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quinta-feira, 14 de maio de 2026

.: Biblioteca Carolina Maria de Jesus faz 21 anos como símbolo de memória viva


Espaço reúne cerca de 14 mil itens bibliográficos e preserva parte fundamental da produção intelectual, artística e histórica negra brasileira. 
Na imagem, manuscrito Carolina Maria de Jesus. Foto: MAB

Em um país onde parte significativa da produção intelectual negra permaneceu historicamente fora dos grandes centros de preservação e pesquisa, a Biblioteca Carolina Maria de Jesus, do Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, instituição da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, gestão Associação Museu Afro Brasil – Organização Social de Cultura (AMAB) , consolidou-se, ao longo de 21 anos, como um dos principais espaços dedicados à memória afrodiaspórica no Brasil.

Inaugurada em 13 de maio de 2005, um ano após a fundação do Museu, a biblioteca nasceu com a missão de ampliar e complementar os acervos museológico e arquivístico da instituição, oferecendo suporte às pesquisas internas e externas relacionadas à história, à arte e à cultura afro-brasileira e africana. Batizada em homenagem à escritora, poetisa, cantora e intelectual Carolina Maria de Jesus, uma das vozes mais importantes da literatura brasileira do século XX, a biblioteca carrega o compromisso de preservar e difundir produções intelectuais negras historicamente invisibilizadas pela narrativa oficial do país.

Atualmente, o espaço abriga aproximadamente 14 mil itens bibliográficos, entre livros, catálogos, obras raras e publicações especializadas em arte africana, arte afro-brasileira, religiosidade de matriz africana, sociologia, história do Brasil e literatura negro-brasileira. O acervo reúne ainda publicações fundamentais para a compreensão da arte negra brasileira e africana, muitas delas pouco acessíveis em bibliotecas tradicionais.

Grande parte das obras dialogam diretamente com a Exposição de Longa Duração concebida por Emanoel Araujo, refletindo o pensamento curatorial e a visão intelectual do fundador da instituição. Entre os destaques do acervo estão os catálogos das exposições realizadas pelo Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, considerados registros fundamentais para a compreensão da produção e da curadoria de arte negra no Brasil.

Mais do que preservar livros e documentos, a Biblioteca Carolina Maria de Jesus ajuda a manter vivo o pensamento de Emanoel Araujo, artista, curador e intelectual responsável por construir um dos mais importantes projetos de valorização da cultura afro-brasileira no mundo. A biblioteca preserva também parte desse legado curatorial, permitindo acompanhar, por meio de livros, catálogos e documentos, a construção intelectual do Museu Afro Brasil Emanoel Araujo.

Ao longo de mais de duas décadas, a Biblioteca Carolina Maria de Jesus consolidou-se como espaço de pesquisa, preservação e valorização da produção intelectual negra. Entre os principais marcos de sua trajetória estão a doação, via comodato, de parte dos manuscritos de Carolina Maria de Jesus; a realização do sarau “Meus Poetas Negros”, idealizado por Oswaldo de Camargo em homenagem póstuma a Emanoel Araujo; e a criação da FLAB – Feira Literária Carolina Maria de Jesus, iniciativa voltada à valorização de editoras independentes e pessoas autoras negras.

A Biblioteca Carolina Maria de Jesus integra ainda a Redarte – Rede de Bibliotecas de Arte do Brasil e recebe pesquisadores, artistas, curadores, estudantes e intelectuais dedicados aos estudos da arte afrodiaspórica no Brasil e no exterior. “A Biblioteca Carolina Maria de Jesus carrega, em sua essência, o legado de Emanoel Araujo e a potência intelectual de Carolina Maria de Jesus. Ao longo de 21 anos, tornou-se um espaço fundamental para pesquisadores, artistas e estudantes interessados em compreender a produção artística, histórica e literária negra no Brasil. Preservar esse acervo é também preservar parte da memória do país”, afirma Jandaraci Araújo, diretora executiva do Museu Afro Brasil Emanoel Araujo.

Atualmente, o espaço passa por um processo de modernização e conservação do acervo por meio do Edital Fomento CULTSP PNAB nº 29/2024 – Manutenção e Modernização de Bibliotecas. A iniciativa prevê melhorias técnicas, incluindo substituição de estantes e instalação de sistema de segurança do acervo, ampliando as condições de preservação e acesso às obras. “Fazer a gestão deste acervo é mergulhar diariamente na história de diversas áreas do conhecimento que se dedicam a estudar e produzir informações sobre arte afrodiaspórica e sobre a história do nosso país. A criação desta biblioteca reflete toda a genialidade de Emanoel Araujo e carrega seu legado ao ser um espaço democrático de estudo, lazer e reflexão sobre negritudes, artes e literatura”, afirma Janaina França de Melo, bibliotecária do Museu Afro Brasil Emanoel Araujo.

Ao completar 21 anos, a Biblioteca Carolina Maria de Jesus reafirma-se como um espaço onde os legados de Carolina Maria de Jesus e Emanoel Araujo seguem em permanente diálogo, preservando memórias, difundindo conhecimento e ampliando o acesso às narrativas negras no Brasil.

Sobre o Museu Afro Brasil Emanoel Araujo
O Museu Afro Brasil Emanoel Araujo é uma instituição da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo administrada pela Associação Museu Afro Brasil – Organização Social de Cultura. Inaugurado em 2004, a partir da coleção particular do seu fundador, Emanoel Araujo (1940-2022), o museu é um espaço de história, memória e arte. Localizado no Pavilhão Padre Manoel da Nóbrega, dentro do mais famoso parque de São Paulo, o Parque Ibirapuera, o Museu Afro Brasil Emanoel Araujo conserva, em cerca de 12 mil m², um acervo museológico com mais de 20 mil obras, apresentando diversos aspectos dos universos culturais africanos e afro-brasileiro e abordando temas como religiosidade, arte e história, a partir das contribuições da população negra para a construção da sociedade brasileira e da cultura nacional. O museu exibe parte deste acervo na exposição de longa duração e realiza exposições temporárias.


Serviço
Biblioteca Carolina Maria de Jesus, no Museu Afro Brasil Emanoel Araujo

Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº – Portão 10 – Parque Ibirapuera – São Paulo/SP
Funcionamento da biblioteca: terça a sexta-feira, das 10h00 às 17h00; sábados, das 10h00 às 14h00
Consulta presencial gratuita
Informações: (11) 3320-8900
Catálogo on-line e outras informações: Biblioteca Carolina Maria de Jesus

quarta-feira, 13 de maio de 2026

.: Café Filosófico CPFL: Marcelino Freire debate o papel do sonho e da literatura


Segunda gravação do módulo que reflete sobre o papel do descanso e da imaginação na vida contemporânea será com o escritor Marcelino Freire, que propõe reflexão sobre relações entre literatura, sonho e a reinvenção do humano. Foto: Denis Maerlant


E se sonhar fosse também uma forma de reinventar o mundo? É a partir dessa provocação que o Café Filosófico CPFL recebe, nesta quinta-feira, dia 14 de maio, às 19h00, o escritor Marcelino Freire. No encontro, ele conduz uma reflexão sobre as relações entre literatura, sonho e a reinvenção do humano. A gravação será transmitida ao vivo pelo YouTube e contará com público presencial na sede do Instituto CPFL, em Campinas, com entrada gratuita.

Depois de uma abertura que recolocou o sonho e o sono no centro do cuidado, não apenas como funções biológicas, mas como dimensões essenciais da experiência humana, o módulo avança agora para a força da palavra literária. É nesse território que criação, memória e transformação se entrelaçam, revelando a imaginação como uma forma ativa de existir e resistir.

Na palestra “Quando o Mundo Volta a Respirar: Literatura, Sonho e a Reinvenção do Humano”, Marcelino Freire atravessa diferentes campos, como a neurociência, a antropologia e a própria literatura para explorar como o sonho participa da construção de memórias, da elaboração das experiências e da abertura de futuros possíveis. 

Ao mesmo tempo, o encontro lança luz sobre práticas simbólicas e narrativas presentes em diversas culturas, entendidas como formas ancestrais de encantamento e de reorganização da vida.“Sonhar não é apenas uma experiência individual. É um processo que reorganiza a memória, regula emoções e, junto aos rituais, sustenta formas coletivas de produzir sentido e imaginar o futuro”, afirma Freire.


Sobre o palestrante
Marcelino Freire, escritor brasileiro, é autor de obras marcantes da literatura contemporânea, como Contos Negreiros, vencedor do Prêmio Jabuti. Com uma trajetória ligada à experimentação literária e à valorização da oralidade, também idealizou projetos como a “Coleção 5 Minutinhos”. Sua produção articula linguagem, crítica social e invenção estética, consolidando-o como uma das vozes mais expressivas da literatura brasileira atual.


Ambiente inspirador de troca e aprendizado
O Café Filosófico CPFL traz uma nova identidade visual e artística, incluindo cenário, para acompanhar a renovação do formato, que passa a ter a nova apresentadora, Tainá Müller, interagindo com os convidados e a plateia. O espaço do Café, na sede do Instituto CPFL, em Campinas, oferece uma atmosfera convidativa e aconchegante, onde cada detalhe é pensado para proporcionar uma experiência prazerosa. É possível tirar fotos em todos os lugares, incluindo o novo cenário. 

O local possui climatização e é acessível a pessoas com deficiência, além de contar com intérpretes de Libras para garantir a participação de todos. Há, ainda, um serviço de alimentação com cardápio de comidas e bebidas para consumo no local. Após a gravação e exibição ao vivo, as palestras ganham uma versão editada que é exibida na TV Cultura, aos domingos, às 20h00 (com reprises às quartas, à 1h00) e, posteriormente, disponibilizadas no YouTube. Os episódios transmitidos pela TV não correspondem necessariamente às gravações feitas durante a semana.


