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domingo, 19 de abril de 2026

.: As "Antologias Mínimas" de Fernando Pessoa, lançadas pela Tinta-da-China


Organizadas por Jerónimo Pizarro, a novidade da Coleção Pessoa da editora Tinta-da-China Brasil inclui dois livros de bolso e uma caderneta mínima para o leitor escrever sua própria antologia

No dia 5 de maio celebra-se o Dia Mundial da Língua Portuguesa — e Fernando Pessoa, maior elo literário entre Portugal e o mundo contemporâneo, é um dos nomes que conferem peso e sentido à comemoração. Pessoa publicou pouco em vida, mas deixou uma quantidade gigantesca de textos em verso e prosa que foram e seguem sendo organizados, editados e lançados graças ao trabalho paciente dos estudiosos e a novas descobertas que vieram a público a partir de seu espólio continuamente revisitado.

É desse movimento que nascem as "Antologias Mínimas: Prosa e Poesia", publicadas pela Tinta-da-China Brasil e organizadas por Jerónimo Pizarro, o maior especialista nos manuscritos do escritor português e o responsável pela Coleção Pessoa na editora no Brasil e em Portugal. Com uma seleção significativa e enxuta de sua poesia e uma coletânea reveladora de sua prosa, o lançamento promove um encontro completo com Pessoa. Os volumes estão disponíveis separadamente e também em kit especial, que tem como brinde uma caderneta para estimular o leitor a criar sua própria antologia mínima.

Em formato de bolso e com grafia atualizada, as Antologias mínimas reforçam o projeto da casa editorial de trazer ao público edições caprichadas da obra pessoana, enriquecidas com fotografias e fac-símiles, além de materiais inéditos.  Só em 2025, por exemplo, quando se completaram noventa anos da morte de Pessoa, a coleção dirigida por Pizarro  ganhou dois títulos importantes - "Cartas de Amor" e "Obra Completa de Ricardo Reis" - somando-se a outros, como "Livro do Desassossego", "136 Pessoas de Pessoa", "Obra Completa de Álvaro de Campos" e "Obra Completa de Alberto Caeiro". Nas palavras do organizador da coleção: “Pessoa sempre foi pessoas e cada vez mais. Quão crescentemente múltiplo não será...”Compre as "Antologias Mínimas: Prosa e Poesia", de Fernando Pessoa, neste link.


"Antologia Mínima: Poesia"
Durante décadas, muitos dos poemas de Pessoa ficaram dispersos em arquivos ou soterrados entre papéis ainda por decifrar, o que tornava quase impossível propor uma seleção abrangente. Antologia mínima: poesia surge agora não como uma coletânea definitiva, mas como uma contribuição para o diálogo constante que se estabelece, geração após geração, entre os versos de Pessoa e seus leitores.

É complexa a tarefa de selecionar poemas de um autor que se desdobrou em vozes e heterônimos. Pessoa deixou planos editoriais, listas e projetos, mas também uma infinidade de versões e manuscritos que demandam escolhas delicadas. Optar por um texto em detrimento de outro, decidir entre variantes, incluir ou excluir determinados poemas — tudo isso faz parte do trabalho silencioso de quem edita. Ao lado dos textos, esta antologia apresenta fac-símiles que revelam detalhes preciosos: notas marginais ou até outros escritos que dividem o mesmo papel. É uma forma de partilhar o gosto pelo arquivo e de mostrar ao leitor os bastidores da obra.

O livro se divide em cinco partes. Na primeira, há poemas assinados pelo próprio Pessoa, enquanto a segunda, a terceira e a quarta são reservadas à poesia de seus três heterônimos principais: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. A última parte da antologia inclui poemas assinados por autores fictícios, ou seja, uma pequena amostra dos mais de cem nomes inventados por Pessoa, como Dr. Pancrácio, Vicente Guedes, Charles Robert Anon, Alexander Search e Joaquim Moura-Costa.

Mais do que uma simples reunião de poemas, "Antologia Mínima: Poesia" é um convite à leitura para públicos diversos, tanto para quem deseja um primeiro contato com a poesia pessoana quanto para os que já a conhecem e desejam redescobri-la sob novos ângulos. É também uma chamada aos estudantes e aos “amadores” da poesia, no sentido mais nobre da palavra: aqueles que se deixam surpreender e que continuam a aprender e se admirar com cada verso.

Assim, esta antologia se inscreve numa tradição de leituras e releituras que jamais se esgotam. Pessoa foi sempre múltiplo, e cada nova seleta confirma sua incessante capacidade de reinvenção. Entre poemas consagrados — como “Autopsicografia” e “Ode marítima” — e joias menos difundidas, o leitor encontrará um testemunho da riqueza e da pluralidade de um dos maiores poetas do século XX.


"Antologia Mínima: Prosa"
Fernando Pessoa é celebrado especialmente como poeta, mas a maior parte de seu espólio está em prosa — e a Tinta-da-China Brasil traz um panorama dessa produção menos visível em Antologia mínima: prosa. Além de ficções breves e de excertos do incontornável Livro do desassossego, a seleção reúne escritos sociopolíticos, filosóficos, esotéricos, epistolares e teóricos, somando-se ainda notas e apontamentos que revelam um pensamento em constante atividade. Pessoa se aventurou também fora dos limites de sua língua nativa, escrevendo textos em inglês e francês que aqui são acompanhados de tradução. 

Reunir em antologia esse material vasto e heterogêneo significa lidar com escolhas nem sempre fáceis, em meio a versões múltiplas, fragmentos que se repetem e esboços que depois se desenvolvem em escritos mais longos. O resultado é inevitavelmente parcial, mas também revelador: cada seleção abre novas possibilidades de leitura e redescoberta.

"Antologia Mínima: Prosa" também se divide em cinco partes: a primeira é reservada a textos assinados pelo próprio Pessoa, enquanto a segunda, a terceira e a quarta contêm material dos três heterônimos mais conhecidos do escritor. A quinta parte, intitulada “E outros”, destina-se a produções textuais atribuídas a alguns dos tantos nomes inventados por Pessoa — como Horace James Faber, Charles Robert Anon, Jean Seul de Méluret, Sr. Pantaleão e Raphael Baldaya — que, embora não tenham alcançado o status de heterônimos, ganharam existência literária por meio daquilo que supostamente escreveram.

Entre os textos escolhidos por Pizarro estão páginas conhecidas, como a carta a Adolfo Casais Monteiro sobre a origem dos heterônimos, mas também peças mais leves e divertidas — aforismos, contos, cartas a Ofélia — e algumas preciosidades que podem surpreender até leitores experientes, como a hilariante “Crônica Decorativa”.

Há espaço também para a própria reflexão de Pessoa sobre os limites entre poesia e prosa. Em textos críticos e teóricos, o autor discute as diferenças entre as duas formas da palavra escrita, ora aproximando-as, ora sublinhando suas especificidades. Essa dimensão metalinguística aponta a natureza experimental da obra pessoana e mostra como o escritor se pensava tanto poeta quanto prosador. Nas palavras de Pizarro no prefácio da edição, “se há mais antologias de sua obra em verso do que da sua obra em prosa é simplesmente porque os críticos costumam privilegiar os poetas em detrimento dos prosadores”.

