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quarta-feira, 22 de setembro de 2021

.: Capítulo 8: "As Winsherburgs" em "Doce Fantasia"


Por: Mary Ellen Farias dos Santos

 

Com o carro parado, ao se dar conta de que atropelou alguém, Lolita, permaneceu sem se mover, em estado de choque, quando deixou escorrer uma lágrima pelo olho esquerdo. Samantha, decidida e prática, rapidamente abriu a porta do carro e correu até a mulher.

Aparentemente, a jovem que Lolita acertou com o carro não se feriu em nada, apenas deixou um dos calçados voar longe e nada falava. Enquanto uma e outra perguntavam se ela estava bem, as irmãs não pensaram muito e resolveram colocar a mulher no carro até o hospital Santa Clara. E no trajeto o silêncio fez o momento ser de total apreensão.

As gêmeas, nervosas, acabaram tropeçando nas palavras ao tentar explicar o que acontecera para a recepcionista. Quando Lolita foi apontar para a mulher, logo cutuca Samantha que também se vira, e é iniciada busca pela jovem atropelada, mas a mulher havia simplesmente desaparecido.

Seria impossível ter entrado direto para atendimento, uma vez que naquela noite o plantão estava tranquilo e a situação da quase paciente não era grave -aparentemente.

 

*  *  *

Ellen e Mary já tinham voltado para a casa dos Winsherburgs após passar a manhã no Colégio Santa Helena. Mary e Tarissa conversavam por chamada de vídeo longe da mãe, professora, que aproveitava o tempo de o arroz ficar pronto para o almoço entre mãe e filha, assim começou a separar o material que iria usar no dia seguinte de aula.

Folheou um livro em busca de rever o conteúdo a ser trabalhado e, com os estalos da geladeira ecoando pelo corredor, nem percebeu quando Mary chegou sorrateiramente atrás dela, ergueu o celular com a câmera filmando tudo, em alto e bom som e colocou para tocar a introdução de três segundos do clássico “I feel good”, na voz de James Brown.

Ao contrário do que esperava, Ellen não jogou algo para o alto ou gritou de susto como nos vários vídeos que rolam pelas redes sociais. A dona Winsherburg foi certeira. Com a mão fechada, deu um tapão na face de Mary, numa resposta rápida e impensada por qualquer um que quer se defender do perigo.

Com o coração acelerado, Ellen simplesmente perguntou o que fora aquilo. Mary permaneceu sem reação a ponto de nem ter voz suficiente para responder.

A filha se encheu de vergonha, primeiro pela audácia da brincadeira e depois por ter ficado com uma das bochechas mais vermelhas do que um morangão. Como resultado, somente colocou as mãos no rosto, pousando uma delas diretamente na área que estava quente igual ao sertão nordestino.

Definitivamente, Mary não esperava uma reação forte e precisa de Ellen. Na verdade, ficou arrasada com aquele tapão. Sem saber lidar com a situação, abaixou a cabeça e foi para o quarto, segurando firmemente a pedra misteriosa, quando alertou a mãe que iria usar o notebook enquanto a comida não ficava pronta.

O pior é que o arroz daquele almoço queimou.

Sete minutos depois, recomposta, Ellen arrumou a louça na mesa para o almoço com a filha, sem gritar, o que Bernardo achava muito feio. Então, para avisar Mary que estava tudo pronto, mandou uma mensagem pelo WhatsApp.

Melhor escolha.

A filha tinha começado a assistir o documentário “Mamãe morta e querida” que retrata o caso macabro entre mãe e filha, Gypsy Rose e Clauddine Blanchard. Mary havia assistido a série “The Act” e ficara estarrecida com a atitude macabra da jovem. Acreditava que iria diminuir a raiva que ficou de Gyspy e seu plano perverso. Sem contar que aquela história era 100% real.

Imagine se Ellen entrasse no quarto e entendesse tudo errado?! Afinal, Ellen era o tipo de mãe pra lá de dramática. Certamente chamaria o detetive Bira do canal Fatos Desconhecidos.

*  *  *

No dia seguinte, as gêmeas, numa pausa no trabalho, saboreavam umas delícias na Cafeteria Dollywood. Enquanto Samantha não parava de mastigar, Lolita pesquisava na internet. Como aquela mulher sumiu? Naquele momento, ela se sentiu igual a um personagem na série “Supernatural”, sendo que ela assumiu o papel do irmão mais novo, o Sam, enquanto que Samantha era perfeitamente o Dean.

Eis que Lolita encontra uma notinha jornalística a respeito de um atropelamento, de ontem, mas há quatro quadras de distância.

- Samantha, olha isso!

Distraída e mais envolvida com os lambiscos matinais, a irmã somente olhou, sem dar a mínima atenção. Estava interessada em se dedicar ao pecado da gula.

- Samantha! Presta atenção!, ralhou Lola com a irmã.

- A foto da câmera de segurança... Dá para ver que é a mulher do acidente comigo, mas não é no mesmo lugar!

Involuntariamente, Sam arregalou os olhos e deixou um donut que levaria a primeira mordida cair virado na mesa.

- Mana! Não é possível isso!!

Lolita sente um forte arrepio na espinha, mas é no olhar de Samantha que o medo maior é representado. Quem levava tudo na brincadeira simplesmente chorou ao se dar conta da situação:

- Será que era uma bruxa?! Por que assim, surge do nada, é atropelada, colocamos no nosso carro e daí evapora. Aliás, leu o livro “HEX”, de Thomas Olde Heuvelt?! Samantha se embanana toda para falar o sobrenome até que esbraveja um “Ah!”.

Lola fecha a cara e pede para a irmã levar a situação a sério.

- Você e a Mary só ficam assistindo essas séries cheias de coisas do outro mundo, com espiritinho. Mana, isso é realidade. Já não basta o som da agência funcionar quando desligado?! E até me chamou...

Samantha fica boquiaberta e logo retruca:

- Som ligando sozinho?! Ah, não! Ainda chamou você?! Isso aí não é série de terror, mas de “WandaVision”!

Irritada, Lola ameaça ir embora e fala:

- A vida não é fantasia!