Serviço
Gravação Café Filosófico CPFL, com Marcelino Freire, escritor
Dia 14 de maio, quinta-feira, às 19h00
Instituto CPFL - Rua Jorge Figueiredo Corrêa, 1632 - Chácara Primavera, Campinas/SP
Entrada: gratuita, por ordem de chegada, a partir das 18h00
Participação on-line: canal do Café no YouTube

sábado, 9 de maio de 2026

.: "Ocupação Ruth Rocha" expande o universo da autora que forma gerações


Em mais uma exposição dedicada ao público infantil e aos adultos que beberam da mesma fonte, o Itaú Cultural propõe uma jornada pela vida e obra de uma das maiores autoras da literatura infantojuvenil brasileira. Em 2026, Ruth Rocha comemora 50 anos de trajetória e é celebrada com esta mostra, a reedição de um de seus livros e sendo tema da Mancha Verde no próximo Carnaval. Foto: Andŕe Seiti / Fundação Itaú

 
Todos os dias, às 16h00, o telefone toca na casa de Ruth Rocha, 95 anos. É sua irmã Rilda, 97. Elas se falam para cumprir um ritual: a mais velha lê para a mais nova. A cena simboliza a adoração que ambas têm pelos livros desde pequenas e resume a essência da premiada escritora. Há cinco décadas – desde que publicou "Marcelo, Marmelo, Martelo" (editora Salamandra, 1976), com ilustrações de Adalberto Cornavaca, e "Palavras, Muitas Palavras" (editora Abril, 1976), voltado para a alfabetização –, Ruth dedica a vida a cultivar o gosto pela leitura e o pensamento crítico nas crianças. É disso que trata a "Ocupação Ruth Rocha", que abre neste sábado, dia 9 de maio no Itaú Cultural e permanece em cartaz até 2 de agosto.

Com curadoria e expografia assinadas pela equipe do Itaú Cultural, a mostra não se limita a expor livros. Ela propõe um diálogo entre ontem e hoje em um percurso pautado por descobertas afetivas. O público é guiado pelas diferentes fases da vida e obra da autora entre cores vibrantes, do amarelo-canário ao vermelho-profundo. O conteúdo exposto é projetado na altura dos olhos das crianças e a expografia com colunas de papelão vazadas permite que elas saibam antecipadamente as novidades que as esperam do outro lado.

A exposição se junta a outras comemorações pelos mais de 50 anos de trajetória da autora: a Salamandra, sua editora exclusiva, prepara o lançamento de uma nova edição de Um cantinho só para mim, originalmente publicada em 2005, com textos de Ruth e ilustrações de Ziraldo. Além disso, a escritora também será o tema enredo da escola de samba Mancha Verde no Carnaval de 2027.

“Toda criança do mundo mora no meu coração” é a frase de Ruth estampada em sua fotografia, em uma colagem de personagens que habitam o imaginário de sua obra. Assim a autora recebe todos os públicos na exposição, das crianças aos adultos. Ali mesmo, na parede oposta, o visitante começa a descobrir mais sobre o universo da homenageada, desvendando o primeiro espaço: uma instalação chamada Ruth de A a Z. 

Trata-se de uma composição com 26 módulos de madeira que guardam segredos. Seguindo o abecedário, gavetas e nichos revelam livros originais, monóculos com fotos de família e vídeos que resgatam memórias da autora. O espaço funciona como um dicionário biográfico. Na letra B, de borboleta, por exemplo, está um de seus livros iniciais, Romeu e Julieta, no qual duas borboletas de cores diferentes não podem brincar, em uma alusão lúdica ao racismo. Na letra C, de canto, há um vídeo inédito de Ruth cantando com a filha, Mariana, em dezembro passado. Pulando para a E, de Eduardo, tem uma homenagem ao marido e parceiro de vida, com fotos do casamento de 1956.

Seguindo o percurso, no espaço central estão dois telefones tradicionais. Ao serem retirados do gancho, eles transmitem narrações de histórias de Ruth em sua própria voz. É como se fosse uma extensão do ritual diário entre ela e a irmã. Perto dali uma parede inteira é dedicada ao personagem de Marcelo, marmelo, martelo, exibindo suas diversas faces. Em uma espécie de linha do tempo, é possível acompanhar a evolução dele por meio dos traços de diferentes ilustradores ao longo destas cinco décadas. Há também uma nuvem de ideias, onde crianças podem renomear objetos, inspiradas no menino Marcelo, que passa a vida procurando uma lógica para os nomes das coisas. 

O visitante também encontra as caixas de história. São pequenos mini teatros que contêm cenas montadas de contos da autora, visíveis por uma pequena abertura frontal. Elas são acompanhadas de áudios retirados do álbum Mil pássaros, um projeto da dupla Palavra Cantada em parceria com Ruth. A escritora narra suas próprias histórias com músicas de Sandra Peres e Paulo Tatit. Uma delas é o livro Bom dia, todas as cores!, a história do Camaleão que acorda feliz e resolve se vestir de rosa, sua cor preferida. Ao longo do caminho, ele vai encontrando seus amigos Pernilongo, Sabiá-Laranjeira, Louva-a-Deus e vai mudando de cor para agradá-los, até ficar cansado. É um clássico sobre a importância de ter opinião própria.

Uma rampa conduz para o espaço Ruth para Ler, ambiente que remete a uma biblioteca acolhedora, com tatames e almofadas, convidando pais e filhos a sentarem no chão e lerem juntos. Ali também é exibida a máquina de escrever original de Ruth Rocha e sete cadernos de anotações pessoais, entre fac-símiles e originais, além do acervo completo da autora disponível para manuseio. Em toda a exposição há mapas e objetos táteis posicionados de modo que a obra de Ruth seja explorada pelo toque. Vídeos com interpretação em Libras acompanham os principais núcleos, garantindo que depoimentos da autora e de familiares, amigos e parceiros cheguem a todos os visitantes do Itaú Cultural.


Serviço
"Ocupação Ruth Rocha"
Abertura: 9 de maio de 2026, às 11h
Visitação: até 2 de agosto de 2026
Terças-feiras a sábados, das 11h às 20h, e domingos e feriados das 11h às 19h
Piso térreo
Concepção e realização: Itaú Cultural
Curadoria: Equipe Itaú Cultural
Projeto expográfico: Érica Pedrosa, Iago Germano, Rodrigo Auba e Sofia Gava (terceirizada)
Projeto de acessibilidade: Equipe Itaú Cultural
 

Itaú Cultural
Avenida Paulista, 149 – próximo à estação Brigadeiro do metrô | Entrada gratuita
Espaços acessíveis: o prédio do Itaú Cultural apresenta facilidades para pessoas com deficiência física
‍Estacionamento: entrada pela Rua Leôncio de Carvalho, 108
Com manobrista e seguro, gratuito para bicicletas
Mais informações: Telefone: (11) 2168-1777. WhatsApp: (11) 96383-1663. E-mail: atendimento@itaucultural.org.br

sábado, 2 de maio de 2026

.: A obra de Milton Hatoum, o novo imortal da ABL


Romancista, contista, ensaísta, tradutor e professor universitário, Milton Hatoum é um dos principais autores da literatura brasileira contemporânea. Foto: Renato Parada

No último dia 24 de abril, o escritor Milton Hatoum tomou posse como imortal da Academia Brasileira de Letras, assumindo a cadeira 6. Romancista, contista, ensaísta, tradutor e professor universitário, nasceu em Manaus, em 1952. Estreou no romance em 1988, com "Relato de Um Certo Oriente", que ganhou o Prêmio Jabuti de Melhor Romance. Ambientado entre o Oriente e o Amazonas, este retrato é a busca de um mundo perdido, que se reconstrói nas falas alternadas das personagens, ecos longínquos da tradição oral dos narradores orientais.

Em 2000, publicou o romance "Dois Irmãos", eleito o melhor romance brasileiro no período 1990-2005 em pesquisa feita pelos jornais Correio Braziliense e O Estado de Minas. De intensa dramaticidade, o romance ganhou adaptações para televisão e quadrinhos e figura na lista de leituras obrigatórias de diversos vestibulares, como a Fuvest. 

 De lá até aqui, publicou outros títulos, como "Cinzas do Norte", "A Cidade Ilhada" e "Órfãos do Eldorado", no Brasil e em 17 países, todos com uma extensa fortuna crítica e listas de premiações brasileiras e estrangeiras. Com a Companhia das Letras, Milton Hatoum atingiu a marca de mais de 500 mil exemplares vendidos no Brasil. Em 2025, encerrou a trilogia "O Lugar Mais Sombrio", na qual dramas familiares se entrelaçam à história da ditadura militar. Juntos, "A Noite da Espera", "Pontos de Fuga" e "Dança de Enganos" nos fazem a pergunta-chave de toda ficção que remonta o passado: a memória, afinal, escolhe o que ela esquece?

Em sua literatura, Hatoum pensa a casa, a identidade e a família como coisas que se espraiam no espaço geográfico, prontos para se tornarem metáforas das ruínas e da passagem do tempo. Se o desejo ou a viagem levam as personagens a transpor as barreiras da infância e da moral, estes mesmos elementos, mais cedo ou mais tarde, recaem sobre os heróis como uma fatalidade que os traz de volta a um centro imóvel: "para onde vou, Manaus me persegue".

Se nos romances os personagens de Milton Hatoum tentam reconstruir os cacos do passado, o autor também escreve ora como testemunha, ora como quem ouviu e guardou, mudo, as histórias dos outros. Agora imortal, o escritor eterniza com ele a cidade, o rio e todas as metáforas das ruínas e da passagem do tempo.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

.: Entre "O Pai, a Faca e o Beijo", Thiago Sobral escreve o romance da omissão


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico cultural, especial para o portal Resenhando.com

Há romances que não se contentam em apenas contar uma história. Eles cutucam, provocam, obrigam o leitor a encarar a vida de uma maneira mais pragmática. "O Pai, a Faca e o Beijo", de Thiago Sobral, é um desses livros que estabelece uma relação de gato e rato com o leitor justamente porque não entrega facilmente o que ele quer. A cada página desse excelente livro de estreia, publicado pela Editora Patuá, a sensação é de se estar diante de uma tragédia anunciada - e, ao mesmo tempo, a de testemunhar um beijo negado, ou acompanhar a trajetória daqueles que se suicidam em vida.

O romance gira em torno de Santiago e Davi, o “Pirueta”. À primeira vista, parece uma história simples: dois homens tentando se aproximar, ainda que cercados por obstáculos, o principal deles é o embate com um pai que faz o que faz para proteger o filho da maledicência de uma cidade pequena. Mas Sobral não entrega um romance de amor no molde previsível. Em vez disso, o autor cria um campo de batalha em que as palavras são mal-entendidas, cada gesto se converte em desentendimentos e cada omissão para evitar o confronto carrega mais peso do que qualquer briga consumada. 