Sem a pretensão de delimitar um corpus definitivo, "Antologia Mínima: Prosa" é um convite à descoberta. Ao lado de textos consagrados, o livro apresenta páginas que permitem “desaprender Pessoa”, para citar Alberto Caeiro, e reencontrar sua obra com o frescor da primeira leitura.


Fernando Pessoa
Fernando Pessoa (1888‑1935)
é hoje o principal elo literário de Portugal com o mundo. Sua obra em verso e em prosa é a mais plural que se possa imaginar, pois tem múltiplas facetas, materializa inúmeros interesses e representa um autêntico patrimônio coletivo: do autor, das diversas figuras autorais inventadas por ele e dos leitores. Algumas dessas personagens - Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos - Pessoa denominou “heterônimos”, reservando a designação de “ortônimo” para si próprio. Diretor e colaborador de várias revistas literárias, autor do "Livro do Desassossego" e, no dia a dia, “correspondente estrangeiro em casas comerciais”, Pessoa deixou uma obra universal em três línguas que continua a ser editada e estudada desde que escreveu, antes de morrer, em Lisboa, “I know not what tomorrow will bring” [“Não sei o que o amanhã trará”].


Jerónimo Pizarro
Professor, tradutor, crítico e editor, Jerónimo Pizarro é o responsável pela maior parte das novas edições e novas séries de textos de Fernando Pessoa publicadas em Portugal desde 2006. Professor da Universidade dos Andes, titular da Cátedra de Estudos Portugueses do Instituto Camões na Colômbia e prêmio Eduardo Lourenço (2013), Pizarro voltou a abrir as arcas pessoanas e redescobriu a “biblioteca particular de Fernando Pessoa”, para utilizar o título de um dos livros da sua bibliografia. Foi o comissário da visita de Portugal à Feira Internacional do Livro de Bogotá (Filbo) e à Festa do Livro e da Cultura de Medellín, e coordena há vários anos a visita de escritores de língua portuguesa à Colômbia. Coeditor da revista Pessoa Plural, assíduo organizador de colóquios e exposições, dirige atualmente a Coleção Pessoa na Tinta‑da‑China no Brasil e em Portugal.


Sobre a Tinta-da-China Brasil
A Tinta-da-China Brasil foi fundada em 2012, no Rio de Janeiro, por Bárbara Bulhosa, para trazer ao país a excelência da casa fundada em 2005 em Lisboa. Em 2022, a editora brasileira passou para os cuidados da Associação Quatro Cinco Um, em São Paulo, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, que deu prosseguimento ao projeto editorial, concentrado nos eixos de literatura, história e ciência, com desvios pelo humor, jornalismo, quadrinhos e crítica literária.

domingo, 12 de abril de 2026

.: "A Parteira Pariu a Repórter" conta histórias de repórter que marcou tempo


Vladimir Herzog, Geraldo Vandré e princesa Diana são alguns dos nomes que passaram pela vida marcante de Ana Maria Cavalcanti, que ela compartilha nesse livro de memórias

Quando a gente termina de ler "A Parteira Pariu a Repórter", da jornalista Ana Maria Cavalcanti, fica a certeza de que a autora teve uma experiência profissional, no Brasil e na Inglaterra, das mais ricas e fascinantes. O livro, publicado pela Editora Labrador, tem a ousadia como característica fundamental para profissionais da reportagem. Desde o início, essa brasileira, com cidadania britânica, entendeu muito bem isso. Corajosa, ousou em cada trabalho que fez. E a recompensa veio na forma de reconhecimento: ganhou dois prêmios Vladimir Herzog, outros dois prêmios da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) pelos documentários "Cinco Anos de Aids", que também recebeu menção honrosa no festival de Cinema e Vídeo de Cuba, e "Avenida Ipiranga".

O grande mestre no jornalismo dela, Vladimir Herzog, com quem trabalhou na TV Cultura, acabou entrando para a História como um mártir da ditadura militar. Vlado era chefe de redação do Hora da Notícia, o telejornal diário da emissora. Um dia recebeu intimação para depor. Entrou no quartel e de lá saiu sem vida. Foi assassinado durante o interrogatório. No livro, Ana Maria conta detalhes de sua amizade com Vlado. E de como conheceu o jornalista Ingo Ostrovsky, colega de trabalho na Cultura, pai de seu filho, Fernando. Ficaram tão amigos que Herzog foi padrinho de casamento dos dois. Compre o livro "A Parteira Pariu a Repórter", de Ana Maria Cavalcanti, neste link.


Morte da Princesa Diana
Novamente, Ana Maria decidiu largar tudo em São Paulo, e foi viver em Londres em 1994. Já havia morado lá. Assim que chegou, começou a trabalhar para a BBC. Só saiu da emissora dez anos depois, para retornar ao Brasil. No começo, atuou como “freelancer.” Tempos depois, foi contratada como Editora de Cultura. Entre os muitos eventos importantes que cobriu na Inglaterra, está a morte trágica da Princesa Diana, num túnel em Paris, juntamente com o namorado Dodi Al Fayed, em agosto de 1997.

Durante uma semana, a Inglaterra parou. O desaparecimento repentino da linda princesa, aos 36 anos, desencadeou uma onda de profunda tristeza no país. Homens, velhos, mulheres e crianças manifestavam abertamente seus sentimentos pelas ruas. Toneladas de buquês de flores mudaram a paisagem na frente do Palácio de Kensington, onde Diana morava. Os canais de TV passaram a ostentar uma faixa em sinal de luto. Era o único assunto no país, em transe, naqueles dias. A autora cobriu tudo. Por isso, faz no livro um relato tão completo dessa tragédia.


Como Geraldo Vandré escapuliu
Muito antes de se lançar no jornalismo, Ana Maria, naquele tempo, uma das pouquíssimas mulheres a frequentar as aulas do curso de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas, se envolveu com um homem famoso, que também faz parte da nossa História e teve enorme impacto na vida dela (são amigos até hoje).

Geraldo Vandré fez uma palestra na FGV e se insinuou para aquela jovem estudante de cabelos compridos - que caiu no laço. Namoraram até Vandré sair do Brasil, por medo de ser preso. Logo depois do AI 5. Ana e seu pai levaram o artista de carro até Alegrete, pertinho da fronteira com Uruguai. Vandré ganhou o mundo e só voltou quatro anos depois.

Embora a década passada em Londres - 1994/2004 - tenha sido muito rica, foi também um período marcado por problemas, que afetaram profundamente sua vida. “Descobri que estava ficando surda - um mal de família. Hoje, sem aparelho, não ouço absolutamente nada. O que consigo ouvir é graças aos avanços da tecnologia (implante coclear)”, escreve Ana Maria, contando ainda outro momento bastante difícil durante o tempo em que morou na fascinante capital britânica: “Precisei fazer uma operação, por causa de um incômodo em meu olho esquerdo. Deu errado, porque atingiram um nervo: meu rosto paralisou, fiquei com a boca torta e um olho que não piscava. Com o tempo e o auxílio de exercícios e cirurgias, meu rosto melhorou”.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

.: "'A Partilha' e Outras Peças Teatrais" é um convite à reflexão profunda


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.