*  *  *

Antes de se juntar à mãe para almoçar, Mary recebe mensagens no WhatsApp.

 

Olá, Mary!? Aqui é a Melinda! Podemos conversar?!

 

 

 

Feels like I'm dreaming, but I'm not sleeping

(sweet, sweet fantasy)

Fantasy

Sweet fantasy

You're my fantasy

Sweet fantasy

Sweet, sweet fantasy

 

Fantasy, Mariah Carey




.: Perdeu algum capítulo? Confira todos aqui! 


*Mary Ellen Farias dos Santos é criadora e editora do portal cultural Resenhando.com. É formada em Comunicação Social - Jornalismo, pós-graduada em Literatura, licenciada em Letras pela UniSantos - Universidade Católica de Santos e formada em Pedagogia pela Universidade Cruzeiro do Sul. Twitter: @maryellenfsm 


Assista em vídeo como história ilustrada




quarta-feira, 8 de setembro de 2021

.: Playlist "As Winsherburgs" apresenta história com toque sobrenatural


Os Winsherburgs vivem na pacata cidade de São Francisco de Assis. Bernardo é um pai dedicado ao trabalho que encontra as três filhas, geralmente no período noturmo, para o jantar, logo é Ellen quem controla a casa. Como nem sempre é possível manter uma família de comercial de margarina, Ellen, que também é professora no Colégio Santa Helena, faz de tudo para equilibrar as relações no lar doce lar. 

No entanto, algo de outro mundo passa a rondar as gêmeas Lolita e Samantha com direito a comunicação via aparelho de som fora da tomada. Numa visita a agência de roteiros das irmãs mais velhas, Mary passa a ser, secretamente, devota de uma pedra misteriosa que encontra no lixo. Em meio a eventos sobrenaturais, problemas passam a envolver a família.

Acompanhe a trama em vídeo, como história ilustrada na playlist "As Winsherburgs", publicada quinzenalmente, às segunda-feiras. Divirta-se aqui: https://www.youtube.com/watch?v=ovXJmyVLlx8&list=PLtSeMrWLhSNXdH4q8sGSCP_wsffe064BS

Prefere ler? Todo texto também é publicado aqui no Resenhando, aqui: resenhando.com/search/label/AsWinsherburgs. Caso ainda não conheça, comece por aqui: Capítulo 1: "As Winsherburgs" em "A cidadezinha de São Franciso de Assis"resenhando.com/2021/06/as-winsherburgs-em-cidadezinha-de-sao.html

História ilustrada


terça-feira, 7 de setembro de 2021

.: Capítulo 7: "As Winsherburgs" em "Não é o fim do mundo"

Por: Mary Ellen Farias dos Santos


- Não peguei nada!, grita Ellen tomada de uma fúria ainda desconhecida pelos Winsherburgs. E como há uma primeira vez para tudo, Bernardo, que se preparava para tomar banho, chega a se assustar, mas cansado do dia de trabalho, prefere esperar a poeira baixar entre Mary e Ellen. Sabia bem que manter a distância ideal da mulherada com os nervos em chamas era a melhor escolha.

Com resmungos indecifráveis, Mary retrucava as sucessivas negativas da mãe sobre ter mexido na mochila dela. Assim, mãe e filha foram se afastando e a altura da discussão diminuiu um pouco de volume. Não o suficiente a ponto de fazer com que Lolita e Samantha que chegavam, não ouvissem.

- Gente! Sem mais B.O.! Passamos por uma agora na agência. Coisa do arco-da-velha. Estou querendo chorar por ter reencontrado uma víbora do passado, falou Samantha em um tom mais alto, enquanto unia as mãos como que pedindo por trégua.

Mas foi Lolita quem amenizou tudo: - Hoje não é o fim do mundo! Trouxemos pizza!!

 

*  *  *

 

Para Mary, tudo ocorreu numa velocidade assustadora. Ela deixou a mochila escolar debaixo da cama, fechada, foi ao encontro das amigas e quando voltou para casa, a pedra misteriosa a que era devota, havia sumido.

Ninguém, além da própria Mary, sabia onde estava o objeto brilhante.

Sem a pedra para idolatrar, a jovem foi invadida por uma sensação de profundo vazio e desamparo. Trancada no quarto, agarrou o ursinho Teddy enquanto deixava lágrimas escorrerem, o que a fez adormecer ao som de “Anytime you need a friend”, de Mariah Carey.

Com uma sede intensa, no meio da noite, acordou e precisou beber um copo e meio d´água com direito ao som de satisfação, igual ao dos comerciais de bebidas e também muito usado numa propaganda de pasta dental.

Ao retornar para o quarto, usando a lanterna do celular como guia, um grande susto. A cama estava com os lençóis esticadinhos e o ursinho posicionado milimetricamente ao centro.

Mary arregalou os olhos e logo os esfregou. Resolveu se esforçar ao máximo para entender o que acontecera ali. Não queria procurar a mãe no quarto com o pai para confirmar se ela havia arrumado a cama. Naquele dia, as duas estavam falando somente o necessário. Não iria procurar socorro para tirar tal dúvida, ainda mais que era madrugada.

Mesmo desconfiada, deitou-se e decidiu manter a lanterna do celular acessa. Na esperança de se aquietar, pesquisou no YouTube vídeos aleatórios para rir um pouco. Foi quando chegou num shorts do ator Tom Holland e o vídeo entrou em modo repetição, seus olhos estavam fechando involuntariamente. Então, Mary sentiu uma mão empurrar o celular para bem longe. Com o coração acelerado, abriu os olhos e viu o aparelho ricochetear na parede, até chegar no chão. Boquiaberta e apavorada, percebeu que a lanterna iluminava o cantinho da cômoda com a parede.

Lá estava a pedra.

 

*  *  *

 

No Colégio Santa Helena, Mary e Tarissa voltavam da biblioteca cinco minutos após a quarta aula começar. E, por puro azar, as duas foram flagradas pela diretora.

Elas trocaram olhares e fizeram cara de anjinhas arrependidas. Bem gatinho do Shrek. Claro! Não queriam que o desvio no horário de aula chegasse aos ouvidos de seus pais.