Santiago é o retrato da desesperança: um jovem que parece já ter desistido de si mesmo. Ele também é um paradoxo ambulante: homossexual e homofóbico, negro e racista, puritano e promíscuo, apaixonado e cruel, detestável e vítima das circunstâncias. O protagonista despeja todo tipo de chorume verbal, na fala e nos pensamentos, e ainda assim o leitor insiste em torcer por ele, como se a esperança de redenção pudesse surgir exatamente de quem mais nega a própria possibilidade de mudança e, sobretudo, de ser feliz.

Esse jogo perverso de expectativas é uma das forças do livro. Thiago Sobral não oferece personagens fáceis, mas desafia o leitor a se apegar a eles mesmo assim, como quem insiste em cuidar de uma planta que já nasceu murcha. Essa insistência faz parte da experiência da leitura desse livro: torcer pelo impossível. Mas não são apenas Santiago e Davi que sustentam o enredo de personagens carismáticos e fortes. 

Ao redor deles, um coro de personagens secundários amplia a sensação de claustrofobia emocional. A mãe, apresentada como doce e pilar da família, falha justamente por se omitir - a bondade dela é uma forma de covardia. O padre, que poderia ser refúgio espiritual, é ao mesmo tempo hipócrita e humano até demais, pois também revela-se incapaz de escapar dos dilemas dele. E Severo, o pai opressor e antagonista do próprio filho, representa a insatisfação destilada em cada atitude controversa. 

A falta de conciliação é a espinha dorsal de um livro que se constrói sobre a falha, a omissão e a impossibilidade. Cada gesto que poderia resolver é adiado e cada fala que poderia curar é engolida em um universo onde ninguém é de ninguém e todos se rejeitam o tempo todo. A escrita de Thiago Sobral é impregnada de fé, que no livro não aparece como dogma, muito menos como consolo. O autor, ex-seminarista, sabe quando a religião aperta e escreve sobre espiritualidade sem devoção cega, nem medo de expor as contradições de um universo que insiste em pregar amor enquanto ignora conflitos que poderiam ser resolvidos com uma fala mais incisiva. É uma literatura de coragem porque não teme nomear a ferida.

A influência de Machado de Assis é visível. Não se trata de copiar estilo do Bruxo do Cosme Velho, mas de herdar a ironia fina, a capacidade de desmontar o humano pela sutileza, o gosto pelo pessimismo elegante. Thiago Sobral parece olhar para os personagens que ele cria com a mesma frieza do autor de "Dom Casmurro" diante de Bentinho e Capitu: sem absolvições fáceis e muito menos recorrer ao melodrama.

Curiosamente, a leitura também evoca o cinema. Como no clássico "Casablanca", há uma sensação de destino interrompido, de que os protagonistas sempre carregarão um espaço vazio, um amor não realizado, um “barraco” abandonado em Cubatão, cidade que é cenário de toda essa história, e que traz o peso de uma geografia real para dentro do mito da separação eterna."O Pai, a Faca e o Beijo" é uma ode à liberdade, que nasce do confronto com o que se tentou calar. 

É a liberdade que pode ser percebida nos escombros, no beijo interdito, no pai irredutível e violento, no filho em fuga, naquilo que se faz escondido e no que se varre para baixo do tapete. Não é exagero dizer que também é um soco no estômago. Não há catarse porque não há reconciliação, e talvez esteja aí a ousadia maior do livro: recusar ao leitor a ilusão de que a vida sempre encontra um jeito. Compre o livro "O Pai, a Faca e o Beijo", de Thiago Sobral, neste link.

domingo, 5 de abril de 2026

.: Bruna Martiolli rejeita a leitura superficial e reafirma força da literatura


Bruna Martiolli revisita a própria formação como leitora, atravessa perdas e questiona o papel da literatura em um tempo que acelera tudo — inclusive a leitura. Imagem a partir de uma foto do acervo pessoal da autora, modificada por IA

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.

É tempo de morangos e a conversa com Bruna Martiolli começa antes da primeira pergunta. Passa por estantes, algoritmos e histórias que não cabem em qualquer postagem. Entre uma lembrança de infância e outra, aparecem "A Hora da Estrela", Clarice Lispector, Elena Ferrante, José Saramago, Lygia Fagundes Telles, Eça de Queiroz e Lima Barreto como presença contínua na vida de quem aprendeu cedo a ler o mundo pelos livros e, mais tarde, a desconfiar deles também.

Escritora, podcaster, professora e doutoranda, acompanhada por centenas de milhares de leitores nas redes sociais, ela estreia com o livro "É Tempo de Morangos - Reflexões Sobre Livros", publicado pela Editora Intrínseca, sem organizar a própria trajetória em linha reta. As memórias aparecem acompanhadas de leituras, mudanças de rota e perdas que ainda não se acomodaram. Bruna prefere ficar numa literatura que desestabiliza, erra junto, volta atrás e continua insistindo. Em entrevista exclusiva ao portal Resenhando.com, ela retoma esse percurso em primeira pessoa, entre livros, escolhas e aquilo que ficou pelo caminho. Compre o livro "É Tempo de Morangos", de Bruna Martiolli, neste link.

Resenhando.com - Você foi uma criança que brincava de dar aulas para suas bonecas. Em sua trajetória, os livros se tornaram não só companheiros, mas guias. Como você enxerga esse movimento de infância para a maturidade literária?
Bruna Martiolli - Sinto que esse movimento foi menos uma ruptura e mais um desdobramento natural, já existia ali um desejo muito genuíno de entender o mundo, as relações, as pessoas sobretudo. Os livros entraram nesse cenário quase como aliados silenciosos. Na vida adulta a leitura deixou de ser apenas uma atividade prazerosa e passou a ser uma ferramenta de investigação. 


O que aconteceu entre esses dois momentos para que a leitura se transformasse em uma ferramenta tão poderosa para você?
Bruna Martiolli - Eu comecei a ler para compreender as pessoas, os conflitos, os silêncios e as contradições, inclusive as minhas. No fundo, acho que não sou muito diferente daquela criança que ensinava as suas bonecas, a diferença é que hoje entendo que, antes de ensinar, estou sempre aprendendo a ler o mundo.


Resenhando.com - O título do seu livro, "É Tempo de Morangos", evoca um tempo mais doce e nostálgico. Mas, ao mesmo tempo, a literatura que você aborda traz à tona reflexões profundas e dolorosas. Qual é a relação entre esses dois tempos na sua obra? 
Bruna Martiolli - O título vem da última frase da “A Hora da Estrela” da Clarice, não posso explicar abertamente pois seria o maior spoiler sobre a Macabéa (protagonista do livro), mas, eu vejo esses dois tempos não como opostos, mas como camadas que coexistem. Existe ali uma nostalgia, sim, mas é mais um convite a lembrar que a vida é feita de instantes, fases, ciclos, mas que ela acaba e  por isso é preciso viver os morangos, viver cada fase. Porque viver e, principalmente, olhar com atenção para a vida inevitavelmente nos coloca diante das complexidades, das dores, das ausências, das perguntas que não têm resposta fácil. 

O que significa para você “morar” entre os morangos e as complexidades da vida?
Bruna Martiolli - “Morar” entre os morangos e as complexidades é, para mim, um exercício de equilíbrio e de honestidade. É entender que a doçura não anula a dor, e que a dor também não invalida a beleza. Eu não acredito em uma literatura que romantiza a vida a ponto de apagá-la, mas também não me interessa uma escrita que se fixa apenas no peso das coisas. O que me move é justamente esse "entrelugar" da Clarice, há sensibilidade suficiente para perceber o que é leve, mas também coragem para sustentar o que é difícil. Acho que os morangos me devolveram à vida, me ensinaram a aceitar que posso estar vivendo um momento bonito enquanto ainda carrego algo que dói. Eu amei o lançamento do livro no Rio e em São Paulo, principalmente por ter conseguido estar o máximo possível com as pessoas que amo. Mas ainda assim existe uma sensação de incompletude: a ausência da minha avó ali também doeu e é essa a vida que vou ter pra sempre.


Resenhando.com - Você fala da importância da literatura em momentos de desamparo, como foi no seu caso. Em tempos de crise, como o que todos estão vivendo, a literatura pode ser a cura ou só um paliativo? 
Bruna Martiolli - Eu não sei se a literatura pode ser chamada de cura, e talvez a Martha Nussbaum me ajude a sustentar isso. Quando ela fala da importância das emoções na vida ética, ela não está dizendo que a arte resolve a dor, mas que ela nos educa sensivelmente para lidar com ela. A literatura, não elimina o sofrimento, mas amplia a nossa capacidade de compreendê-lo, de nomeá-lo, de reconhecê-lo no outro.


Qual é o papel da ficção no enfrentamento das nossas angústias contemporâneas?
Bruna Martiolli - A ficção, muitas vezes, abre espaço para vozes que foram historicamente silenciadas e, ao fazer isso, desloca o nosso olhar. Em tempos de crise, isso é fundamental, porque nos tira de uma experiência isolada da dor e nos coloca em relação. Então talvez a literatura não seja cura no sentido de apagar a angústia, nem apenas um paliativo que anestesia. Ela é uma forma de resistência num mundo que frequentemente simplifica, acelera e silencia o ser humano. A ficção nos obriga a demorar, a escutar, a sustentar ambiguidades,  e isso muda a forma como habitamos e sentimos a vida. No meu caso, foi exatamente isso: a literatura não me salvou da dor, mas me deu condições de não me perder completamente dentro dela.


Resenhando.com - Clarice Lispector e Elena Ferrante foram influências marcantes na sua vida. Mas, se você pudesse resgatar um autor que considera fundamental para a sua formação literária e que talvez não tenha sido mencionado em suas reflexões, quem seria?
Bruna Martiolli - Tem um nome muito fundamental e que nem sempre aparece quando falo das minhas influências, eu diria Lima Barreto. A escrita dele tem uma urgência crítica, quase incômoda, que desmonta ilusões sobre o nosso país, sobre as nossas instituições e sobre a própria ideia de progresso. No "Triste Fim de Policarpo Quaresma" ele expõe o abismo entre o ideal e a realidade brasileira com uma ironia que ainda hoje é perturbadora. Lima me ensinou a encarar a estrutura  histórica, racial e política que molda as nossas experiências.