O teatro de Miguel Falabella sempre teve a habilidade de fazer do cotidiano um campo de batalha emocional em que rir e doer acontecem ao mesmo tempo. No livro "'A Partilha' e Outras Peças Teatrais: 'O Som e a Sílaba'. 'A Sabedoria dos Pais'. 'Os Olhos de Nara Leão'", lançado recentemente pela Matrix Editora, essa vocação se confirma com maturidade e precisão. A coletânea reúne quatro textos escritos entre 1990 e 2025 e funciona como um mapa afetivo de um autor que aprendeu a escutar.

O livro reafirma a força do teatro como espaço para a elaboração de confrontos. Ler as peças de Falabella, qualquer uma delas, é também perceber como certos conflitos permanecem intactos, como se todos estivessem sempre ensaiando dores parecidas em novas situações. Ainda mais em tempos de discursos prontos, peças que insistem na ambiguidade e na humanidade dos personagens são ouro. Qualquer leitor que esteja aberto a pensar pode sair dessa obra com a sensação de ter participado de algo íntimo demais para ser ignorado.

A obra começa com "A Partilha", peça que já passou por gerações e permanece atual. Nela, o reencontro de quatro irmãs após a morte da mãe, mediado pela divisão de bens, transforma-se em algo mais incômodo: a partilha das mágoas, das ausências e das versões nunca ditas das histórias de cada uma delas. Falabella constrói o conflito com humor afiado e usa o riso como instrumento de revelações cruéis.

Se "A Partilha" escancara o núcleo familiar, "O Som e a Sílaba" desloca o olhar para as diferenças ao focar na relação de amizade entre uma jovem cantora autista e a professora de canto dela. O texto evita o didatismo e aposta no território delicado da escuta. O resultado é uma peça moderna e sensível que tem o cuidado evidente de não reduzir a personagem à sua condição, mas de expandi-la como sujeito.

Em "A Sabedoria dos Pais", o autor abandona qualquer ilusão conciliadora quando aborda o fim de um casamento de 35 anos. Os conflitos surgem a partir de um acúmulo de situações mal resolvidas, em que o desgaste aparece nos pequenos detalhes. A peça se sustenta nesse incômodo prolongado de constatar que o amor, quando não cuidado, pode se transformar em rotina ressentida.

"Os Olhos de Nara Leão", misto de monólogo e biografia,  evoca a figura de Nara Leão. A reflexão sobre identidade, escolhas e autonomia ganha contornos íntimos, como se o palco fosse um espaço para a confissão. O que une as quatro peças é a habilidade de transformar situações reconhecíveis em experiências densas sem perder a leveza. Falabella escreve diálogos que soam naturais e têm ritmo, ironia e uma compreensão profunda de que o teatro é feito para causar reflexões profundas sobre a vida. Compre o livro "'A Partilha' e Outras Peças Teatrais: 'O Som e a Sílaba'. 'A Sabedoria dos Pais'. 'Os Olhos de Nara Leão'", de Miguel Falabella, neste link.

sábado, 4 de abril de 2026

.: "Barba Ensopada de Sangue", livro que inspirou filme mergulha na violência


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.

Poucos títulos recentes da literatura brasileira provocam tanto desconforto imediato quanto "Barba Ensopada de Sangue". Publicado pela Companhia das Letras em 2012 e relançado em edição especial uma década depois, o romance de Daniel Galera chamou atenção no momento em que foi lançado e se fixou no tempo. Vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, o livro atravessa os anos sem perder a capacidade de inquietar. O livro inspirou o filme homônimo dirigido por Aly Muritiba e protagonizado por Gabriel Leone, em cartaz na Rede Cineflix e nos cinemas brasileiros.

A história acompanha um protagonista sem nome, marcado por uma condição neurológica tão específica quanto simbólica: a prosopagnosia, incapacidade de reconhecer rostos. Após o suicídio do pai, ele se muda para Garopaba, em Santa Catarina, levando consigo apenas a cadela Beta, que herdou do genitor, e um projeto difuso de isolamento. 

O deslocamento geográfico funciona como tentativa de suspensão, um corte abrupto com tudo o que ainda não foi elaborado. No entanto, o passado não se deixa conter. Décadas antes, o avô foi assassinado na mesma região, e a permanência naquele espaço passa a operar como uma espécie de reencenação involuntária, a partir do momento em que ele passa a investigar o crime.

A busca por respostas não avança de maneira linear e nem oferece garantias. O romance se constrói em um ritmo que respeita o tempo da hesitação, da dúvida e da observação. Há longos trechos em que nada parece acontecer, mas é justamente nesse aparente vazio que a narrativa ganha densidade. 

O protagonista observa, circula, testa hipóteses e estabelece vínculos precários. A dificuldade em reconhecer rostos desloca a percepção para outros elementos: gestos, vozes, ambientes, repetições. O mundo, filtrado por essa limitação, se reorganiza em padrões instáveis, e o leitor passa a compartilhar essa mesma sensação de incerteza.

Daniel Galera sustenta esse percurso com uma prosa que evita ornamentos e prefere a exatidão. O mar, as trilhas, o ritmo lento da cidade compõem um cenário que tanto acolhe quanto expõe. A relação com Beta introduz um tipo de vínculo que escapa à lógica da explicação. Sem recorrer à humanização do animal, o romance constrói uma proximidade marcada por presença e rotina. 

Em meio à instabilidade das relações humanas, a cadela funciona como um ponto de ancoragem, ainda que insuficiente para conter o avanço das tensões. Quando a narrativa se aproxima do núcleo mais violento da história, Galera não altera o tom para intensificar o efeito. Ao contrário, mantém a mesma contenção, o que torna os acontecimentos ainda mais perturbadores. Compre o livro "Barba Ensopada de Sangue", de Daniel Galera, neste link.

sexta-feira, 27 de março de 2026

.: Thiago Sobral: ex-seminarista encena, na ficção, o gesto de “matar o pai”


Thiago Sobral já foi seminarista e estreia na literatura com um romance polêmico que tem como pano de fundo a homossexualidade e teoria de Freud em "matar o próprio pai" para alcançar a liberdade. Foto: divulgação 


O romance “O Pai, a Faca e o Beijo”, de Thiago Sobral, será lançado no sábado, dia 11 de abril, a partir das 18h00, no Mangue Steak e Pub, em Cubatão, no litoral de São Paulo, marcando a estreia do autor pela Editora Patuá. Ex-seminarista com passagem ativa pela Igreja Católica, Sobral apresenta um livro que articula fé, violência e desejo ao colocar a homossexualidade no centro de uma história atravessada por conflitos familiares e repressão social, que se aproxima da noção formulada por Sigmund Freud sobre a necessidade simbólica de “matar o pai” como etapa de ruptura e construção da autonomia psíquica.