A duplinha ficou em silêncio e de mãos para atrás, enquanto que a diretora lhes dava um sermão. Tanto Mary quanto Tarissa não prestaram um pingo de atenção no que fora dito. Nana tinha feito sobrancelhas pigmentadas. O procedimento ficara extremamente mal feito e roubava toda a atenção do que ela falava.

 

*  *  *

 

Longe de São Francisco de Assis, a exatos mil quilômetros de distância, a blogueira Melinda relia a lenda muito conhecida pelos moradores do litoral de Santa Bakhita que acabara de transcrever e iria publicar para os seus seguidores. A lenda da musgravite branca.

 

De geração para geração, conta-se que diante da igreja matriz, onde hoje é uma praça, em 1.801, os índios Potimbás encontraram uma pedra branca, do tamanho de um punho masculino que foi mantida sob os cuidados do cacique Anhanguera.

Certa noite, enquanto o pajé Toriba fazia os preparativos para o ritual secreto, tendo a pedra firme nas mãos do cacique Anhanguera, garimpeiros iniciaram um incêndio no povoado a fim de tomar a preciosidade que era única em todo o globo terrestre.

Exterminados, os nativos das bordas litorâneas de Santa Bakhita seguiram vivos somente na boca do povo, assim como a tal musgravite branca. Reza a lenda de que o mineral se espatifou em meio à confusão. No entanto, mesmo com o fogo consumindo o povoado, muitas partes da pedra não se perderam, embora ninguém tenha conhecimento de tal raridade.

 

Melinda levantou-se e foi beliscar um docinho na bomboniere que mantinha abastecida no móvel da sala. Nem mesmo se passaram 20 minutos de texto publicado, deu F5 no computador e, dos comentários enviados, um lhe chamou bastante atenção.

 

Linda Melinda, tudo bem?

Sou sua fã, admiradora e conheci o seu blog no início da pandemia. Não preciso dizer, mas, é que eu virei sua fã Nº1. Acho até que vou ser jornalista, igual a você e as minhas irmãs. Fiquei curiosa por essa história, mas sabe me dizer se esse cristal tem algum poder?

Beijinhos mil,

Celeste

 

*  *  *

No céu já se via o crepúsculo quando os primos Lolita, Samantha e Apollo encerraram o expediente e correram de carro até o Cineflix do shopping da cidade para assistir "Free Guy: Assumindo o Controle".

Animados pela sessão pipoca com lanche no fast-food após, Apollo foi levado em casa pelas gêmeas que seguiam a viagem tranquilamente. Faltavam dois quarteirões para chegarem em casa.

- Somos tão diferentes, mas não sei como viveria sem você, comenta Lolita enquanto Samantha estoura a bola de chiclete que mastigava. Com uma troca de olhar, as duas caem na risada.

- Mana, como vamos lidar com a Petra pegando nos nossos pés?!, continuou Lolita.

Samantha que tinha começado a cantar “Livin´ on prayer” a plenos pulmões, parou e disse:

- Mais um obstáculo que enfrentaremos juntos. Foco na história do Guy, lá no filme. Vamos todos nós três correr naquela ponte. Juntos. Temos o Apollo para nos dar um apoio. Então...

Antes que Lolita respondesse, as duas trocaram um novo olhar de cumplicidade. Com o som do carro muito alto, as irmãs não se dão conta de quando uma mulher cruza o meio da rua.

Lolita freia bruscamente, mas o veículo derrapa.

 

*  *  *

It's not the end of the world

No, not the end of the world

Throw on your fancy attire, fears in the fire

Don't lose hope

It's no funeral we're attending

Actually, just the beginning

 

Not the end of the world, Katy Perry



.: Perdeu algum capítulo? Confira todos aqui! 


*Mary Ellen Farias dos Santos é criadora e editora do portal cultural Resenhando.com. É formada em Comunicação Social - Jornalismo, pós-graduada em Literatura, licenciada em Letras pela UniSantos - Universidade Católica de Santos e formada em Pedagogia pela Universidade Cruzeiro do Sul. Twitter: @maryellenfsm


Assista em vídeo como história ilustrada



terça-feira, 24 de agosto de 2021

.: Capítulo 6: "As Winsherburgs" em "Isso é tudo o que sei até agora"


Por: Mary Ellen Farias dos Santos


O incidente com Mary no banheiro do Colégio Santa Helena virou um segredo da jovem Winsherburg que foi guardado a sete chaves com Tarissa.

Em casa, com Ellen, mãe de Mary, as garotas almoçaram as sobras do churrasco de domingo que ganhou um molho extra especial acrescido a um arroz clarinho, mas salpicado de orégano, que ainda fumegava enquanto a mãe soltava os grãos da panela e colocava no prato das meninas. De barriguinha cheia, a dupla que era carne e unha, deixou o material escolar para encontrar com Juliette e Íris na lanchonete.

No trajeto, caminhando tranquilamente pelas ruas arborizadas de São Francisco de Assis, Mary e Tarissa aproveitaram a chance para cochichar “o tal segredinho”.

A verdade é que Mary estava muito preocupada com a possibilidade mínima do susto seguido de desmaio virar um gigantesco boato protagonizado por ela. Não saberia lidar com as meninas bestinhas do 2º e 3º ano do Ensino Médio. Isso a preocupava, não as marcas arroxeadas que tinha ganhado nos cotovelos pela queda. Se virasse alvo de fofoca, como iria encarar todos na escola?

- Será que tem câmeras naquele banheiro?! Amiga, não quero ser chamada de “Carrie, a Estranha”!, confessou Mary.

- Calma! Não estudamos em um reality show. Como teria câmera no banheiro?! Acho que nem pode. E, a propósito, você não tem o poder da telecinesia. Ou tem?, questionou Tarissa virando-se preocupada para Mary.

Num tom indignado, a pequena Winsherburg retrucou imediatamente:

- É claro que não! Adoraria ter o poder da invisibilidade ou a capa mágica do Harry Potter. Acho que iria me cair bem... Agora, sem brincadeirinha, Tari, aquele rosto... Tudo o que sei até agora é que aquilo não era humano.