Resenhando.com - Você traz uma relação íntima com a literatura de língua portuguesa, mas também abre espaço para reflexões sobre como ela pode estar sendo negligenciada, principalmente pelos jovens que consomem literatura através de plataformas como o BookTok. Qual é o risco que se corre ao não valorizar mais a literatura nacional em favor de tendências globais e rápidas?
Bruna Martiolli - Eu me baseio nisso pelo olhar sensível que Alfredo Bosi tinha para a literatura como forma de consciência histórica e digo que o risco é profundamente cultural. Quando a literatura de língua portuguesa passa a ser deixada de lado em favor de tendências globais rápidas, como as que circulam no BookTok, a gente não está só trocando um tipo de leitura por outro. A gente está, aos poucos, enfraquecendo a nossa própria capacidade de nos reconhecer enquanto sujeitos históricos, sociais e afetivos num país que fala a língua portuguesa. Bosi sempre defendeu que a literatura é uma forma de memória viva. Ela não é só entretenimento: ela carrega conflitos, linguagem, identidade, modos de ver o mundo. Quando o jovem leitor deixa de acessar autores nacionais, ele perde contato com experiências que dialogam diretamente com a realidade dele, seja ela urbana, periférica, rural, atravessada por desigualdades ou por afetos muito específicos do nosso contexto. O problema das tendências globais e rápidas não está necessariamente na sua existência, mas na lógica de consumo que as sustenta. Inclusive, eu também as leio e, gostando ou não, formo minhas próprias opiniões. São leituras frequentemente mediadas por algoritmos, por modas passageiras e por uma estética da velocidade que não favorece a profundidade. Isso acaba formando um leitor que consome mais do que elabora, que atravessa os textos sem, de fato, ser transformado por eles. E é aí que reside o maior risco: a formação de uma relação superficial com a leitura. Sem o contato com obras mais densas da literatura nacional, o leitor pode perder a oportunidade de desenvolver um olhar crítico mais refinado sobre as próprias vivências, além de uma sensibilidade mais complexa para a linguagem e para a realidade. Valorizar a literatura de língua portuguesa, dos nove países que falam a língua portuguesa, não é um gesto de resistência vazia ou de nacionalismo simplista porque “tô a fim”. É, na verdade, um modo de preservar a nossa capacidade de pensar a partir de nós mesmos. Porque, no fim, quando a gente abandona essas vozes, a gente também corre o risco de se tornar estrangeiro dentro da própria cultura.


Resenhando.com - Na sua obra, há uma relação direta entre livros e transformações de vida, como no caso da sua mudança para Portugal. Quais livros você recomenda para quem está passando por uma transição significativa, seja pessoal ou profissional?
Bruna Martiolli - Um livro que eu destacaria, sem dúvida, é "Sodade", da Ana da Cunha. É uma obra muito recente, mas que já nasce com essa força de tocar em algo muito íntimo: a sensação de ausência, de deslocamento, de viver entre lugares. O que me atravessa ali é a maneira como a saudade deixa de ser só um sentimento e vira quase uma estrutura de vida. Para quem está em transição, esse livro não oferece respostas fáceis, e isso é essencial, mas legitima o desconforto, a ambivalência, a incompletude. E, talvez trazendo mais para perto da nossa tradição, eu lembraria de "Dois Irmãos", do Milton Hatoum, que toca em questões de origem, memória e pertencimento dentro de um contexto marcado por heranças migratórias. É um livro que fala muito sobre como carregamos nossos lugares dentro da gente, mesmo quando tudo muda ao redor.


Resenhando.com - Você menciona como a "Tetralogia Napolitana" de Elena Ferrante se tornou dolorosa após o esmorecimento de uma grande amizade. A literatura tem o poder de refletir as vivências, mas até que ponto a ficção é uma extensão da realidade ou um escape dela? 
Bruna Martiolli - Eu acho que a literatura nunca é só uma coisa ou outra, ela não é puramente espelho, nem puramente fuga. Quando li a "Tetralogia Napolitana", não foi nada confortável, abandonei a cadeira na faculdade e fugi mesmo, não era momento. A ficção, pra mim, funciona como uma espécie de lente que me faz ver melhor e vendo melhor reorganiza o que já existe dentro da gente. Às vezes ela amplia, às vezes distorce, às vezes ilumina coisas que estavam ali, quietas, esperando uma linguagem. 


Resenhando.com - Você já se deparou com momentos em que a literatura também a traiu, revelando mais do que você gostaria?
Bruna Martiolli - Sim, já senti que a literatura me traiu. Mas não no sentido de enganar, no sentido de expor. De colocar em palavras algo que eu ainda não tinha coragem de formular. É como se o texto dissesse: “olha, é isso aqui que você tá sentindo”, antes de estar pronta pra admitir. E aí não tem mais como fingir que não viu. Respondendo melhor: a vida trai mais do que a literatura, prefiro ela.


Resenhando.com - A literatura sempre teve papel central na sua vida, mas você também compartilha esse amor com uma grande audiência através das redes sociais e seu podcast "É Tempo de Morangos". Como você equilibra a pressão da visibilidade pública com a intimidade da sua escrita, que é, em essência, tão pessoal?
Bruna Martiolli - Eu sou filha única e vivo uma solidão que, apesar de boa, às vezes até assusta. A internet, pra mim, nunca foi sobre números, sempre foi sobre pessoas que, infelizmente, eu nunca esbarrei na vida. Tive poucas amigas que gostavam de ler, e acho que virei professora muito por essa necessidade de continuar falando sobre livros, de não deixar essa conversa morrer. Eu devo muito a eles: a vida que levo hoje, bem vivida, gostosa, calma, passa diretamente pela literatura. E eu nunca pensei “vou postar sobre livros nas redes sociais”. Eu falo de literatura onde eu estiver, na internet ou fora dela. Não existe uma separação tão rígida pra mim. Quando paro pra pensar no número de ouvintes, fico triste. Não quero saber quantas pessoas estão ali, isso é uma grande ilusão da nossa geração, o que me importa é ouvir essas pessoas. É por isso que gosto tanto dos comentários: é ali que descubro o que gostam, onde moram, vejo suas fotos, seus cabelos, suas famílias. As pessoas. Eu gosto de livros, mas gosto muito de gente. E a internet é só o que me aproxima delas. No fundo, não acho que o que eu digo seja pessoal. Pessoal, pra mim, é quem ouve, quem escolhe me dar um pedaço do próprio tempo de vida.


Resenhando.com - Se a literatura fosse uma pessoa, como você a descreveria em termos de identidade? Ela seria amiga, amante ou uma figura de autoridade?
Bruna Martiolli - A literatura é a formiga e ao mesmo tempo a cigarra. É o gato de Cheshire e a Alice, a literatura é a dúvida. É amiga e, ao mesmo tempo, é uma figura de autoridade. É uma pessoa, mas é aquela ideia do Fernando Pessoa de que em um cabem mil. 


Resenhando.com - Você defende a ideia de que a boa literatura não precisa agradar à primeira vista. No entanto, as redes sociais e plataformas como o BookTok são movidas por emoções rápidas e “recompensas instantâneas”. Como é possível reconstruir um espaço literário que valorize o tempo de amadurecimento, sem se perder nas urgências da era digital?
Bruna Martiolli - Eu não acho que seja uma questão de disputar com a lógica das redes, porque a literatura nunca funcionou no tempo da pressa, e talvez nem deva tentar funcionar. O que dá pra fazer é criar pequenos desvios dentro desse fluxo. As redes sociais, operam muito pela reação imediata, pelo entusiasmo rápido, pela necessidade de sentir algo agora e isso não é necessariamente um problema, é só uma linguagem diferente. O risco está quando a gente começa a confundir intensidade com profundidade, como se o impacto imediato fosse o único critério de valor. Mas, reconstruir um espaço literário mais paciente, pra mim, passa por insistir em outras formas de presença. Falar de um livro que não “funcionou” de primeira, revisitar uma leitura depois de um tempo, admitir silêncios, dúvidas, mudanças de opinião. Mostrar que a experiência literária também é feita de demora, de estranhamento, de algo que vai se abrindo aos poucos. E, principalmente, confiar que existe gente disposta a isso. Porque existe. Nem todo mundo está buscando recompensa instantânea o tempo todo, muitas pessoas só não encontram com frequência espaços que legitimem esse outro ritmo. Acho que não se trata de desacelerar a internet inteira, o que seria impossível, mas de sustentar, dentro dela, um outro tempo. Um tempo em que o livro não precisa agradar de imediato para permanecer porque ele pode incomodar, escapar, e ainda assim continuar trabalhando em quem lê.

sábado, 28 de março de 2026

.: "O Nazista e o Psiquiatra", o livro que inspirou o filme "Nuremberg"


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.

Publicado por Jack El-Hai, o romance "O Nazista e o Psiquiatra", que inspirou o filme "Nuremberg", em cartaz na Rede Cineflix e em cinemas de todo oBrasil, mergulha em um dos episódios mais inquietantes do pós-guerra: o encontro entre o alto escalão do regime nazista e a tentativa científica de compreender a mente por trás de crimes que desafiam qualquer noção de humanidade. Inspirado nos bastidores dos julgamentos de Nuremberg, o livro publicado pela Editora Planeta articula história e psicologia para investigar uma pergunta incômoda: o mal é uma exceção ou uma possibilidade latente em todos nós?

Preso em 1945, ao final da Segunda Guerra Mundial, Hermann Göring foi conduzido a um centro de detenção sob controle norte-americano, em Luxemburgo. Mesmo diante da derrota, mantinha traços de ostentação e controle: carregava dezenas de malas com objetos que iam de medalhas e pedras preciosas a itens pessoais triviais, como roupas íntimas e uma bolsa de água quente. Entre esses pertences, escondia um segredo fatal - cápsulas de cianeto de potássio, guardadas em frascos de latão dentro de uma simples lata de café. O detalhe não é apenas curioso: antecipa o desfecho trágico e revela uma mente que jamais abriu mão da própria autonomia, nem mesmo diante da iminência do julgamento.

Ao seu redor, reunia-se uma galeria sombria de figuras centrais do nazismo: Karl Dönitz, Wilhelm Keitel, Alfred Jodl, Robert Ley, Hans Frank e Julius Streicher, entre outros. Cinquenta e dois prisioneiros compunham aquele microcosmo do horror recente, homens que haviam ocupado posições de poder e agora aguardavam julgamento por crimes contra a humanidade. Ainda assim, entre todos, Göring se destacava: articulado, carismático e perigosamente convincente, exercia influência até mesmo no cativeiro.

