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terça-feira, 19 de maio de 2026

.: “O Sushi dos Sonhos de Jiro” revela como obsessão constrói um mestre


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

O documentário “O Sushi dos Sonhos de Jiro” estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision, nesta quinta-feira, dia 21 de maio, como uma obra rara que ultrapassa o objeto imediato - a gastronomia - para tocar em algo mais profundo: a ética do trabalho, a obsessão pela excelência e o peso silencioso da herança. Dirigido e roteirizado por David Gelb, o filme acompanha o cotidiano de Jiro Ono, mestre octogenário que transformou um balcão de dez lugares escondido em uma estação de metrô de Tóquio em um dos restaurantes mais reverenciados do mundo, agraciado com três estrelas do guia Michelin.

Gelb inicialmente concebeu o projeto como um panorama mais amplo sobre diferentes sushimen, algo que ele próprio definiu como um “Planeta Sushi”, em referência à estética grandiosa das produções da BBC. O encontro com Jiro, no entanto, deslocou o eixo do filme: não havia mais interesse em diversidade de estilos, mas na singularidade de um homem que, aos 85 anos, ainda repetia os mesmos gestos com a precisão de quem persegue um ideal inalcançável. 

A decisão deu ao documentário uma espinha narrativa mais íntima, centrada também na relação com o filho mais velho, Yoshikazu, destinado a herdar não apenas o restaurante Sukiyabashi Jiro, mas o fardo de corresponder a um padrão quase inatingível. O filme constrói sua força na repetição - tanto temática quanto estética. A trilha sonora, que inclui composições de Philip Glass, Tchaikovsky e Max Richter, ecoa a rotina do protagonista: ciclos que se reiteram, mas nunca são idênticos. Há, nisso, uma espécie de metáfora sonora para o próprio conceito de aperfeiçoamento contínuo que orienta Jiro. 

A câmera de Gelb, por sua vez, privilegia closes e movimentos lentos, quase reverenciais, que transformam o preparo do sushi em um ritual de minúcias. Não se trata apenas de comida, mas de um processo que começa na escolha rigorosa dos fornecedores - muitos dos quais se orgulham de servir exclusivamente ao restaurante - e culmina em um gesto aparentemente simples: servir.

Entre as curiosidades reveladas, uma chama atenção pela precisão quase científica do método: o sushi ideal deve equilibrar temperaturas distintas - o arroz ligeiramente aquecido à temperatura corporal e o peixe em temperatura ambiente. Pequenos detalhes como esse ajudam a compreender por que a excelência, aqui, não é um discurso, mas uma prática obsessiva. O próprio Jiro sintetiza essa filosofia em uma frase que atravessa o filme: “Eu faço a mesma coisa repetidamente, melhorando pouco a pouco”

A recepção crítica internacional confirma o impacto da obra. Com 99% de aprovação no Rotten Tomatoes e avaliações majoritariamente favoráveis no Metacritic, o documentário foi celebrado não apenas como um retrato gastronômico, mas como uma reflexão sobre disciplina e propósito. O crítico Roger Ebert, em uma de suas últimas análises marcantes, descreveu o filme como um estudo quase enigmático de um homem cuja vida parece inteiramente consumida por sua arte - uma devoção que levanta questões incômodas sobre sacrifício, realização e limites pessoais.

Exibido inicialmente no Festival de Tribeca em 2011, “Jiro Sonha com Sushi” também encontrou um público mais amplo ao ser disponibilizado em plataformas de streaming, consolidando-se como um dos documentários gastronômicos mais influentes da última década. Ainda que se passe em um espaço minúsculo - um restaurante sem luxo aparente e com poucos assentos --, o filme expande as fronteiras para discutir algo universal: o que significa dedicar uma vida inteira a fazer uma única coisa, e fazê-la melhor do que qualquer outro.


Ficha técnica
“O Sushi dos Sonhos de Jiro” | “Jiro Dreams of Sushi” (título original)
Gênero: Documentário. Duração: 82 min. Classificação indicativa: Livre. Ano de produção: 2011. Idioma: Japonês. Direção: David Gelb. Roteiro: David Gelb. Elenco: Jiro Ono, Yoshikazu Ono, Masuhiro Yamamoto. Distribuição no Brasil: (varia por relançamento/exibição). Cenas pós-créditos: não.


Assine a Reserva Imovision, o streaming que respeita a sua inteligência
A equipe do Resenhando.com acompanha os filmes por meio da plataforma de streaming Reserva Imovision, dedicada ao cinema independente e autoral. Para acessar o catálogo completo, conferir novidades e realizar sua assinatura, o aplicativo da plataforma ou o visite o site oficial neste link. A Reserva Imovision reúne filmes e séries cuidadosamente selecionados, ampliando o acesso a obras que valorizam a diversidade cultural, a reflexão e experiências cinematográficas diferenciadas. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: Filme de encerramento em Veneza, “O Jardim Americano” aposta no suspense


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

“O Jardim Americano” chega à plataforma de streaming Belas Artes À La Carte  como mais um capítulo da longa e inquieta trajetória do cineasta italiano Pupi Avati que, aos quase 90 anos, insiste em revisitar fantasmas, sejam eles pessoais, estéticos e narrativos. Exibido como filme de encerramento do 81º Festival de Veneza, em setembro de 2024, o longa-metragem reafirma o fôlego de um autor que atravessa décadas sem abdicar das próprias obsessões: a memória, o desejo e aquilo que escapa à lógica.

Baseado em romance homônimo escrito pelo próprio Avati, o filme tem roteiro assinado por ele em parceria com o filho, Tommaso Avati, o que reforça o caráter íntimo e autoral do projeto. A trama acompanha um jovem escritor - interpretado por Filippo Scotti - que, entre lembranças fragmentadas e projeções quase delirantes, se vê atravessado por uma paixão súbita e por um desaparecimento que conecta Itália e Estados Unidos. O que começa como uma história de amor à primeira vista logo se converte em uma investigação sinuosa, marcada pelo silêncio, pela ausência e por uma crescente sensação de deslocamento.

A narrativa se ancora em um tempo difuso, que transita entre o passado da guerra e um presente igualmente instável, enquanto o protagonista tenta reconstruir os rastros de uma enfermeira americana por quem se apaixonou. Ao chegar aos Estados Unidos, ele encontra não apenas o vazio deixado por essa mulher, mas também um cenário que desmente as próprias expectativas: um interior americano árido, distante do imaginário idealizado. Esse estranhamento funciona como motor dramático para o retorno à Itália e para o mergulho em uma trama que envolve crimes, julgamentos e figuras ambíguas.

Se o roteiro aposta em digressões e nem sempre sustenta a tensão prometida, a força do filme está em na atmosfera dele. A fotografia em preto e branco de alto contraste, assinada por Cesare Bastelli, confere à obra um verniz gótico que remete aos trabalhos mais sombrios de Avati, especialmente aqueles que dialogam com o suspense psicológico e o horror. A direção de arte acompanha essa proposta, criando imagens que parecem suspensas entre o sonho e a decomposição, como se cada cenário carregasse o peso de uma lembrança mal resolvida.

Conhecido por pela versatilidade, Avati revisita um território inquietante. Há um esforço evidente em explorar a mente do protagonista, recorrendo a imagens oníricas e a uma narrativa que flerta com o surreal. No centro dessa engrenagem está Filippo Scotti, que sustenta o filme com uma atuação sensível e contida. O ator, já conhecido por “A Mão de Deus”, encontra no filme um papel que exige presença constante. Ao seu redor, nomes como Rita Tushingham, Roberto De Francesco e Chiara Caselli compõem um elenco que reforça o caráter melancólico da obra.


Ficha técnica
“O Jardim Americano” | “L’orto Americano” (título original) 
Gênero: romance, mistério. Duração: 107 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2024. Idioma: Italiano e inglês. Direção: Pupi Avati. Roteiro: Pupi Avati, Tommaso Avati. Elenco: Filippo Scotti, Roberto De Francesco, Rita Tushingham, Armando De Ceccon, Chiara Caselli.Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte


Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming de quem leva cinema a sério
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

.: Clássico, "Trapézio" transforma o amor em risco mortal no alto do picadeiro


Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Em cartaz na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, o drama “Trapézio” é um clássico de apelo popular que equilibra espetáculo e melodrama sob o risco constante da queda. Dirigido por Carol Reed, cineasta consagrado por “O Terceiro Homem”, o longa-metragem é baseado no romance “The Killing Frost”, de Max Catto, com roteiro assinado por James R. Webb e adaptação de Liam O’Brien. No centro da narrativa, Burt Lancaster interpreta Mike Ribble, um trapezista marcado por um acidente que interrompeu sua carreira no auge. A entrada de Tino Orsini (Tony Curtis), jovem ambicioso disposto a aprender o perigoso triplo mortal, reativa não só o talento, mas também as feridas do veterano. A equação se complica com a chegada de Lola (Gina Lollobrigida).

