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segunda-feira, 13 de julho de 2026

.: A coleção que transforma memórias em experimentação literária


Inspiradas na cultura dos zines e do faça-você-mesmo (Do It Yourself/DIY), quatro autoras exploram identidade, infância, corpo e reconstrução em obras inéditas 


Desde 2024, o selo Tato Literário, da com.tato, publica uma coleção de plaquetes anual com curadoria e edição de Thaís Campolina e Karol Lopes. Inspirada na cultura "Do It Yourself" ("Faça Você Mesmo"), na estética dos zines e no formato livreto, a edição de 2026 traz uma novidade marcante: pela primeira vez, as obras compartilham de uma forte coesão temática. Embora transitem por gêneros, propostas e estilos diversos, os quatro títulos selecionados partiram da memória e de suas diferentes interpretações na construção do material produzido. As plaquetes serão lançadas na 24ª Flip - Festa Literária Internacional de Paraty, em sessão de autógrafos com as autoras no estande da com.tato, localizado na Casa Escreva, Garota!, onde a coleção também será comercializada.

A base desta coleção foi a 3ª edição do minicurso “Plaquetes: Espaço para Experimentação”, conduzido pela poeta e mediadora de leitura Thaís Campolina. Todos os participantes da oficina submeteram originais para seleção. A escolha dos quatro projetos finais aconteceu de forma orgânica, quando as curadoras perceberam a sinergia entre os textos: “Todos os materiais apresentados eram excelentes, o que trouxe um enorme desafio para a curadoria. Como não há definição de temática prévia e cada pessoa escreve e produz o que quer na oficina, aproveitamos a coincidência para construir algo novo e trazer, pela primeira vez, um tema-guia para a coleção”, comentam as curadoras.

Historicamente utilizadas para circular textos poéticos ou manifestos de forma rápida e acessível, as plaquetes ganham na Tato Literário um contorno de resistência editorial, liberdade criativa e abertura para a hibridez de linguagens. O formato enxuto permite que o leitor e autor experimentem a literatura de forma tátil, íntima e direta, celebrando o erro, o ensaio e a potência da palavra em seus mais diversos formatos. 


A memória e suas possibilidades: crônica, poesia e hibridez  
A coleção de 2026 é composta por quatro obras que, a suas maneiras, investigam o corpo, o tempo, as heranças individuais e coletivas e as miudezas do cotidiano:

"Passar Inteira pelo Buraco da Agulha" (Cacá Silveira): estreia solo da autora após publicações em revistas e coletâneas. A obra traz poemas que abordam as contradições humanas e a subjetividade da identidade. Com um olhar afetuoso e incômodo para as memórias, o eu-lírico transita entre tralhas e bugigangas, costurando a terra com o fio do mar para tecer roupagens para o existir.

"Viva Pelo Avesso" (Talita Franceschini de Carvalho): uma obra que nasce do diálogo com a poesia de Ana Cristina Cesar e Eunice Arruda. Tomando essas referências como norte, os poemas exploram os múltiplos sentidos do "avesso" — aquilo que se inverte, desloca ou revela por outro ângulo —, estabelecendo uma relação de enfrentamento, sensibilidade e voz própria. A memória aqui surge desse entrelace entre os dois grandes nomes de poetas já falecidas e a produção literária de Talita. A autora realiza sessão de autógrafo na Flip no dia 24 de julho, às 20h00.

"Ficção que Chamo de Eu" (Luciana Palhares): em um mundo dominado por selfies e influencers, a multiartista e terapeuta holística investiga quem verdadeiramente é após 37 anos seguindo regras incompreendidas. Neste primeiro volume, a autora compartilha treze “causos” marcantes de sua primeira infância, acompanhando as inocências perdidas e as incompreensões de seus anos de formação. A autora realiza sessão de autógrafo na Flip no dia 23 de julho, às 11h00.

"Tornozelo" (Bianca Smanio): essa é uma plaquete sobre as consequências de um salto único. O que era para ser apenas um pulo no pula-pula termina em um tornozelo quebrado e no hiato de uma rotina interrompida. Durante os meses de recuperação, surge uma coleção de descobertas anatômicas e existenciais que viraram texto. Essa é uma jornada sobre cair, quebrar, esperar e aprender a se reconstruir, pedrinha por pedrinha. A autora realiza sessão de autógrafo na Flip no dia 23 de julho, às 13h00.


Agenda Flip
Sessões de autógrafos com autoras da nova coleção de plaquetes do Tato Literário 2026

23 de julho (quinta-feira)
11h00 - Sessão de autógrafos da plaquete “Ficção que Chamo de Eu”, de Luciana Palhares
13h00 -   Sessão de autógrafos plaquete “Tornozelo”, de Bianca Smanio.

24 de julho (sexta-feira)
20h00 - Sessão de autógrafos da plaquete “Viva pelo Avesso”, da Talita Franceschini de Carvalho
Local: estande da com.tato, localizado na Casa Escreva, Garota!, no Centro Histórico de Paraty (RJ).


Ficha técnica
Coleção de Plaquetes da Tato Literário 2026
Autoras: Bianca Smanio, Cacá Silveira, Luciana Palhares e Talita Franceschini de Carvalho
Gêneros: poesia e crônica
Editora: Tato Literário (selo da com.tato)
Ano: 2026

domingo, 12 de julho de 2026

.: Sesc reúne personalidades nacionais e internacionais na Flip 2026


Angela Davis, Socorro Acioli, Itamar Vieira Junior, Wole Soyinka, Tati Bernardi, Bruna Lombardi, Elisa Lucinda, Luiza Romão, Jamil Chade, Fabiana Cozza, Marcelino Freire e Eliana Alves Cruz são alguns nomes da programação. Na imagem, Sesc Santa Rita em Paraty. Foto: divulgação
 

Com uma agenda que valoriza a diversidade de vozes, linguagens, expressões artísticas e regionalidades, o Sesc estará presente mais uma vez na Flip - Festa Literária Internacional de Paraty. Serão realizados cafés literários, shows, exposição, performances poéticas, rodas de conversa e oficinas. As atividades são gratuitas e acontecem de 23 a 26 de julho de 2026 em três espaços no Centro Histórico de Paraty: Sesc Santa Rita, Casa Edições Sesc e Casa Sesc. A instituição é ainda patrocinadora da programação oficial da Flip.

Além da pluralidade da literatura brasileira com convidados de diversas regiões do país, que já é marca registrada das ações do Sesc no evento, neste ano a programação contará ainda com convidados internacionais. A participação dialoga com duas importantes efemérides: os 80 anos do Sesc e os 70 anos da publicação de “Grande Sertão: Veredas”, obra-prima de João Guimarães Rosa, que segue influenciando gerações de leitores e escritores. A partir disso, foi elaborado o conceito Múltiplas Veredas, compreendido como metáfora dos vários caminhos que conectam literatura, cultura, território e transformação social.

Memória e saberes ancestrais se destacam em diferentes mesas e encontros, assim como temas urgentes da contemporaneidade, como sustentabilidade, cidadania, democracia e os impactos das tecnologias na vida cotidiana. Debates sobre leitura e formação de leitores abordam os desafios da circulação de ideias e o papel das práticas coletivas, como clubes de leitura e mediação literária. Para a diversão do público infantil, serão realizadas narrações de histórias e mediação de leitura.

O público também poderá visitar, no Sesc Santa Rita, uma exposição especial em celebração aos 80 anos do Sesc. Com fotografias históricas e registros contemporâneos, a mostra apresenta um panorama da trajetória da instituição, destacando sua contribuição para o desenvolvimento social do Brasil ao longo de oito décadas.

“No ano em que celebra oito décadas de atuação, a participação do Sesc na Flip ganha ainda mais relevância. A cultura amplia repertórios, fortalece a cidadania, incentiva a leitura e a formação de novos públicos, ao mesmo tempo em que movimenta o turismo, impulsiona a economia local e gera trabalho e renda. Ao reunir autores, artistas e leitores, o Sesc contribui para o desenvolvimento dos territórios e demonstra que investir em cultura também é investir no desenvolvimento social e econômico do país”, destaca Diana Abreu, Diretora de Saúde, Cultura, Lazer e Assistência do Departamento Nacional do Sesc.
 

Sesc na Flip acontece em três casas
No Sesc Santa Rita, unidade do Polo Sociocultural Sesc Paraty, o público poderá participar de atividades com a presença de autores como Eliana Alves Cruz, Marcelino Freire, Milena Martins Moura e Daniel Munduruku, primeiro escritor indígena a compor o acervo da Casa de Rui Barbosa que participa do encontro “Cosmologias da palavra” ao lado de Jama Wapichana.

A escritora Tati Bernardi comandará um talk show literário com os convidados Bruna Lombardi, Itamar Vieira Junior e Elisa Lucinda. O espaço também apresentará o espetáculo “Viola, Rosa e Sertão”, com o violeiro, compositor e pesquisador Paulo Freire. Haverá, ainda, na mesma casa, uma área de descompressão com enfoque em diversidade, equipada com sofás, pufes e fones com supressão de ruído, além de recursos de acessibilidade, como Libras, materiais em braile, assentos preferenciais e mobiliário adaptado.

Na Casa Sesc, as discussões abrangerão a circulação literária e novos formatos - como podcasts e plataformas digitais -, além de reflexões sobre acessibilidade, diversidade e inteligência artificial, com nomes como Nina da Hora, Sil Bahia e Lu Ain-Zaila. O público encontrará nomes centrais do pensamento contemporâneo, como a escritora e ativista americana Angela Davis, ao lado do Nobel Wole Soyinka; além do intelectual Muniz Sodré, em diálogo com o podcast "Angu de Grilo", de Flávia Oliveira e Isabela Reis.

Já na Casa Edições Sesc, autores da editora e convidados participam de debates que articulam literatura, artes visuais, pensamento crítico e temas contemporâneos. A programação - que conta também com mesas realizadas em parceria com o Senac São Paulo - promove encontros em torno de questões urgentes do presente, como geopolítica, saúde mental, educação midiática, sustentabilidade e direitos humanos.

Entre os destaques, estão conversas com Eustáquio Neves, artista visual em exposição na Bienal de Veneza; Jamil Chade, jornalista com atuação internacional em geopolítica; Bob Wolfenson, nome importante da fotografia brasileira; Natália Timerman, escritora e psiquiatra; e Mary del Priore, historiadora e autora referência em História do Brasil, além de encontros com autores, pesquisadores, educadores e artistas de diferentes áreas. Em uma parceria inédita entre o Sesc e a Estante Virtual, os vencedores do Prêmio Sesc de Literatura 2025 participarão de uma mesa na Casa Estante Virtual, fortalecendo o compromisso das instituições com a valorização da literatura e o encontro entre autores e leitores.


Sesc Mesa Brasil na Flip 2026
Pelo segundo ano consecutivo, os participantes poderão realizar, no Sesc Santa Rita, doações de alimentos não perecíveis ou contribuições financeiras via Pix para o Sesc Mesa Brasil, maior rede privada de bancos de alimentos da América Latina. Os insumos serão distribuídos para instituições sociais de Paraty que atendem pessoas em situação de vulnerabilidade social e insegurança alimentar.