É nesse cenário que entra Douglas McGlashan Kelley, capitão do Exército dos Estados Unidos encarregado de avaliar a sanidade dos réus para que pudessem ser julgados. Ambicioso e intelectualmente instigado pelo desafio, Kelley enxergou ali uma oportunidade única: investigar se aqueles homens eram monstros fora da curva ou expressões extremas de traços humanos comuns. A missão dele, no entanto, rapidamente ultrapassa os limites da observação clínica e adentra um território ético delicado.

A convivência diária com os prisioneiros dá origem a uma relação tão fascinante quanto perturbadora. Kelley não apenas entrevista e aplica testes: ele escuta, dialoga, observa gestos, hesitações e estratégias discursivas. Aos poucos, percebe-se envolvido por uma proximidade que desafia sua própria objetividade. Contra todas as expectativas, passa a compreender e, em certa medida, a se afeiçoar a alguns daqueles homens. Nenhum deles, porém, o intriga tanto quanto Göring, cuja inteligência e habilidade retórica tensionam constantemente a linha entre lucidez e manipulação.

O que Jack El-Hai constrói, com base em documentos inéditos e registros médicos, não é apenas uma narrativa histórica, mas um estudo inquietante sobre os limites da empatia. O livro expõe o risco de se aproximar demais do objeto de análise, sobretudo quando esse objeto é o próprio mal em forma humana. Ao iluminar essa relação ambígua entre médico e paciente, ciência e fascínio, razão e sedução, a obra convida o leitor a encarar uma hipótese desconfortável: a de que a crueldade não pertence apenas aos outros: pode ser compreendida, racionalizada e, em certos contextos, até normalizada. Com isso, o livro propõe uma reflexão urgente sobre responsabilidade, consciência e os mecanismos psicológicos que permitem que indivíduos comuns participem de sistemas extraordinariamente violentos. Compre o livro "O Nazista e o Psiquiatra", de Jack El-Hai, neste link.


Ficha técnica
"Nuremberg" (título original)
Gênero: drama histórico, thriller psicológico.
Duração: 2h28min.
Classificação indicativa: 16 anos.
Ano de produção: 2026.
Idioma: inglês.
Direção: James Vanderbilt.
Roteiro: James Vanderbilt e Jack El-Hai.
Elenco: Russell Crowe, Rami Malek, Michael Shannon, Richard E. Grant.
Distribuição no Brasil: Diamond Filmes.
Cenas pós-créditos: não.

Assista no Cineflix Cinemas mais perto de você
As principais estreias da semana podem ser assistidas na rede Cineflix CinemasPara acompanhar as novidades da Cineflix mais perto de você, acesse a programação completa da sua cidade no app ou site a partir deste link. No litoral de São Paulo, as estreias dos filmes acontecem no Cineflix Santos, que fica no Miramar Shopping, à rua Euclides da Cunha, 21, no Gonzaga. Consulta de programação e compra de ingressos neste link: https://vendaonline.cineflix.com.br/cinema/SANO Resenhando.com é parceiro da rede Cineflix Cinemas desde 2021.

"Nuremberg" no Cineflix Miramar | Santos | Sala 4
Até dia 1° de abril | Sessões no idioma original | 14h00, 17h00 e 20h00 
No Miramar Shopping | Rua Euclides da Cunha, 21 - Gonzaga - Santos / São Paulo 
Ingressos neste link

domingo, 15 de fevereiro de 2026

.: Renato Amado enfrenta a finitude e expõe contradições em “Nonada”


Em entrevista para o portal Resenhando.com, o autor carioca fala sobre melancolia, machismo estrutural, erotização da ausência e o salto no escuro que o levou da carreira jurídica à literatura. Foto: divulgação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com

Em um mundo hiperconectado e afetivamente exausto, Renato Amado escolheu ampliar as distâncias para falar de proximidade. Em "Nonada", publicado pela Editora Cajuína, segundo romance assinado por ele, o escritor carioca imagina uma Terra plana e mil vezes maior que a nossa para narrar a crise silenciosa de Galeano - motorista de aplicativo, ex-praticante de wingsuit e homem marcado por melancolia, desejo e contradições.

Entre telescópios que substituem o toque, diálogos de Uber que revelam microviolências cotidianas e um machismo que opera quase sem ruído, o romance combina ficção científica, existencialismo e crítica social. Mais do que contar uma história de amor à distância, Amado investiga o medo da morte, a dificuldade de sustentar vínculos profundos e a tentação permanente de adiar o desespero com doses de intensidade. Nesta entrevista exclusiva para o portal Resenhando.com, ele fala sobre o vazio como gesto político, a literatura como adiamento e exercício de aceitação, e o risco de viver quando já se sabe o desfecho da batalha. Compre o livro "Nonada", de Renato Amado, neste link.

Resenhando.com - Galeano observa o mundo à distância, mas evita o contato pleno. Em que medida "Nonada" sugere que o homem contemporâneo prefere o risco da imaginação ao perigo real do encontro?
Renato Amado - Galeano é deslocado em relação à realidade imediata, mas se conecta com uma mulher de outro canto do planeta. Do mesmo modo, por meio de telas damos preferência a ausentes e nos afastamos dos que estão à nossa volta. Parece que a presença assusta. Quanto mais instâncias de mediação, mais protegidos nos sentimos. E mais eficaz do que a distância, só o anonimato.


Resenhando.com - ⁠A Terra plana e descomunal do romance amplia distâncias físicas para falar de abismos emocionais. Essa distopia nasce mais do medo da tecnologia ou da incapacidade humana de sustentar vínculos profundos?
Renato Amado - 
Sem dúvida da dificuldade em sustentar vínculos profundos. A mulher do outro lado do oceano é uma fantasia: a voz não chega, o idioma é outro. Eles estabelecem traços de linguagem que permitem alguma comunicação, mas uma comunicação incompleta, com espaço para vazios preenchidos pela fantasia. Já as pessoas próximas se apresentam com seus defeitos, manias, irracionalidades, teimosias. Não é fácil se conectar em um nível mais profundo com seres tão imperfeitos. Além disso, todos carregamos abismos inomináveis que o outro não alcança, o que gera solidão. No fim das contas, somos sós em nossos universos internos, acessíveis ao outro apenas por brotamentos pontuais na fala, nos gestos, nas expressões.


Resenhando.com - Galeano não é apresentado como vilão, mas como produto de um machismo estrutural “inconsciente”. Até que ponto humanizar esse homem é um gesto crítico e até que ponto pode ser lido como complacência?
Renato Amado - 
O romance não adota um tom panfletário nem subestima a inteligência do leitor. A literatura nos dá uma oportunidade que não existe fora dela: de entrarmos na cabeça do outro. Isso amplia nossa compreensão do humano. A literatura que me interessa, portanto, humaniza qualquer tipo de personagem, pois a desumanização é necessariamente uma simplificação. E humanizar não é justificar, mas compreender processos. Galeano é um homem comum, atravessado pelo machismo estrutural como praticamente todos nós. Desumanizá-lo seria desumanizar a todos. Ele funciona como espelho: reconhecemos nele traços nossos. Ao criticar o machismo estrutural, o livro acaba por criticar também o leitor e o autor.


Resenhando.com - ⁠O telescópio permite ver, mas não tocar. Em tempos de redes sociais, aplicativos e amores espectrais, você diria que estamos vivendo uma erotização da ausência?
Renato Amado - 
O que se apresenta parece não ter mistério: está ali, na nossa frente, é aquilo e pronto. Acostumamo-nos a não perscrutar mais profundamente. Já o que está ausente é promessa, fantasia, possibilidade. Sem precisar caçar para sobreviver, o ser humano moderno - ao menos aquele incluído nos confortos da modernidade – tornou-se um grande entediado. Será que, da tela que despeja bits e bytes em todas as suas variações, não virá algo mais interessante do que a melancolia que nos cerca? Essa expectativa pelo novo e pelo surpreendente a qualquer instante na palma da mão é, sim, uma erotização da ausência. Deseja-se menos o que existe do que o que ainda não se mostrou. O presente tornou-se quase sempre insuficiente.


Resenhando.com - ⁠Os diálogos no Uber expõem um Brasil saturado de preconceitos e microviolências. Galeano escuta muito, reage pouco. O silêncio dele é forma de resistência ou mais um sintoma de acomodação masculina?
Renato Amado - 
É fruto de melancolia, de falta de energia, de desistência. Mas é também uma forma de dar voz ao leitor. A literatura deixa espaço e o leitor o ocupa. O silêncio é uma convocação.


Resenhando.com - ⁠"Nonada" é um romance curto, rarefeito, cheio de vazios. Você escreveu pensando no silêncio como escolha estética ou como limite ético diante do que não pode, ou não deve, ser explicado?
Renato Amado - 
Não deve ser explicado por escolha estética. Obras que explicam subestimam o leitor. Obras que apenas sugerem requerem sua intervenção. É nesse momento, quando o leitor precisa completar o texto, que a experiência se torna realmente marcante. Informações mastigadas podem até parecer interessantes, mas costumam se dissipar rapidamente. Já os fragmentos que tocam a emoção e exigem elaboração produzem uma experiência mais duradoura e, se intensos o bastante, passam a integrar a própria constituição psíquica de quem lê.


Resenhando.com - Há algo de paradoxal em um ex-atleta radical, habituado ao risco extremo, tornar-se um homem paralisado diante da vida afetiva. O medo da morte é menor que o medo da intimidade? 
Renato Amado - Por paradoxal que possa parecer, é por medo da morte que Galeano se tornou praticante de esportes radicais. Galeano via a morte como inimiga (só há inimigo quando há temor; não existe inimizade na indiferença) e queria mostrar que poderia vencê-la, ainda que provisoriamente. Uma forma de fazê-lo não era apenas se arriscar, mas viver intensamente: no absoluto do momento, a morte não existe. Mas ele quase foi derrotado, ao sofrer um grave acidente, e a ilusão se rompeu. A morte mostrou-se, “estou aqui, te pego a qualquer hora!”. E Galeano passou a se debater ininterruptamente com a finitude. É uma briga perdida. Se habitamos uma batalha cujo resultado desfavorável já conhecemos, e que perdurará por toda a vida, a consequência é a melancolia. Como se entregar a uma relação afetiva estando tomado pela melancolia? Se a morte cobre e esvazia tudo, nada tem sentido ou beleza. Nada conecta. Ao menos até Galeano ver, através de um telescópio, aquele olho do outro lado do planeta.


Resenhando.com - ⁠Ao trocar uma carreira estável no Direito por uma vida dedicada à literatura, você também realizou um salto no escuro. Que partes de Galeano dialogam, ainda que indiretamente, com essa decisão?