- Ai, pode parar com isso, Mary!, repreendeu Tarissa que logo lembrou que elas madrugaram na live da escola quando as duas e mais nove alunos da turma assistiram a versão estendida do clássico “O Exorcista”.

- Hum. Sabe o que você teve? Uma resposta pela privação do sono. Eu dormi um monte, mesmo naquela gritaria do filme. Os pulmões do padre estavam em dia, né?! A propósito, não entendi nada. Acredita que eu acordei quando aquela menina estava vomitando verde?! Que nojo! Fiquei pensando, colocaram em dúvida a ingestão de vegetais. Eu acho. E você, minha amiga, relaxa!

- Será, Tatá?! Pode ser. Vi essas coisas e dormi pouco. Ah! Sabe o que eu assisti antes? O sexto episódio de “American Horror Stories”, Feral. Levei cada susto. E o fim da história?!

Tarissa manteve a carinha de confusa e preferiu silenciar para que a conversa não evoluísse para o lado assustador da força, a ponto de garantir um pesadelo naquela noite. Ainda mais que Mary era craque na descrição e contação de histórias de terror. Em nome de preservar a própria paz de espírito, Tarissa comentou:

- Opa! Não venha me contar nada do que viu nesse seriado aí. Não que eu vá assistir. Sabe que eu não sou fã dessas histórias com coisas nojentas. Nem pense em começar a me contar os detalhes asquerosos. Da última vez que você me contou sobre o episódio “Baal”... #peloamor. Stop!

*  *  *

Não tão distante do Colégio Santa Helena, Lolita estava sem palavras diante do roteirista Helder Lee. Ali, em carne e osso. Era grande admiradora. Aliás, Lee sempre foi a maior fonte de inspiração para ela que sonhava um dia roteirizar um filme famoso. E, claro, ganhar o Oscar.

Com o ídolo da escrita sorrindo, Lolita deixou o lado “admiradora secreta” e o cumprimentou, tentando controlar a euforia da situação inusitada. Não que o roteirista quisesse cerimônia, afinal era amigo de Apollo, mas Lolita ficou impactada pela situação a ponto de não saber o que dizer. E, principalmente, o que fazer.

Samantha desinibida, serviu um donut a Lee enquanto Apollo esclareceu tudo.

- Signo do destino, meu parça. Como iria imaginar que encontraria você na fila da cafeteria daqui? Justo de São Francisco de Assis?!, questionou Apollo quebrando o breve silêncio no ambiente.

Com uma risada um pouco solta, Lee respondeu:

- Vim visitar a família da minha noiva. Precisei fazer hora no Centro da cidade, de carro. Ela está no salão de beleza. Dei uma voltinha no quarteirão e quando vi a vitrine de guloseimas daquela loja. Não resisti.

- Olha, eu entendo perfeitamente, comentou Samantha enquanto soltava leves risadinhas de felicidade. Posso estar sem fome, mas se eu olhar o que a Berenice acabou de fazer, fresquinho, exposto na vitrine... Ah! Eu automaticamente quero comer, nem que seja um pedacinho.

Um pouco mais calma, mas como uma sensação de medo e não receio, talvez por saber exatamente o que estava vivendo naquele momento, Lolita propôs:

- Que tal aproveitar a oportunidade e conhecer a agência?!

Helder Lee assentiu com a cabeça, pois terminara de degustar o donut e estava com o copo de refrigerante completamente vazio.

*  *  *

Mesmo longe, Mary e Tarissa avistaram Juliette e Íris, no balcão do fast-food. Deram uma corridinha para antecipar o reencontro. O quarteto era dividido em duas escolas: Mary e Tarissa no Colégio Santa Helena enquanto que Juliette e Íris estudavam no Colégio São Bento. Elas não se viam pessoalmente desde o ano passado, mas agora, já vacinadas e com o fim da pandemia, puderam ser livres novamente. A conversa iria rolar mais solta sem a tela do celular ou do computador para separar a turminha.

Após muitos abraços e beijos, Mary, uma matraqueira que só, jogou Íris na roda.

- Amiga, como anda de papo com o Caio?

Íris, com uma carinha triste, respondeu:

- Sabe... Ele era mais velho e devia estar com segundas intenções, enquanto que eu estou nas primeiras. Fora que ele está caindo de amores mesmo é pela moto que comprou com ajuda do paizinho dele. O Caio até me levou na garupa, parou no estacionamento do supermercado que é super arborizado e fiquei sem entender. Eu quase perguntei se iríamos fazer as compras do mês. E aconteceu algo bizarro: ele mandou eu ficar ao lado dele, segurando um rebatedor de luz que ele sacou não sei de onde. Começou a fotografar a motoca e ainda disse que seria o wallpaper dele. Não tinha como ser diferente, todo o romance subiu no telhado.

Tarissa fez cara de surpresa e exclamou: - Que babaca!

Mary ficou sem reação, foi surpreendida com o rumo dessa “quase” história de amor.

Juliette, a brincalhona do grupo, logo soltou uma pérola:

- Ok! Aceitem! A Íris não vai mais ser a primeira daqui a se casar, ter filhos, ser uma jovem, recatada e do lar.

Foi automático. As meninas trocaram olhares e gargalharam.

E assim aconteceu na próxima uma hora e meia daquele dia histórico que marcou o reencontro do quarteto. Ao vivo e a cores. Sem WhatsApp ou por lives.

 

*  *  *

Enquanto conhecia o espaço, Helder Lee soube da situação da agência, mas o que mais o intrigou foi algo na parede, o famoso quadro do menino chorando, de Bruno Amadio. Prestes a perguntar se fora presente, o telefone dele sinalizou uma ligação. O rostinho no aparelho era conhecido: Petra.

- Com licença! É a minha noiva!, exclamou enquanto se afastava dos primos. Helder conversava com alguém que demonstrava bastante empolgação com a ideia de se encontrar com ele ali.

Lolita tentou disfarçar, inventando uma ocupação com os livros da prateleira e ouviu ele dizer:

- Pê, tem certeza?!

Após uma pausa na fala do roteirista, combinou:

- Sim, gata! Espero você!