No romance original, as relações entre os personagens sugerem camadas de desejo e conflito que o cinema dos anos 1950 não poderia explicitar. O filme suaviza essas tensões, mas não as elimina por completo. Elas permanecem ali, insinuadas, como um movimento interrompido no ar. O filme se ancora em uma estrutura aparentemente simples - o triângulo amoroso - para tensionar temas mais espinhosos, como ambição, vaidade e traição. Para além da superfície romântica, há uma disputa silenciosa por protagonismo, reconhecimento e sobrevivência em um ambiente onde o erro custa caro. 

A produção foi filmada majoritariamente no Cirque d’Hiver, em Paris, o que confere autenticidade às sequências circenses. Lancaster, que antes da carreira no cinema havia sido acrobata, realizou boa parte das próprias cenas, insistência que resultou, inclusive, em uma lesão nas costas durante as filmagens, atrasando a produção. Ainda assim, o ator manteve-se envolvido nas sequências mais exigentes, reforçando a dimensão quase obsessiva de seu personagem.

Visualmente, “Trapézio” explora o contraste entre o brilho do espetáculo e a precariedade dos bastidores. A fotografia de Robert Krasker - colaborador de Reed em “O Terceiro Homem” - aposta em enquadramentos vertiginosos que simulam a perspectiva do próprio trapezista: olhar para baixo nunca foi tão desconfortável. O uso do Technicolor intensifica esse jogo entre fascínio e perigo, transformando o picadeiro em palco de ilusões e conflitos.

Recebido com entusiasmo pelo público da época, o filme figurou entre as maiores bilheterias de 1956 nos Estados Unidos e teve desempenho expressivo também no Reino Unido. A crítica, por outro lado, dividiu-se. Enquanto vozes como a da revista The New Yorker destacaram a energia da direção e o magnetismo de Lancaster e Lollobrigida, o The New York Times, em texto de Bosley Crowther, considerou a trama previsível e os diálogos pouco inspirados. 


Ficha técnica
“Trapézio” | "Trapeze" (título original) 
Gênero: drama, romance. Duração: 1h45. Classificação indicativa: livre (à época, equivalente ao selo Approved). Ano de produção: 1956. Idioma: inglês, italiano. Direção: Carol Reed. Roteiro: James R. Webb, Liam O’Brien (baseado em obra de Max Catto). Elenco: Burt Lancaster, Tony Curtis, Gina Lollobrigida, Katy Jurado, Thomas Gomez. Distribuição no Brasil: não especificada. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte


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sábado, 16 de maio de 2026

.: As revelações de Marisol Marcondes, estrela do musical “Flashdance”


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.comFoto: divulgação

Há uma geração inteira de atrizes do teatro musical brasileiro que cresceu sendo treinada para a perfeição técnica. Marisol Marcondes parece interessada em outra camada: profundidade. Ela fala de palco como quem conhece as dores e as delícias de permanecer em cena, não existe verniz nessa relação. Aos 14 anos de teatro musical, depois de passar por montagens que vão de “Cabaret” a “Billy Elliot”, de “A Família Addams” a “Se Essa Lua Fosse Minha”, ela chega ao centro de “Flashdance” sem ansiedade. Nascida exatos 29 anos da estreia de "Nasce Uma Estrela" com Lady Gaga no cinema, ela é uma artista em ascensão e sabe brilhar.

No Teatro Claro Mais SP, diante de uma personagem que atravessa jornadas duplas, contas, desejo e exaustão, Marisol apresenta menos uma heroína pop dos anos 1980 do que uma mulher acostumada a negociar sonhos com boletos vencidos. A Alex Owens dela dança e sobrevive, é uma protagonista real. Talvez venha daí a impressão de perigo que ela carrega no palco, mesmo nos momentos de maior controle vocal. Nada soa excessivamente calculado diante da inteligência de cena, escuta, senso de conjunto que ela oferece. 

Não por acaso, ela passou por produções dirigidas por nomes como Miguel Falabella, dividiu montagens com Vanessa da Mata, Marisa Orth, Daniel Boaventura, Ícaro Silva e Dan Stulbach, sem perder uma característica rara em artistas acostumados a grandes produções: a própria identidade. Fora do palco, a conversa muda de ritmo sem perder densidade. Marisol cita Conceição Evaristo, Whitney Houston, Clarissa Pinkola Estés, Lin-Manuel Miranda e Chiquinha Gonzaga com a mesma naturalidade de quem fala sobre soltar pipa, praia, café com leite ou jogar videogame. 

Entre uma resposta e outra, aparecem política, espiritualidade, precarização da arte, democracia, afeto e a recusa em transformar cinismo em maturidade. No retorno da coluna #ResenhaRápida, com exclusividade ao portal Resenhando.com, a atriz fala sobre corpo em exposição, musical popular sem superficialidade, mulheres que ocupam espaços e o tipo de paixão que ainda faz alguém escolher o teatro todos os dias, mesmo sabendo exatamente o preço disso.

#ResenhaRápida com Marisol Marcondes

Nome completo: Marisol Marcondes Ferraz Prado. 
Apelidos: Sol, Solzinha, Sea&Sun e muitos outros.
Data de nascimento: exatos 29 anos antes do filme "Nasce Uma Estrela" (com a Lady Gaga) estrear aqui no Brasil (risos).
Altura: 1,61m.
Número do sapato: 35.
Qualidade: lealdade.
Defeito: vários.
Signo: Libra.
Ascendente: Aquário.
Uma mania: me hidratar de todo jeito o tempo todo.
Religião: bom pra quem sabe usar. A minha se chama Amor.
Time: seleções brasileiras de vôlei.
Amor: o que eu mais amo dar.
Sexo: conexão .
Mulher bonita: a que se ama.
Homem bonito: o que respeita.
Família é: quem pode contar comigo e que eu também posso contar.
Ídolo: tenho não.
Inspiração: a Babynha, vulgo minha mãe.
Arte é: pra incomodar os acomodados e acalentar os inconformados.
Brasil: é onde eu pretendo permanecer.
Fé: é o que nos move 24 horas por dia.
Deus é: um mistério, mas o encontrei duas vezes no mar.
Política é: perigosa se manipulada por egoístas sobre um povo ingenuamente apaixonado.
Personalidade histórica favorita: Chiquinha Gonzaga.
Hobby: jogar joguinhos, soltar pipa, ir a parques, rir com quem eu amo...
Lugar: praia. Mas não é onde, é com quem...
O que não pode faltar na geladeira: energia elétrica.
Prato predileto: cheio de comida.
Sobremesa: papo de anjo, ambrosia e brigadeiro.
Fruta: manga.
Bebida favorita: café com leite.
Cor favorita: magenta.
Medo de: tanta coisa.
Uma peça de teatro: "Se Essa Lua Fosse Minha".
Um show: que me faça dançar e esquecer um pouquinho do mundo.
Uma atriz: Viola Davis.
Um ator: Aílton Graça.
Uma cantora: Whitney Houston.
Um cantor: Michael Jackson.
Uma escritora: Conceição Evaristo.
Um escritor: Vitor Rocha.
Um filme: "Pecadores". 
Um livro: "Ciranda das Mulheres Sábias", de Clarissa Pinkola Estés.
Uma música: "Caçador de Mim", de Milton Nascimento.
Um disco: "Holy Land", Angra.
Um personagem: Bella Baxter ("Pobres Criaturas").
Uma novela: "Hoje É Dia de Maria" era série, né? 
Uma série: "This Is Us".
Um programa de TV: "Altas Horas".
Uma saudade: infelizmente sei que vai apertar.
Algo que me irrita: ver alguém mentindo na minha frente.
Algo que me deixa feliz é: ver quem eu amo se realizando.
Uma lembrança querida: de uma festinha surpresa que fizeram pra mim no quarto de uma amiga, na minha adolescência.
Um arrependimento: grazadeusa nenhum.
Quem levaria para uma ilha deserta? A Tempestade (Marvel) pra gente trocar ideia, tomar um sol, e eu me segurar nela e a gente sair de lá e ir pra onde quiser em segundos.
Se pudesse ressuscitar qualquer pessoa do mundo, seria... Ella Fitzgerald pra conversar com ela e ouvi-la cantar ao vivo.
Se pudesse fazer uma pergunta a qualquer pessoa do mundo, seria Perguntaria pro Lin Manuel Miranda como é que faz pra ser um gênio. 
Não abro mão de: compartilhar coisas que gosto.
Um talento oculto (aquilo que poucas pessoas sabem que você faz bem): ah, acho que só elas saberão dizer...
Você tem fome de quê? Atrações e aulas artísticas acessíveis.
Você tem nojo de quê? De quem ganha dinheiro em cima da miséria e da fé alheia.
Se tivesse que ser um bicho, seria: uma águia.
Um sonho: ter uma vida confortável e dar conforto pra quem eu amo trabalhando em várias frentes artísticas.
O que me tira do sério: injustiça.
Democracia é: uma luta constante.
Ser mulher, hoje, é: uma honra.
O que seria se não fosse atriz: psicanalista.
Ser atriz é: uma responsabilidade deliciosamente agridoce.
Cinema em uma palavra: transcendental.
Teatro em uma palavra: coliseu.
Televisão em uma palavra: espelho.
Alex Owens em uma palavra: paixão.
"Flashdance" em uma palavra: entrega.
Frase favorita: "Quando uma pessoa vive de verdade, todas as outras também vivem" (Clarissa Pinkola Estés).
Palavra favorita: oxe.
Marisol Marcondes por Marisol Marcondes: uma alma paciente que ri dos capotes da vida e não sabe desistir.