Renato Amado - Assim como Galeano tentava enganar a morte pela intensidade praticando wingsuit, eu tentei fazer o mesmo, buscando outras intensidades. A carreira no Direito não me dava vida, me dava salário. Precisei saltar no escuro, buscar a vida a 100% para enganar a morte.


Resenhando.com - ⁠O título "Nonada" sugere o “quase nada”, o resto, o intervalo. Em um mundo obcecado por performance, produtividade e respostas rápidas, escrever sobre o vazio é um gesto político?

Renato Amado - Existir e escrever, o que seja, é um gesto político, pois implica propor um modo de estar no mundo. Nesse sentido, Nonada se insere em uma das vocações mais recorrentes da arte: não oferecer respostas, mas abrir questões, sugerir possibilidades. Em um contexto obcecado por performance e produtividade, sustentar o vazio, a pausa e o intervalo, torna-se, por si só, uma forma de resistência.


Resenhando.com - ⁠Você afirma que a melhor saída diante da finitude é a aceitação. A literatura, para você, é um caminho real para essa aceitação ou apenas uma forma mais sofisticada de adiar o desespero?
Renato Amado - Faço muitas coisas para adiar o desespero. São as tais ações que buscam intensidade, que nos permitem esquecer a nossa condição por instantes, viver inteiros. Não vejo isso como algo negativo: talvez a melhor estratégia seja justamente adiar o desespero a tal ponto que a morte chegue antes de termos tido tempo para nos desesperar. Quanto à aceitação, ela é difícil, muito difícil, mas também é um caminho. A literatura pode ser ambas as coisas: adiamento e exercício de aceitação. Em Nonada, ao escrever o percurso de Galeano, que se constitui como um ser humano mais íntegro à medida que caminha em direção a uma aceitação ao menos parcial, eu buscava fazer o mesmo. Escrevi este livro para lidar com meus fantasmas, equilibrar-me. O caminho de Galeano é o meu caminho.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

.: Encontro de Leituras traz Itamar Vieira Junior debatendo "Coração Sem Medo"


Romance que encerra Trilogia da Terra será discutido com leitores do Brasil e Portugal em evento on-line e gratuito no dia 10 de fevereiro

O "Encontro de Leituras" de fevereiro recebe o escritor Itamar Vieira Junior para uma conversa sobre seu romance "Coração Sem Medo", publicado no Brasil pela editora Todavia em 2025 e em Portugal pela Dom Quixote em janeiro deste ano. O evento acontece no dia 10 de fevereiro, terça-feira, às 19h00 do Brasil (horário de Brasília) e 22h00 de Portugal, de forma on-line e gratuita, pela plataforma Zoom. O evento pode ser acessado com o ID 842 8191 4937 e a senha de acesso 835758 Para participar, basta seguir neste link. 

Itamar Vieira Junior é geógrafo e doutor em Estudos Étnicos e Africanos. O autor baiano ganhou projeção com Torto Arado (Todavia, 2019), romance que recebeu o Prêmio Jabuti e o Prêmio Oceanos, além de ter sido traduzido para mais de 20 idiomas e integra a Trilogia da Terra, que conta também com a obra Salvar o fogo (Todavia, 2023). 

"Coração Sem Medo" encerra a série de livros cujas narrativas investigam as contradições da sociedade brasileira, dialogando com a memória e a história do país. A literatura de Vieira Junior se dedica a retratar questões sociais do Brasil, dando visibilidade a comunidades marginalizadas e explorando temas como desigualdade, identidade e resistência. 

Nesse volume, acompanhamos a história de Rita Preta, uma operadora de caixa de supermercado e mãe de três filhos que mora na periferia de Salvador. Sua vida é subitamente transformada quando seu filho adolescente Cid desaparece sem deixar rastros após uma abordagem policial. Na sua jornada em busca de respostas, ela enfrenta as possibilidades de perder seu emprego, seu relacionamento amoroso e até mesmo a própria vida.

O evento não é transmitido nas redes nem disponibilizado depois. É uma experiência para ser vivida por aqueles que se juntam à sessão. Os melhores momentos são publicados no podcast Encontro de Leituras, disponível no Spotify, Apple Podcasts, SoundCloud e outros aplicativos de áudio.


Sobre o Encontro de Leituras
O "Encontro de Leituras" resulta da colaboração editorial entre o jornal português PÚBLICO e a revista Quatro Cinco Um, focando em obras literárias disponibilizadas em ambos os países. O Encontro reúne leitores de língua portuguesa e discute romances, ensaios, memórias, literatura de viagem e obras de jornalismo literário na presença de um escritor, editor ou especialista convidado. 

Os encontros são gratuitos e acontecem sempre nas segundas terças-feiras de cada mês, às 19h do Brasil e 22h de Portugal. O evento não é transmitido nas redes sociais, nem disponibilizado depois. É uma experiência para ser vivida por aqueles que se juntam à sessão. Os melhores momentos são depois publicados no podcast Encontro de Leituras, disponível no Spotify, Apple Podcasts, SoundCloud ou outros aplicativos habituais. 

A parceria entre a Quatro Cinco Um e o Público conta com um espaço editorial fixo nos dois veículos e uma newsletter mensal sobre o trânsito literário e editorial entre os países de língua portuguesa. A editoria especial publica materiais jornalísticos sobre autores do Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné Bissau e Timor que tenham sido lançados dos dois lados do oceano. A newsletter mensal traz notas, curiosidades, imagens e informações sobre as novidades das livrarias e os eventos literários em Lisboa, São Paulo, Rio de Janeiro e outras cidades onde se fala português. De vez em quando, na programação de festivais e em outras ocasiões, eventos presenciais serão realizados. Compre o livro "Coração Sem Medo", de Itamar  Vieira Junior, neste link.


Sobre a revista Quatro Cinco Um
Publicada em edição impressa, site, newsletters, podcasts e clubes de leitura, a revista dos livros seleciona e divulga mensalmente cerca de duzentos lançamentos em mais de vinte áreas da produção editorial brasileira. Em linguagem clara, sem jargões nem hermetismo, os textos são assinados por nomes de destaque da crítica e da cultura. Tendo o pluralismo e a bibliodiversidade como nortes editoriais, a Quatro Cinco Um busca misturar em sua pauta diferentes gerações, sensibilidades e pontos de vista. 

Projetos editoriais especiais focalizam temas relevantes, tais como cidades, democracia e justiça, literatura infantojuvenil, literatura japonesa, literatura francesa, literatura israelense e livros LGBTQIA+. Desde 2019, a revista publica o 451 MHz, primeiro podcast da imprensa profissional dedicado exclusivamente a livros. Acreditamos no livro como objeto de transformação individual e coletiva, com base no princípio de que não há sociedade democrática sem ampla circulação de livros. Compre os livros de Itamar Vieira Junior neste link.


Serviço
"Encontro de Leituras" com Itamar Vieira Junior
Data: terça-feira, 10 de fevereiro
Horário: 19h00  do Brasil e 22h00 de Portugal
Modalidade: online e gratuito, via Zoom
ID: 842 8191 4937
Senha de acesso: 835758

sábado, 31 de janeiro de 2026

.: Escrevivência de Conceição Evaristo vira ópera no Theatro São Pedro


Programação terá as óperas "Orfeu no Inferno", "Don Pasquale" e "Conceição Evaristo - Uma Ópera Escrevivência", com texto da própria autora que completa 80 anos em 2026. Foto: divulgação

A temporada 2026 do Theatro São Pedro ganha um ponto de inflexão simbólico e artístico com “Conceição Evaristo - Uma Ópera Escrevivência”, criação que coloca no centro do palco uma das vozes mais decisivas da literatura brasileira contemporânea. Em um gesto que ultrapassa a programação cultural e toca a história, o teatro dedica uma ópera inteira à autora mineira justamente no ano em que ela completa 80 anos - e o faz com texto assinado pela própria escritora.

A estreia está marcada para 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, data que não poderia ser mais precisa para a proposta do espetáculo. As récitas seguintes acontecem nos dias 22, 25, 27 e 29 de novembro, esta última coincidindo com o aniversário de Conceição Evaristo. Não se trata apenas de uma homenagem, mas de uma afirmação estética e política: a ópera, gênero historicamente associado a narrativas europeias e cânones brancos, abre espaço para a escrevivência - conceito criado pela autora para nomear uma escrita atravessada por memória, corpo, experiência e ancestralidade.

Com composição musical de Juliana Ripke, a obra articula palavra e música a partir da própria matéria literária de Evaristo, marcada por vozes femininas negras, silêncios históricos e afetos forjados na resistência cotidiana. No elenco estão Edna D’Oliveira, Juliana Taino e Vinicius Costa, que dão corpo e voz a uma narrativa que não busca acomodação, mas escuta. Na mesma temporada, o teatro ainda apresenta títulos como “Orfeu no Inferno”, “Don Pasquale”, produções da Academia de Ópera, criações inéditas do Atelier de Composição Lírica, além de uma programação que envolve cinema, dança, música de câmara e concertos especiais.

domingo, 25 de janeiro de 2026

.: "Hamnet", o livro que inspirou o filme vencedor do Globo de Ouro


"Hamnet"
, vencedor do Globo de Ouro nas categorias Melhor Filme de Drama e Melhor Atriz em Filme de Drama, é uma adaptação do livro de mesmo nome de Maggie O'Farrell, publicado no Brasil pela Intrínseca em 2021. Nesta obra vencedora do Women’s Prize for Fiction, a autora se inspira na tragédia de William Shakespeare para retratar uma família destroçada pelo luto e pela perda e uma reconstituição delicada e memorável de um menino cuja vida foi esquecida, mas cujo nome intitula uma das peças mais celebradas de todos os tempos. A tradução é de Regina Lyra.

Um dos favoritos para receber o Oscar de Melhor Filme, é estrelado por Paul Mescal e Jessie Buckley e dirigido por Chloé Zhao, que já ganhou a estatueta de melhor direção em 2021 por Nomadland. No livro e no filme, em 1596, o filho de 11 anos de William Shakespeare, Hamnet, morreu em Stratford-upon-Avon, pequena cidade na Inglaterra, de causa desconhecida. Poucos anos depois, o famoso dramaturgo inglês escreveu a peça considerada por muitos sua obra-prima, dando a seu herói trágico uma variação do nome de seu filho morto. 