Ao colocar um autor com trajetória religiosa escrevendo sobre desejo, violência e identidade, o livro aposta na ousadia e se insere em um campo de debate que ultrapassa a literatura, ao tocar diretamente em questões sociais ainda marcadas pela repressão. A trama se passa em Cubatão e acompanha Santiago e Davi, o “Pirueta”, em uma relação atravessada por ruídos, omissões e agressividades que se disfarçam de cuidado.

O que poderia sugerir um romance amoroso convencional rapidamente se desarma. No lugar da previsibilidade, o autor constrói um campo de conflito contínuo, em que cada gesto falha e cada tentativa de aproximação amplia o abismo entre os personagens. O pai, Severo, acredita proteger o filho, mas sustenta uma dinâmica de opressão que atravessa toda a narrativa. Santiago é o tipo de protagonista que desafia qualquer leitura confortável. Contraditório ao extremo, ele encarna a violência que sofre e reproduz. O personagem oscila entre o desejo e a repulsa, o afeto e a crueldade, construindo uma figura que não tem qualquer chance de redenção.  

Ao redor desse núcleo, personagens secundários reforçam a atmosfera de claustrofobia. A mãe, que se apresenta como sustentação afetiva, revela-se paralisada pela omissão. O padre expõe contradições que desmontam qualquer idealização. O conjunto forma um retrato de relações marcadas por expectativas frustradas e afetos interrompidos.

A experiência de Thiago Sobral como ex-seminarista atravessa o texto sem transformar a fé em conforto. No romance, o autor expõe fissuras, hipocrisias e impasses morais com uma escrita que prefere o corte à ornamentação. Há ecos evidentes de Machado de Assis na construção irônica e no olhar distanciado sobre os personagens, ainda que o romance se sustente por uma voz própria, mais seca e direta.

Ambientado em Cubatão, o livro também incorpora a cidade como elemento narrativo. Além de cenário, a cidade litorânea aparece como algo que condiciona comportamentos, regula relações e amplia o peso do julgamento social. A geografia concreta contribui para a sensação de aprisionamento que atravessa toda a obra. 


Sinopse de "O Pai, a Faca e o Beijo"
No romance “O Pai, a Faca e o Beijo”, Thiago Sobral estreia na ficção com um romance tenso, seco e humano demais. A história de Santiago e Davi, o Pirueta, poderia sugerir um enredo amoroso convencional, mas logo se revela um campo minado de mal-entendidos e violências disfarçadas de cuidado. No centro desse embate, há um pai que acredita proteger o filho enquanto o destrói em uma cidade pequena que vigia, julga e aniquila personalidades. Santiago é um protagonista que ama e agride, deseja e rejeita, sofre e reproduz a mesma brutalidade que o cerca. Com uma formação marcada pela escuta do sagrado, o autor escreve sobre a vida real e expõe hipocrisias e impasses morais com coragem e precisão. Sob ecos de Machado de Assis, é um romance que aposta na liberdade que surge dos confrontos. Um livro incômodo, intenso e necessário.


Sobre o autor
Nasceu em 1987, em Cubatão, no litoral de São Paulo, e vive em Praia Grande. Professor de Língua Portuguesa na escola pública, aprendeu a ler e a escrever tanto na sala de aula quanto fora dela, em meio a livros, alunos e perguntas difíceis. Ex-seminarista franciscano, levou para a literatura o gosto pelo silêncio, pelo tempo interior e pelas contradições humanas, sempre desconfiando de respostas prontas. Leitor atento da tradição literária brasileira e estrangeira, prefere textos que confiam no leitor. Amante de gatos e cachorros, quase sempre mais atentos ao que os humanos deixam passar, encontra no cotidiano e nos gestos mínimos a matéria de sua escrita.


Serviço
Lançamento do livro "O Pai, a Faca e o Beijo"
Sábado, dia 11 de abril, a partir das 18h00
Mangue Steak e Pub - Praça Januário Esteves de Lara Dantas, 216 - Vila Nova - Cubatão/SP



sábado, 14 de março de 2026

.: Maurício Nunes lança o livro "Roteiros Extraordinários" sobre 50 destinos


De castelos assombrados à fábricas de chocolates na Suíça: livro reúne histórias curiosas e inesperadas de mais de 50 destinos pelo mundo


Nem toda viagem acontece como o planejado - e, muitas vezes, é justamente aí que surgem as melhores histórias. No livro “Roteiros Extraordinários - O Diário de Bordo de Um Viajante Sem Filtro”, o escritor e jornalista Maurício Nunes transforma experiências reais vividas em mais de cinquenta destinos ao redor do mundo em uma coleção de relatos curiosos, divertidos e surpreendentes.

Distante do formato tradicional dos guias turísticos, a obra funciona como um mosaico de aventuras e encontros inesperados. Ao longo das páginas, o leitor percorre lugares tão distintos quanto o Hotel do filme “O Iluminado”, as cidades fantasmas do Velho Oeste americano, uma road trip pela história do blues em Mississippi, além de destinos europeus marcados por arte, história, curiosidades e tradições seculares.

Em cada capítulo, o autor observa hábitos locais, detalhes culturais e personagens encontrados pelo caminho, compondo um retrato vivo de diferentes cidades e sociedades. Entre as situações narradas estão experiências tão inusitadas quanto passar a noite em um container adaptado, provar carne de urso ou um encontro inesperado com Al Pacino em Barcelona.

O livro integra um projeto cultural realizado com recursos da Lei Rouanet, com patrocínio da rede portuguesa Pestana Hotel Group, que viabilizou a produção editorial da obra e sua circulação cultural. Como parte das atividades do projeto, o autor fará palestras e bate-papos em escolas e faculdades, além de um encontro com leitores no dia 26 de março, às 19h00, na Livraria Drummond, no Conjunto Nacional, em São Paulo. Compre o livro "Roteiros Extraordinários", de Maurício Nunes, neste link.


Sobre o autor
O jornalista e escritor Maurício Nunes é autor de diversos livros e possui trajetória consolidada na imprensa cultural brasileira, com trabalhos publicados em veículos como Top Magazine, Rolling Stone, o jornal Tribuna e a revista Viagens S/A, onde atua como jornalista especializado em turismo. Entre suas obras de maior destaque está “Playcenter - O Lugar Onde Tudo Acontecia”, livro oficial que conta a história do tradicional parque de diversões paulistano que marcou gerações durante 39 anos. A obra recebeu prefácio de Mauricio de Sousa.

Outro título importante é “Árvore dos Sonhos”, considerada a mais completa biografia publicada no Brasil sobre Walt Disney. O livro conta com prefácio de Kaye Malins, fundadora e presidente do Museu Disney nos Estados Unidos da América. Nunes também é autor do infantil “ABC do Rock” e do aclamado romance “O Mistério do Monte Saint-Michel”. Ao longo de sua carreira literária, suas obras também receberam prefácios de outras personalidades como Mario Prata e Jairo Bouer, entre outros nomes da comunicação. Compre os livros de Maurício Nunes neste link.

sexta-feira, 13 de março de 2026

.: Livro de Gisèle Pelicot revela caso que chocou a França e mobilizou o mundo


A história de Gisèle Pelicot tornou-se, nos últimos anos, um dos relatos mais contundentes sobre violência de gênero e sobre a força de quem decide transformar dor em denúncia. A trajetória dela, marcada por uma revelação devastadora e por uma coragem incomum diante da exposição pública, ultrapassou os limites da experiência individual para se converter em símbolo internacional da luta contra a violência sexual e pela dignidade das mulheres. Agora ela conta a história do que passou no livro "Um Hino à Vida: A Vergonha Precisa Mudar de Lado", publicado no Brasil pela Companhia das Letras, com tradução de Julia da Rosa Simões.

