiça prontamente já coloca essa mulher no centro do palco de acusação, sem nem pestanejar, porque claro, matar alguém é um crime sem desculpas, mas violentar uma mulher também deveria ser.


E como foi o processo de escrita da obra?
Marina Monteiro - Eu terminei essa dramaturgia um pouco antes da pandemia, daí veio o isolamento e todo o horror que começamos a viver e essa personagem não saía da minha cabeça. Em determinado momento comecei a fazer uma oficina que o escritor Robertson Frizero estava oferecendo gratuitamente no Instagram, era sobre a escrita do romance, e pra aproveitar melhor a oficina, seria legal eu ter um projeto pra me exercitar, então pensei: “ah, já que essa personagem não sai da minha cabeça, quem sabe não brinco de adaptar a peça para um romance.” Mas zero pretensão de publicar ou de que aquilo viraria um livro, era mais uma distração do horror do que um compromisso sério. Tanto que comecei a escrever o romance todo em caderno de papel com caneta vermelha, acho que pra fugir das telas, para reafirmar uma vida menos virtual naquele momento. Aí a brincadeira foi me tomando: comecei repetindo a dramaturgia e fui vendo que me limitava, ao mesmo tempo em que o texto ia ganhando vida e mudando o rumo da prosa. Quando terminei a primeira parte tive uma trava, porque sentia que mudava a forma e a linguagem mas não achava qual, e também porque eu tinha cismado que queria me distanciar do teatro, fazer apenas literatura. Superei isso e descobri que podia sim beber no teatro, na dramaturgia para fazer nascer esse romance e foi aí que voltei pros meus livros de tragédia, estudei o coro, fui mergulhando nesse universo e consegui encontrar a linguagem da segunda parte e aí o restante do livro foi se fazendo junto.


Você conta que encontrar a linguagem para a narrativa demandou muita experimentação. Como esse processo aparece no livro?
Marina Monteiro - 
Eu tento trabalhar forma, linguagem e conteúdo muito em consonância. Com uma experimentação de uma linguagem que se cola muito a sonoridade da voz da personagem, que tenta trazer o corpo pra página de alguma maneira. Também experimento muito em “Açougueira” as estruturas narrativas, variando as formas de contar esta história e de apresentar estas vozes. O livro é dividido em cinco partes, compostas de capítulos curtos. Em cada uma das partes há uma experimentação de forma diferente, que tenta dar conta da polifonia e do entrecruzamento dessas vozes para movimentar a narrativa. Todas as partes são em primeira pessoa.


Além dos capítulos com diferentes narradores, você traz a questão da fofoca para compor a polifonia. Qual era sua intenção em apresentar tantas opiniões e versões dos fatos ao leitor?
Marina Monteiro - A coisa da fofoca surge nessas vozes preconceituosas e repressoras dos vizinhos dessa personagem, que a julgam o tempo todo, com rara exceção. Aqui brinquei um pouco com a ideia de coro grego só que pensado como um grupo de fofoca, um grupo de Whatsapp de bairro, onde o julgamento e os conservadorismos rolam soltos, no livro eles estão depondo contra ela, mas tem esse tom de fofoca, de invenção. Eu brinco com isso também, de deixar a pessoa leitora tentar decidir que lado ela vai tomar na história. Viver seu próprio embate moral ali. Decidir quem é culpado, quem é inocente e até mesmo se existem culpados e inocentes num caso como o do livro. Ouvir todas aquelas vozes e se movimentar a partir delas.

Quais são as suas influências literárias? Teve alguma que influenciou diretamente o “Açougueira”?
Marina Monteiro - Meus primeiros escritos emulavam muito do estilo de Clarice Lispector e do Fernando Pessoa, autores que me fizeram perceber que literatura podia ser mais que contar uma história, que tinha um mistério ali no como contar, que era fascinante. Outras influências que eu posso citar aqui são Saramago, Lygia Fagundes Telles, Hilda Hilst, Guimarães Rosa, Faulkner, Natalia Borges Polesso, Marcela Dantés, Carola Saavedra, Érico Veríssimo, entre muitos outros. “Açougueira” não teve influência de nenhuma obra ou escritor específico, talvez um pouco da “Antígona”, porque eu tinha acabado de vir de um semestre debatendo ela a partir da República de Platão e as noções de justiça inclusas na peça, além de uma influência do estudo do coro grego.


A escrita do livro te transformou de alguma maneira?
Marina Monteiro - Esse livro pra mim é um marco no meu amadurecimento enquanto escritora. Através dele eu pude entender melhor meu movimento literário, minha pesquisa, meus próprios desejos e também assumir mais minhas obsessões estéticas. Esse livro representa pra mim um amadurecimento como artista. Os desafios que ele me exigiu, as escolhas que ele me exigiu. Um assumir uma relação com a linguagem, a forma e conteúdo que nele eu faço com mais consciência e coragem. Mas o melhor de escrever é o movimento, então não tem jogo ganho, é uma maturidade em relação aos meus processos, com minha própria régua, mas cada novo projeto pode me colocar em movimento noutras direções e exigir novas performances.


Quais são seus projetos atuais de escrita?
Marina Monteiro - Eu tenho um livro de contos com uma primeira versão pronta, descansando há um ano na nuvem, e estou escrevendo um novo romance. O livro de contos traz a temática da presença da infância no espaço urbano e as reverberações dessa presença. São contos mais curtos dos que costumo escrever e brincam muito com as fronteiras da dramaturgia e da literatura. O romance ainda é muito cedo pra falar, estou muito no processo ainda de escrever e descobrir, tenho tido o prazer de fazer isso em coletivo também, no curso "Levantando a Casa" com a Euler Lopes e uma turma muito maravilhosa. Escrever trocando é bom demais. Eu estava precisando desse movimento de troca que um curso proporciona. Já tinha o projeto iniciado, e com os encontros com a turma e com a Euler a coisa tem deslanchado bem. É um romance que vai falar um pouco sobre masculinidade, crise de identidade na adolescência, internet, política de armas, e tudo pode mudar até a hora dele virar um livro publicado. Tenho também me aventurado nos roteiros de audiovisual. Já escrevi uns episódios de uma websérie para uma produtora cultural de Florianópolis, tenho um curta metragem finalizado, um outro em processo e um projeto de longa metragem com protagonismo LGBTQIA+ que um dia há de virar roteiro.

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