Além disso, o público poderá participar de uma mesa de debate e experiência gastronômica com pesquisadoras e coletivos de Paraty para discutir os vínculos entre comida, memória e território e de uma oficina de escrita conduzida por Taís Bravo, que estimula os participantes a explorar memórias e afetos por meio da criação literária inspirada nos alimentos e nas refeições compartilhadas. Essas ações convidam à reflexão sobre o engajamento em ações solidárias e buscam estimular a consciência social, ampliando o impacto do Sesc na Flip para além da cultura. Toda a programação do Sesc é gratuita e está disponível no site sesc.com.br/sescnaflip.


Serviço
Espaços do Sesc no Centro Histórico de Paraty
Sesc Santa Rita - Rua Santa Rita, 133
Casa Sesc - Rua Marechal Santos Dias, 22
Casa Edições Sesc - Rua Marechal Santos Dias, 115

sábado, 11 de julho de 2026

.: Itamar Vieira Junior realiza palestra e inspira Ciclo de Leitura na Caixa Cultural


Programação aproxima o público das temáticas que atravessam a obra do autor de "Torto Arado". Foto: Divulgação / Caixa


Em julho, a programação da Caixa Cultural São Paulo reúne a palestra “É Mesmo Ficção?”, conduzida por Itamar Vieira Junior, e o Ciclo de Leitura: "Vozes em Terra - Ecos de Resistência em 'Torto Arado'", realizado pelo Programa Educativo Caixa Gente Arteira. As atividades têm como ponto de partida a produção literária do escritor e questões presentes em seus livros. Autor de "Torto Arado", "Salvar o Fogo", "Coração Sem Medo" e "Doramar ou a Odisseia", Itamar Vieira Junior conduz, no dia 18, a palestra “É mesmo ficção?”, estruturada a partir de leituras comentadas e conversas sobre literatura, memória, território e processos de criação narrativa.

Voltado a leitores, estudantes, educadores, pesquisadores e interessados em literatura contemporânea, o encontro oferece uma aproximação com referências, contextos e elementos presentes na trajetória e na produção literária do escritor.

Em diálogo com a palestra, a atividade promove a leitura compartilhada de "Torto Arado" e a mediação de conversas sobre aspectos literários, culturais e históricos abordados no romance, estimulando a troca de interpretações entre os participantes. Ao reunir a leitura da obra e o encontro com seu autor, a programação oferece ao público um espaço de reflexão sobre a literatura brasileira contemporânea e sobre os múltiplos sentidos presentes na escrita de Itamar Vieira Junior.


Serviço
Palestra: “É Mesmo Ficção?”, com Itamar Vieira Junior

Caixa Cultural São Paulo | Praça da Sé, 111 - Centro / São Paulo
Dia 18 de julho de 2026, das 15h00 às 17h00
Duração: 2 horas
Classificação indicativa: 18 anos
Capacidade: 140 participantes
Informações: (11) 3321-4400
Site: caixacultural.gov.br | Instagram: @caixaculturalsp


Ciclo de Leitura "Vozes em Terra - Ecos de Resistência em 'Torto Arado'"
Local: Sala de Oficinas
Datas: 11 e 25 de julho de 2026,  das 10h00 às 12h00
Duração: 2 horas por encontro
Classificação indicativa: 16 anos
Capacidade: 20 participantes por encontro
Programação gratuita, sujeita à capacidade dos espaços.


 

segunda-feira, 6 de julho de 2026

.: Peça inspirada em livros de Édouard Louis segue em cartaz no Teatro Faap


Com direção e dramaturgia de Luiz Felipe Reis e de Marcelo Grabowsky, espetáculo foi criado a partir de três livros do francês Édouard Louis, um fenômeno da literatura mundial. Foto: Elisa Mendes

Indicado ao Prêmio APTR 2025 nas categorias de melhores direção, ator protagonista e direção de movimento depois de grande sucesso na capital carioca, "Eddy – Violência & Metamorfose" segue em temporada no Teatro FAAP até dia 6 de agosto, com sessões de terça a quinta-feira, às 20h00. O espetáculo tem direção de Luiz Felipe Reis e Marcelo Grabowsky e traz no elenco João Côrtes, Julia Lund e Erom Cordeiro. A montagem reúne três contundentes obras - “O Fim de Eddy”, “História da Violência” e “Mudar: Método” - do premiado autor francês Édouard Louis, traçando um panorama ampliado da sua trajetória. Vale mencionar que o trabalho teve o aval caloroso do próprio autor: “É a primeira vez que uma proposta assim foi realizada no mundo”, diz Louis, que já teve seus livros levados à cena em diferentes países.

O espetáculo, que aborda temas urgentes como violência de classe, de gênero e sexual, homofobia, machismo e xenofobia, dá continuidade à pesquisa da Polifônica a respeito da violência e da dominação masculina nas relações humanas e suas devastadoras consequências. A montagem gira em torno de um episódio real vivido por Édouard Louis no Natal de 2012, em Paris. Após um jantar com amigos, ao voltar para casa, o escritor é abordado por um jovem de origem argelina, chamado Redá, e, então, os dois seguem para o apartamento do escritor. Mas, após uma noite de amor, na manhã seguinte, Édouard é violentado por este homem e quase assassinado. 

O episódio traumático, elaborado na obra “História da Violência”, dá início a uma jornada reflexiva e de elaboração a respeito das estruturas sociais que viabilizam a produção, a reprodução e a circulação da violência em nossas sociedades. Um ano após o terrível episódio, após lidar com uma série de procedimentos médicos, policiais e jurídicos relacionados ao caso, Édouard inicia uma viagem de retorno à sua cidade natal. Ele hospeda-se na casa da sua irmã, Clara, e é a partir deste reencontro que se inicia um jogo de relatos, de narrativas e de representações que reconstituem e investigam o ocorrido naquela noite, em que vêm à tona uma pluralidade de questionamentos e de reflexões acerca do machismo, do racismo e da homofobia enraizadas na nossa sociedade. 

Ao longo do espetáculo, a narrativa de “História da Violência” também é atravessada por trechos de “O Fim de Eddy” e culmina na recriação de fragmentos de “Mudar: Mtodo”, obra em que Édouard reconta sua trajetória de emancipação social e intelectual, desde a saída da sua cidade natal, Hallencourt, até a sua chegada e estabelecimento em Paris. “Ao longo dos últimos dez anos de trabalho, buscamos, através de cada obra, propor uma reflexão coletiva acerca das consequências da desmedida ânsia masculina por poder, controle, dominação e submissão; sobre como isso produz danos nos mais diferentes corpos — humanos, além de humanos e de toda a Terra —, mas, principalmente, em tudo aquilo que se aproxima ou é identificado como feminino”, elabora o diretor Luiz Felipe Reis.

“Meu interesse pela obra do Édouard surge como desdobramento dessa investigação contínua que venho realizando sobre diferentes modos de violência, sobretudo os que constituem o mundo masculino - seu ethos e psiquismo, as regras e normas das sociedades patriarcais e, sobretudo, do regime totalitário do capital sob o qual estamos todos subjugados. Édouard reflete e escreve sobre violência social, política, econômica, cultural, racial, sexual, de gênero, ou seja, sobre inúmeras formas de produção e de circulação da violência, sobre todo um circuito de violência que rege nossos comportamentos e pensamentos, sociais e individuais. Em outras palavras, Édouard descreve com precisão iluminadora os efeitos devastadores das forças de opressão e de destruição que constituem a nós e nossas sociedades contemporâneas ”, acrescenta.

O cineasta Marcelo Grabowsky, que já havia colaborado com a Polifônica no espetáculo “Amor em Dois Atos”, foi convidado para retomar sua parceria com o grupo, coassinado a direção e a dramaturgia de “Eddy - Violência e Metamorfose”, ao lado de Luiz Felipe Reis.“Admiro muito a forma como a companhia enxerga a cena teatral e propõe esse cruzamento de linguagens. Adaptar a obra do Édouard para o palco encontra a importância de encenar dilemas e vivências de corpos e subjetividades gays e, assim, fazer a gente se reconhecer em cena. Mesmo com o avanço e a legitimação de muitas vozes LGBTQIAP+ no Brasil, o conservadorismo e o preconceito insistem em revelar e exercer a sua violência. Édouard elabora de uma forma instigante seu olhar sobre a violência, encarando sua complexidade, e questionando sua origem. Consegue transformar suas próprias experiências, por mais duras que possam ser, em literatura, em arte, para alcançarem e sensibilizarem outras pessoas”, analisa Grabowsky.

"Eddy" também dá sequência à pesquisa estética da Polifônica acerca da noção de polifonia cênica, em que busca estabelecer uma relação criativa e não hierárquica entre o teatro e diferentes linguagens e formas de arte, como o cinema, a literatura e o som - pesquisa elaborada desde o primeiro espetáculo da companhia, “Estamos Indo Embora…” (2015), assim como em todos os trabalhos subsequentes: “Amor em Dois Atos” (2016), “Galáxias” (2018), “Tudo Que Brilha no Escuro” (2020), “Vista” (2023) e “Deserto” (2024) - esse último em cartaz atualmente no Teatro Poeira, com temporada prorrogada até agosto, devido ao sucesso, e indicações ao Prêmio APTR para Melhor Dramaturgia, Direção e Ator. Compre os livros de Édouard Louis neste link.


Sinopse de “Eddy - Violência & Metamorfose”
“Eddy - Violência & Metamorfose”é um espetáculo baseado em três obras do escritor francês Édouard Louis: “O Fim de Eddy”“História da Violência” e “Mudar: Método”. Com direção e dramaturgia de Luiz Felipe Reis e Marcelo Grabowsky, o elenco conta com João Côrtes, Julia Lund e Erom Cordeiro. Indicado ao Prêmio APTR 2025 nas categorias Melhor Direção, Melhor Ator Protagonista e Melhor Direção de Movimento, “EDDY” aborda temas urgentes como violência sexual, homofobia, xenofobia, machismo e dominação masculina, a partir de um episódio real vivido pelo autor em Paris no Natal de 2012. Com esta imersão na obra de Édouard Louis a Polifônica dá sequência a uma pesquisa continuada, desenvolvida ao longo da última década, a respeito da violência e da dominação masculina nas relações humanas e suas múltiplas consequências. Compre os livros de Édouard Louis neste link.


Sobre Édouard Louis
Édouard Louis, nascido Eddy Bellegueule, em 1992, na região operária da Picardia, norte da França, é um dos principais nomes da literatura contemporânea europeia. Formado em sociologia pela École Normale Supérieure, foi aluno do filósofo e sociólogo Didier Eribon, cuja influência transparece em sua obra. Estreou em 2014 com “Para Acabar com Eddy Bellegueule, uma narrativa autobiográfica que retrata a infância marcada pela pobreza, homofobia e violência familiar. Em 2016, publicou “História da Violência”, um relato intenso sobre o estupro que sofreu e seus desdobramentos psicológicos e sociais. Em 2018, lançou “Quem Matou Meu Pai”, uma denúncia comovente sobre as consequências das políticas neoliberais no corpo e no destino de seu pai operário.