Em 2020, quando tinha 68 anos, a francesa foi chamada a comparecer a uma delegacia acompanhando o marido, Dominique Pelicot, que havia sido flagrado filmando mulheres por baixo da saia em um supermercado. O episódio parecia, à primeira vista, um caso de voyeurismo - grave, mas restrito. No entanto, durante a investigação, a polícia encontrou algo muito mais perturbador. Em computadores e dispositivos eletrônicos pertencentes ao marido, havia um vasto acervo de fotografias e vídeos que documentavam estupros cometidos por ele e por outros homens contra uma mulher inconsciente.

O choque foi absoluto quando Gisèle percebeu que a mulher registrada nas imagens era ela própria. As provas revelavam que, durante mais de uma década, vinha sendo sedada com medicamentos administrados pelo marido sem o conhecimento dela. Enquanto estava desacordada, ele permitia que outros homens a violentassem, registrando os crimes em vídeo. A descoberta desestruturou completamente a vida que Gisèle acreditava ter construído ao longo de 50 anos de casamento. O homem com quem dividira juventude, o primeiro amor, o pai de seus três filhos e companheiro de toda uma vida havia sido também o responsável por um sistema de violência contínua e planejada.

O caso abriu um longo e doloroso processo judicial que mobilizou a opinião pública na França e em diversos países. Em vez de permanecer no anonimato - um direito garantido a vítimas de crimes sexuais - Gisèle tomou uma decisão que mudaria o rumo da história: escolheu tornar sua identidade pública. Com isso, deslocou o centro do debate. A postura dela afirmava que o peso da vergonha não deveria recair sobre quem sofreu violência, mas sobre quem a cometeu.

A partir desse gesto, Gisèle Pelicot passou a ser reconhecida como um símbolo de resistência e de enfrentamento à cultura que frequentemente silencia vítimas e protege agressores. O testemunho dela provocou discussões profundas sobre consentimento, violência doméstica e as estruturas sociais que ainda sustentam a desigualdade de gênero. Essas reflexões aparecem reunidas no livro "Um Hino à Vida: A Vergonha Precisa Mudar de Lado", no qual a autora narra pela primeira vez a trajetória que atravessa tanto a devastação quanto o processo de reconstrução. 

A obra alterna duas linhas narrativas. De um lado, revisita a infância de Gisèle no interior da França, o encontro dela com Dominique, os anos de casamento, a criação dos filhos e a chegada dos netos - capítulos que compõem a memória de uma vida que imaginava envelhecer em tranquilidade. De outro, acompanha o turbilhão iniciado com a ligação da polícia que revelou os crimes, passando pela preparação para o tribunal, pelo confronto com o passado e pelo longo caminho de elaboração do trauma. A escrita dela aponta para a necessidade de romper o silêncio que frequentemente envolve a violência sexual e busca encorajar outras pessoas que enfrentam situações semelhantes.

Mesmo diante de uma realidade que poderia ter destruído definitivamente sua identidade, o que emerge das páginas é a imagem de uma mulher que reivindica o direito de continuar vivendo. O relato revela alguém que se recusa a ser definida exclusivamente pela violência sofrida e que insiste em preservar, na memória, os fragmentos de vida que existiram antes da tragédia. Compre o livro "Um Hino à Vida: A Vergonha Precisa Mudar de Lado", de Gisèle Pelicot, neste link.

.: No Dia do Pi, debates simultâneos em São Paulo e no Rio de Janeiro celebram


Às 3 horas e 14 minutos da tarde de 14 de março - representando duplamente os primeiros dígitos do Pi (3,14) -, professores e especialistas se reúnem nas livrarias Bibla (São Paulo) e Janela Laranjeiras (Rio de Janeiro). Na ocasião, a editora Tinta-da-China Brasil lança o livro "Pi: Uma Autobiografia Infinita", obra em que o número narra a história da matemática em primeira pessoa. Escrito pela matemática iraniana Mahsa Allahbakhshi e pelo divulgador científico chileno Andrés Navas, com ilustrações da designer mexicana Verena Rodríguez, o livro percorre a história do número irracional Pi desde as civilizações antigas - egípcios, babilônios, gregos e chineses - até a era dos computadores, que já calcularam trilhões de dígitos do número. No caminho, o curioso narrador encontra personagens como Arquímedes e o indiano Ramanujan, cujos métodos revolucionaram o cálculo do número infinito. A tradução é de Maria Cecilia Brandi, e a capa, de Isadora Bertholdo.

Em 2019, a Unesco escolheu o Dia do Pi como Dia Internacional da Matemática. Ou seja, coube a Pi representar todo o seu universo. Em 2026, o tema oficial da data será “Matemática e Esperança”. A comemoração do Dia do Pi chega ao Brasil com dois debates simultâneos. No próximo sábado, 14 de março, duas livrarias reúnem professores e matemáticos em encontros marcados às 3h14 da tarde, horário que também homenageia os primeiros dígitos do número infinito. Os eventos, promovidos pela Tinta-da-China Brasil, acontecem na livraria Bibla, na Vila Madalena, em São Paulo, e na livraria Janela Laranjeiras, no Rio de Janeiro, e concluem com o lançamento de Pi: uma autobiografia infinita, que traz a história do número contada em primeira pessoa, com humor, leveza e precisão histórica. 


O evento
Todos sabem na ponta da língua pelo menos cinco dos seus infindáveis dígitos: 3,1415… O desejo impossível de conhecer todos eles, ou pelo menos o máximo de casas decimais depois da vírgula, se tornou a obsessão de matemáticos, engenheiros e curiosos em geral. Conhecido dos velhos tempos da sala de aula e dos manuais escolares, volta e meia Pi ressurge de surpresa em pesquisas de tecnologia de ponta, em estudos teóricos e até mesmo na arte. 

Mas pouco sabemos sobre a história completa desse número, talvez o mais famoso de todos eles. Para celebrar a sua importância e o fascínio infinito que proporciona, desde 1988 o Dia do Pi, 14 de março (14/3, ou 3/14, na datação utilizada em inglês), é comemorado em todo o mundo, de formas diferentes — desde chamar os amigos para comer uma torta, palavra que em inglês (“pie”) tem a mesma pronúncia de “Pi”, até debates e eventos em escolas, bares, museus, universidades e livrarias. 

Professores de matemática vão discutir a mística e a ciência por trás do Pi: no Rio, o diretor-geral do IMPA Marcelo Viana, vai conversar com o professor Matheus Freitas, que dá aulas de matemática no colégio Eliezer Max. Em São Paulo, o autor e professor sênior da Faculdade de Educação da USP (Feusp) Nílson José Machado vai conversar com o professor e autor de livros de matemática José Luiz Pastore Mello, professor do Colégio Santa Cruz. 