Na sequência, Helder quis saber onde era o banheiro da agência. Planejava avisar a todos que Petra estava a caminho dali ao sair, mas não deu tempo. Em menos de 7 minutos, Apollo abriu a porta e lá estava ela:

- Oi! Você..., disse Apollo.

Petra respondeu a saudação entrando como um furacão até soltar um sorrisinho de lado para as gêmeas Samantha e Lolita. Antes que as duas entendessem toda a situação, Helder falou:

- Como foi rápida. Amor, vou apresentar você aos meus futuros sócios!

No entanto, os primos conheciam Petra de outros Carnavais... As gêmeas que o digam!

 

And when the storms out

You run in the rain

Put your sword down

Dive right into the pain

Stay unfiltered and loud

You be proud of that skin full of scars

That's all I know so far

 

All I know so far, Pink 



*~~~~ Capítulo 7: "As Winsherburgs" em "Não é fim do mundo" ~~~~*


*Mary Ellen Farias dos Santos é criadora e editora do portal cultural Resenhando.com. É formada em Comunicação Social - Jornalismo, pós-graduada em Literatura, licenciada em Letras pela UniSantos - Universidade Católica de Santos e formada em Pedagogia pela Universidade Cruzeiro do Sul. Twitter: @maryellenfsm


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terça-feira, 10 de agosto de 2021

.: Capítulo 5: "As Winsherburgs" em "Elétrico"

 

Por: Mary Ellen Farias dos Santos
 

No cair da noite, Bernardo voltou para casa, após um dia de muito trabalho. Como era dia de pagamento, trouxe uma surpresinha para Mary –o que já era um costume de há pelo menos uns três anos.

O que estava dentro do embrulho? Uma nova presilha de cabelos. Pai e filha conversaram sobre o videoclipe de Katy Perry: Electric. Pois é... Papai Winsherburg é fã número um de Pokemón. No entanto, o assunto terminou quando Ellen os chamou para que jantassem. Lolita e Samantha estavam também em casa.

De volta ao quarto, quando o relógio marcava além do horário de dormir, a jovem Winsherburg ainda ria dos vídeos cômicos que Juliette fazia especialmente para o grupo das amigas no WhatsApp. Depois das dicas e aprovação das outras três meninas é que Juju publicava nas redes sociais. E não é que com aquelas bobeiras ela estava ficando famosinha?!

Entre um vídeo e outro ou uma risada aqui e outra acolá, Mary ouviu sussurros ao pé do ouvido. Curvou as sobrancelhas e sem se dar conta, passou a mão esquerda pelo ouvido, como que para afastar o que a incomodava. Nada.

Estava com a nítida sensação da presença de outra pessoa extremamente perto. Para Mary era certeza que Lolita estava escondida debaixo da cama dela para fazer uma pegadinha.

Foi certeira. Olhou debaixo da cama como quem pega alguém com a boca na botija. Nada.

Chamou pelo pai. Sem resposta.

Respirou fundo e sentou-se na beirada da cama, olhou detalhadamente ao redor. Nada.

Involuntariamente resmungou um “Credo”.

Deixou o celular na manta macia para pegar a bolsa da escola que guardava debaixo da cama. Vasculhou entre o material escolar e agarrou a pedra misteriosa numa mão. Acariciou o material brilhante até adormecer.

Espalhada pela cama grande, tranquila, Mary sonhava com um lindo carrossel. Estava no extinto Playcenter, lugar em que amava passar o dia com a família. Reencontrou atrações e gargalhou com as irmãs, quando toda aquela felicidade virou medo absoluto. Sozinha, no parque já de noite, ela gritou desesperadamente, mas a voz não saia. Uma figura sombria estaciona diante dela e com rapidez a encobre com um grande manto preto.

Mary ouve gritos ao longe. A jovem acorda. Era Ellen quem a chamava para levantar logo da cama e irem juntas à escola.

*  *  *

Com o término da aula do professor Cláudio, Mary e Tarissa foram ao banheiro do térreo, da escola de três andares, para dar uma arrumadinha nos cabelos, já que maquiagem ali era terminantemente proibida. No caminho, a mais nova Winsherburg foi direta e reta com a amiga.

- Tari, Tarissinha, confessa para mim. Tu tem um crush no profe Cláudio, né? Aquele corte de cabelo cai super bem nele. Bom gosto o seu. Ele é lindão, amiga!

A amiga da Winsherburg fechou a cara e lançou um olhar ameaçador que se assemelhava ao da Feiticeira Escarlate diante de Agatha Harkness e não soltou um “A” que fosse. Tarissa  tentou ao máximo manter o silêncio, mas não foi capaz de segurar a compostura com a amiga tagarela e muito barulhenta.

- Mary, pare com isso!, gritou.

- Calma! Não é uma relação séria. É só ter um crush!, replicou a jovem Winsherburg.

Tarissa continuou calada até empurrar a porta do banheiro da escola. Entrou e se posicionou no habitual cantinho da pia, em que na parede ficava o rolo de papel toalha. Mary veio na sequência e, antes de se posicionar ao lado, diante do espelho com a amiga, como sempre fazia, olhou para o final do corredor com blocos de vidro.

Ficou estática.

Ao ver a falta de atitude da amiga, mesmo tendo parte da cena refletida no espelho do banheiro, Tarissa parou de escovar os cabelos.

Mary permaneceu sem se mover.

Desesperada, Tarissa jogou a escova na pia e virou-se para a amiga. Respirou fundo, olhou para a mesma direção. Nada viu.

Assustada com aquilo, chamou a amiga pelo nome incessantemente e ao sacudi-la, o estado de transe se findou.

Mary olhou fixamente para Tarissa e somente pode deixar algumas lágrimas escorrerem, quentes, pelo rosto. Com um fim de voz ainda conseguiu perguntar:

- Você viu também?

Confusa e sem a chance de uma mínima reação, Tarissa viu Mary escorrer de suas mãos, desmaiada.

*  *  *

Na agência de roteiros, Lolita estava sozinha, pois Apollo e Samantha tinham ido buscar donuts e refrigerante na nova Cafeteria Felicidade. Ela, empenhada em dar o toque final no texto encomendado pelo site “Sim, Não, Quem Sabe”, sobre as relações em tempos de redes sociais, ouviu uma voz feminina chamar seu nome.