Já em 2021, publicou “Lutas e Metamorfoses de Uma Mulher”, focando na trajetória de sua mãe, uma mulher que tenta romper com as amarras da submissão patriarcal. Os livros de Louis têm sido traduzidos para dezenas de idiomas e amplamente debatidos por seu teor político e sua fusão entre experiência pessoal e crítica social. Seus temas centrais - identidade, exclusão social, sexualidade, violência e desigualdade - conferem à sua obra um caráter profundamente político e transformador. Embora jovem, já recebeu reconhecimento significativo, como o Prêmio Pierre Guénin Contra a Homofobia (2014), e teve suas obras adaptadas para o teatro e analisadas em meios acadêmicos. Sua escrita, marcada por uma linguagem direta e sem ornamentos, faz da dor um ponto de partida para repensar as estruturas sociais que moldam e limitam as vidas marginalizadas. Compre os livros de Édouard Louis neste link.


Ficha técnica
Espetáculo "Eddy - Violência & Metamorfose"
Idealização, produção e realização: Polifônica (Luiz Felipe Reis e Julia Lund)
Direção e dramaturgia: Luiz Felipe Reis e Marcelo Grabowsky com João Côrtes, Julia Lund, Erom Cordeiro
A partir das obras de Édouard Louis - “O Fim de Eddy”, “História da Violência”, “Mudar: Método”
Direção de movimento: Lavínia Bizzotto
Preparação corporal: Alexandre Maia
Cenografia: André Sanches
Assistente de cenografia: Débora Cancio e Nicole Suzana Santos da Silva
Direção de tecnologia: Julio Parente (Para Raio)
Iluminação: Julio Parente (Para Raio)
Figurino: Antônio Guedes
Assistente de figurino: Mari Ribeiro
Criação de vídeo: Daniel Wierman
Trilha sonora: Luiz Felipe Reis
Direção musical: Carol Mathias
Produção musical: Pedro Sodré
Técnico de luz: Rodrigo Lopes e Gabriel Lagoas
Operador de luz e vídeo: Rodrigo Lopes
Técnico-operador de som: Joy Espindola
Hair stylist: Salão Ará
Make: Sabrina Sanm
Fotografia de estúdio: Renato Pagliacci
Identidade visual: Guilherme Falcão
Assessoria de comunicação: Pombo Correio
Direção de produção: Luiz Felipe Reis e Julia Lund (Polifônica)
Produtor associado: Sérgio Saboya (Galharufa)
Produção executiva: Roberta Dias (Caroteno Produções)


Serviço
Espetáculo "Eddy - Violência & Metamorfose"
Temporada: até dia 6 de agosto de 2026
Terças, quartas e quintas-feiras, às 20h00
Teatro FAAP - Rua Alagoas, 903, Higienópolis / São Paulo 
Ingressos: R$ 130,00 (inteira) e R$ 65,00 (meia-entrada)
Bilheteria: de quarta a sábado, das 14h00 às 20h00, e domingo, das 14h00 às 17h00. Durante os dias de espetáculo, até o início da apresentação
Duração: 110 minutos
Classificação: 18 anos
Capacidade: 477 lugares
Acessibilidade: teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida

sexta-feira, 3 de julho de 2026

.: Escritora lusitana Lídia Jorge conquista o Prêmio Camões de Literatura 2026


Premiação é a mais importante da língua portuguesa. Autora receberá 100 mil euros. Foto: Luisa Ferreira

A escritora portuguesa Lídia Jorge conquistou o Prêmio Camões de Literatura 2026. O resultado foi anunciado no início da tarde da última quinta-feira, dia 2 de julho, após a reunião virtual do júri. A autora receberá premiação no valor de 100 mil euros - concedida por meio de subsídio da Fundação Biblioteca Nacional (FBN/ MinC) e do Governo de Portugal - além de um diploma assinado pelos chefes de estado do Brasil e de Portugal. Lídia Jorge é uma das escritoras mais proeminentes da literatura portuguesa contemporânea, com uma obra reconhecida pela análise profunda da história recente de seu país, pela reflexão social e pela defesa dos direitos humanos e das mulheres.

“Desde ‘O Dia dos Prodígios’, de 1979, o diversificado conjunto da obra de Lídia Jorge contribui para enriquecer o património literário e cívico-cultural da língua portuguesa, trazendo experiências do último período da guerra colonial. ‘A Costa dos Murmúrios’, de 1988, é um marco importante na sua obra, uma vez que destaca a sua experiência de vida em Moçambique e desconstrói as versões da guerra colonial sob a perspetiva de uma mulher. Um dos seus últimos romances — ‘Misericórdia’, de 2022 — trata a velhice, a urgência da vida, a resistência ao fim. A sua escrita, marcada por uma prosa poética densa, aborda o passado ditatorial de Portugal, a condição feminina, o impacto das transformações históricas na vida quotidiana, o significado das revoluções, a emigração, as tensões entre a sociedade moderna e pós-moderna, os conflitos entre gerações, as ruturas familiares, com um estilo literário de forte carga lírica e foco na memória coletiva. Por todos estes motivos, o júri considerou, unanimemente, Lídia Jorge merecedora do Prémio Camões 2026”, diz a ata do júri.

Os jurados nesta edição foram o professor José Carlos Seabra Pereira (Universidade de Coimbra – Portugal); a professora, poeta e ensaísta Ana Mafalda Leite (Universidade de Lisboa – Portugal); a professora e pesquisadora Lucia Santaella (PUC-SP, Brasil); o professor, jornalista, historiador e doutor em Letras, José Ribamar Bessa Freire (Brasil); e o escritor e crítico literário Lopito Feijó, (Angola); a escritora, poeta, professora universitária e pesquisadora Odete Semedo (Guiné-Bissau).

A ministra da Cultura, Margareth Menezes, falou sobre a premiação da escritora portuguesa: “A escolha de Lídia Jorge para o Prêmio Camões de Literatura 2026 celebra uma das grandes vozes da literatura em língua portuguesa, cuja obra reafirma o poder da escrita para preservar memórias, ampliar horizontes e promover reflexões sobre a condição humana. O Prêmio Camões simboliza a riqueza da nossa língua comum e o compromisso permanente do Brasil e dos países lusófonos com a valorização da cultura, da literatura e do diálogo entre os povos. Celebrar Lídia Jorge é também reconhecer a força transformadora da palavra e da criação artística na construção de sociedades mais democráticas, diversas e humanas”, afirmou.

O presidente da FBN, Marco Lucchesi, também comentou o resultado: “A escritora Lídia Jorge merece todo reconhecimento. Ela vive no coração do presente. Aponta para todas as contradições, dentro de uma perspectiva em que a política e a poética mostram-se inseparáveis, muito embora prevaleça, do começo ao fim, a altitude textual, a dinâmica profunda da língua literária. Seu profundo conhecimento da África, sobretudo de Moçambique, de Portugal e dos países língua portuguesa empresta grande riqueza ao conjunto da obra. Lídia Jorge possui uma consciência vigilante, crítica diante de um passado colonial e de todas as práticas de injustiça, na defesa de um largo estatuto de emancipação. Uma obra vasta, de extrema riqueza de abordagem e de gêneros literários. É uma das glórias da língua portuguesa”.


Lídia Jorge
Nascida em Boliqueime, Algarve (Portugal), em 18 de junho de 1946, Lídia Jorge é graduada em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa. No início dos anos 70, durante a Guerra Colonial Portuguesa, viveu em Angola e Moçambique - experiência que marcou sua produção literária. Seu primeiro romance, “O Dia dos Prodígios” (1980), inaugurou uma nova fase na literatura portuguesa ao romper com o realismo tradicional e com o tom documental, dominante à época. Suas obras estão traduzidas em diversos idiomas e já receberam prêmios como Prémio Pessoa, Médicis Étranger e Prémio Estatal Austríaco de Literatura Europeia. Entre suas principais obras estão, ainda, “A Costa dos Murmúrios (1988)”, “O Vale da Paixão (1998)” e “Misericórdia (2022)”.


Prêmio Camões
O Prêmio Camões é o mais importante da língua portuguesa. Instituído em 1988 pelos Governos do Brasil e de Portugal, tem como objetivo estreitar os laços culturais entre as nações que integram a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e enriquecer o património literário e cultural da língua portuguesa. Com o nome do maior escritor da história da língua portuguesa - o poeta português Luís Vaz de Camões - o prêmio é atribuído aos autores, pelo conjunto da obra, que contribuíram para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural da língua portuguesa. A primeira edição ocorreu em 1989.

O Ministério da Cultura português organiza a premiação pela parte portuguesa, cabendo à Fundação Biblioteca Nacional a organização pela parte brasileira. Em todas as edições do prêmio, o júri é composto por dois portugueses, dois brasileiros e dois representantes das demais nações da CPLP - Angola, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Moçambique, Timor Leste e São Tomé e Príncipe. O mandato para os jurados é de dois anos.

O diploma entregue aos laureados contém o nome de todos os países lusófonos e é assinado pelos chefes de estado do Brasil e de Portugal. Entre os 36 vencedores encontram-se autores de cinco países lusófonos (Brasil, Portugal, Moçambique, Angola e Cabo Verde). Confira todos os vencedores do Prémio Camões, por ordem cronológica:

Miguel Torga (Portugal), João Cabral de Mello Neto (Brasil), José Craveirinha (Moçambique), Vergílio Ferreira (Portugal), Rachel de Queiroz (Brasil), Jorge Amado (Brasil), José Saramago (Portugal), Eduardo Lourenço (Portugal), Pepetela (Angola), António Cândido (Brasil), Sophia de Mello Breyner Andresen (Portugal), Autran Dourado (Brasil), Eugénio de Andrade (Portugal), Maria Velho da Costa (Portugal), Rubem Fonseca (Brasil), Agustina Bessa-Luís (Portugal), Lygia Fagundes Telles (Brasil), Luandino Vieira - recusado (Angola), António Lobo Antunes (Portugal), João Ubaldo Ribeiro (Brasil), Arménio Vieira (Cabo Verde), Ferreira Gullar (Brasil), Manuel António Pina (Portugal), Dalton Trevisan (Brasil), Mia Couto (Moçambique), Alberto da Costa e Silva (Brasil), Hélia Correia (Portugal), Radouan Nassar (Brasil), Manuel Alegre (Portugal), Germano Almeida (Cabo Verde), Chico Buarque (Brasil), Vítor de Aguiar e Silva (Portugal), Paulina Chiziane (Moçambique), Silviano Santiago (Brasil), João Barrento (Portugal), Adélia Prado (Brasil), Ana Paula Tavares (Angola), Lídia Jorge (Portugal).

sexta-feira, 19 de junho de 2026

.: Homenagem: escritor Cristovão Tezza leva maior prêmio da ABL


O escritor Cristovão Tezza, autor de "O Filho Eterno", publicado pela Editora Record, é o vencedor do Prêmio Machado de Assis 2026. A premiação, oferecida anualmente pela Academia Brasileira de Letras, destaca o autor pelo conjunto de sua obra. Um dos mais premiados e traduzidos autores brasileiros de sua geração, ele é autor de mais de 20 obras de ficção, entre elas, "O Fotógrafo", "Ensaio da Paixão", "Trapo", "Beatriz" e "Um Erro Emocional", todas da editora Record. “Ainda não caiu a ficha direito, notícia inesperada”, disse Tezza.