O livro equilibra episódios históricos, curiosidades biográficas e explicações claras sobre fórmulas universais e aplicações cotidianas - tudo isso em linguagem leve e bem-humorada e em estrutura romanceada.  A obra inclui ainda um capítulo escrito exclusivamente para a edição brasileira, em que Pi e seus “amigos números” chegam ao Brasil para o Congresso Internacional de Matemática (ICM 2018), realizado no Rio de Janeiro. 

"Pi: Uma Autobiografia Infinita" chega ao Brasil em um momento de crescimento do mercado de divulgação científica. Marcelo Viana, diretor do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) e responsável pela indicação editorial, destaca: “Faltava o relato na primeira pessoa, diretamente da boca do protagonista. É o próprio Pi que nos conta sua vida no ouvido. Uma delícia.” Pela Tinta-da-China Brasil, Viana lançou "Histórias da Matemática" e "A Descoberta dos Números", sucessos de venda. 

A história une rigor teórico à leveza narrativa, trazendo também ilustrações que ajudam a dar vida a conceitos abstratos e personagens importantes. Ao final do volume, um glossário facilita a compreensão dos termos técnicos, tornando a leitura acessível a jovens e adultos com ou sem formação em ciências exatas. Compre o livro "Pi: Uma Autobiografia Infinita" neste link.


Serviço
Rio de Janeiro
Bate-papo com Marcelo Viana e Matheus Freitas
Data: 14/03/2026
Horário: 3:14 da tarde
Local: Livraria Janela Laranjeiras – R. Gen. Glicério, 324. Laranjeiras, Rio de Janeiro (RJ)

São Paulo
Bate-papo com Nílson José Machado e José Luiz Pastore Mello
Data: 14/03/2026
Horário: 3:14 da tarde
Local: Livraria Bibla – Praça Prof.ª Emília Barbosa Lima, 58. Vila Madalena, São Paulo (SP)

terça-feira, 10 de março de 2026

.: Projeto une literatura e música para mostrar legado de Langston Hughes

Unindo literatura e música, o projeto "Do Blues À Poesia: A Obra De Langston Hughes" faz homenagem a uma das figuras mais icônicas dos Estados Unidos do início do século 20, uma referência na arte e na resistência negra. A iniciativa traz apresentação do "Blues Macambúzio - O Show" no sábado, 14 de março, às 20h00, no Centro da Terra. Os ingressos estão à venda pela plataforma Sympla. O livro "O Blues Macambúzio" ("The Weary Blues"), obra que completa 100 anos em 2026, estará disponível para compra no site da produtora Româ Atômica (https://www.romaatomica.com.br/). É a primeira vez que a publicação ganha uma tradução em português.

"The Weary Blues" ou "O Blues Macambúzio", tradução de Pedro Tomé, é uma coletânea de poemas escrita por Langston Hughes (1901-1967), um dos principais nomes do Harlem Renaissance, movimento cultural e literário que ocorreu em Nova York. A publicação foi uma resposta à discriminação racial e à segregação que os afro-estadunidenses sofriam na época. O livro é importante na história da literatura estadunidense, não apenas como uma obra de arte literária, mas também como um testemunho do poder da música e da cultura negra. Os temas desenvolvidos são a marginalização do trabalho, a solidão, a vida no Harlem, o sonho americano, a noção de pertencimento. 

O show nasce como uma forma de se aventurar nas possibilidades musicais que a obra literária de Langston proporciona, unindo as influências do jazz que predominava no movimento Harlem Renaissance com a cadência poética e fonética de alguns de seus poemas emblemáticos. 

“Langston Hughes foi uma das vozes centrais do Renascimento do Harlem, consolidando uma poética marcada pela musicalidade e pela ruptura com padrões eurocêntricos. Ao valorizar a linguagem cotidiana e afirmar a cultura negra como arte, levou o dia a dia da população negra ao centro da literatura. Sua obra aborda desigualdade e resistência, e permanece atual ao dialogar com os debates raciais contemporâneos e inspirar reflexões sobre identidade, justiça social e ancestralidade”, enfatiza Éder Augusto Marcos, idealizador e diretor musical do projeto.

O repertório conta com faixas como "The Weary Blues" ("O Blues Macambúzio"), "Harlem Night Club" ("Clube Noturno do Harlem"), "Blues Fantasy" ("Fantasia Blues"), "Dream Variation" ("Variação de Sonho"), "Fantasy in Purple" ("Fantasia em Púrpura") e "Danse Africaine" ("Danse Africaine"). No palco, estão Éder Augusto Marcos (Direção Artística e Vocal), Pedro Tomé Castro (Arranjos e Composição Musical; Violão e Guitarra), Negra Vat (Vocal), Vanessa Ferreira (Baixo), Laura Santos (Clarinete), Vênus Garland (Bateria) e João Sirangelo (Teclas e Guitarra).

A apresentação musical vem como um desdobramento da tradução do livro e parte da própria publicação para selecionar poemas que dialogam diretamente com a musicalidade. Entre eles, há textos mais ligados ao universo do blues e aos clubes do Harlem, além de obras como Dream Variation, que propõem reflexões sobre identidade e pertencimento da população negra. A apresentação busca evidenciar as diferenças e aproximações entre jazz e blues, transitando também pelo gospel e pela improvisação, em um percurso sonoro marcado pela fusão de ritmos e pela força poética.

“Acho fundamental que o público brasileiro tenha contato com essa obra, porque, apesar da distância histórica, ela segue absolutamente atual. O projeto cria pontes entre Brasil e Estados Unidos ao refletir sobre identidade racial no campo artístico, aproximando música, literatura e resistência. Ao olhar para nossas semelhanças e diferenças, ampliamos a compreensão da comunidade negra e fortalecemos a arte como ferramenta de transformação social”, finaliza o idealizador.

O show "Blues Macambúzio" é uma ação que faz parte do projeto  "Do Blues á Poesia: a Obra de Langston Hughes" foi contemplado no Edital Fomento CULTSP – PNAB Nº 39/2024 Fomento à Economia Criativa da Secretaria da Cultura, Economia e Indústrias Criativas do Governo do Estado de São Paulo.