Serviço
"Flashdance, o Musical"

Temporada: até dia 31 de maio de 2026
Às quintas e sextas-feiras, às 20h00; aos sábados, às 16h30 e às 20h30; e aos domingos, às 15h30 e às 19h30.
Teatro Claro Mais SP - Shopping Vila Olímpia - Olimpíadas, 360, 5º Piso - Vila Olímpia, São Paulo - SP, 04551-000
Ingressos: de R$ 25,00 a R$ 250,00
Vendas on-line em https://uhuu.com/evento/sp/sao-paulo/flashdance-15824
Bilheteria: de segunda a sábado, das 10h00 às 22h00; e aos domingos e feriados, das 12h00 às 20h00
*Clientes Claro Clube têm 50% de desconto em até quatro ingressos
Classificação: 18 anos
Duração: 120 minutos
Capacidade: 801 lugares
Acessibilidade: teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida

sexta-feira, 15 de maio de 2026

.: "Romeu e Julieta" moderno, "Salem" estreia na Reserva Imovision


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Cinco anos depois de incendiar a Croisette com "Shéhérazade", o diretor francês de origem armênia Jean-Bernard Marlin retornou ao Festival de Cannes com "Salem", exibido na mostra Un Certain Regard, ampliando o seu território estético e temático, filme que estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision. Se antes o cineasta mergulhava no naturalismo quase documental das periferias de Marselha, agora ele tensiona essa mesma realidade com uma camada de misticismo que desloca o filme para uma zona híbrida entre o real e o sobrenatural.

A trama acompanha Djibril, um jovem ligado a uma gangue que tenta sobreviver às rivalidades históricas entre bairros marginalizados da cidade. A narrativa se estrutura, inicialmente, como uma tragédia amorosa de contornos shakespearianos - uma evocação direta de "Romeu e Julieta" - ao colocar em cena o romance entre o protagonista, de origem comoriana, e Camilla, uma jovem cigana. O conflito entre comunidades organiza o destino dos personagens com a inevitabilidade típica das grandes tragédias. Marlin, assumidamente fascinado por Shakespeare, constrói esse primeiro ato com precisão clássica, ainda que inserido em um ambiente urbano degradado, de terrenos baldios e edifícios semiabandonados, que funcionam como extensão simbólica do abandono social e afetivo.

O que distingue "Salem" de seu antecessor, no entanto, é a virada narrativa que transforma o filme em uma experiência sensorial e espiritual. Após um evento traumático e uma passagem pela prisão - elemento recorrente na filmografia do diretor - Djibril passa a acreditar que é capaz de ouvir espíritos e interpretar sinais divinos, assumindo uma dimensão quase messiânica. A ideia de uma maldição, proferida por um rival em seus últimos suspiros, atravessa o enredo e reorganiza a lógica do filme, que passa a operar sob o signo da dúvida: trata-se de delírio, fé ou herança invisível transmitida entre gerações?

Marlin, que coassina o roteiro com Jeanne Aptekman e Agnès Feuvre, trabalha com um elenco majoritariamente composto por atores não-profissionais - Oumar Moindjie, Dalil Abdourahim e Wallenn El Gharbaoui - escolhidos após um processo de casting que durou cerca de dez meses. A aposta no frescor e na vivência desses intérpretes reforça a dimensão orgânica da narrativa, ainda que, em alguns momentos, o filme opte por uma estilização que suaviza a brutalidade vista em "Shéhérazade". Há, aqui, uma ambição estética mais evidente: a câmera frequentemente estática, os momentos oníricos e a trilha que flerta com o hipnótico indicam um diretor interessado em expandir sua linguagem.

Curiosamente, o próprio título "Salem" carrega ambiguidades que dialogam com o filme: em árabe, pode significar “paz”, mas também funciona como saudação cotidiana, algo entre o “olá” e o “bom-dia”. Essa polissemia ecoa na narrativa, que oscila entre o desejo de reconciliação e a permanência do conflito. A Marselha retratada por Marlin segue sendo um território de fronteiras invisíveis, onde identidades se chocam e se reinventam, e onde a herança cultural - seja ela religiosa, étnica ou simbólica - molda destinos.


Ficha técnica
“Salem”
Gênero: drama / fantasia.Duração: 103 minutos (aprox.). Classificação indicativa: 16 anos (estimada)
Ano de produção: 2023. Idioma: francês. Direção: Jean-Bernard Marlin. Roteiro: Jean-Bernard Marlin, Jeanne Aptekman, Agnès Feuvre. Elenco: Oumar Moindjie, Dalil Abdourahim, Wallenn El Gharbaoui Distribuição no Brasil: Circuito de arte / independente. Cenas pós-créditos: não.


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quarta-feira, 13 de maio de 2026

.: Drama de casal que incendiou cinema francês estreia na Reserva Imovision


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com. Foto: David Koskas/Autoral Filmes

Destaque na programação do Festival de Cinema Francês do Brasil do ano passado, o drama “Eu, Que Te Amei” (“Moi qui t’aimais”) estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision, nesta quinta-feira, dia 14 de maio. Dirigido por Diane Kurys, o longa-metragem revisita a intensa e muitas vezes conturbada história de um dos casais mais emblemáticos da cultura francesa: Yves Montand e Simone Signoret. Ele, astro de alcance internacional; ela, uma das maiores intérpretes do cinema europeu. Interpretados por Roschdy Zem e Marina Foïs, Montand e Signoret voltam à vida em performances que capturam o brilho, as fraturas, a lealdade e os conflitos que marcaram décadas de parceria, incluindo a célebre e dolorosa traição de Montand com Marilyn Monroe.

Apresentado na seção Cannes Classics do Festival de Cannes 2025, o filme marca o retorno de Diane Kurys ao evento após quase quatro décadas - a última participação na mostra havia ocorrido em 1987. O roteiro, assinado por Kurys ao lado de Martine Moriconi e Sacha Sperling, levou cerca de cinco anos de investigação, mergulhando em arquivos, memórias e registros históricos. Produzido pela New Light Films, o título chega ao Brasil pela distribuidora Autoral Filmes, acompanhando a nova fase do festival no país.

No centro da narrativa está o retrato de um amor real, movido por cumplicidade e desgaste, entre duas figuras que ajudaram a moldar o imaginário do cinema francês. Simone Signoret foi a primeira atriz da França a conquistar o Oscar de Melhor Atriz, por “Almas em Leilão”, em 1960. Casada com Montand entre 1951 e 1985, ela enfrentou escândalos e turbulências sem assumir o papel de vítima - e ambos, apesar dos abalos, sempre se reconheceram como parte fundamental um do outro. 

Ficha técnica do filme
“Eu, Que Te Amei” | “Moi qui t’aimais” (título original)
Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: francês. Direção: Diane Kurys. Roteiro: Diane Kurys, Martine Moriconi e Sacha Sperling. Elenco: Roschdy Zem (Yves Montand), Marina Foïs (Simone Signoret), Thierry de Peretti, entre outros. Distribuição no Brasil: Autoral Filmes. Duração: 1h58m. Cenas pós-créditos: não. 

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terça-feira, 12 de maio de 2026

.: Cinco curiosidades mostram que “O Diabo Veste Prada 2” está mais afiado


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.

Se tem um salto alto que atravessa décadas sem perder o equilíbrio, ele atende pelo nome de "O Diabo Veste Prada". E agora, quase 20 anos depois, ele volta a ecoar pelos corredores - ainda mais largos - da Runway. Com Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt e Stanley Tucci de volta ao jogo, "O Diabo Veste Prada 2", em cartaz nos cinemas, entrega mais do que figurinos impecáveis: aquele prazer quase culposo de revisitar um clássico que nunca saiu de moda - só estava aguardando a estação certa para reaparecer. A seguir, listamos cinco curiosidades que fazem essa sequência parecer menos um retorno e mais um reencontro com velhos conhecidos - daqueles que a gente jura que superou, mas continua stalkeando com carinho.

