segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

.: “Ecos do Antropoceno”: livro de Luiz Villares expõe o custo real do progresso


"Ecos do Antropoceno - Legados, Interesses e Caminhos", publicado pela Editora Casa Matinas, é o resultado de quase três décadas de trabalhos, aprendizados, estudos e reflexões do ambientalista Luiz Villares. Ele reuniu sua longa experiência que começa com a militância pela defesa do Parque Estadual de Ilhabela, passa pelo Conselho Estadual do Meio Ambiente de São Paulo, e chega à FAS (Fundação Amazônia Sustentável), a maior organização sem fins lucrativos no Brasil pela conservação da Amazônia, da qual foi diretor financeiro por 16 anos.

Além de trazer um panorama atualizado (que inclui os resultados da recente COP30, realizada em Belém, em novembro de 2025) das grandes questões ambientais contemporâneas, Ecos do Antropoceno analista os fenômenos do aquecimento global, das catástrofes climáticas, do desmatamento e destruição da natureza, entre outros, pelo diapasão central da macroeconomia: sem transformações profundas nos modelos de crescimento econômico e na “financeirização” dominante na economia global, a transição imprescindível para um mundo sustentável não se realizará.

“Este é o paradoxo contemporâneo: quanto mais cresce o PIB global, mais crescem os desastres ambientais e ecológicos - e pior: em velocidade maior do que as soluções que poderiam mitigar os problemas”, afirma Villares. A obra demonstra claramente e com abundância de números que investimentos em prevenção dos desastres ecológicos são mais baratos (e mais sensatos) do que os dispendiosos custos — em um cenário de Estados-nações endividados — de reparação desses desastres; e que, se uma parcela dos ainda gigantescos investimentos em fontes de energia fóssil ou em armamentos fosse empregada na transição para energias limpas, poderíamos atingir com mais celeridade os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Segundo o autor, o mundo gasta mais de US$ 2,3 trilhões em armamentos. "A metade desse valor seria mais do que suficiente para o financiamento das necessidades de adaptação climática no mundo". Luiz Villares, em um dos pontos fundamentais do livro, sublinha que o desequilíbrio ambiental contribui decisivamente para o aumento da desigualdade social: as populações mais pobres sofrem mais as consequências devastadoras do aquecimento global e dos desastres climáticos, embora sejam as faixas de população que menos contribuem para a emissão de carbono, por exemplo. Nesse sentido, os mais pobres são, de maneira perversa, duplamente penalizados na época em que homens passaram a se dedicar à destruição da natureza. Desigualdade gera mais desigualdade.

Outro ponto de atenção do livro é para a mudança profunda sobre a questão ambiental que está ocorrendo na China. De maior poluidora do mundo ela está se transformando em liderança global em políticas ambientais. Na vanguarda da utilização da energia solar, na eletrificação dos carros, no uso das bicicletas como meio de transporte, na construção de data centers no fundo do mar (abastecidos por energia eólica), o programa do Estado chinês chamado de “Civilização Ecológica” é o mais planejado e estruturado de que se tem notícia. O país tem 1.100 usinas que processam 800 mil toneladas de lixo, gerando renda onde só havia desperdício; a poluição do ar diminuiu sensivelmente nos últimos 15 anos; o programa Grande Muralha Verde é o mais ambicioso em termos de se devolver matas e florestas em solo degradado.

 Antropoceno é uma palavra relativamente nova. A Humanidade precisou criá-la para classificar o período geológico que se iniciou com a Revolução Industrial, na Inglaterra, no século XVIII. Como diz o ambientalista Luiz Villares, ele marca a idade “em que começamos a extrair da natureza mais do que ela é capaz de nos oferecer”. Ou seja, o oposto da sustentabilidade, que é a capacidade de atender às necessidades do presente sem comprometer as condições de vida do futuro.

Ao lado de temas mais conhecidos sobre o ambientalismo, o livro nos apresenta conceitos que ajudam a compreender os fenômenos e ideias para superá-los, como o green new deal e o ecocentrismo. A diplomacia e a justiça climáticas, a água valendo mais do que o petróleo, as novas demandas por energia dos hiper data centers, o desaparecimento das abelhas, a morte dos recifes de corais, o ativismo jovem, além das oportunidades que se apresentam para o Brasil pós COP30, são outros assuntos abordados neste livro.

Luiz Villares é ambientalista, com formação em gestão internacional e extenso trabalho em organizações socioambientais; foi Conselheiro Estadual do Meio Ambiente de São Paulo e do primeiro time da Fundação Amazônia Sustentável, a maior organização sem fins lucrativos dedicada à Amazônia. Autor de estudos acadêmicos sobre sustentabilidade e blockchain, é colaborador de publicações internacionais. Também velejador e músico, baterista da banda Lost in Translation, liderada pelo escritor Marcelo Rubens Paiva, autor de Ainda estou aqui.

"Ecos do Antropoceno" é o primeiro livro lançado pela Casa Matinas, que se dedica a reedição de livros imperecíveis no sistema de impressão sob demanda (POD). A editora modificou seu projeto editorial pelas afinidades com as ideias defendidas no livro de Luiz Villares. Além de evitar desperdício de papel e de combustível fóssil na distribuição com o print-on-demand, a casa matinas usa o papel Polén Natural e a impressão em tinta a base de água. As capas minimalistas, o projeto gráfico limpo e a economia em uso de fontes tipográficas (criadas por artista tipográfico brasileiro) também foram pensadas para nos furtarmos aos esperdícios comuns na produção de livros.

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