Era de um modo rápido e passava certo desespero.

De pronto, ela concluiu ser alguma amiga de Mary. E pensou:

- Lá vem a Mary com as amiguinhas para nos pregar uma peça. Já passamos da idade. Será que não percebem que temos que trabalhar?!

No entanto, a existência de qualquer dúvida a respeito de uma pegadinha foi extinta. O chamamento vinha do aparelho:

- Lolita! Lolita! Lolita!

Apavorada, ela puxou o aparelho da tomada, o que não adiantou muito.

- Lolita! Lolita! Lolita!

Lola aproximou um ouvido do som e tudo cessou.

- Lola, você está maluca! Maluquinha..., disse baixo para si.

Foi quando a voz completou:

- Eu preciso falar...

A sequência veio com um silêncio absoluto e um toque do celular.

Era Ellen!

Assombrada, mas sem tremer a voz, Lola atendeu a chamada de vídeo. Parecia que nada tinha acontecido.

- Fala, mãe! Tudo bem por aí?

- Sim, minha Lolinha! É que estou com vontade de comer pizza. O que acha de encomendar daquela à moda da casa, de lá do Valcides?

- Adoro a ideia, mãe! Já encomendou? Quer que eu busque quando fizer o caminho para casa?

Com um sorriso de orelha a orelha, Ellen respondeu:

- Era exatamente isso o que eu iria lhe pedir, anjinho!

- Dona Ellen eu lhe conheço muito bem, embora seja mais nova do que a senhora.

As duas riram, mas um som estridente cortou a ligação. Vinha do aparelho. Ellen, como toda mãe zelosa, ainda que a distância, chamou por Lola.

- Calma, mãe! É que parece ter um alien preso nesse som da vovó. Vou resolver esse probleminha e busco as pizzas. Sozinha e levemente transtornada, Lola é surpreendida por Apollo e Samantha que adentram a agência com guloseimas escolhidas a dedo por Samantha, quem amava passar o dia comendo besteiras.

- Olha só o que e quem trouxemos, maninha!

Lola disparou:

- Helder Lee?!

*  *  *

Com o rosto molhado por Tarissa, Mary despertou com a respiração agitada e disse: - Eu vi a verdadeira face do mal!

*  *  *

In the dark when you feel lost

Wanna be the best but at what cost?

If you're gonna stay here

Nothing's ever changing, no

Big world, gotta see it all

Gotta get up even when you fall

There's no point in waiting, no

Eletric, Katy Perry



*~~~~ Capítulo 5: "As Winsherburgs" em "Isso é tudo que eu sei até agora" ~~~~*


*Mary Ellen Farias dos Santos é criadora e editora do portal cultural Resenhando.com. É formada em Comunicação Social - Jornalismo, pós-graduada em Literatura, licenciada em Letras pela UniSantos - Universidade Católica de Santos e formada em Pedagogia pela Universidade Cruzeiro do Sul. Twitter: @maryellenfsm


Assista em vídeo como história ilustrada



terça-feira, 27 de julho de 2021

.: Capítulo 4: "As Winsherburgs" em "Um Passo Mais Perto"

Por: Mary Ellen Farias dos Santos


Enquanto esperavam Ellen para uma carona, Mary e a amiga analisavam a pedra, com carinho e adoração, igualzinho ao Gollum.

- Amiga, onde exatamente você pegou isso?, perguntou Tarissa.

- Ah, Tatá! Estava no lixo da Agência das minhas irmãs. Eu até perguntei se era de alguém, mas a Lolita riu e disse que era só um pedaço de plástico brilhante. Mas... Como plástico iria brilhar assim, né?! Claro que eu guardei na minha bolsa!

Foi quando Tarissa brincou:

- Bom... Só não vai começar a repetir “My Precious”!!

*  *  *

- Mary, venha aqui!, grita Ellen chamando a filha que voltou da escola com a amiga.

Com a mesma agilidade de uma lesma abandonada numa renovadora preguiça. Sem qualquer pressa, em movimentos arrastados, Mary chegou pertinho da mãe e antes que soltasse um resmungo indefinido, Ellen disse:

- Menina, olha isso! Fui seguindo o carreiro e pá! Encontrei um formigueiro que estava se criando dentro desse DVD da Mariah Carey! Em busca de aventuras, talvez.

Ao juntar a informação devastadora e ver o estado do papelão, Mary foi capaz de promover uma resposta física e vocal muito rápida, mas sem a ideia da possível resposta que viria da mãe.

- Meu Deus! O que a senhora fez no meu DVD?!, reclamou Mary pousando as mãos nas laterais do rosto, numa imitação involuntária do célebre quadro “O Grito”, de Edvard Munch.

Ellen, como toda mãe dramática de plantão, respirou fundo e devolveu:

- Eu? Não fiz nada nas suas coisas. Sabe o que é isso que você faz? É por não me amar. Sou sua mãe. E você só sabe me agredir com respostinhas grosseiras. Está pensando que é quem? Vive debaixo do meu teto! Come da minha comida! Da próxima vez eu jogo é tudo fora. Não duvide! Estou farta da sua ingratidão!

Para fechar a cena com chave de ouro, Ellen saiu andando bem cabisbaixa e até simulando um choro, enquanto que Mary ficou parada, no quarto, sem entender toda aquela reação da mãe. Um tanto exagerada mesmo, por sinal.

Sem o intuito de piorar o clima em casa, Mary pensou no quão estressante havia sido aquela manhã após sete aulas seguidas dadas no Colégio Santa Helena. Fora que naquele dia ela tinha aula dupla com o último ano do Ensino Médio, a classe do Adilsinho, menino irritante que fazia perguntas aleatórias para tumultuar as aulas e desestabilizar os professores. E, geralmente, ele conseguia.

Sem saber bem como confortar a mãe, Mary preferiu deixa-la um pouco sozinha e chamou Tarissa para ver as formigas que ainda estavam seguindo o trajeto: tomada e encarte do DVD de “The Adventures of Mimi”.