1. A sequência que ninguém quis... até querer muito
Diferente de tantas continuações que nascem por insistência de bilheteria, aqui o impulso foi outro: recusa. Logo após o sucesso de 2006, a equipe preferiu deixar a história em paz, intacta, como um bom vestido que não precisa de ajustes. Foi o tempo que mudou tudo. Duas décadas depois, com o jornalismo impresso em crise e o mundo digital ditando novas regras, a pergunta deixou de ser “por que voltar?” e passou a ser “como elas sobreviveram a isso?”. E, convenhamos, imaginar Miranda Priestly lidando com algoritmos já vale o ingresso.


2. A melhor cena (segundo Anne Hathaway) não tem Anne Hathaway
Nem sempre o auge de uma experiência é protagonizado por quem conta a história. A própria Anne Hathaway confessa que sua cena favorita envolve apenas - “apenas” - Meryl Streep desfilando como Miranda Priestly na Galleria Vittorio Emanuele II. A atriz pediu para assistir à gravação como quem invade discretamente um desfile privado e saiu de lá com a certeza de ter presenciado um daqueles momentos raros em que cinema, cenário e presença se alinham sem esforço. Não é pouca coisa.


3. Figurino: mais é mais (e muito mais)
Se no primeiro filme a moda já era personagem, aqui ela assume o protagonismo sem pedir licença. A figurinista Molly Rogers apostou em uma estética que mistura tempo e trajetória: Andy Sachs agora veste a experiência, combinando peças novas com achados vintage, enquanto Miranda permanece… Miranda. No placar final: mais de 45 looks para Hathaway e quase 30 para Streep - alguns criados exclusivamente para o filme. Porque, afinal, ninguém entra na Runway repetindo roupa. Nem depois de 20 anos.


4. Quando o figurino vem da farmácia
Há um certo prazer em descobrir que, por trás de toda sofisticação, existe acaso e até improviso. Em meio à busca por acessórios à altura de Miranda, quem resolveu o impasse foi a própria Meryl Streep, surgindo com um par de brincos de argola comprado… numa farmácia. Perfeitos. Discretos, mas não demais. Elegantes, mas sem competir com a peruca icônica. O detalhe? Era o único par. E a equipe passou as filmagens tratando aquelas argolas como se fossem joias da coroa.


5. Um escritório à altura do ego (e da história)
Se o mundo cresceu, a Runway não ficaria para trás. O novo escritório de Miranda Priestly foi reconstruído do zero e multiplicado por oito. Inspirado em redações reais como a da "Vogue", o espaço aposta em mesas longas e uma atmosfera que mistura imponência e tensão. É o tipo de lugar onde uma frase sussurrada pode soar mais ameaçadora que um grito. No fim das contas, "O Diabo Veste Prada 2" parece entender algo essencial: certos universos não envelhecem - só acumulam camadas. E, entre crises editoriais, figurinos impecáveis e silêncios cortantes, talvez a pergunta mais interessante não seja o que mudou, mas o que continua exatamente igual.

"O Diabo Veste Prada 2" - Trailer legendado


domingo, 10 de maio de 2026

.: Mariana Salomão Carrara fala sobre linguagem, Justiça e desconforto


Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com. Foto: Instagram da escritora

O processo começa como tantos outros: um prazo estourado, uma cobrança formal, a necessidade de responder a instâncias superiores. Mas, no caso de "Cláudia Vera Feliz Natal", novo romance de Mariana Salomão Carrara publicada pela Editora Todavia, a resposta não se limita ao que se espera de um juiz. O que deveria caber em linhas técnicas se alonga, hesita, é contaminado por memórias, desconfortos, e uma intimidade que não costuma despachar nada. Aos poucos, a defesa vira outra coisa.

Autora dos premiados romances "Não Fossem as Sílabas do Sábado" e " Árvore Mais Sozinha do Mundo", Mariana Salomão Carrara desta vez parte de um ambiente em que cada palavra carrega peso institucional para acompanhar um personagem que já não consegue sustentar a distância entre a função e a vida. As comarcas se sucedem, os vínculos rareiam, e o que se acumula não é só trabalho. Há um cansaço difícil de nomear, uma espécie de desencontro persistente com os outros, com o lugar, consigo próprio.

Sem recorrer a qualquer ideia de bastidor pitoresco, o livro circula por situações em que o cotidiano do Judiciário se aproxima do absurdo. E é nesse deslocamento que a narrativa encontra ritmo: quando o protocolo continua de pé, mas já não dá conta.

Nesta entrevista exclusiva ao portal Resenhando.com, a escritora comenta o humor que atravessa o texto, a solidão que não se resolve com autoridade e o que acontece quando a linguagem, mesmo treinada para decidir, começa a falhar. Compre "Cláudia Vera Feliz Natal", o novo romance de Mariana Salomão Carrara,  neste link.

Resenhando.com - Em "Cláudia Vera Feliz Natal", você transforma um documento burocrático em matéria literária. Em que momento a linguagem jurídica deixou de ser apenas forma e passou a ser, para você, também personagem?
Mariana Salomão Carrara - Desde o início minha ideia foi trazer humor a partir do ruído entre a formalidade dos vernáculos ou construções do narrador e o jorro emocional que se inicia a partir da acusação de que se defende. Conforme os dias passam e ele segue redigindo o documento, mais ele se confessa e revela sua intimidade e grandes angústias pessoais e profissionais ao órgão corregedor, o que chega a relaxar a linguagem, mas sem perder sua referência às liturgias jurídicas. O próprio narrador satiriza o “juridiquês” mais clichê, replicando os jargões costumeiros das peças advocatícias para narrar o modo como se referem a ele. Então se pode dizer que toda essa linguagem é também personagem desse livro. É dobrada e flexibilizada conforme a emoção do narrador, e quando a lei não dá conta de promover Justiça, a linguagem jurídica está lá para escancarar a ironia do seu encastelamento.

Resenhando.com - Seu jovem juiz tenta justificar a própria lentidão, mas parece, no fundo, incapaz de dar conta do que vive. Escrever esse romance foi, de algum modo, investigar o fracasso da linguagem como ferramenta de controle?
Mariana Salomão Carrara - Não sei se a linguagem de fato fracassa como ferramenta de controle. A linguagem jurídica é autorreferente e deixa o leigo alijado do saber que ela expõe. Faz com que o cidadão não compreenda, por exemplo, a sua sentença. Há inclusive uma cena em que o réu questiona, por uma frase que consta de sua condenação, se será “lançado ao rol dos culpados”. Embora muitas vezes automatizada e apartada da vida prática, essa linguagem não necessariamente falha em controlar, mas pode falhar em promover a justiça.  

Resenhando.com - Há um humor incômodo que atravessa o livro, uma espécie de riso que denuncia e constrange. O que a interessa mais: expor o ridículo do sistema ou revelar a fragilidade humana por trás dele?
Mariana Salomão Carrara - Não é possível separar as duas coisas, a sensação de ridículo que acompanha o livro ao mesmo tempo expõe as debilidades do sistema e a fragilidade humana, não somente dos atores da justiça, às vezes perdidos em seus rituais, ou impotentes diante da falha da própria nação em garantir direitos, mas também a fragilidade do cidadão que tem a sua vida decidida num processo.

Resenhando.com - No romance "A Árvore Mais Sozinha do Mundo", você constrói a narrativa a partir de objetos que observam. Já no novo romance, temos um sujeito que tenta se explicar. O que muda quando a narração deixa de observar e passa a se defender?
Mariana Salomão Carrara - Na "Árvore Mais Sozinha do Mundo", os objetos narram o que observam, mas também e principalmente o que sentem a partir disso, o que sentem sobre a família e a dor que supõem nos humanos. Nisso, também se defendem ou se culpam por seus defeitos – a toxidade da árvore, a inadequação da roupa de segurança, o a incapacidade da caminhonete rural de correr o suficiente para a urgência do parto. Defender-se e culpar-se são elementos da narração em primeira pessoa, e neste novo livro ganham também a dimensão jurídica da defesa e da culpa, com suas implicações. E é o susto de ter que se defender formalmente de algo que era na verdade um bom exercício do seu ofício que dá o gatilho para toda o relato e digressões sobre a carreira, o ato decisório e a imensa solidão do narrador.

Resenhando.com - O juiz de "Cláudia Vera Feliz Natal" tem poder sobre o destino alheio, mas não consegue sustentar vínculos pessoais. A solidão, no seu livro, é uma consequência do cargo ou uma condição anterior a ele?
Mariana Salomão Carrara - O narrador traz em si algumas dificuldades de vínculo e intimidade que podemos atribuir genericamente aos homens e, também, aos profissionais do Direito, estes perdidos entre os tratamentos formais, disputas de poder e tradições consagradas. Mas também é um sujeito peculiar, que tem muito boas intenções, mas dificuldade de alcançar propriamente o outro, vincular-se inteiramente aos novos personagens da sua vida – e não parece ter deixado muitas pessoas para trás, em São Paulo. Sua solidão é involuntária, agravada pelo deslocamento e pela sensação de ser um estrangeiro nas pequenas comarcas, mas sua inabilidade social e íntima é bastante particular sua. Tem alguma dificuldade em se conectar com as próprias emoções e faz o que pode para compreender a dos outros.