Seu maior sucesso, o romance "O Filho Eterno", inspirado em sua relação com o filho Felipe, foi adaptado para cinema (direção de Paulo Machline) e para o teatro (direção de Daniel Herz, no Brasil e na Argentina, com texto adaptado por Bruno Lara Rezende), e recebeu no Brasil os prêmios Jabuti, Portugal-Telecom (atual Oceanos), Zaffari-Bourbon, Bravo!, APCA e São Paulo de Literatura. Tezza também é autor de livros de não-ficção, como "Um Operário em Férias" e "A Máquina de Caminhar", também pela Record.

O prêmio será entregue no dia 23 de julho na cerimônia de comemoração dos 129 anos da ABL. Cristovão Tezza vai receber R$ 100 mil. No mesmo dia, a escritora Eliana Alves Cruz, que está lançando "O Crime do Cais do Valongo", pela Editora Record, vai receber o prêmio Guimarães Rosa pelo melhor livro de ficção de 2025, o romance "Meridiana". Compre os livros de Cristovão Tezza neste link.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

.: Museu da Língua Portuguesa recebe poetas para sarau neste sábado


Ismar Tirelli Neto, Simone Brantes e Ana Martins Marques no Sarau no Museu de junho, sob comando do tradutor e professor Matheus Guménin Barreto. Fotos: Ismar Tirelli Neto (Luiza Sigulem), Simone Brantes (divulgação); Ana Martins Marques (Mauro Figa); Matheus Guménin Barreto (Fred Gustavos) 


O Museu da Língua Portuguesa terá um fim de tarde do próximo sábado, dia 13 de junho, com muita poesia. Nesta data, a partir das 16h00, vai acontecer mais uma edição do Sarau no Museu, com entrada gratuita e microfone aberto para quem quiser participar. Localizado no histórico prédio da Estação da Luz, o Museu, que celebra 20 anos em 2026, é uma instituição da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo.  

Sob comando do poeta, tradutor e professor da USP Matheus Guménin Barreto, o Sarau no Museu de junho receberá três convidados especiais: Ana Martins Marques, Simone BrantesIsmar Tirelli Neto. Eles já têm uma série de livros publicados e reconhecimento em importantes premiações, como a APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) e o Jabuti.  

Mineira de Belo Horizonte, Ana Martins Marques é autora de duas obras que ganharam os prêmios de melhor livro de poesia pela Associação Paulista de Críticos de Arte: "O Livros das Semelhanças" e "Risque Esta Palavra". Simone Brantes é autora dos livros de poemas "Pastilhas Brancas" e "Quase Todas as Noites" - este ganhou o Prêmio Jabuti -, entre outros. Ela também atua como professora de língua portuguesa na educação básica. Autor de "Os Postais Catastróficos e Alguns Dias Violentos", Ismar Tirelli Neto tem textos publicados em jornais como O Globo e Folha de S.Paulo. Ele também ministra oficinas de escrita criativa. 

Além de lerem poemas de suas autorias, Matheus, Ismar, Simone e Ana vão falar sobre processos de escrita, revelar quais são algumas de suas influências artísticas e comentar o momento da poesia contemporânea brasileira. O microfone ficará aberto para quem quiser mostrar a própria arte, e haverá tradução em Libras. Com entrada gratuita, o Sarau ocorre no Pátio B.  


Serviço 
Sarau no Museu com Ana Martins Marques, Simone Brantes e Ismar Tirelli Neto. Mediação de Matheus Guménin Barreto
Sábado, dia 13 de junho, às 16h00
Grátis – com tradução em Libras   
Pátio B 

Museu da Língua Portuguesa
Praça da Luz, s/nº - Luz – Centro histórico de São Paulo

domingo, 7 de junho de 2026

.: Edney Silvestre é o próximo convidado do "Encontro com os Escritores"


No dia 23 de junho, terça-feira, às 19h00, a Universidade do Livro, braço educacional da Fundação Editora da Unesp, em parceria com a Assessoria de Comunicação e Imprensa da Reitoria da Unesp e a Biblioteca Mário de Andrade, promove mais uma edição do programa "Encontro com os Escritores". O convidado do mês é o jornalista e romancista Edney Silvestre, que participa de um debate aberto sobre seu novo livro, "O Último Van Gogh", com mediação do jornalista e crítico Manuel da Costa Pinto.

Publicado pela Globo Livros, o romance de 368 páginas tensiona a história da arte e a desigualdade urbana ao colocar em paralelo o sofrimento final de Vincent van Gogh em Auvers-sur-Oise e a deriva de Igor Brown, jovem que se vê envolvido no roubo de uma pintura do mestre holandês guardada clandestinamente no Rio de Janeiro de 2024. A obra expõe as entranhas do mercado de arte de alto padrão, a invisibilidade social e o crime de colarinho branco sob a atmosfera ágil de um thriller policial.

O bate-papo abordará a arquitetura literária desenvolvida por Silvestre para costurar as duas épocas, as exigências de pesquisa histórica do romance e o papel das artes visuais como motor de suspense na literatura de ficção. Para os profissionais do setor editorial, o encontro traz à tona discussões sobre construção de personagens complexos, ritmo narrativo e a preparação de textos que equilibram rigor factual e apelo comercial. Para participar, basta se inscrever neste link.


Sobre o escritor
Autor do recente romance "O Último Van Gogh", publicado pela Globo Livros, Edney Silvestre é vencedor dos prêmios São Paulo de Literatura e Jabuti de Melhor Romance por "Se Eu Fechar os Olhos Agora", adaptado para minissérie pela Globoplay. O romance "A Felicidade É Fácil" está sendo adaptado para um longa-metragem a ser rodado em São Paulo pela produtora Mixer Filmes. Obras dele foram publicadas na Inglaterra, França, Estados Unidos, Sérvia, Holanda, Itália, Alemanha e Portugal.

Natural de Valença, no estado do Rio de Janeiro, filho de uma operária de fábrica e um dono de armazém, foi correspondente internacional da Rede Globo e do jornal O Globo, de 1992 a 2002. Cobriu os atentados ao World Trade Center, a devastação do Iraque após duas guerras, a visita do Papa a Cuba, voou dentro do furacão Floyd com os Hurricane Chasers, reportou direto do tapete vermelho do Oscar em Hollywood.

Ainda nos Estados Unidos, criou o primeiro programa internacional de entrevistas da GloboNews, o "Milênio", onde apresentou pensadores como Noam Chomsky, Gloria Steinem e Edward Said, autores como Alice Walker, Edward Albee e Salman Rushdie, artistas como Juliette Binoche e Barbra Streisand.

De volta ao Brasil, foi repórter especial do Jornal Nacional e do Globo Repórter. Por 15 anos apresentou o GloboNews Literatura, onde entrevistou o italiano Umberto Eco, o português José Saramago, a sul-africana Nadine Gordimer, o turco Orhan Pamuk, o peruano Mario Vargas Llosa, o nigeriano Wole Soyinka, além de autores brasileiros estreantes e consagrados – Milton Hatoum, Adélia Prado, Ariano Suassuna, Elvira Vigna, Victor Heringer, Ana Maria Gonçalves, Marcelo Moutinho, Lygia Fagundes Telles. Silvestre é autor de quatro livros de jornalismo, inclusive a biografia profissional "Segredos de Um Repórter", e oito de ficção. Compre os livros de Edney Silvestre neste link.


Sobre o mediador
Manuel da Costa Pinto.é jornalista, crítico literário e mestre em teoria literária e literatura comparada pela USP. É autor dos livros "Albert Camus: Um Elogio do Ensaio" (1998), "Literatura Brasileira Hoje" (2004), "Antologia Comentada da Poesia Brasileira do Século 21" (2010) e "Paisagens Interiores e Outros Ensaios" (2012); organizador e tradutor de "A Inteligência e o Cadafalso e Outros Ensaios", de Albert Camus (1998), organizador de "Camus, o Viajante" (2019), com textos sobre o Brasil do escritor francês, e do "Diário Confessional de Oswald de Andrade" (2022). Criador da revista Cult, foi colunista do jornal Folha de S.Paulo (2003-2016) e coordenador editorial do Instituto Moreira Salles. Atuou como curador da FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty) de 2011 e curador da programação literária da Feira do Livro de Frankfurt de 2013, que teve o Brasil como país homenageado. Atualmente, é editor-chefe e apresentador do “Entrelinhas”, programa semanal sobre literatura da TV Cultura, e curador, pelo Brasil, do Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa. Compre os livros de Manuel da Costa Pinto neste link.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

.: Três veredas para "Grande Sertão": livros que celebram 70 anos do clássico


Em 2026, "Grande Sertão: Veredas" completa 70 anos de publicação. Para celebrar a data, a Autêntica Editora lança um projeto especial dedicado à obra do autor, reunindo lançamentos que revisitam o romance, seu processo de criação e sua permanência e reinvenção no imaginário brasileiro. A proposta reúne três livros bastante distintos entre si, mas atravessados pela mesma pergunta: como um clássico permanece vivo? Em comum, as obras mostram que a história de Guimarães Rosa continua sendo uma fonte de releitura e descoberta, capaz de mobilizar leitores, pesquisadores e espectadores. 

Dentre os livros do projeto, "Diário do Grande Sertão", de Bruna Lombardi, livro que recupera os bastidores da adaptação televisiva da obra de Rosa exibida pela Globo nos anos 1980. A partir dos diários escritos durante as gravações, Lombardi apresenta a experiência de interpretar Diadorim enquanto atravessa, junto à equipe, o sertão mineiro em busca de traduzir para as telas o universo roseano. Combinando memória, relato pessoal e making of, o texto foi originalmente incentivado por Caio Fernando Abreu, que viu nos fragmentos escritos por Lombardi um documento não apenas sobre a realização desafiadora de um seriado, mas sobre uma experiência de transformação pessoal possibilitada pela literatura. Quarenta anos depois da primeira publicação, o livro finalmente sai “da maneira como sempre quis”, afirma Bruna, e ganha material inédito, trechos, fotos e desenhos feitos pela autora. Entre o desafio de interpretar um dos personagens mais enigmáticos da literatura brasileira e a adaptação à vida no sertão durante as gravações, Lombardi revela em sua escrita as formas como um clássico pode ser revisitado e vivido.  

Outro destaque é Ítalo Moriconi dá a largada na coleção "Para Ler", dedicada a aproximar o público de autores e obras considerados canônicos ou desafiadores, com um olhar distinto em relação à obra-prima de Rosa. Em "Para Ler 'Grande Sertão: Veredas'", o autor combina diário de leitura e um resumo da trama, para que o leitor não se perca na imensidão da linguagem do escritor mineiro. Em vez de simplificar ou  domesticar o calhamaço, na primeira parte do livro, o crítico literário apresenta sua própria travessia como leitor, compartilhando dificuldades e descobertas. Na segunda metade, Moriconi reconstitui o enredo de Grande sertão, apontando analiticamente os principais conflitos e personagens da narrativa. 