De repente, a imagem do DVD foi apagada para Mary. Ela só lembrava do rosto do homem que a abordou na saída da escola, enquanto Tarissa foi ao banheiro. Na verdade, a conversa rápida, com o homem misterioso, foi marcante, a ponto de precisar contar sobre o ocorrido.

- Amiga, um cara lindo veio falar comigo e até me xavecou.

- Quando isso?, retrucou Tarissa muito animada. E completou:

- Conte-me mais sobre isso... Aliás, conte-me tudo!

*  *  *

Na agência de roteiros, o clima era de alegria, pois Apollo havia iluminado o final do túnel de Samantha e Lolita. O trio já tinha a data de um encontro com o roteirista e empresário Helder Lee para estabelecerem os critérios da futura sociedade.

Enquanto Sam, com um fone de ouvido ao som das canções dos “Backstreet Boys”, em volume baixinho, escrevia o roteiro para um vídeo encomendado pelo canal “Histórias do Passado”, Lolla e Apollo pesquisavam sobre a morte da socialite Ângela Diniz, o próximo roteiro a ser escrito por eles.

- Esse documentário tem tudo para ficar redondinho. História terrível, mas cheia de conteúdo. Parece que ela foi inspiração do escritor e jornalista Roberto Drummond, para Hilda Furacão. Roberto Drummond cria toda uma narrativa para brincar de 1º de abril!, comentou Lolla.

- Lembro de ver o kit de imprensa do seriado Hilda Furacão na casa de vocês. Fica até ao lado dos livros e DVDs de “O Senhor dos Anéis” e “Harry Potter”, né?!, falou Apollo.

- Sim! Mas saiba que os livros de Roberto Drummond e os DVDs do seriado Hilda, meu primo, são de mamãe. Então, se precisarmos, para mexer só com autorização escrita e assinada por Dona Ellen. Já deixo você avisado, avisadíssimo.

Os dois sorriem da brincadeira, mas focam no trabalho. Após alguns minutos de silêncio... O aparelho de som fez o barulho estridente mais uma vez.

- Encontrei um podcast sobre a Ângela, prima!

- Legal, Apollo! Pode ouvir?

- Sim! É pra já! Siga na pesquisa. Depois ouvimos todos juntos, nós três. O que acha?, questionou Apollo.

- Tá certo!, falou Lolla enquanto ergueu o polegar com um joinha.

*  *  *

Após dar fim ao ninho de formigas que estava em fase de emancipação na capa do DVD, Mary e Tarissa finalmente relaxaram. Tarissa, direta como sempre foi logo perguntando:

- Qual era o nome do xavecador?

Foi quando Mary esboçou um sorriso nos lábios e um brilho brotou nos olhos da jovem Winsherburg que falou de modo meloso:

- Ah! Ele nem disse, mas aviso que estou apaixonada. Acho que encontrei o amor da minha vida, Tatá! Ele foi tão gentil, tinha uma voz de arrepiar e estava tão, tão perfumado. Fora que parecia ator de filme de Hollywood de agora. Talvez um misto de Robert Downey Jr. e Christopher Hemsworth.

- Mas você percebeu tudo isso enquanto eu fui rapidinho ao banheiro da escola... Como ele se aproximou?, perguntou Tarrisa.

- Foi dentro da escola. Bem onde nós sempre ficamos sentadas esperando a minha mãe, respondeu Mary. Enquanto isso, Tarissa não conseguia entender tudo o que aconteceu em um intervalo tão curto de tempo. Foi quando ela, assombrada, perguntou:

- Você foi iludida pelo pai de alguém?

Mary gargalhou e rebateu rapidamente:

- Tarissa, Tarissa... Ele não é um velho! Pode ser no máximo o tio de alguém, mas aposto que é irmão de um algum aluno. E como eu estava dizendo... O meu gato falou comigo só para confirmar. Já sabia quem eu era, inclusive. Depois sumiu.

- Hein?! Como é que alguém some, amiga?, quis saber Tarissa, enquanto no grupo das meninas no WhatsApp, Juliette compartilhou o novo vídeo do TikTok e fez os aparelhos das amigas sacudirem.

Após um silêncio devastador, sem ter uma resposta plausível, Mary suspirou e determinou:

- Era um anjo!


One step closer

I have died every day waiting for you

Darling, don't be afraid

I have loved you for a thousand years

I'll love you for a thousand more

A Thousand Years. Christina Perri


*~~~~ Capítulo 5: "As Winsherburgs" em "Elétrico" ~~~~*


*Mary Ellen Farias dos Santos é criadora e editora do portal cultural Resenhando.com. É formada em Comunicação Social - Jornalismo, pós-graduada em Literatura, licenciada em Letras pela UniSantos - Universidade Católica de Santos e formada em Pedagogia pela Universidade Cruzeiro do Sul. Twitter: @maryellenfsm


Assista em vídeo como história ilustrada




segunda-feira, 12 de julho de 2021

.: Capítulo 3: "As Winsherburgs" em "Anjos Choram - Maus Hábitos"


Por: 
Mary Ellen Farias dos Santos


O episódio do clarão e do zunido em altos decibéis estava praticamente esquecido na mente de Samantha. Enquanto observava Sam fazer um lanchinho de guloseimas diversas, como se não houvesse amanhã, Lolita estava num turbilhão interno, pensando mil e uma coisas. E o último item da lista era justamente aquela aparição. Vendo a tranquilidade no olhar de Samantha, Lola decidiu tirar o pensamento da figura confusa que se formou diante dos olhos dela.

- Vou me distrair no Tiktok da Donatella Fisherburg!

*  *  *

Meia hora depois, na Agência Winsherburg, o ambiente de trabalho era descontraído e totalmente calmo. Em busca de inspiração para a escrita, as gêmeas ouviam, em som ambiente, no modo repetição, o álbum “Never Gone”, dos Backstreet Boys que era da mãe delas quando jovem. Lola e Sam eram meninas vintage. Curtiam ter tudo o que a modernidade e a tecnologia ofereciam, mas sem largar o que amavam, ainda que, de certa forma fosse visto como obsoleto. Lá, no escritório, o antigo aparelho de som em uso ainda era um daqueles com leitor de CD. Fora presente de aniversário das meninas, quando ainda eram pequetitas, dado pelos avós paternos.