Resenhando.com - Você revisita pequenas comarcas do interior do Mato Grosso, mas evita qualquer exotização. Como equilibrar o olhar crítico sem transformar esses espaços em caricatura, algo que o próprio livro parece ironizar?
Mariana Salomão Carrara - Eu gostei da ideia de que a escolha das comarcas do livro tenha sido fruto do acaso, assim como a trajetória do narrador e de tantos profissionais aprovados em concursos em diversos estados, lotados na cidade que calhou no momento da aprovação. Eu quis descobrir junto com o juiz como seria a vida dali em diante. Um colega defensor passou a me contar em detalhes sua experiência, trazendo não só pequenos ou grandes casos e relatos do dia-a-dia profissional, mas principalmente sua sensação ao viver o deslocamento geográfico, começar uma carreira longe de sua cidade, deixar uma grande metrópole para fazer parte do sistema de justiça de uma comarca pequena, em que os atores do judiciário acabam sendo figuras conhecidas pela população, com certa notoriedade e ao mesmo tempo em perene estranhamento alienígena, com suas roupas e vernáculos solenes, e completa falta de vínculos e raízes naquele estado. Coletei depoimentos de pessoas que atuaram na burocracia de fóruns de cidades pequenas de todo o Brasil, bem como juízes, promotores, procuradores e defensores que passaram por comarcas muito pequenas ao longo de suas carreiras, inclusive, mas não somente, no Mato Grosso. A ideia foi partir dessas três cidades, com a peculiaridade de seus nomes, mas para representar algo que vai além de especificidades locais, e abordar uma realidade nacional, existente em interiores de muitos estados brasileiros, e focar na experiência desses agentes da Justiça deslocados de seus universos para lugares distantes de suas casas e com características difíceis de apreender rapidamente na atuação profissional. Então, não se trata, diferentemente do "Árvore Mais Sozinha do Mundo", de um retrato da vida naquelas cidades, mas do olhar solitário desse juiz, que acaba isolado também por alguma empáfia, própria talvez do status e da relação das capitais com as áreas ditas provincianas. O olhar crítico não recai especificamente sobre as cidades nomeadas, mas sobre o sistema jurídico em comarcas pequenas, desigualdades sociais e injustiças regionais e nacionais, sendo que a visão mais caricatural é a do olhar do narrador, que precisa de todo esse percurso narrando sua trajetória nessa peça de defesa para construir uma nova relação com o seu entorno.

Resenhando.com - Há uma recorrência de personagens femininas fortes e tensionadas em sua obra, enquanto aqui o foco recai sobre um homem em crise. O que a interessou nesse deslocamento de perspectiva?
Mariana Salomão Carrara - Embora seja narrado por um homem, é também uma outra forma de falar das mulheres. O olhar dele sobre o seu relacionamento é uma forma de imaginarmos o que na verdade ela poderia estar vivenciando com ele. Os casos jurídicos, principalmente o caso que o levou à total indecisão, é sobre maternidade e vínculos entre mulheres, e ele vem a partir da debilidade do juiz da própria letra da lei para compreender a situação. Então, o deslocamento de perspectiva traz novo ângulo para os mesmos temas, e traz também a possibiidade de passear pela amizade masculina, a dificuldade de intimidade entre amigos homens, e a solidão de um homem que quer ser uma boa pessoa, já sabe os caminhos éticos inclusive para o feminismo, mas se perde totalmente ao colocá-los em prática nas relações pessoais.

Resenhando.com - Sua escrita é frequentemente descrita como inventiva, mas também profundamente ancorada no real. Até que ponto a experimentação formal, para você, é um risco, e até que ponto é uma necessidade ética?
Mariana Salomão Carrara - Só consigo escrever escrevendo, ou seja, não sou capaz de desenhar em abstrato um enredo, uma frase, um planejamento de linguagem. Então, a inventividade vai me surpreender no ato da escrita, e conduzirá, a partir das palavras, o estilo da obra e a voz narrativa. Então, posso dizer que não há cálculo possível para mim, se haverá experimentações, riscos, reiterações. O que posso dizer é que, como leitora, o que me agrada é que o conteúdo traga uma visão de mundo interessante, e chegue elevado por um profundo prazer estético, que normalmente está ligado à habilidade com a linguagem, seja inventiva ou somente muito bem articulada literariamente. 


Resenhando.com - Depois de conquistar reconhecimento com obras como "A Árvore Mais Sozinha do Mundo", o que ainda a desestabiliza na escrita? Em outras palavras: o que você ainda não sabe fazer e, talvez, escreva justamente para descobrir?
Mariana Salomão Carrara - O que a vida de escritora mais me revela é o poder da literatura e a força dos leitores sobre o livro. Descubro com os leitores mais lados do que eu mesma escrevi.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

.: "Flashdance - O Musical" engajado que fala sobre sonhos e o preço que se paga


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico cultural, especial para o portal Resenhando.com. Foto: Caio Callucci

Em cartaz até 31 de maio no Teatro Claro Mais SP, "Flashdance - O Musical" pulsa com uma vitalidade que dispensa atalhos. Inspirado no clássico do cinema "Flashdance", o espetáculo encontra no presente um modo de existir que não se limita à reverência. Perigosamente honesto e engajado, o musical não pede desculpas por ser popular, mas também não aceita ser raso. Sob a direção sensível de Ricardo Marques e Igor Pushinov, com direção musical de Paulo Nogueira e coreografias de Tutu Morasi, a versão teatral respira frescor.

O elemento que mais surpreende é a recusa em se limitar ao entretenimento escapista. O contraste entre mundos, o da sobrevivência imediata e o da projeção de futuro, é manifestado nos cenários, nos figurinos e nas relações de poder que atravessam a cena. A divisão entre classes, entre quem pode sonhar e quem precisa pagar o aluguel antes, aparece sem didatismo e com eficácia. 

O público se vê diante de um musical que trata o sonho de forma concreta. Para esses personagens, sonhar custa e exige corpo, fome, insistência. Um tipo de abordagem raro em produções assumidamente “pop”, como se leveza e densidade ocupassem territórios incompatíveis. "Flashdance" dissolve essa falsa oposição com suor, voz e uma coragem que há tempos não se via no teatro musical.

Manter as canções no idioma original revela respeito pela experiência do público. Músicas como “What a Feeling” e "Maniac" já ultrapassaram a condição de trilha sonora. Traduzi-las correria o risco de cair no ridículo e ouvi-las como foram concebidas devolve ao espectador uma dimensão sensorial que atravessa décadas sem perder força.

Na pele de Alex Owens, jovem operária que divide o dia na usina de aço e a noite como dançarina, Marisol Marcondes apresenta uma energia que remete à presença magnética de Kiara Sasso em sua fase mais emblemática. Há precisão vocal, domínio corporal e uma entrega que transforma cada número em experiência. O palco parece expandir quando ela entra em cena. A Alex dela concentra desejo, cansaço e ambição sem fragmentar essas camadas. Canta com segurança, dança com entrega e ocupa o espaço com uma coragem física que não se negocia. Vê-la “colocar o corpão para jogo” com tamanha exposição se transforma em uma declaração de amor da artista ao teatro.

Ao lado dela, Rhener Freitas constrói um Nick Hurley equilibrado entre força e escuta. A voz tem calor, e o carisma sustenta a relação com naturalidade. Giovana Brandão imprime brilho às cenas como Glória, amiga da protagonista, e ultrapassa a função de apoio ao se firmar como eixo emocional. Júlio Oliveira, recém-saído de "O Segredo de Brokeback Mountain", reafirma aqui algo que já parecia evidente: trata-se de um ator que respeita a palavra. A dicção dele é cristalina, um detalhe que, no teatro musical brasileiro, ainda deveria ser regra. Yelon Daniel conduz seu personagem, um humorista em formação, por um arco consistente; o humor surge com leveza e, quando canta, revela uma expressividade que amplia o impacto da trajetória.

As cenas avançam com fluidez, como se cada elemento soubesse o momento exato de entrar e sair, mantendo a engrenagem em movimento. O espetáculo atualiza o desejo sem diluí-lo. Em cena, sonhar não aparece como promessa aparece como esforço. E isso muda tudo.