Completa o projeto "Sertão-Veneza: Retornos e Travessias Roseanas", de Jacques Fux. O ensaio investiga a relação entre o universo de Rosa, suas viagens pelo sertão mineiro e sua passagem pela Itália, sobretudo por Veneza. O livro parte da viagem feita pelo escritor à cidade, em 1949, e dos registros deixados em seus diários para discutir de que forma essa experiência aparece transformada em sua literatura. No livro, Fux também recupera o período em que Rosa viveu na Alemanha às vésperas da Segunda Guerra Mundial e discute como as experiências de deslocamento, exílio, memória e travessia atravessam sua obra. O autor brasileiro registrou em seus cadernos de viagem impressões, paisagens, sensações e reminiscências que mais tarde reapareceriam em Grande sertão. 

Sobre os autores
Bruna Lombardi
é poeta, escritora, atriz, roteirista, diretora, produtora e ativista ambiental. Publicou vários livros, entre eles os best-sellers: "No Ritmo Dessa Festa", "Gaia", "O Perigo do Dragão", "Filmes Proibidos", "Jogo da Felicidade" e "Clímax". Desde "No Ritmo Dessa Festa", primeira publicação como autora, com prefácio de Chico Buarque de Holanda, os trabalhos dela receberam excelentes matérias e elogios de grandes escritores e poetas, como Carlos Drummond de Andrade, Mario Quintana, Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector, Ferreira Gullar, Rubem Fonseca, Vinicius de Moraes. Na televisão e no teatro, participou de produções marcantes, como a minissérie "Grande Sertão: Veredas", em que interpretou Diadorim. No cinema, escreveu, produziu e protagonizou filmes como "O Signo da Cidade", "Onde Está a Felicidade?" e "Amor em Sampa". Também criou, roteirizou, produziu e protagonizou a série "A Vida Secreta dos Casais", da HBO, e fundou a Rede Felicidade, plataforma digital voltada ao bem-estar e ao autoconhecimento. Compre os livros de Bruna Lombardi neste link.

Ítalo Moriconi é professor, escritor, curador literário.  Organizador da antologia "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século" (ed. Objetiva), assim como de "Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século", pela mesma editora. Autor da biografia da poeta "Ana Cristina Cesar (O Sangue de Uma Poeta"), organizador das "Cartas de Caio Fernando Abreu", ambos em 2ª. ed. pela e-galaxia).  Outros livros são "Como e Por Que Ler a Poesia Brasileira do Século 20" (2002, Objetiva) "Literatura Meu Fetiche" (2020, Cepe Editora). Entre 2022 e 2024 publicou quinzenalmente uma coluna-diário no Blog Virtual do Pensamento Social (BVPS). Compre os livros de Ítalo Moriconi neste link.

Jacques Fux é escritor, com doutorado em literatura comparada pela UFMG e pela Université de Lille 3. Foi pesquisador na Universidade de Harvard de 2012 a 2014. É autor de 23 livros, entre eles: "Antiterapias", vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura; "Meshugá", vencedor do Prêmio Manaus; Literatura e Matemática, vencedor do Prêmio Capes e finalista do APCA; "O Enigma do infinito", Selo FNLIJ e semifinalista do Prêmio Jabuti; "As Coisas de Que Não Me Lembro, Sou", vencedor do Prêmio FNLIJ e finalista do Prêmio Jabuti; "Nunca Vou Te Perdoar por Você Ter Me Obrigado a Te Esquecer", finalista do Prêmio Jabuti e vencedor do Prêmio Manaus, e "Uma Impostora em Harvard". Sobre João Guimarães Rosa, publicou a biografia para jovens "As Fábulas do Fabuloso Fabulista Joãozito", que recebeu o selo FNLIJ. Seus ensaios, romances e contos já foram publicados na Itália, México, Peru, Israel, Estados Unidos e França. Compre os livros de Jacques Fux neste link.

domingo, 24 de maio de 2026

.: Teatro: Luís Alberto de Abreu revisita memórias e lança coletânea em SP


Dramaturgo participa de palestra e apresenta o livro "Viva o Teatro! E Outras Crônicas", sobre teatro, cultura e memória do ABC paulista. Foto: divulgação


Nesta terça-feira, dia 26 de maio, a Escola Superior de Artes Célia Helena recebe o dramaturgo, roteirista e professor Luís Alberto de Abreu para uma programação que reúne palestra e lançamento editorial. A programação começa com a palestra “A Função Mítica do Stor”, voltada a estudantes do Célia Helena e convidados. No encontro, Abreu discute o papel do ator e do artista na construção do imaginário social e sua presença nas narrativas coletivas. Em seguida, o autor lança o livro "Viva o Teatro! e Outras Crônicas", publicado pela Editora Alpharrabio.

A obra reúne 40 crônicas selecionadas de um conjunto de cerca de 135 textos publicados semanalmente por Abreu no jornal Diário do Grande ABC entre 1995 e 1997. Os textos abordam a produção cultural no ABC paulista, em diálogo com os movimentos sindicais, políticos e com a ampliação do acesso à cultura no período. O livro é dividido em quatro núcleos temáticos sobre arte, cultura, criação e memória. O lançamento dá continuidade à relação editorial entre Abreu e a Alpharrabio, iniciada com A vida crônica (1999) e As artes do ofício: um olhar sobre o ABC (2000), livros escritos pela poeta e gestora cultural Dalila Teles Veras.

 
Sobre o autor
Nascido em São Bernardo do Campo em 1952, Luís Alberto de Abreu atuou na formação de diferentes gerações de artistas no ABC paulista. Foi professor da primeira turma da Escola Livre de Teatro de Santo André, participou da criação da Escola Livre de Cinema e Vídeo da cidade e coordenou iniciativas de formação em dramaturgia. No audiovisual, assinou roteiros de filmes como Kenoma e Narradores de Javé, ambos em parceria com Eliane Caffé. Na televisão, participou das microsséries Hoje é Dia de Maria, A Pedra do Reino, Capitu e da novela Velho Chico.


Serviço
Luís Alberto de Abreu na Célia Helena
Terça-feira, dia 26 de maio
Local: Escola Superior de Artes Célia Helena
Endereço: Av. São Gabriel, 462, Itaim Bibi, São Paulo (SP)

Palestra “A Função Mítica do Ator”
Horário: 19h00 às 20h30
Atividade voltada a estudantes do Célia Helena e convidados

Lançamento de "Viva o Teatro! e Outras Crônicas"
Horário: 20h30 às 22h30

quinta-feira, 14 de maio de 2026

.: Biblioteca Carolina Maria de Jesus faz 21 anos como símbolo de memória viva


Espaço reúne cerca de 14 mil itens bibliográficos e preserva parte fundamental da produção intelectual, artística e histórica negra brasileira. 
Na imagem, manuscrito Carolina Maria de Jesus. Foto: MAB

Em um país onde parte significativa da produção intelectual negra permaneceu historicamente fora dos grandes centros de preservação e pesquisa, a Biblioteca Carolina Maria de Jesus, do Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, instituição da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, gestão Associação Museu Afro Brasil – Organização Social de Cultura (AMAB) , consolidou-se, ao longo de 21 anos, como um dos principais espaços dedicados à memória afrodiaspórica no Brasil.

Inaugurada em 13 de maio de 2005, um ano após a fundação do Museu, a biblioteca nasceu com a missão de ampliar e complementar os acervos museológico e arquivístico da instituição, oferecendo suporte às pesquisas internas e externas relacionadas à história, à arte e à cultura afro-brasileira e africana. Batizada em homenagem à escritora, poetisa, cantora e intelectual Carolina Maria de Jesus, uma das vozes mais importantes da literatura brasileira do século XX, a biblioteca carrega o compromisso de preservar e difundir produções intelectuais negras historicamente invisibilizadas pela narrativa oficial do país.

Atualmente, o espaço abriga aproximadamente 14 mil itens bibliográficos, entre livros, catálogos, obras raras e publicações especializadas em arte africana, arte afro-brasileira, religiosidade de matriz africana, sociologia, história do Brasil e literatura negro-brasileira. O acervo reúne ainda publicações fundamentais para a compreensão da arte negra brasileira e africana, muitas delas pouco acessíveis em bibliotecas tradicionais.

Grande parte das obras dialogam diretamente com a Exposição de Longa Duração concebida por Emanoel Araujo, refletindo o pensamento curatorial e a visão intelectual do fundador da instituição. Entre os destaques do acervo estão os catálogos das exposições realizadas pelo Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, considerados registros fundamentais para a compreensão da produção e da curadoria de arte negra no Brasil.

Mais do que preservar livros e documentos, a Biblioteca Carolina Maria de Jesus ajuda a manter vivo o pensamento de Emanoel Araujo, artista, curador e intelectual responsável por construir um dos mais importantes projetos de valorização da cultura afro-brasileira no mundo. A biblioteca preserva também parte desse legado curatorial, permitindo acompanhar, por meio de livros, catálogos e documentos, a construção intelectual do Museu Afro Brasil Emanoel Araujo.

Ao longo de mais de duas décadas, a Biblioteca Carolina Maria de Jesus consolidou-se como espaço de pesquisa, preservação e valorização da produção intelectual negra. Entre os principais marcos de sua trajetória estão a doação, via comodato, de parte dos manuscritos de Carolina Maria de Jesus; a realização do sarau “Meus Poetas Negros”, idealizado por Oswaldo de Camargo em homenagem póstuma a Emanoel Araujo; e a criação da FLAB – Feira Literária Carolina Maria de Jesus, iniciativa voltada à valorização de editoras independentes e pessoas autoras negras.

A Biblioteca Carolina Maria de Jesus integra ainda a Redarte – Rede de Bibliotecas de Arte do Brasil e recebe pesquisadores, artistas, curadores, estudantes e intelectuais dedicados aos estudos da arte afrodiaspórica no Brasil e no exterior. “A Biblioteca Carolina Maria de Jesus carrega, em sua essência, o legado de Emanoel Araujo e a potência intelectual de Carolina Maria de Jesus. Ao longo de 21 anos, tornou-se um espaço fundamental para pesquisadores, artistas e estudantes interessados em compreender a produção artística, histórica e literária negra no Brasil. Preservar esse acervo é também preservar parte da memória do país”, afirma Jandaraci Araújo, diretora executiva do Museu Afro Brasil Emanoel Araujo.

Atualmente, o espaço passa por um processo de modernização e conservação do acervo por meio do Edital Fomento CULTSP PNAB nº 29/2024 – Manutenção e Modernização de Bibliotecas. A iniciativa prevê melhorias técnicas, incluindo substituição de estantes e instalação de sistema de segurança do acervo, ampliando as condições de preservação e acesso às obras. “Fazer a gestão deste acervo é mergulhar diariamente na história de diversas áreas do conhecimento que se dedicam a estudar e produzir informações sobre arte afrodiaspórica e sobre a história do nosso país. A criação desta biblioteca reflete toda a genialidade de Emanoel Araujo e carrega seu legado ao ser um espaço democrático de estudo, lazer e reflexão sobre negritudes, artes e literatura”, afirma Janaina França de Melo, bibliotecária do Museu Afro Brasil Emanoel Araujo.

Ao completar 21 anos, a Biblioteca Carolina Maria de Jesus reafirma-se como um espaço onde os legados de Carolina Maria de Jesus e Emanoel Araujo seguem em permanente diálogo, preservando memórias, difundindo conhecimento e ampliando o acesso às narrativas negras no Brasil.