Serviço
"Blues Macambúzio - O Show"

Sábado, 14 de março, às 20h00
Centro da Terra: R. Piracuama, 19 - Perdizes / São Paulo
Ingressos: R$ 70,00 (inteira) e R$ 35,00 (meia-entrada)
https://www.sympla.com.br/evento/blues-macambuzio-o-show/3312636


"The Weary Blues ou O Blues Macambúzio"

Páginas: 142
Preço: R$ 30,00 (valor promocional de lançamento). Depois R$ 65,00
Venda no https://www.romaatomica.com.br/


Ficha técnica
"Do Blues á Poesia: a Obra de Langston Hughes" 
Éder Augusto Marcos (Idealizador, Mediador, Palestrante e Diretor Musical)
Pedro Tomé (Palestrante, Mediador e Tradutor)
João Sirangelo (Músico)
João Raphael Reis (Revisor)
Eloísa Aragão (Revisão do prefácio)
Martha Macruz (Assessoria jurídica)
Bruno Gonçalves (Advogado)
Victor Paula (Diagramação, Identidade Visual e Design Gráfico)
Matheus Jeronimo (Direção de Comunicação)
Amara Hartmann (Idealização e Coordenação de Produção)
Paloma Rodrigues (Idealização e Direção de Produção)
Romã Atômica (Produção)


"Blues Macambúzio - O Show"
Direção Artística e Vocal: Éder Augusto Marcos
Arranjos e Composição musical: Pedro Tomé Castro
Vocal: Negra Vat
Baixo: Vanessa Ferreira
Clarinete: Laura Santos
Bateria: Vênus Garland
Violão e Guitarra: Pedro Tomé Castro
Teclas e Guitarra: João Sirangelo
Piano em Dream Variations: Tami Silveira
Projeto de luz e operação: Felipe Tchaça
Arranjos e Produção musical: João Sirangelo
Assistente de produção: Lennin Modesto
Produção Executiva:  Vinícius Prates
Direção de Produção: Paloma Rodrigues
Coordenação de produção: Amara Hartmann
Produção: Romã Atômica

segunda-feira, 9 de março de 2026

.: Livro “Desemprego e Outras Heresias”, de Bruno Inácio, ganha nova edição


Com escrita fragmentada e fluxo de consciência, livro esgotado desde 2023 ganha nova edição pela Sabiá Livros e consolida a linguagem cortante do autor paulista

Com uma escrita fragmentada, direta e construída em fluxo de consciência, o romance "Desemprego e Outras Heresias", de Bruno Inácio, ganha nova edição pela Sabiá Livros, após o esgotamento de sua primeira edição. A obra investiga os efeitos duradouros do fanatismo religioso no ambiente familiar e reafirma a força literária de um autor que aposta na tensão entre forma e conteúdo. Trata-se de um romance inquietante sobre os traumas provocados por uma ruptura familiar. De forma crua e cortante, o autor traduz em linguagem o estado mental do protagonista, criando uma atmosfera de constante tensão, isolamento e desolação.

A 2ª edição conta com texto de orelha de Marcelo Labes, prefácio de Cintia Brasileiro, fotos de Lucas Orsini e textos de quarta capa assinados por Xico Sá, Carla Guerson, Pedro Augusto Baía e Gael Rodrigues. A capa, o projeto gráfico e o posfácio são de Andreas Chamorro. Escrito em um fluxo de consciência não linear, o romance acompanha Fábio, um publicitário que vive em São Paulo, distante de sua cidade natal, e enfrenta o isolamento, o desemprego e a falta de perspectivas. A narrativa alterna entre passado e presente, costurando a melancolia da vida adulta com lembranças de uma infância marcada por culpa, rejeição e episódios familiares tensos.

Quando Fábio recebe um pacote enviado por seu irmão, é lançado a um mergulho involuntário nas memórias desse passado, fazendo emergir um mistério que atravessa toda a obra e conecta essas duas pontas de sua existência. As relações familiares estão no centro do interesse literário de Bruno Inácio. “Ao longo dos séculos, a literatura tem se aprofundado nas mais diversas dinâmicas possíveis entre pessoas de uma mesma família e, ainda assim, o tema parece longe de estar esgotado”, afirma o autor.

A desolação com que o protagonista encara a vida desde a infância é tão visceral que provoca no leitor a dúvida sobre o caráter autoficcional da obra. Bruno reconhece que parte da história dialoga com uma experiência pessoal: o desemprego. “Quando mudei de cidade, pensei que não teria dificuldades para encontrar trabalho, mas fiquei quase um ano e meio sem ocupação formal”, relata.

Ainda assim, o autor destaca que o romance nasce do encontro entre vivências distintas. “Resolvi escrever uma história que juntasse a questão do desemprego com outro tema que já me causava bastante preocupação: os impactos do fanatismo religioso na formação de crianças e adolescentes”, explica.

Linguagem própria e amadurecimento literário Mesmo diante de temas densos," Desemprego e Outras Heresias" se constrói como uma obra coesa e instigante, consolidando o estilo próprio de Bruno Inácio: frases curtas, secas e diretas, que intensificam o ritmo da leitura e o impacto emocional da narrativa. Essa linguagem, já presente em seu livro de contos de estreia, ganha maior fôlego e complexidade no romance. “Foi desafiador construir uma história mais longa e compor um personagem tão complexo quanto o Fábio, alguém repleto de manias e contradições internas”, comenta o escritor. Compre o livro "Desemprego e Outras Heresias", de Bruno Inácio, neste link.


Sobre o autor
Bruno Inácio
nasceu em Ituverava, interior de São Paulo, e vive desde 2018 em Uberlândia (MG). É graduado em Jornalismo pela Universidade de Franca, mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Uberlândia e pós-graduado em Psicanálise e Análise do Contemporâneo (PUCRS), Cinema e Produção Audiovisual (USCS) e Literatura Contemporânea (Centro Universitário Barão de Mauá). É colaborador do Le Monde Diplomatique, Jornal Rascunho e São Paulo Review. Já publicou textos em veículos como Rolling Stone Brasil e Estado de Minas.

Na literatura, estreou em 2022 com "Desprazeres Existenciais em Colapso" (Patuá) e "De Repente Nenhum Som" (Sabiá Livros), lançado em 2024. "Desemprego e Outras Heresias", publicado originalmente em 2022, retorna agora em nova edição após o esgotamento dos 500 exemplares iniciais. O interesse pela escrita surgiu ainda na adolescência. “Até os vinte e poucos anos me dediquei à poesia, depois, passei a escrever prosa e me encontrei”, conta.

Entre suas referências literárias estão Marcelino Freire, Marcela Dantés e Carlos Eduardo Pereira, além de Caio Fernando Abreu, Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles. Outro nome fundamental em sua formação estética é Cazuza. Trechos de músicas do cantor aparecem em passagens relevantes de Desemprego e outras heresias, especialmente canções dos primeiros discos do Barão Vermelho. “Cazuza me impacta desde a adolescência e me hipnotiza até hoje com seus versos, o mesmo acontece com Fábio, protagonista do livro”, afirma o autor. Compre os livros de Bruno Inácio neste link.

domingo, 8 de março de 2026

.: “Barquinho de Papel”, de Jadna Alana, vence a 10ª edição do Prêmio Kindle


O romance “Barquinho de Papel”, da escritora paraibana Jadna Alana, venceu a 10ª edição do Prêmio Kindle de Literatura, uma das principais iniciativas de incentivo à literatura independente no Brasil. A edição deste ano foi considerada histórica, reunindo mais de 3.200 obras inscritas. Com a vitória, a autora receberá R$ 50 mil em prêmio e adiantamento de royalties, terá o livro publicado pelo Grupo Editorial Record, ganhará uma edição especial enviada aos assinantes da TAG Experiências Literárias e contará com adaptação em audiolivro pela Audible. Além disso, Jadna Alana passa a integrar o grupo de jurados da próxima edição do prêmio.