Serviço
"Flashdance, o Musical"

Temporada: 9 de abril a 31 de maio de 2026
Às quintas e sextas-feiras, às 20h; aos sábados, às 16h30 e às 20h30; e aos domingos, às 15h30 e às 19h30.
Teatro Claro Mais SP - Shopping Vila Olímpia - Olimpíadas, 360, 5º Piso - Vila Olímpia, São Paulo - SP, 04551-000
Ingressos: de R$ 25,00 a R$ 250,00
Vendas on-line em https://uhuu.com/evento/sp/sao-paulo/flashdance-15824
Bilheteria: de segunda a sábado, das 10h00 às 22h00; e aos domingos e feriados, das 12h00 às 20h00
*Clientes Claro Clube têm 50% de desconto em até quatro ingressos
Classificação: 18 anos
Duração: 120 minutos
Capacidade: 801 lugares
Acessibilidade: teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida

segunda-feira, 27 de abril de 2026

.: Entre "O Pai, a Faca e o Beijo", Thiago Sobral escreve o romance da omissão


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico cultural, especial para o portal Resenhando.com

Há romances que não se contentam em apenas contar uma história. Eles cutucam, provocam, obrigam o leitor a encarar a vida de uma maneira mais pragmática. "O Pai, a Faca e o Beijo", de Thiago Sobral, é um desses livros que estabelece uma relação de gato e rato com o leitor justamente porque não entrega facilmente o que ele quer. A cada página desse excelente livro de estreia, publicado pela Editora Patuá, a sensação é de se estar diante de uma tragédia anunciada - e, ao mesmo tempo, a de testemunhar um beijo negado, ou acompanhar a trajetória daqueles que se suicidam em vida.

O romance gira em torno de Santiago e Davi, o “Pirueta”. À primeira vista, parece uma história simples: dois homens tentando se aproximar, ainda que cercados por obstáculos, o principal deles é o embate com um pai que faz o que faz para proteger o filho da maledicência de uma cidade pequena. Mas Sobral não entrega um romance de amor no molde previsível. Em vez disso, o autor cria um campo de batalha em que as palavras são mal-entendidas, cada gesto se converte em desentendimentos e cada omissão para evitar o confronto carrega mais peso do que qualquer briga consumada. 

Santiago é o retrato da desesperança: um jovem que parece já ter desistido de si mesmo. Ele também é um paradoxo ambulante: homossexual e homofóbico, negro e racista, puritano e promíscuo, apaixonado e cruel, detestável e vítima das circunstâncias. O protagonista despeja todo tipo de chorume verbal, na fala e nos pensamentos, e ainda assim o leitor insiste em torcer por ele, como se a esperança de redenção pudesse surgir exatamente de quem mais nega a própria possibilidade de mudança e, sobretudo, de ser feliz.

Esse jogo perverso de expectativas é uma das forças do livro. Thiago Sobral não oferece personagens fáceis, mas desafia o leitor a se apegar a eles mesmo assim, como quem insiste em cuidar de uma planta que já nasceu murcha. Essa insistência faz parte da experiência da leitura desse livro: torcer pelo impossível. Mas não são apenas Santiago e Davi que sustentam o enredo de personagens carismáticos e fortes. 

Ao redor deles, um coro de personagens secundários amplia a sensação de claustrofobia emocional. A mãe, apresentada como doce e pilar da família, falha justamente por se omitir - a bondade dela é uma forma de covardia. O padre, que poderia ser refúgio espiritual, é ao mesmo tempo hipócrita e humano até demais, pois também revela-se incapaz de escapar dos dilemas dele. E Severo, o pai opressor e antagonista do próprio filho, representa a insatisfação destilada em cada atitude controversa. 

A falta de conciliação é a espinha dorsal de um livro que se constrói sobre a falha, a omissão e a impossibilidade. Cada gesto que poderia resolver é adiado e cada fala que poderia curar é engolida em um universo onde ninguém é de ninguém e todos se rejeitam o tempo todo. A escrita de Thiago Sobral é impregnada de fé, que no livro não aparece como dogma, muito menos como consolo. O autor, ex-seminarista, sabe quando a religião aperta e escreve sobre espiritualidade sem devoção cega, nem medo de expor as contradições de um universo que insiste em pregar amor enquanto ignora conflitos que poderiam ser resolvidos com uma fala mais incisiva. É uma literatura de coragem porque não teme nomear a ferida.

A influência de Machado de Assis é visível. Não se trata de copiar estilo do Bruxo do Cosme Velho, mas de herdar a ironia fina, a capacidade de desmontar o humano pela sutileza, o gosto pelo pessimismo elegante. Thiago Sobral parece olhar para os personagens que ele cria com a mesma frieza do autor de "Dom Casmurro" diante de Bentinho e Capitu: sem absolvições fáceis e muito menos recorrer ao melodrama.

Curiosamente, a leitura também evoca o cinema. Como no clássico "Casablanca", há uma sensação de destino interrompido, de que os protagonistas sempre carregarão um espaço vazio, um amor não realizado, um “barraco” abandonado em Cubatão, cidade que é cenário de toda essa história, e que traz o peso de uma geografia real para dentro do mito da separação eterna."O Pai, a Faca e o Beijo" é uma ode à liberdade, que nasce do confronto com o que se tentou calar. 

É a liberdade que pode ser percebida nos escombros, no beijo interdito, no pai irredutível e violento, no filho em fuga, naquilo que se faz escondido e no que se varre para baixo do tapete. Não é exagero dizer que também é um soco no estômago. Não há catarse porque não há reconciliação, e talvez esteja aí a ousadia maior do livro: recusar ao leitor a ilusão de que a vida sempre encontra um jeito. Compre o livro "O Pai, a Faca e o Beijo", de Thiago Sobral, neste link.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

.: Crítica: "Susi - O Musical" é tudo o que crianças e adultos precisam ouvir


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com. Foto: Abílio Gil

Ousado e criativo, "Susi - O Musical" é tudo o que crianças e adultos precisam ouvir. Há coragem na espinha dorsal do espetáculo: ao colocar um menino no centro da história e em diálogo direto com uma boneca, a montagem desloca o eixo tradicional do universo feminino para um território mais poroso, em que o gênero deixa de ser fronteira e passa a ser um caminho. É inevitável a comparação com o fenômeno "Barbie - O Filme", mas “Susi - O Musical”, dirigido por Mara Carvalho, não se curva à tentação da cópia. 

A rivalidade entre mulheres, tema espinhoso e frequentemente tratado de forma superficial, surge com densidade cômica na personagem Bárbara, interpretada com precisão por Bruna Guerin, que representa, na peça teatral, um produto de padrões inalcançáveis que o próprio espetáculo se dispõe a desmontar. Ao lado dela, a Susi de Priscilla (ou de sua competente substituta, na sessão assistida Clara Verdier) sustenta um equilíbrio delicado entre carisma e questionamento. Susi é inquieta e, diante do que foi colocado no espetáculo, brinca, confronta, aprende, erra, revisa e cresce, assim como o menino que interage com ela. 

O elenco, aliás, opera em sintonia admirável. Há um senso de conjunto que impede o musical de escorregar para a afetação. As músicas bem resolvidas e eficientes cumprem o papel de avançar a narrativa sem se tornarem meros intervalos sonoros. A inteligência na construção pode ser sentida a cada cena. Mas “Susi - O Musical” não quer apenas entreter.  Ao colocar o dedo na ferida das contradições da própria indústria que criou tanto a Susi quanto trouxe a Barbie para o Brasil, o espetáculo escancara um ciclo quase cruel: as crianças crescem, abandonam seus brinquedos e, no processo, deixam para trás também partes de si mesmos. O final, levemente melancólico, não dá respostas ao que pode acontecer, e isso é um mérito.

Se há um ponto de fragilidade, talvez esteja na cenografia, que poderia expandir ainda mais o universo imaginativo proposto. Em alguns momentos, sente-se falta de uma materialidade mais ousada, que acompanhe a ambição temática do texto. Ainda assim, o saldo é mais do que positivo. “Susi - O Musical” é uma homenagem à boneca, à memória, ao feminismo, mas sobretudo ao feminino em sua complexidade, suas fissuras e reinvenções.


Serviço
"Susi, o Musical"

Local: Teatro Sérgio Cardoso – Sala Paschoal Carlos Magno
Rua Rui Barbosa, 153 – Bela Vista / São Paulo
Estreia: 21 de fevereiro, quinta-feira, 20h00
Temporada: de 21 de fevereiro a 12 de abril
Sessões: quintas e sextas, às 20h00, sábados e domingos 16h00 e 20h00
Ingressos: Plateia: Inteira: R$ 200,00 | Meia Entrada: R$ 100,00
Plateia Alta: Inteira: R$ 160,00 | Meia Entrada: R$ 80,00
Balcão: Inteira: R$ 50,00 | Meia Entrada: R$ 25,00 |
Vendas: Site da Sympla (https://bileto.sympla.com.br/event/114413) ou bilheteria local
Classificação etária: livre
Duração: 90 minutos
Capacidade: 827 lugares

.: "'A Partilha' e Outras Peças Teatrais" é um convite à reflexão profunda


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.

O teatro de Miguel Falabella sempre teve a habilidade de fazer do cotidiano um campo de batalha emocional em que rir e doer acontecem ao mesmo tempo. No livro "'A Partilha' e Outras Peças Teatrais: 'O Som e a Sílaba'. 'A Sabedoria dos Pais'. 'Os Olhos de Nara Leão'", lançado recentemente pela Matrix Editora, essa vocação se confirma com maturidade e precisão. A coletânea reúne quatro textos escritos entre 1990 e 2025 e funciona como um mapa afetivo de um autor que aprendeu a escutar.