Sobre o Museu Afro Brasil Emanoel Araujo
O Museu Afro Brasil Emanoel Araujo é uma instituição da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo administrada pela Associação Museu Afro Brasil – Organização Social de Cultura. Inaugurado em 2004, a partir da coleção particular do seu fundador, Emanoel Araujo (1940-2022), o museu é um espaço de história, memória e arte. Localizado no Pavilhão Padre Manoel da Nóbrega, dentro do mais famoso parque de São Paulo, o Parque Ibirapuera, o Museu Afro Brasil Emanoel Araujo conserva, em cerca de 12 mil m², um acervo museológico com mais de 20 mil obras, apresentando diversos aspectos dos universos culturais africanos e afro-brasileiro e abordando temas como religiosidade, arte e história, a partir das contribuições da população negra para a construção da sociedade brasileira e da cultura nacional. O museu exibe parte deste acervo na exposição de longa duração e realiza exposições temporárias.


Serviço
Biblioteca Carolina Maria de Jesus, no Museu Afro Brasil Emanoel Araujo

Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº – Portão 10 – Parque Ibirapuera – São Paulo/SP
Funcionamento da biblioteca: terça a sexta-feira, das 10h00 às 17h00; sábados, das 10h00 às 14h00
Consulta presencial gratuita
Informações: (11) 3320-8900
Catálogo on-line e outras informações: Biblioteca Carolina Maria de Jesus

quarta-feira, 13 de maio de 2026

.: Café Filosófico CPFL: Marcelino Freire debate o papel do sonho e da literatura


Segunda gravação do módulo que reflete sobre o papel do descanso e da imaginação na vida contemporânea será com o escritor Marcelino Freire, que propõe reflexão sobre relações entre literatura, sonho e a reinvenção do humano. Foto: Denis Maerlant


E se sonhar fosse também uma forma de reinventar o mundo? É a partir dessa provocação que o Café Filosófico CPFL recebe, nesta quinta-feira, dia 14 de maio, às 19h00, o escritor Marcelino Freire. No encontro, ele conduz uma reflexão sobre as relações entre literatura, sonho e a reinvenção do humano. A gravação será transmitida ao vivo pelo YouTube e contará com público presencial na sede do Instituto CPFL, em Campinas, com entrada gratuita.

Depois de uma abertura que recolocou o sonho e o sono no centro do cuidado, não apenas como funções biológicas, mas como dimensões essenciais da experiência humana, o módulo avança agora para a força da palavra literária. É nesse território que criação, memória e transformação se entrelaçam, revelando a imaginação como uma forma ativa de existir e resistir.

Na palestra “Quando o Mundo Volta a Respirar: Literatura, Sonho e a Reinvenção do Humano”, Marcelino Freire atravessa diferentes campos, como a neurociência, a antropologia e a própria literatura para explorar como o sonho participa da construção de memórias, da elaboração das experiências e da abertura de futuros possíveis. 

Ao mesmo tempo, o encontro lança luz sobre práticas simbólicas e narrativas presentes em diversas culturas, entendidas como formas ancestrais de encantamento e de reorganização da vida.“Sonhar não é apenas uma experiência individual. É um processo que reorganiza a memória, regula emoções e, junto aos rituais, sustenta formas coletivas de produzir sentido e imaginar o futuro”, afirma Freire.


Sobre o palestrante
Marcelino Freire, escritor brasileiro, é autor de obras marcantes da literatura contemporânea, como Contos Negreiros, vencedor do Prêmio Jabuti. Com uma trajetória ligada à experimentação literária e à valorização da oralidade, também idealizou projetos como a “Coleção 5 Minutinhos”. Sua produção articula linguagem, crítica social e invenção estética, consolidando-o como uma das vozes mais expressivas da literatura brasileira atual.


Ambiente inspirador de troca e aprendizado
O Café Filosófico CPFL traz uma nova identidade visual e artística, incluindo cenário, para acompanhar a renovação do formato, que passa a ter a nova apresentadora, Tainá Müller, interagindo com os convidados e a plateia. O espaço do Café, na sede do Instituto CPFL, em Campinas, oferece uma atmosfera convidativa e aconchegante, onde cada detalhe é pensado para proporcionar uma experiência prazerosa. É possível tirar fotos em todos os lugares, incluindo o novo cenário. 

O local possui climatização e é acessível a pessoas com deficiência, além de contar com intérpretes de Libras para garantir a participação de todos. Há, ainda, um serviço de alimentação com cardápio de comidas e bebidas para consumo no local. Após a gravação e exibição ao vivo, as palestras ganham uma versão editada que é exibida na TV Cultura, aos domingos, às 20h00 (com reprises às quartas, à 1h00) e, posteriormente, disponibilizadas no YouTube. Os episódios transmitidos pela TV não correspondem necessariamente às gravações feitas durante a semana.


Serviço
Gravação Café Filosófico CPFL, com Marcelino Freire, escritor
Dia 14 de maio, quinta-feira, às 19h00
Instituto CPFL - Rua Jorge Figueiredo Corrêa, 1632 - Chácara Primavera, Campinas/SP
Entrada: gratuita, por ordem de chegada, a partir das 18h00
Participação on-line: canal do Café no YouTube

sábado, 9 de maio de 2026

.: "Ocupação Ruth Rocha" expande o universo da autora que forma gerações


Em mais uma exposição dedicada ao público infantil e aos adultos que beberam da mesma fonte, o Itaú Cultural propõe uma jornada pela vida e obra de uma das maiores autoras da literatura infantojuvenil brasileira. Em 2026, Ruth Rocha comemora 50 anos de trajetória e é celebrada com esta mostra, a reedição de um de seus livros e sendo tema da Mancha Verde no próximo Carnaval. Foto: Andŕe Seiti / Fundação Itaú

 
Todos os dias, às 16h00, o telefone toca na casa de Ruth Rocha, 95 anos. É sua irmã Rilda, 97. Elas se falam para cumprir um ritual: a mais velha lê para a mais nova. A cena simboliza a adoração que ambas têm pelos livros desde pequenas e resume a essência da premiada escritora. Há cinco décadas – desde que publicou "Marcelo, Marmelo, Martelo" (editora Salamandra, 1976), com ilustrações de Adalberto Cornavaca, e "Palavras, Muitas Palavras" (editora Abril, 1976), voltado para a alfabetização –, Ruth dedica a vida a cultivar o gosto pela leitura e o pensamento crítico nas crianças. É disso que trata a "Ocupação Ruth Rocha", que abre neste sábado, dia 9 de maio no Itaú Cultural e permanece em cartaz até 2 de agosto.

Com curadoria e expografia assinadas pela equipe do Itaú Cultural, a mostra não se limita a expor livros. Ela propõe um diálogo entre ontem e hoje em um percurso pautado por descobertas afetivas. O público é guiado pelas diferentes fases da vida e obra da autora entre cores vibrantes, do amarelo-canário ao vermelho-profundo. O conteúdo exposto é projetado na altura dos olhos das crianças e a expografia com colunas de papelão vazadas permite que elas saibam antecipadamente as novidades que as esperam do outro lado.

A exposição se junta a outras comemorações pelos mais de 50 anos de trajetória da autora: a Salamandra, sua editora exclusiva, prepara o lançamento de uma nova edição de Um cantinho só para mim, originalmente publicada em 2005, com textos de Ruth e ilustrações de Ziraldo. Além disso, a escritora também será o tema enredo da escola de samba Mancha Verde no Carnaval de 2027.

“Toda criança do mundo mora no meu coração” é a frase de Ruth estampada em sua fotografia, em uma colagem de personagens que habitam o imaginário de sua obra. Assim a autora recebe todos os públicos na exposição, das crianças aos adultos. Ali mesmo, na parede oposta, o visitante começa a descobrir mais sobre o universo da homenageada, desvendando o primeiro espaço: uma instalação chamada Ruth de A a Z. 

Trata-se de uma composição com 26 módulos de madeira que guardam segredos. Seguindo o abecedário, gavetas e nichos revelam livros originais, monóculos com fotos de família e vídeos que resgatam memórias da autora. O espaço funciona como um dicionário biográfico. Na letra B, de borboleta, por exemplo, está um de seus livros iniciais, Romeu e Julieta, no qual duas borboletas de cores diferentes não podem brincar, em uma alusão lúdica ao racismo. Na letra C, de canto, há um vídeo inédito de Ruth cantando com a filha, Mariana, em dezembro passado. Pulando para a E, de Eduardo, tem uma homenagem ao marido e parceiro de vida, com fotos do casamento de 1956.

Seguindo o percurso, no espaço central estão dois telefones tradicionais. Ao serem retirados do gancho, eles transmitem narrações de histórias de Ruth em sua própria voz. É como se fosse uma extensão do ritual diário entre ela e a irmã. Perto dali uma parede inteira é dedicada ao personagem de Marcelo, marmelo, martelo, exibindo suas diversas faces. Em uma espécie de linha do tempo, é possível acompanhar a evolução dele por meio dos traços de diferentes ilustradores ao longo destas cinco décadas. Há também uma nuvem de ideias, onde crianças podem renomear objetos, inspiradas no menino Marcelo, que passa a vida procurando uma lógica para os nomes das coisas. 

O visitante também encontra as caixas de história. São pequenos mini teatros que contêm cenas montadas de contos da autora, visíveis por uma pequena abertura frontal. Elas são acompanhadas de áudios retirados do álbum Mil pássaros, um projeto da dupla Palavra Cantada em parceria com Ruth. A escritora narra suas próprias histórias com músicas de Sandra Peres e Paulo Tatit. Uma delas é o livro Bom dia, todas as cores!, a história do Camaleão que acorda feliz e resolve se vestir de rosa, sua cor preferida. Ao longo do caminho, ele vai encontrando seus amigos Pernilongo, Sabiá-Laranjeira, Louva-a-Deus e vai mudando de cor para agradá-los, até ficar cansado. É um clássico sobre a importância de ter opinião própria.

Uma rampa conduz para o espaço Ruth para Ler, ambiente que remete a uma biblioteca acolhedora, com tatames e almofadas, convidando pais e filhos a sentarem no chão e lerem juntos. Ali também é exibida a máquina de escrever original de Ruth Rocha e sete cadernos de anotações pessoais, entre fac-símiles e originais, além do acervo completo da autora disponível para manuseio. Em toda a exposição há mapas e objetos táteis posicionados de modo que a obra de Ruth seja explorada pelo toque. Vídeos com interpretação em Libras acompanham os principais núcleos, garantindo que depoimentos da autora e de familiares, amigos e parceiros cheguem a todos os visitantes do Itaú Cultural.


Serviço
"Ocupação Ruth Rocha"
Abertura: 9 de maio de 2026, às 11h
Visitação: até 2 de agosto de 2026
Terças-feiras a sábados, das 11h às 20h, e domingos e feriados das 11h às 19h
Piso térreo
Concepção e realização: Itaú Cultural
Curadoria: Equipe Itaú Cultural
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Projeto de acessibilidade: Equipe Itaú Cultural
 

Itaú Cultural
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sábado, 2 de maio de 2026

.: A obra de Milton Hatoum, o novo imortal da ABL


Romancista, contista, ensaísta, tradutor e professor universitário, Milton Hatoum é um dos principais autores da literatura brasileira contemporânea. Foto: Renato Parada

No último dia 24 de abril, o escritor Milton Hatoum tomou posse como imortal da Academia Brasileira de Letras, assumindo a cadeira 6. Romancista, contista, ensaísta, tradutor e professor universitário, nasceu em Manaus, em 1952. Estreou no romance em 1988, com "Relato de Um Certo Oriente", que ganhou o Prêmio Jabuti de Melhor Romance. Ambientado entre o Oriente e o Amazonas, este retrato é a busca de um mundo perdido, que se reconstrói nas falas alternadas das personagens, ecos longínquos da tradição oral dos narradores orientais.