Passados quase quatro séculos, Maggie O’Farrell era adolescente, quando, na escola, ouviu falar do menino pela primeira vez. A semente da curiosidade plantada há trinta anos se transformou em um romance premiado e arrebatador que, sem mencionar o nome do dramaturgo, mergulha profundamente na história da família ― focando na trajetória da mãe da criança, a quem a autora chama de Agnes (outra variação do nome da esposa de Shakespeare seria Anna), e nas suas tentativas desesperadas de salvar o filho. 

É a partir dessas poucas referências disponíveis sobre a vida do bardo que Maggie O’Farrell cria magistralmente a trama protagonizada por Agnes, uma mulher excêntrica e selvagem que costumava caminhar pela propriedade da família com seu falcão pousado na luva e tinha dons extraordinários, como prever o futuro, ler pessoas e curá-las com poções e plantas. Enquanto isso, o personagem mais famoso do romance não tem nome; ele é chamado de “seu marido”, “o pai”, “o tutor de latim”. Filho de um luveiro caído em desgraça e com péssima reputação na cidade, ele casou-se com a protagonista, detentora de uma generosa porção de terra e alguns anos mais velha. Tiveram uma filha e um casal de gêmeos.

Após o casamento, Agnes se torna uma mãe superprotetora e a força centrífuga na vida do marido, que seguira para Londres com o objetivo de se estabelecer como dramaturgo. A vida do casal é gravemente abalada quando o filho Hamnet sucumbe a uma febre repentina. Compre o livro "Hamnet", de Maggie O'Farrell, neste link.


O que disseram sobre o livro

“Hamnet é a prova de que sempre há novas histórias a serem contadas até quando se trata de uma das figuras históricas mais conhecidas. A obra também revela a escrita extremamente versátil de O’Farrell, com um entendimento profundo dos laços humanos - qualidades atribuídas também a um certo professor de latim de Stratford.” ―The Observer


Sobre a autora

Nascida na Irlanda do Norte em 1972, Maggie O'Farrell cresceu no País de Gales e na Escócia e mora atualmente em Edimburgo. Também é autora de "A Mão Que Me Acariciou Primeiro" (vencedor do Costa Novel Award); "Instructions for a Heatwave"; "This Must Be the Place"; e, mais recentemente, "Existo, Existo, Existo: 17 Tropeços na Morte". Foto: Murdo Macleod. Compre os livros de Maggie O'Farrell neste link.

Ficha técnica
“Hamnet: A Vida Antes de Hamlet” | “Hamnet”
Gênero: drama histórico. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: inglês. Direção: Chloé Zhao. Roteiro: Maggie O’Farrell e Chloé Zhao. Elenco: Jessie Buckley, Paul Mescal. Distribuição no Brasil: Universal Pictures. Duração: 2h05. Cenas pós-créditos: não.

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Cineflix Miramar | Santos
25 a 28 de janeiro | Sessões legendadas | Sala 3 | 18h00 
No Miramar Shopping | Rua Euclides da Cunha, 21 - Gonzaga - Santos / São Paulo. Ingressos neste link.

domingo, 18 de janeiro de 2026

.: Patrick Selvatti entre envelhecimento e desejo em novo romance


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.

Escritor, jornalista e finalista do Concurso de Dramaturgia da TV Record, Patrick Selvatti voltou à ficção. Em “Ainda Sou Mar”, romance digital lançado pela Amazon, o autor deixa para trás a adolescência prolongada que marcou parte de sua obra e avança para um terreno mais áspero: o de um homem que já foi desejado, já foi referência e agora precisa lidar com o fim do próprio protagonismo.

Marlon Petit tenta entender onde ainda cabe. Ex-modelo internacional, ele circula pelo Rio de Janeiro entre praias, sessões de terapia improvisadas e encontros sexuais que já não prometem permanência. Selvatti constrói esse mosaico sem suavizar o universo gay masculino nem transformar seus personagens em exemplos edificantes. O sexo aparece com crueza, mas nunca como ornamento ou provocação vazia. Nesta entrevista exclusiva ao portal Resenhando.com, o autor fala sobre envelhecimento, desejo, racismo, apagamento profissional e o desconforto de seguir em movimento enquanto o mundo insiste em não esperar ninguém.



Resenhando.com - Você escreveu recentemente dois romances que dialogam com fases diferentes da vida: juventude e maturidade. Em que momento percebeu que precisava escrever sobre o envelhecimento do desejo com "Ainda Sou Mar"?
Patrick Selvatti - Tenho uma marca autoral registrada muito forte relacionada à juventude. Do meu romance de estreia, "Os Filhos da Revolução", até agora, com "A Orquídea e o Beija-flor", abordo muito a juventude. Coincidentemente, ambas histórias nasceram quando eu era adolescente. Percebi que precisava evoluir para a faixa madura quando eu próprio cruzei esse limiar. A partir dos 40 anos, eu comecei a notar o silêncio em torno desse tema. O desejo envelhece, mas a narrativa sobre ele some! Existe uma espécie de pacto social, especialmente dentro do meio gay, que associa erotismo à juventude eterna. Quando o corpo começa a mudar, o desejo vira algo quase vergonhoso, deslocado... Escrever sobre isso é uma tentativa de romper esse silêncio e de me recusar a aceitar que o afeto e o tesão tenham prazo de validade.


Resenhando.com - Marlon Petit foi um corpo desejado, consumido e descartado. Em algum ponto da escrita você sentiu que estava narrando menos a história de um personagem e mais a anatomia cruel de um sistema que transforma pessoas em fetiche?
Patrick Selvatti - Totalmente. Marlon Petit é menos um indivíduo isolado e mais um corpo atravessado por um sistema que valoriza, usa e descarta. A escrita foi revelando isso aos poucos: não se trata apenas de quem ele é, mas do lugar que o mercado do desejo reserva para certos corpos em determinados momentos da vida. O romance acabou se tornando uma espécie de autópsia emocional desse mecanismo cruel que, como o próprio personagem diz, "te mastiga e te cospe". E ele não se refere apenas ao desejo sexual, mas também ao comercial, onde um corpo, mesmo considerado mito para a mídia, é rapidamente substituído.


Resenhando.com - O que você pensa que mais incomoda hoje em “Ainda Sou Mar”: a explicitude do sexo ou o fato de um homem gay de 42 anos ainda desejar, sofrer e sentir medo de desaparecer?
Patrick Selvatti - Espero que incomode mais o segundo ponto, viu? Afinal, ainda há um falso moralismo em relação a tudo que envolve o sexo, né? Mas a literatura erótica não é uma ferramenta exclusiva do homem gay, que, por tantas vezes, é acusado de promiscuidade. Tanto que os maiores best sellers do gênero dialogam com mulheres, donas de casa que, hoje, consomem narrativas como as da trilogia "365 Dias" assim como minha mãe lia as coleções "Bianca", "Júlia" e "Sabrina" no passado. Aqui, o sexo explícito é quase um álibi moral para alcançar o debate real. A pornografia atrai e fascina, mas não aprofunda. E o meu intuito é que o que realmente desconcerte não seja o realismo cru da narrativa, mas a ideia de que um homem gay maduro ainda sente, deseja, erra e sofre... Existe uma expectativa silenciosa de que, passado um certo tempo, o desejo deveria se aposentar junto com o corpo, e isso é profundamente violento!


Resenhando.com - Ao criar um influenciador de 19 anos como reflexo do protagonista, você quis denunciar uma herança simbólica tóxica ou admitir que todos, em alguma medida, aprendem a desejar de forma equivocada?
Patrick Selvatti - Existe uma herança simbólica sendo passada adiante, sim, mas ela não surge do nada. Todos nós aprendemos a desejar dentro de estruturas que associam valor à aparência, poder à juventude e afeto à performance. O jovem não é vilão, ele é produto e espelho. O romance tenta mostrar esse ciclo sem simplificações morais. Mas a ligação do personagem Mateus com Marlon vem em camadas que vão se apresentando de forma muito poética. E dialoga muito também com questões parentais que, segundo Freud, pautam o fetiche. Para mim, a passagem mais bonita do livro é quando os personagens que representam as três gerações se unem e, literal e poeticamente, se despem uns para os outros em uma praia de nudismo. Ali, eles falam do desejo sexual, mas também do ponto que mais os fere: suas relações parentais. É bonito e eu me emocionei escrevendo!


Resenhando.com - O vizinho negro sexagenário carrega o peso do estereótipo do “preto bem-dotado”. Ao escrever esse personagem, o que mais incomodou você: expor o racismo estrutural do desejo ou perceber o quanto ele é reproduzido dentro da própria comunidade gay?
Patrick Selvatti - Na realidade, Alex surge na narrativa como o espelho que Marlon não quer ver. Ele "despreza" o vizinho que se instala ao seu lado em plena pandemia por representar aquilo que ele enxerga que será seu futuro: um homem gay maduro e solitário que apela ao sexo pago para se sentir desejado. Isso é muito forte! Independentemente da cor da pele, Alex simboliza a velhice gay que a comunidade isola. Mas sempre me incomodou perceber o quanto esse racismo ligado à objetificação é naturalizado e reproduzido internamente. Não se trata apenas de um olhar branco sobre o corpo negro, mas de um sistema de desejo que se perpetua mesmo entre quem também é marginalizado. O próprio Alex busca corpos pretos, jovens e instrumentalmente avantajados para se satisfazer. Ele carrega essa contradição no corpo e na afetividade, e isso torna sua dor ainda mais complexa. Foi uma escolha necessária que o personagem fosse preto, sexagenário, bem-dotado e passivo. E sua profissão, bombeiro que apaga incêndios e salva-vidas no mar, não é à-toa: o personagem luta para conter suas próprias chamas e, ao mesmo tempo, não se afogar no mar revolto.


Resenhando.com - No livro, o marido dermatologista que vive da estética íntima masculina é uma provocação direta à indústria da perfeição. Você acredita que o culto ao corpo se tornou uma nova forma socialmente aceita de autoviolência?
Patrick Selvatti - Acredito plenamente. Quando o cuidado vira obsessão e a autoestima depende de procedimentos, métricas e validação externa, há violência, ainda que bem embalada. O culto ao corpo, hoje, opera como uma exigência social disfarçada de escolha individual. É uma forma elegante de coerção. No meio gay, ela também vem muito associada à distorção da virilidade e da potência: tamanho vira documento. E há o agravante de o personagem Benício sofrer de uma compulsão sexual diagnosticada. A doença está ali, sendo tratada, ainda que maquiada pelo discurso bonito da harmonização. Essa relação conjugal também espelha uma realidade atual que merece uma lente de aumento: até que ponto o amor livre é saudável e uma escolha de mão dupla? É polêmico isso...