O livro reafirma a força do teatro como espaço para a elaboração de confrontos. Ler as peças de Falabella, qualquer uma delas, é também perceber como certos conflitos permanecem intactos, como se todos estivessem sempre ensaiando dores parecidas em novas situações. Ainda mais em tempos de discursos prontos, peças que insistem na ambiguidade e na humanidade dos personagens são ouro. Qualquer leitor que esteja aberto a pensar pode sair dessa obra com a sensação de ter participado de algo íntimo demais para ser ignorado.

A obra começa com "A Partilha", peça que já passou por gerações e permanece atual. Nela, o reencontro de quatro irmãs após a morte da mãe, mediado pela divisão de bens, transforma-se em algo mais incômodo: a partilha das mágoas, das ausências e das versões nunca ditas das histórias de cada uma delas. Falabella constrói o conflito com humor afiado e usa o riso como instrumento de revelações cruéis.

Se "A Partilha" escancara o núcleo familiar, "O Som e a Sílaba" desloca o olhar para as diferenças ao focar na relação de amizade entre uma jovem cantora autista e a professora de canto dela. O texto evita o didatismo e aposta no território delicado da escuta. O resultado é uma peça moderna e sensível que tem o cuidado evidente de não reduzir a personagem à sua condição, mas de expandi-la como sujeito.

Em "A Sabedoria dos Pais", o autor abandona qualquer ilusão conciliadora quando aborda o fim de um casamento de 35 anos. Os conflitos surgem a partir de um acúmulo de situações mal resolvidas, em que o desgaste aparece nos pequenos detalhes. A peça se sustenta nesse incômodo prolongado de constatar que o amor, quando não cuidado, pode se transformar em rotina ressentida.

"Os Olhos de Nara Leão", misto de monólogo e biografia,  evoca a figura de Nara Leão. A reflexão sobre identidade, escolhas e autonomia ganha contornos íntimos, como se o palco fosse um espaço para a confissão. O que une as quatro peças é a habilidade de transformar situações reconhecíveis em experiências densas sem perder a leveza. Falabella escreve diálogos que soam naturais e têm ritmo, ironia e uma compreensão profunda de que o teatro é feito para causar reflexões profundas sobre a vida. Compre o livro "'A Partilha' e Outras Peças Teatrais: 'O Som e a Sílaba'. 'A Sabedoria dos Pais'. 'Os Olhos de Nara Leão'", de Miguel Falabella, neste link.

segunda-feira, 23 de março de 2026

.: "Uma Segunda Chance", romance que inspirou o filme, expõe preço do perdão


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com

Será que todos merecem uma segunda chance? A pergunta que move o romance ganha ainda mais alcance ao ultrapassar as páginas e chegar às telas: "Uma Segunda Chance", de Colleen Hoover, inspirou a adaptação cinematográfica homônima protagonizada por Maika Monroe e Tyriq Withers, em cartaz na Rede Cineflix e em cinemas brasileiros. No livro, publicado no Brasil pela Editora Galera, essa inquietação ganha contornos íntimos ao acompanhar a trajetória de Kenna Rowan, personagem que retorna ao mundo carregando o peso de um erro irreversível. A autora constrói uma narrativa centrada não apenas no desejo de recomeço, mas na dificuldade concreta de ser perdoado pelos outros e por si mesmo.

Kenna deixa a prisão após cinco anos, cumprindo pena por um acidente trágico que desestruturou completamente sua vida. Ao voltar para a cidade onde tudo aconteceu, ela carrega uma única esperança: aproximar-se da filha, que mal conhece. O retorno, no entanto, não encontra espaço para acolhimento. Ao contrário, a cidade funciona como um organismo fechado, que a observa, julga e rejeita. Cada tentativa de reconstrução esbarra em um passado que insiste em permanecer presente.

É nesse cenário que surge Ledger Ward, dono de um bar e uma das poucas conexões ainda possíveis entre Kenna e a criança. A relação entre os dois se constrói em um terreno instável, atravessado por desconfianças e pelo medo constante de que qualquer aproximação possa desencadear novas perdas. A tensão cresce à medida que o vínculo se aprofunda: se descobertos, ambos podem comprometer aquilo que ainda lhes resta.

A narrativa alterna os pontos de vista de Kenna e Ledger, recurso que amplia a compreensão do leitor sobre os conflitos morais que atravessam a história. Mais do que contar um enredo de reencontro, o romance investiga os efeitos dos julgamentos apressados, especialmente quando baseados em versões incompletas ou distorcidas dos fatos. A cidade que condena Kenna parece menos interessada na verdade do que na manutenção de uma memória fixa, incapaz de se transformar.

Sem recorrer a excessos, Hoover trabalha temas como culpa, luto, redenção e perdão com uma abordagem direta, sustentada por personagens que operam em constante tensão emocional. O romance evita soluções fáceis e aposta na ambiguidade dos afetos: amar alguém pode significar, ao mesmo tempo, protegê-lo e afastá-lo. Compre o livro "Uma Segunda Chance”, de Colleen Hoover, neste link.


Ficha técnica:
“Uma Segunda Chance” | “Reminders of Him” (título original)
Gênero: drama / romance
Duração: 1h54
Classificação indicativa: 16 anos
Ano de produção: 2026
Idioma: inglês
Direção: Vanessa Caswill
Roteiro: Colleen Hoover e Lauren Levine
Elenco: Maika Monroe, Tyriq Withers, Lauren Graham, Bradley Whitford, Rudy Pankow, Lainey Wilson, Zoe Kosovic
Distribuição no Brasil: Universal Pictures
Cenas pós-créditos: não 

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"Uma Segunda Chance" no Cineflix Miramar | Santos | Sala 4
Até dia 25 de março | Sessões no idioma original | 15h30, 18h00 e 20h30 
No Miramar Shopping | Rua Euclides da Cunha, 21 - Gonzaga - Santos / São Paulo. 
Ingressos neste link

domingo, 1 de março de 2026

.: “BrasilEssenza”: Fafá de Belém e André Mehmari transformam show em rito



Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com. Foto: divulgação

Se Milton Nascimento tem “a voz de Deus”, como sentenciou Elis Regina, é possível dizer, sem medo de exagero que Fafá de Belém tem a voz de Maria, a mãe de Jesus, que sofre, protege e canta para embalar e para acordar o mundo. Em “BrasilEssenza”, show apresentado ao lado do pianista André Mehmari no renovado Teatro do Sesc Santos, assim como faz a santa católica em outras vertentes, Fafá consagra as músicas de uma maneira absolutamente inesquecível. O formato é simples: voz e piano. A viagem proposta pelo repertório passa pelas raízes da MPB revisita clássicos cristalizados no imaginário da música brasileira e inclui sucessos da própria Fafá, além de arranjos originais de Mehmari.

A cantora é uma estrela de primeira grandeza que atravessa cinco décadas sem perder o eixo. A voz dela continua ampla, vibrante, carregada de personalidade. Na apresentação dela, há domínio sobre o tempo. Quando entoou “Vermelho”, o teatro literalmente veio abaixo, em uma mistura de memória afetiva, identidade e país condensado em refrão. Mas seria injusto falar de “BrasilEssenza” sem destacar a arquitetura invisível construída por André Mehmari. 

Pianista de rara inteligência musical, ele transforma o instrumento em extensão do próprio pensamento. Em determinado momento, pede sugestões ao público e cria, no improviso, um pout-pourri que costura melodias com naturalidade desconcertante. A interação é um espetáculo à parte, pois o público consegue perceber o carinho, o respeito e a escuta mútua entre os dois artistas. Fafá conversa com a plateia, conta histórias, contextualiza composições, compartilha bastidores. 

O impacto do show também dialoga com o momento vivido pelo Teatro do Sesc Santos. Após profunda reestruturação técnica ao longo de 2025, com implantação de sistema motorizado de varas cênicas, modernização da iluminação em LED e novo piso de madeira Tauari, o espaço atinge padrão equivalente aos grandes teatros do país. “BrasilEssenza” mostra que a música brasileira não precisa ser reinventada a cada temporada para continuar viva; precisa ser revisitada com inteligência e paixão. Fafá e Mehmari fazem isso com rigor artístico e entrega emocional. No palco desse show, há voz, há piano e há principalmente o Brasil que quer continuar na democracia.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

.: Renato Amado enfrenta a finitude e expõe contradições em “Nonada”


Em entrevista para o portal Resenhando.com, o autor carioca fala sobre melancolia, machismo estrutural, erotização da ausência e o salto no escuro que o levou da carreira jurídica à literatura. Foto: divulgação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com

Em um mundo hiperconectado e afetivamente exausto, Renato Amado escolheu ampliar as distâncias para falar de proximidade. Em "Nonada", publicado pela Editora Cajuína, segundo romance assinado por ele, o escritor carioca imagina uma Terra plana e mil vezes maior que a nossa para narrar a crise silenciosa de Galeano - motorista de aplicativo, ex-praticante de wingsuit e homem marcado por melancolia, desejo e contradições.