Sam ainda beliscava um docinho trazido por ela da Cafeteria Dollywood ao perguntar para Lola:

E o caso da Rua Bolívia? Encontrou algo interessante para começarmos o roteiro para “Minutos de medo”?

Antes que surgisse a resposta, o telefone tocou, mas um som agudo, saído do som, sobrepôs até mesmo a música por completo...

Lola tomou um grande susto, mas rapidamente percebeu que só precisava mexer um pouco no fio do aparelho por estar com mal contato pelo envelhecimento.

- Precisamos comprar outro cabo, Sam!

Samantha e Lolita tinham apoio do primo Apollo, professor de Língua Inglesa no “Cursinho Valença”. Ele era o braço direito das duas e trabalhava com elas na camaradagem, uma vez que manter o aluguel da salinha comercial estava muito pesado, por conta da pandemia de Covid-19. Os trabalhos congelaram por pelo menos três meses, menos as contas que continuaram chegando assiduamente. Para resolver a situação prestes a virar periclitante, Lola e Sam tinham o plano de buscar um sócio para a Agência.

Eis que Apollo, prestes a entrar no escritório, bem antes de desejar “boa tarde” para as duas, tropeçou no tapetinho da entrada. Resmungou algo que nenhuma das gêmeas entenderam, mas foi o suficiente para que Lola e Sam trocassem olhares e soubessem de quem se tratava.

- É o Apollo! – falaram juntas em meio a gargalhadas.

Ao abrir a porta, Apollo lançou um sorriso para as duas e deu o habitual cumprimento cheio de entusiasmo e com maior entonação do que o habitual.

- Boa tarde, primo!, respondeu Sam.

- Tudo bem, Apollo? Percebi que já chegou se embolando no capacho da entrada, né?, brincou Lola com a voz bastante sarcástica.

- Foi mal, meninas! Cheguei atrapalhado, mas trago coisa boa. Supimpa!

Sem conseguir segurar a empolgação, Apollo revela ter conversado com um amigo de longa data, da Universidade Santa Clara, com quem havia estudado há alguns anos.

- Esse bro não é fã de redes sociais. Acredita que teve o Orkut, na época, e agora usa, tipo que por obrigação, o WhatsApp?

As meninas acabaram trocando olhares por não entenderam bem onde essa conversa prometia chegar, até que Apollo parte para o fim da história.

- Primas, vou resumir: o cara, meu amigo Helder Lee, disse que quer ser sócio da Agência de Roteiros Winsherburgs! Ele é muito influente, tem conhecimento. Vocês sabem, né? Fora que ele tem nome. Tudo pode melhorar e não corremos mais o risco de, em último caso, trabalhar num quartinho pequeno na casa da tia Ellen.

As Winsherburgs adoravam blockbusters e sabiam muito bem que Helder foi o roteirista de recentes produções de sucesso absoluto como "Loucamente em fuga", “Para sempre Bela, sem a Fera” e "Ariel em perigo".

- Ele é muito famoso!, gritou Sam de modo esfuziante. E logo fez uma correção: - O texto dele!

Boquiabertas, a duas se abraçaram com os olhos cheios de lágrimas, enquanto Apollo, com um afago, se juntou no abraço. Após beijar a testa delas, disse como quem está em paz:

- Encontrei o sócio que precisávamos!

Assim que Apollo terminou a fala, Lola sentiu um arrepio na espinha.

Um vento forte fez a janela abrir bruscamente, levando todos os papeis que estavam empilhados na mesa do escritório para o chão. Foi quando Sam gritou abrindo os braços:

- Vento, ventania, me leve para os quatro cantos do mundo!

*  *  *

Na escola, quando Mary fazia com a amiga a aula optativa do dia que era sobre a História da Humanidade.

- Amiga, estou empolgada por causa dessa aula de História. Não vejo a hora de chegar em casa para pesquisar no computador sobre a relação entre os neandertais e o homo sapiens. Só de saber que os neandertais não foram dizimados pelo homo sapiens e só estavam em menor quantidade, é algo surreal. Na verdade, eles até se envolveram com os homo sapiens, mas não resistiram por muito tempo aqui na Terra.

Tarissa, amiga de Mary sorriu e suspirou antes de dizer baixinho:

- Amiga, você tem que usar seu interesse para ganhar dinheiro!

- Caraca! Os meus dados móveis acabaram justamente agora!, gritou Mary extremamente empolgada enquanto bateu a mão direita na mesa e foi baixando o tom da fala por perceber onde ainda estava.

O professor Cláudio, mesmo estando na outra ponta da sala repreendeu a dupla:

- As duas aí... Que gritaria é essa?

Todos na sala olharam para elas. Se existisse um buraco de tamanho suficiente para elas enfiarem as suas cabeças, seria pra lá de bem-vindo. O mais insano é que Mary conversava com Tarissa, mas sobre o conteúdo da aula. Mas, quem iria acreditar, né?!

Cláudio aproveitou o silêncio constrangedor e avisou: - Vocês têm cinco minutinhos para guardar o material. Nosso encontro de hoje fica por aqui. Os estudantes da única sala de 1º ano do Ensino Médio do Colégio Santa Helena ficaram a postos, ansiosos para serem liberados, mas Mary permaneceu parada olhando fixamente para a pedra que tinha pegado lá na Agência das irmãs.

- Que brilho!

*  *  *

My bad habits lead to wide eyes starin' at space

And I know I'll lose control of the things that I say

 

Bad Habits. Ed Sheeran


*~~~~ Capítulo 4: "As Winsherburgs" em "Um Passo Mais Perto" ~~~~*


*Mary Ellen Farias dos Santos é criadora e editora do portal cultural Resenhando.com. É formada em Comunicação Social - Jornalismo, pós-graduada em Literatura, licenciada em Letras pela UniSantos - Universidade Católica de Santos e formada em Pedagogia pela Universidade Cruzeiro do Sul. Twitter: @maryellenfsm



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