Resenhando.com - Seu romance escancara o universo gay masculino sem suavizações. Existe uma cobrança, seja ela explícita ou silenciosa, para que narrativas LGBTQIAPN+ sejam sempre edificantes, pedagógicas ou “exemplares”?
Patrick Selvatti - Talvez se espere que personagens LGBTQIAPN+ representem uma espécie de manual de conduta ou um discurso politicamente correto permanente. Mas isso seria injusto e limitador. Personagens têm o direito de ser contraditórios, falhos, incômodos... A ficção não precisa pedir desculpas por mostrar zonas sombrias. O ser humano, por essência, é complexo. Em diversas situações, Marlon pode deixar de ser vítima para ser algoz. Uma leitora me escreveu que não sabe se sente pena ou raiva dele em diversos momentos. E é exatamente sobre isso.


Você bebe na fonte da teledramaturgia e assume o folhetim como linguagem. Em tempos de literatura que tenta parecer séria demais, o exagero emocional ainda é um ato de resistência narrativa?
Patrick Selvatti - O exagero emocional da dramaturgia sempre foi uma forma de dizer verdades que o realismo contido não alcança. O folhetim entende que sentimento também é estrutura narrativa. Em um momento em que tudo precisa parecer asséptico e intelectualizado, assumir emoção, melodrama e intensidade é, sim, um gesto de resistência. Estamos em um momento peculiar do nosso audiovisual, onde as tradicionais novelas precisam se render ao ritmo alucinante das séries e do consumo rápido do digital. Mas também é o momento em que o Brasil está se curvando ao seu cinema, sabendo valorizar narrativas mais profundas e com mais pausas. "Ainda Sou Mar", inclusive, nasceu de um argumento para um filme. E ele está pronto para se tornar um. 


As ilustrações criadas com auxílio de Inteligência Artificial tensionam o debate sobre autoria e imagem. Para você, elas ampliam a experiência literária ou revelam o quanto a literatura também está refém da lógica visual das redes?
Patrick Selvatti - As ilustrações foram uma escolha consciente e que conduziram toda a narrativa. As imagens foram nascendo junto com a história - muitas delas, aliás, fizeram com que passagens da narrativa nascessem - tal qual ocorre com o storyboard de um filme. "Ainda Sou Mar" não seria o mesmo romance sem o apelo visual, a retratação em imagens. É uma história sobre estética, e as ilustrações contam essa história. Para o leitor, elas ampliam a experiência, mas também podem escancarar essa dependência da imagem, sim. Não vejo isso como contradição, mas como sintoma do nosso tempo. A literatura sempre dialogou com outras linguagens. Ignorar o peso do visual hoje seria artificial. O importante é que a imagem não substitua a palavra, mas dialogue com ela.


Antes de perder o lugar como corpo desejável, Marlon Petit já havia perdido o lugar como referência profissional. O que dói mais: deixar de ser desejado ou deixar de ser necessário?
Patrick Selvatti - Acho que deixar de ser necessário dói mais, porque o desejo ainda pode ser negociado, reinventado, deslocado... A necessidade não. Quando você deixa de ser referência profissional, perde não só espaço, mas função simbólica. É como se o mundo dissesse: “Seguimos sem você”. Isso atinge a identidade de forma muito mais profunda do que o espelho.


O romance sugere que o mercado não envelhece ninguém, ele simplesmente substitui. Em que medida o apagamento profissional é a primeira forma de violência simbólica sofrida pelo protagonista?
Patrick Selvatti - O apagamento profissional vem antes do apagamento do corpo porque ele é silencioso. Ninguém anuncia que você ficou obsoleto, você apenas vai deixando de ser chamado. Para Marlon Petit, essa ausência de demanda antecede o declínio do desejo. O mercado opera por substituição, não por transição. Não há rito de passagem, só descarte. É uma ferida muito mais profunda, e é o que desencadeia nele a impotência sexual como um sintoma dos danos à sua saúde mental... Marlon traz muitas camadas, para além do homem narcisista que vê sua imagem o sugar para o fundo do mar.


Resenhando.com - Marlon Petit foi um “mito” e virou "passado". Você acredita que nossa cultura sabe lidar com trajetórias ou apenas com novidades? Há espaço para a experiência ou só para o próximo hype?
Patrick Selvatti - Nossa cultura é profundamente obcecada pela novidade. Ela consome histórias apenas enquanto elas rendem visibilidade, e não é à toa que vivemos a ditadura do reels. Trajetórias exigem memória, e memória dá trabalho, "Ainda Estou Aqui " e "O Agente Secreto" nos esfrega isso na cara. O hype é fácil porque é descartável. A experiência, ao contrário, exige escuta, paciência e reconhecimento. Essas coisas são cada vez mais raras, né?


Resenhando.com - Existe uma solidão específica de quem já foi alguém profissionalmente e hoje precisa se reinventar fora dos holofotes. Essa dor é menos falada do que a crise do corpo. Por quê?
Patrick Selvatti - Porque a crise do corpo é visível, e sua reparação está ao alcance dos procedimentos estéticos. Já a perda de relevância profissional é invisível e profundamente envergonhante. Admitir que você já teve importância e, hoje, não tem mais é confrontar o medo coletivo de inutilidade. É uma solidão que não rende likes, nem empatia imediata. É fato: o derrotado não engaja.


Escrever "Ainda Sou Mar" foi também uma forma de elaborar o medo de que a relevância profissional tenha prazo de validade, especialmente para quem construiu a própria identidade em torno do reconhecimento público?
Patrick Selvatti - Sem dúvida. Para além do dilema gay, o livro nasceu desse medo que me foi apresentado em diversas entrevistas que fiz e sigo fazendo com artistas, na maioria heterossexuais. Um em especial, que se tornou meu amigo pessoal, desabafava muito comigo sobre o fato de estar com 35 anos e "não ter acontecido". Essa angústia me atravessou muito - afinal, um homem nessa faixa etária está no auge, mas não para a indústria do like. Quando sua identidade está atrelada ao olhar do outro, a perda de reconhecimento vira um abismo. Escrever foi uma tentativa de nomear essa angústia, de encará-la sem a romantização de que envelhecer é bonito. Não para resolver essa angústia, mas para entendê-la e, talvez, sobreviver a ela com mais consciência. E trazer esse tom cinzento que não aparece no colorido do arco-íris foi a cereja do bolo.


Depois de “Ainda Sou Mar”, fica a sensação de que envelhecer é um ato político. Escrever esse livro foi mais um gesto de sobrevivência pessoal ou uma forma de dizer que o desejo também tem direito à maturidade?
Patrick Selvatti - Mas é um ato político, e não sou eu quem afirmo isso, quem sou eu? (risos). Eu só constato que envelhecer, especialmente sendo gay, é resistir a uma lógica que tenta nos apagar. Escrever esse livro, para mim, foi reafirmar que o desejo não pertence apenas à juventude e que a maturidade também tem direito ao corpo, ao afeto, ao erro e ao prazer. É uma declaração de existência.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

.: Projeto aposta na literatura para ampliar repertórios e criar vínculos


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com
Imagem: divulgação

A atividade “Viagens e Livros: as Palavras que Trouxemos na Mala” convida crianças, jovens e adultos a embarcarem em uma experiência de mediação literária que atravessa fronteiras geográficas, culturais e imaginárias. A vivência acontece no sábado, 3 de janeiro, das 15h00 às 17h00, na Biblioteca do Sesc Santos, com entrada gratuita e classificação livre.

Conduzida pelos mediadores-atores Maycon Benedito e Juliana Espírito Santo, a proposta se constrói como uma viagem simbólica pelo mundo a partir da literatura para as infâncias. De volta de suas andanças, os mediadores chegam com a mala repleta de livros e histórias, reunindo narrativas de autores de diferentes regiões e contextos culturais. Cada obra escolhida amplia o repertório estético e temático do público, revelando múltiplas formas de ver, sentir e narrar o mundo.

A mediação combina leitura compartilhada, escuta sensível e presença cênica, criando um ambiente acolhedor e participativo. Ao longo do encontro, a diversidade cultural se manifesta tanto nas histórias quanto nas formas de contar, estimulando a imaginação, o diálogo e a construção coletiva de sentidos. A atividade reforça a leitura como uma prática social e comunitária, capaz de aproximar pessoas, gerar pertencimento e fortalecer vínculos afetivos por meio da palavra.

A iniciativa propõe um encontro com a literatura como território de descoberta, afeto e troca. A experiência valoriza a escuta, o respeito às diferenças e a potência das narrativas na formação de leitores críticos e sensíveis desde a infância.


Sobre os mediadores

Maycon Benedito é ator, mediador e produtor cultural, formado em Artes Cênicas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Atua em projetos de mediação de leitura e ações culturais voltadas à formação de público, articulando teatro, literatura e educação.

Juliana Espírito Santo é atriz, performer, palhaça, diretora, pesquisadora e arte-educadora. Mestre em Artes da Cena pela Unicamp, bacharel em Artes Cênicas pela UEL e graduada em Artes Visuais pelo Claretiano, desenvolve projetos que cruzam arte e educação em instituições culturais e iniciativas socioculturais, com especial atenção às tradições, festas populares e práticas formativas.


Serviço
Atividade "Viagens e Livros: as Palavras que Trouxemos na Mala"
Data: sábado, dia 3 de janeiro
Horário: das 15h00 às 17h00
Local: Biblioteca do Sesc Santos
Entrada: gratuita
Classificação: livre para todas as idades

Venda de ingressos
As vendas de ingressos para os shows e espetáculos da semana seguinte (segunda a domingo) começa na semana anterior às atividades, em dois lotes: on-line pelo aplicativo Credencial Sesc SP e portal do Sesc São Paulo: às terças-feiras, a partir das 17h00. Presencialmente, nas bilheterias das unidades: às quartas-feiras, a partir das 17h00.

Bilheteria Sesc Santos - Funcionamento
Terça a sexta, das 9h às 21h30 | Sábados e domingos, 10h às 18h30   

Sesc Santos
Rua Conselheiro Ribas, 136 - Aparecida / Santos
Telefone: (13) 3278-9800        
Site do Sesc Santos
Instagram e Facebook: @sescsantos

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