Entre telescópios que substituem o toque, diálogos de Uber que revelam microviolências cotidianas e um machismo que opera quase sem ruído, o romance combina ficção científica, existencialismo e crítica social. Mais do que contar uma história de amor à distância, Amado investiga o medo da morte, a dificuldade de sustentar vínculos profundos e a tentação permanente de adiar o desespero com doses de intensidade. Nesta entrevista exclusiva para o portal Resenhando.com, ele fala sobre o vazio como gesto político, a literatura como adiamento e exercício de aceitação, e o risco de viver quando já se sabe o desfecho da batalha. Compre o livro "Nonada", de Renato Amado, neste link.

Resenhando.com - Galeano observa o mundo à distância, mas evita o contato pleno. Em que medida "Nonada" sugere que o homem contemporâneo prefere o risco da imaginação ao perigo real do encontro?
Renato Amado - Galeano é deslocado em relação à realidade imediata, mas se conecta com uma mulher de outro canto do planeta. Do mesmo modo, por meio de telas damos preferência a ausentes e nos afastamos dos que estão à nossa volta. Parece que a presença assusta. Quanto mais instâncias de mediação, mais protegidos nos sentimos. E mais eficaz do que a distância, só o anonimato.


Resenhando.com - ⁠A Terra plana e descomunal do romance amplia distâncias físicas para falar de abismos emocionais. Essa distopia nasce mais do medo da tecnologia ou da incapacidade humana de sustentar vínculos profundos?
Renato Amado - 
Sem dúvida da dificuldade em sustentar vínculos profundos. A mulher do outro lado do oceano é uma fantasia: a voz não chega, o idioma é outro. Eles estabelecem traços de linguagem que permitem alguma comunicação, mas uma comunicação incompleta, com espaço para vazios preenchidos pela fantasia. Já as pessoas próximas se apresentam com seus defeitos, manias, irracionalidades, teimosias. Não é fácil se conectar em um nível mais profundo com seres tão imperfeitos. Além disso, todos carregamos abismos inomináveis que o outro não alcança, o que gera solidão. No fim das contas, somos sós em nossos universos internos, acessíveis ao outro apenas por brotamentos pontuais na fala, nos gestos, nas expressões.


Resenhando.com - Galeano não é apresentado como vilão, mas como produto de um machismo estrutural “inconsciente”. Até que ponto humanizar esse homem é um gesto crítico e até que ponto pode ser lido como complacência?
Renato Amado - 
O romance não adota um tom panfletário nem subestima a inteligência do leitor. A literatura nos dá uma oportunidade que não existe fora dela: de entrarmos na cabeça do outro. Isso amplia nossa compreensão do humano. A literatura que me interessa, portanto, humaniza qualquer tipo de personagem, pois a desumanização é necessariamente uma simplificação. E humanizar não é justificar, mas compreender processos. Galeano é um homem comum, atravessado pelo machismo estrutural como praticamente todos nós. Desumanizá-lo seria desumanizar a todos. Ele funciona como espelho: reconhecemos nele traços nossos. Ao criticar o machismo estrutural, o livro acaba por criticar também o leitor e o autor.


Resenhando.com - ⁠O telescópio permite ver, mas não tocar. Em tempos de redes sociais, aplicativos e amores espectrais, você diria que estamos vivendo uma erotização da ausência?
Renato Amado - 
O que se apresenta parece não ter mistério: está ali, na nossa frente, é aquilo e pronto. Acostumamo-nos a não perscrutar mais profundamente. Já o que está ausente é promessa, fantasia, possibilidade. Sem precisar caçar para sobreviver, o ser humano moderno - ao menos aquele incluído nos confortos da modernidade – tornou-se um grande entediado. Será que, da tela que despeja bits e bytes em todas as suas variações, não virá algo mais interessante do que a melancolia que nos cerca? Essa expectativa pelo novo e pelo surpreendente a qualquer instante na palma da mão é, sim, uma erotização da ausência. Deseja-se menos o que existe do que o que ainda não se mostrou. O presente tornou-se quase sempre insuficiente.


Resenhando.com - ⁠Os diálogos no Uber expõem um Brasil saturado de preconceitos e microviolências. Galeano escuta muito, reage pouco. O silêncio dele é forma de resistência ou mais um sintoma de acomodação masculina?
Renato Amado - 
É fruto de melancolia, de falta de energia, de desistência. Mas é também uma forma de dar voz ao leitor. A literatura deixa espaço e o leitor o ocupa. O silêncio é uma convocação.


Resenhando.com - ⁠"Nonada" é um romance curto, rarefeito, cheio de vazios. Você escreveu pensando no silêncio como escolha estética ou como limite ético diante do que não pode, ou não deve, ser explicado?
Renato Amado - 
Não deve ser explicado por escolha estética. Obras que explicam subestimam o leitor. Obras que apenas sugerem requerem sua intervenção. É nesse momento, quando o leitor precisa completar o texto, que a experiência se torna realmente marcante. Informações mastigadas podem até parecer interessantes, mas costumam se dissipar rapidamente. Já os fragmentos que tocam a emoção e exigem elaboração produzem uma experiência mais duradoura e, se intensos o bastante, passam a integrar a própria constituição psíquica de quem lê.


Resenhando.com - Há algo de paradoxal em um ex-atleta radical, habituado ao risco extremo, tornar-se um homem paralisado diante da vida afetiva. O medo da morte é menor que o medo da intimidade? 
Renato Amado - Por paradoxal que possa parecer, é por medo da morte que Galeano se tornou praticante de esportes radicais. Galeano via a morte como inimiga (só há inimigo quando há temor; não existe inimizade na indiferença) e queria mostrar que poderia vencê-la, ainda que provisoriamente. Uma forma de fazê-lo não era apenas se arriscar, mas viver intensamente: no absoluto do momento, a morte não existe. Mas ele quase foi derrotado, ao sofrer um grave acidente, e a ilusão se rompeu. A morte mostrou-se, “estou aqui, te pego a qualquer hora!”. E Galeano passou a se debater ininterruptamente com a finitude. É uma briga perdida. Se habitamos uma batalha cujo resultado desfavorável já conhecemos, e que perdurará por toda a vida, a consequência é a melancolia. Como se entregar a uma relação afetiva estando tomado pela melancolia? Se a morte cobre e esvazia tudo, nada tem sentido ou beleza. Nada conecta. Ao menos até Galeano ver, através de um telescópio, aquele olho do outro lado do planeta.


Resenhando.com - ⁠Ao trocar uma carreira estável no Direito por uma vida dedicada à literatura, você também realizou um salto no escuro. Que partes de Galeano dialogam, ainda que indiretamente, com essa decisão?

Renato Amado - Assim como Galeano tentava enganar a morte pela intensidade praticando wingsuit, eu tentei fazer o mesmo, buscando outras intensidades. A carreira no Direito não me dava vida, me dava salário. Precisei saltar no escuro, buscar a vida a 100% para enganar a morte.


Resenhando.com - ⁠O título "Nonada" sugere o “quase nada”, o resto, o intervalo. Em um mundo obcecado por performance, produtividade e respostas rápidas, escrever sobre o vazio é um gesto político?

Renato Amado - Existir e escrever, o que seja, é um gesto político, pois implica propor um modo de estar no mundo. Nesse sentido, Nonada se insere em uma das vocações mais recorrentes da arte: não oferecer respostas, mas abrir questões, sugerir possibilidades. Em um contexto obcecado por performance e produtividade, sustentar o vazio, a pausa e o intervalo, torna-se, por si só, uma forma de resistência.


Resenhando.com - ⁠Você afirma que a melhor saída diante da finitude é a aceitação. A literatura, para você, é um caminho real para essa aceitação ou apenas uma forma mais sofisticada de adiar o desespero?
Renato Amado - Faço muitas coisas para adiar o desespero. São as tais ações que buscam intensidade, que nos permitem esquecer a nossa condição por instantes, viver inteiros. Não vejo isso como algo negativo: talvez a melhor estratégia seja justamente adiar o desespero a tal ponto que a morte chegue antes de termos tido tempo para nos desesperar. Quanto à aceitação, ela é difícil, muito difícil, mas também é um caminho. A literatura pode ser ambas as coisas: adiamento e exercício de aceitação. Em Nonada, ao escrever o percurso de Galeano, que se constitui como um ser humano mais íntegro à medida que caminha em direção a uma aceitação ao menos parcial, eu buscava fazer o mesmo. Escrevi este livro para lidar com meus fantasmas, equilibrar-me. O caminho de Galeano é o meu caminho.

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