Em 2000, publicou o romance "Dois Irmãos", eleito o melhor romance brasileiro no período 1990-2005 em pesquisa feita pelos jornais Correio Braziliense e O Estado de Minas. De intensa dramaticidade, o romance ganhou adaptações para televisão e quadrinhos e figura na lista de leituras obrigatórias de diversos vestibulares, como a Fuvest. 

 De lá até aqui, publicou outros títulos, como "Cinzas do Norte", "A Cidade Ilhada" e "Órfãos do Eldorado", no Brasil e em 17 países, todos com uma extensa fortuna crítica e listas de premiações brasileiras e estrangeiras. Com a Companhia das Letras, Milton Hatoum atingiu a marca de mais de 500 mil exemplares vendidos no Brasil. Em 2025, encerrou a trilogia "O Lugar Mais Sombrio", na qual dramas familiares se entrelaçam à história da ditadura militar. Juntos, "A Noite da Espera", "Pontos de Fuga" e "Dança de Enganos" nos fazem a pergunta-chave de toda ficção que remonta o passado: a memória, afinal, escolhe o que ela esquece?

Em sua literatura, Hatoum pensa a casa, a identidade e a família como coisas que se espraiam no espaço geográfico, prontos para se tornarem metáforas das ruínas e da passagem do tempo. Se o desejo ou a viagem levam as personagens a transpor as barreiras da infância e da moral, estes mesmos elementos, mais cedo ou mais tarde, recaem sobre os heróis como uma fatalidade que os traz de volta a um centro imóvel: "para onde vou, Manaus me persegue".

Se nos romances os personagens de Milton Hatoum tentam reconstruir os cacos do passado, o autor também escreve ora como testemunha, ora como quem ouviu e guardou, mudo, as histórias dos outros. Agora imortal, o escritor eterniza com ele a cidade, o rio e todas as metáforas das ruínas e da passagem do tempo.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

.: Entre "O Pai, a Faca e o Beijo", Thiago Sobral escreve o romance da omissão


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico cultural, especial para o portal Resenhando.com

Há romances que não se contentam em apenas contar uma história. Eles cutucam, provocam, obrigam o leitor a encarar a vida de uma maneira mais pragmática. "O Pai, a Faca e o Beijo", de Thiago Sobral, é um desses livros que estabelece uma relação de gato e rato com o leitor justamente porque não entrega facilmente o que ele quer. A cada página desse excelente livro de estreia, publicado pela Editora Patuá, a sensação é de se estar diante de uma tragédia anunciada - e, ao mesmo tempo, a de testemunhar um beijo negado, ou acompanhar a trajetória daqueles que se suicidam em vida.

O romance gira em torno de Santiago e Davi, o “Pirueta”. À primeira vista, parece uma história simples: dois homens tentando se aproximar, ainda que cercados por obstáculos, o principal deles é o embate com um pai que faz o que faz para proteger o filho da maledicência de uma cidade pequena. Mas Sobral não entrega um romance de amor no molde previsível. Em vez disso, o autor cria um campo de batalha em que as palavras são mal-entendidas, cada gesto se converte em desentendimentos e cada omissão para evitar o confronto carrega mais peso do que qualquer briga consumada. 

Santiago é o retrato da desesperança: um jovem que parece já ter desistido de si mesmo. Ele também é um paradoxo ambulante: homossexual e homofóbico, negro e racista, puritano e promíscuo, apaixonado e cruel, detestável e vítima das circunstâncias. O protagonista despeja todo tipo de chorume verbal, na fala e nos pensamentos, e ainda assim o leitor insiste em torcer por ele, como se a esperança de redenção pudesse surgir exatamente de quem mais nega a própria possibilidade de mudança e, sobretudo, de ser feliz.

Esse jogo perverso de expectativas é uma das forças do livro. Thiago Sobral não oferece personagens fáceis, mas desafia o leitor a se apegar a eles mesmo assim, como quem insiste em cuidar de uma planta que já nasceu murcha. Essa insistência faz parte da experiência da leitura desse livro: torcer pelo impossível. Mas não são apenas Santiago e Davi que sustentam o enredo de personagens carismáticos e fortes. 

Ao redor deles, um coro de personagens secundários amplia a sensação de claustrofobia emocional. A mãe, apresentada como doce e pilar da família, falha justamente por se omitir - a bondade dela é uma forma de covardia. O padre, que poderia ser refúgio espiritual, é ao mesmo tempo hipócrita e humano até demais, pois também revela-se incapaz de escapar dos dilemas dele. E Severo, o pai opressor e antagonista do próprio filho, representa a insatisfação destilada em cada atitude controversa. 

A falta de conciliação é a espinha dorsal de um livro que se constrói sobre a falha, a omissão e a impossibilidade. Cada gesto que poderia resolver é adiado e cada fala que poderia curar é engolida em um universo onde ninguém é de ninguém e todos se rejeitam o tempo todo. A escrita de Thiago Sobral é impregnada de fé, que no livro não aparece como dogma, muito menos como consolo. O autor, ex-seminarista, sabe quando a religião aperta e escreve sobre espiritualidade sem devoção cega, nem medo de expor as contradições de um universo que insiste em pregar amor enquanto ignora conflitos que poderiam ser resolvidos com uma fala mais incisiva. É uma literatura de coragem porque não teme nomear a ferida.

A influência de Machado de Assis é visível. Não se trata de copiar estilo do Bruxo do Cosme Velho, mas de herdar a ironia fina, a capacidade de desmontar o humano pela sutileza, o gosto pelo pessimismo elegante. Thiago Sobral parece olhar para os personagens que ele cria com a mesma frieza do autor de "Dom Casmurro" diante de Bentinho e Capitu: sem absolvições fáceis e muito menos recorrer ao melodrama.

Curiosamente, a leitura também evoca o cinema. Como no clássico "Casablanca", há uma sensação de destino interrompido, de que os protagonistas sempre carregarão um espaço vazio, um amor não realizado, um “barraco” abandonado em Cubatão, cidade que é cenário de toda essa história, e que traz o peso de uma geografia real para dentro do mito da separação eterna."O Pai, a Faca e o Beijo" é uma ode à liberdade, que nasce do confronto com o que se tentou calar. 

É a liberdade que pode ser percebida nos escombros, no beijo interdito, no pai irredutível e violento, no filho em fuga, naquilo que se faz escondido e no que se varre para baixo do tapete. Não é exagero dizer que também é um soco no estômago. Não há catarse porque não há reconciliação, e talvez esteja aí a ousadia maior do livro: recusar ao leitor a ilusão de que a vida sempre encontra um jeito. Compre o livro "O Pai, a Faca e o Beijo", de Thiago Sobral, neste link.

domingo, 5 de abril de 2026

.: Bruna Martiolli rejeita a leitura superficial e reafirma força da literatura


Bruna Martiolli revisita a própria formação como leitora, atravessa perdas e questiona o papel da literatura em um tempo que acelera tudo — inclusive a leitura. Imagem a partir de uma foto do acervo pessoal da autora, modificada por IA

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.

É tempo de morangos e a conversa com Bruna Martiolli começa antes da primeira pergunta. Passa por estantes, algoritmos e histórias que não cabem em qualquer postagem. Entre uma lembrança de infância e outra, aparecem "A Hora da Estrela", Clarice Lispector, Elena Ferrante, José Saramago, Lygia Fagundes Telles, Eça de Queiroz e Lima Barreto como presença contínua na vida de quem aprendeu cedo a ler o mundo pelos livros e, mais tarde, a desconfiar deles também.

Escritora, podcaster, professora e doutoranda, acompanhada por centenas de milhares de leitores nas redes sociais, ela estreia com o livro "É Tempo de Morangos - Reflexões Sobre Livros", publicado pela Editora Intrínseca, sem organizar a própria trajetória em linha reta. As memórias aparecem acompanhadas de leituras, mudanças de rota e perdas que ainda não se acomodaram. Bruna prefere ficar numa literatura que desestabiliza, erra junto, volta atrás e continua insistindo. Em entrevista exclusiva ao portal Resenhando.com, ela retoma esse percurso em primeira pessoa, entre livros, escolhas e aquilo que ficou pelo caminho. Compre o livro "É Tempo de Morangos", de Bruna Martiolli, neste link.

Resenhando.com - Você foi uma criança que brincava de dar aulas para suas bonecas. Em sua trajetória, os livros se tornaram não só companheiros, mas guias. Como você enxerga esse movimento de infância para a maturidade literária?
Bruna Martiolli - Sinto que esse movimento foi menos uma ruptura e mais um desdobramento natural, já existia ali um desejo muito genuíno de entender o mundo, as relações, as pessoas sobretudo. Os livros entraram nesse cenário quase como aliados silenciosos. Na vida adulta a leitura deixou de ser apenas uma atividade prazerosa e passou a ser uma ferramenta de investigação. 


O que aconteceu entre esses dois momentos para que a leitura se transformasse em uma ferramenta tão poderosa para você?
Bruna Martiolli - Eu comecei a ler para compreender as pessoas, os conflitos, os silêncios e as contradições, inclusive as minhas. No fundo, acho que não sou muito diferente daquela criança que ensinava as suas bonecas, a diferença é que hoje entendo que, antes de ensinar, estou sempre aprendendo a ler o mundo.


Resenhando.com - O título do seu livro, "É Tempo de Morangos", evoca um tempo mais doce e nostálgico. Mas, ao mesmo tempo, a literatura que você aborda traz à tona reflexões profundas e dolorosas. Qual é a relação entre esses dois tempos na sua obra? 
Bruna Martiolli - O título vem da última frase da “A Hora da Estrela” da Clarice, não posso explicar abertamente pois seria o maior spoiler sobre a Macabéa (protagonista do livro), mas, eu vejo esses dois tempos não como opostos, mas como camadas que coexistem. Existe ali uma nostalgia, sim, mas é mais um convite a lembrar que a vida é feita de instantes, fases, ciclos, mas que ela acaba e  por isso é preciso viver os morangos, viver cada fase. Porque viver e, principalmente, olhar com atenção para a vida inevitavelmente nos coloca diante das complexidades, das dores, das ausências, das perguntas que não têm resposta fácil. 

O que significa para você “morar” entre os morangos e as complexidades da vida?
Bruna Martiolli - “Morar” entre os morangos e as complexidades é, para mim, um exercício de equilíbrio e de honestidade. É entender que a doçura não anula a dor, e que a dor também não invalida a beleza. Eu não acredito em uma literatura que romantiza a vida a ponto de apagá-la, mas também não me interessa uma escrita que se fixa apenas no peso das coisas. O que me move é justamente esse "entrelugar" da Clarice, há sensibilidade suficiente para perceber o que é leve, mas também coragem para sustentar o que é difícil. Acho que os morangos me devolveram à vida, me ensinaram a aceitar que posso estar vivendo um momento bonito enquanto ainda carrego algo que dói. Eu amei o lançamento do livro no Rio e em São Paulo, principalmente por ter conseguido estar o máximo possível com as pessoas que amo. Mas ainda assim existe uma sensação de incompletude: a ausência da minha avó ali também doeu e é essa a vida que vou ter pra sempre.


Resenhando.com - Você fala da importância da literatura em momentos de desamparo, como foi no seu caso. Em tempos de crise, como o que todos estão vivendo, a literatura pode ser a cura ou só um paliativo? 
Bruna Martiolli - Eu não sei se a literatura pode ser chamada de cura, e talvez a Martha Nussbaum me ajude a sustentar isso. Quando ela fala da importância das emoções na vida ética, ela não está dizendo que a arte resolve a dor, mas que ela nos educa sensivelmente para lidar com ela. A literatura, não elimina o sofrimento, mas amplia a nossa capacidade de compreendê-lo, de nomeá-lo, de reconhecê-lo no outro.


Qual é o papel da ficção no enfrentamento das nossas angústias contemporâneas?
Bruna Martiolli - A ficção, muitas vezes, abre espaço para vozes que foram historicamente silenciadas e, ao fazer isso, desloca o nosso olhar. Em tempos de crise, isso é fundamental, porque nos tira de uma experiência isolada da dor e nos coloca em relação. Então talvez a literatura não seja cura no sentido de apagar a angústia, nem apenas um paliativo que anestesia. Ela é uma forma de resistência num mundo que frequentemente simplifica, acelera e silencia o ser humano. A ficção nos obriga a demorar, a escutar, a sustentar ambiguidades,  e isso muda a forma como habitamos e sentimos a vida. No meu caso, foi exatamente isso: a literatura não me salvou da dor, mas me deu condições de não me perder completamente dentro dela.


Resenhando.com - Clarice Lispector e Elena Ferrante foram influências marcantes na sua vida. Mas, se você pudesse resgatar um autor que considera fundamental para a sua formação literária e que talvez não tenha sido mencionado em suas reflexões, quem seria?
Bruna Martiolli - Tem um nome muito fundamental e que nem sempre aparece quando falo das minhas influências, eu diria Lima Barreto. A escrita dele tem uma urgência crítica, quase incômoda, que desmonta ilusões sobre o nosso país, sobre as nossas instituições e sobre a própria ideia de progresso. No "Triste Fim de Policarpo Quaresma" ele expõe o abismo entre o ideal e a realidade brasileira com uma ironia que ainda hoje é perturbadora. Lima me ensinou a encarar a estrutura  histórica, racial e política que molda as nossas experiências.


Resenhando.com - Você traz uma relação íntima com a literatura de língua portuguesa, mas também abre espaço para reflexões sobre como ela pode estar sendo negligenciada, principalmente pelos jovens que consomem literatura através de plataformas como o BookTok. Qual é o risco que se corre ao não valorizar mais a literatura nacional em favor de tendências globais e rápidas?
Bruna Martiolli - Eu me baseio nisso pelo olhar sensível que Alfredo Bosi tinha para a literatura como forma de consciência histórica e digo que o risco é profundamente cultural. Quando a literatura de língua portuguesa passa a ser deixada de lado em favor de tendências globais rápidas, como as que circulam no BookTok, a gente não está só trocando um tipo de leitura por outro. A gente está, aos poucos, enfraquecendo a nossa própria capacidade de nos reconhecer enquanto sujeitos históricos, sociais e afetivos num país que fala a língua portuguesa. Bosi sempre defendeu que a literatura é uma forma de memória viva. Ela não é só entretenimento: ela carrega conflitos, linguagem, identidade, modos de ver o mundo. Quando o jovem leitor deixa de acessar autores nacionais, ele perde contato com experiências que dialogam diretamente com a realidade dele, seja ela urbana, periférica, rural, atravessada por desigualdades ou por afetos muito específicos do nosso contexto. O problema das tendências globais e rápidas não está necessariamente na sua existência, mas na lógica de consumo que as sustenta. Inclusive, eu também as leio e, gostando ou não, formo minhas próprias opiniões. São leituras frequentemente mediadas por algoritmos, por modas passageiras e por uma estética da velocidade que não favorece a profundidade. Isso acaba formando um leitor que consome mais do que elabora, que atravessa os textos sem, de fato, ser transformado por eles. E é aí que reside o maior risco: a formação de uma relação superficial com a leitura. Sem o contato com obras mais densas da literatura nacional, o leitor pode perder a oportunidade de desenvolver um olhar crítico mais refinado sobre as próprias vivências, além de uma sensibilidade mais complexa para a linguagem e para a realidade. Valorizar a literatura de língua portuguesa, dos nove países que falam a língua portuguesa, não é um gesto de resistência vazia ou de nacionalismo simplista porque “tô a fim”. É, na verdade, um modo de preservar a nossa capacidade de pensar a partir de nós mesmos. Porque, no fim, quando a gente abandona essas vozes, a gente também corre o risco de se tornar estrangeiro dentro da própria cultura.


Resenhando.com - Na sua obra, há uma relação direta entre livros e transformações de vida, como no caso da sua mudança para Portugal. Quais livros você recomenda para quem está passando por uma transição significativa, seja pessoal ou profissional?
Bruna Martiolli - Um livro que eu destacaria, sem dúvida, é "Sodade", da Ana da Cunha. É uma obra muito recente, mas que já nasce com essa força de tocar em algo muito íntimo: a sensação de ausência, de deslocamento, de viver entre lugares. O que me atravessa ali é a maneira como a saudade deixa de ser só um sentimento e vira quase uma estrutura de vida. Para quem está em transição, esse livro não oferece respostas fáceis, e isso é essencial, mas legitima o desconforto, a ambivalência, a incompletude. E, talvez trazendo mais para perto da nossa tradição, eu lembraria de "Dois Irmãos", do Milton Hatoum, que toca em questões de origem, memória e pertencimento dentro de um contexto marcado por heranças migratórias. É um livro que fala muito sobre como carregamos nossos lugares dentro da gente, mesmo quando tudo muda ao redor.


Resenhando.com - Você menciona como a "Tetralogia Napolitana" de Elena Ferrante se tornou dolorosa após o esmorecimento de uma grande amizade. A literatura tem o poder de refletir as vivências, mas até que ponto a ficção é uma extensão da realidade ou um escape dela? 
Bruna Martiolli - Eu acho que a literatura nunca é só uma coisa ou outra, ela não é puramente espelho, nem puramente fuga. Quando li a "Tetralogia Napolitana", não foi nada confortável, abandonei a cadeira na faculdade e fugi mesmo, não era momento. A ficção, pra mim, funciona como uma espécie de lente que me faz ver melhor e vendo melhor reorganiza o que já existe dentro da gente. Às vezes ela amplia, às vezes distorce, às vezes ilumina coisas que estavam ali, quietas, esperando uma linguagem. 


Resenhando.com - Você já se deparou com momentos em que a literatura também a traiu, revelando mais do que você gostaria?
Bruna Martiolli - Sim, já senti que a literatura me traiu. Mas não no sentido de enganar, no sentido de expor. De colocar em palavras algo que eu ainda não tinha coragem de formular. É como se o texto dissesse: “olha, é isso aqui que você tá sentindo”, antes de estar pronta pra admitir. E aí não tem mais como fingir que não viu. Respondendo melhor: a vida trai mais do que a literatura, prefiro ela.


Resenhando.com - A literatura sempre teve papel central na sua vida, mas você também compartilha esse amor com uma grande audiência através das redes sociais e seu podcast "É Tempo de Morangos". Como você equilibra a pressão da visibilidade pública com a intimidade da sua escrita, que é, em essência, tão pessoal?
Bruna Martiolli - Eu sou filha única e vivo uma solidão que, apesar de boa, às vezes até assusta. A internet, pra mim, nunca foi sobre números, sempre foi sobre pessoas que, infelizmente, eu nunca esbarrei na vida. Tive poucas amigas que gostavam de ler, e acho que virei professora muito por essa necessidade de continuar falando sobre livros, de não deixar essa conversa morrer. Eu devo muito a eles: a vida que levo hoje, bem vivida, gostosa, calma, passa diretamente pela literatura. E eu nunca pensei “vou postar sobre livros nas redes sociais”. Eu falo de literatura onde eu estiver, na internet ou fora dela. Não existe uma separação tão rígida pra mim. Quando paro pra pensar no número de ouvintes, fico triste. Não quero saber quantas pessoas estão ali, isso é uma grande ilusão da nossa geração, o que me importa é ouvir essas pessoas. É por isso que gosto tanto dos comentários: é ali que descubro o que gostam, onde moram, vejo suas fotos, seus cabelos, suas famílias. As pessoas. Eu gosto de livros, mas gosto muito de gente. E a internet é só o que me aproxima delas. No fundo, não acho que o que eu digo seja pessoal. Pessoal, pra mim, é quem ouve, quem escolhe me dar um pedaço do próprio tempo de vida.


Resenhando.com - Se a literatura fosse uma pessoa, como você a descreveria em termos de identidade? Ela seria amiga, amante ou uma figura de autoridade?
Bruna Martiolli - A literatura é a formiga e ao mesmo tempo a cigarra. É o gato de Cheshire e a Alice, a literatura é a dúvida. É amiga e, ao mesmo tempo, é uma figura de autoridade. É uma pessoa, mas é aquela ideia do Fernando Pessoa de que em um cabem mil. 


Resenhando.com - Você defende a ideia de que a boa literatura não precisa agradar à primeira vista. No entanto, as redes sociais e plataformas como o BookTok são movidas por emoções rápidas e “recompensas instantâneas”. Como é possível reconstruir um espaço literário que valorize o tempo de amadurecimento, sem se perder nas urgências da era digital?
Bruna Martiolli - Eu não acho que seja uma questão de disputar com a lógica das redes, porque a literatura nunca funcionou no tempo da pressa, e talvez nem deva tentar funcionar. O que dá pra fazer é criar pequenos desvios dentro desse fluxo. As redes sociais, operam muito pela reação imediata, pelo entusiasmo rápido, pela necessidade de sentir algo agora e isso não é necessariamente um problema, é só uma linguagem diferente. O risco está quando a gente começa a confundir intensidade com profundidade, como se o impacto imediato fosse o único critério de valor. Mas, reconstruir um espaço literário mais paciente, pra mim, passa por insistir em outras formas de presença. Falar de um livro que não “funcionou” de primeira, revisitar uma leitura depois de um tempo, admitir silêncios, dúvidas, mudanças de opinião. Mostrar que a experiência literária também é feita de demora, de estranhamento, de algo que vai se abrindo aos poucos. E, principalmente, confiar que existe gente disposta a isso. Porque existe. Nem todo mundo está buscando recompensa instantânea o tempo todo, muitas pessoas só não encontram com frequência espaços que legitimem esse outro ritmo. Acho que não se trata de desacelerar a internet inteira, o que seria impossível, mas de sustentar, dentro dela, um outro tempo. Um tempo em que o livro não precisa agradar de imediato para permanecer porque ele pode incomodar, escapar, e ainda assim continuar trabalhando em quem lê.

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