Ambientado em um vilarejo fictício da Bahia, o romance acompanha Jurema, menina que vive na orla de Cruz-credo, um lugar marcado pela precariedade e pela sensação de abandono. Entre as figuras que povoam o cotidiano da pequena comunidade está o padre Cícero, responsável pela capela azul do povoado e alvo constante das provocações da protagonista. A relação entre os dois mistura humor, curiosidade e uma tentativa insistente de catequese, já que Jurema nunca foi batizada - fato que, segundo os moradores, explicaria seu espírito inquieto.

O enredo se constrói a partir de uma imagem delicada e simbólica: a menina recolhe do lixo pedaços de papel, cartas incompletas e fragmentos de histórias esquecidas. Com esses restos, decide construir um barquinho de papel capaz de carregar sonhos e memórias. Cada relato ouvido, cada lembrança abandonada pela comunidade passa a compor o casco, as velas e o leme dessa embarcação imaginária. O gesto simples transforma-se em metáfora de travessia e de reinvenção.

Ao acompanhar o crescimento de Jurema, o romance propõe uma reflexão sobre memória, pertencimento e desejo de partida. A protagonista vive entre a afeição pelas pessoas do vilarejo e a vontade de conhecer o mundo além-mar. O barquinho, feito de palavras descartadas, simboliza justamente essa possibilidade de partir sem deixar de carregar consigo as histórias que moldam a identidade.

Antes mesmo da conquista do Prêmio Kindle, “Barquinho de Papel” já havia recebido reconhecimento ao vencer o Prêmio Carolina Maria de Jesus em 2023. A obra dialoga com o campo que a autora investiga academicamente: o chamado regionalismo fantástico, vertente que mistura elementos da cultura regional brasileira com atmosferas fabulares e imaginativas. Compre o livro "Barquinho de Papel", de Jadna Alana, neste link.


Sobre a autora

Formada em Letras pela Universidade Estadual da Paraíba e mestre em Linguagem pela Universidade Federal de Ouro Preto, Jadna Alana já vinha se destacando no cenário literário. O livro anterior dela, “Se Tu Me Quisesse”, foi finalista do Prêmio Kindle em 2022 e do Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica em 2023. A autora também venceu o Prêmio Marília Arnaud com o conto “O Menino de Imburana”.

Além da produção literária, Jadna atua como profissional de texto na ALCE, sua marca editorial, e dirige o selo Candeário, dedicado à publicação de obras ligadas ao regionalismo fantástico. A vitória no Prêmio Kindle consolida sua trajetória e amplia a visibilidade de uma proposta estética que busca unir tradição regional, imaginação e experimentação narrativa.

Com “Barquinho de Papel”, Jadna Alana apresenta uma narrativa sensível sobre infância, memória e desejo de deslocamento. Ao transformar restos de histórias em matéria literária, o romance reafirma a potência das pequenas narrativas e das vozes esquecidas - aquelas que, dobradas com cuidado, podem se tornar barcos capazes de atravessar qualquer mar. Compre os livros de Jadna Alana neste link.

.: Encontro de Leituras recebe a autora portuguesa Catarina Gomes nesta terça


Obra publicada em Portugal pela Gradiva e no Brasil pela Dublinense será discutida com leitores em evento on-line e gratuito na próxima terça-feira, dia 10 de março


O Encontro de Leituras de março recebe a escritora e jornalista lisboeta Catarina Gomes para uma conversa sobre o livro "Terrinhas", publicado em Portugal pela Gradiva em 2022 e no Brasil pela Dublinense em 2025. O evento acontece no dia 10 de março, terça-feira, às 19h do Brasil (horário de Brasília) e 22h de Portugal, de forma online e gratuita, pela plataforma Zoom. O clube é gratuito e aberto a todos que queiram participar. O evento pode ser acessado com o ID 842 8191 4937 e a senha 835758. Para participar, basta seguir este link.

Em "Terrinhas", vencedor do Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís, acompanhamos a história de uma designer de interiores que se vê obrigada a voltar à aldeia em que seus pais nasceram - e que visitava na infância - para tratar da herança deixada por eles. A trama mergulha em memórias e afetos, explorando as tensões entre raízes familiares e escolhas pessoais.

"Terrinhas" passou a integrar o Plano Nacional de Leitura de Portugal, consolidando sua relevância literária e social, e a autora tornou-se reconhecida por investigar e narrar temas ligados à memória e à história do país. Como jornalista, Catarina Gomes foi ainda finalista do Prémio de Jornalismo Gabriel García Márquez pela reportagem Quem foi o filho que António deixou na guerra?. Compre o livro "Terrinhas", de Catarina Gomes, neste link.


Sobre o Encontro de Leituras
O Encontro de Leituras resulta da colaboração editorial entre o jornal português Público e a revista Quatro Cinco Um, focando em obras literárias disponibilizadas em ambos os países. O Encontro reúne leitores de língua portuguesa e discute romances, ensaios, memórias, literatura de viagem e obras de jornalismo literário na presença de um escritor, editor ou especialista convidado.  Os encontros são gratuitos e acontecem sempre nas segundas terças-feiras de cada mês, às 19h00 do Brasil e 22h00 de Portugal. 

O evento não é transmitido nas redes sociais, nem disponibilizado depois. É uma experiência para ser vivida por aqueles que se juntam à sessão. Os melhores momentos são depois publicados no podcast Encontro de Leituras, disponível no Spotify, Apple Podcasts, SoundCloud ou outros aplicativos habituais. 

A parceria entre a Quatro Cinco Um e o Público conta com um espaço editorial fixo nos dois veículos e uma newsletter mensal sobre o trânsito literário e editorial entre os países de língua portuguesa. A editoria especial publica materiais jornalísticos sobre autores do Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné Bissau e Timor que tenham sido lançados dos dois lados do oceano. A newsletter mensal traz notas, curiosidades, imagens e informações sobre as novidades das livrarias e os eventos literários em Lisboa, São Paulo, Rio de Janeiro e outras cidades onde se fala português. De vez em quando, na programação de festivais e em outras ocasiões, eventos presenciais serão realizados.


Serviço
"Encontro de Leituras" com Catarina Gomes

Terça-feira, dia 10 de março
Horário: 19h00 do Brasil e 22h00 de Portugal
Modalidade: on-line e gratuito, via Zoom
Participe: https://us06web.zoom.us/j/84281914937?pwd=bbScBuXJg69a9IYhiPYxM2tmTcmbFZ.1
ID:842 8191 4937
Senha de acesso: 835758

domingo, 22 de fevereiro de 2026

.: Em "História da Violência", Édouard Louis narra consequências de um abuso


Um romance complexo que captura o impacto avassalador de uma agressão sexual, transformando um trauma em uma reflexão visceral sobre a nossa sociedade. A tradução é de Marilia Scalzo e a capa, de Luciana Facchini


Publicado dois anos depois do aclamado "O Fim de Eddy", o romance "História da Violência", publicado pela Editora Todavia, tem como ponto de partida uma noite de Natal do ano de 2012. Enquanto caminhava para casa pelas ruas desertas e frias de Paris após uma agradável ceia, passada na companhia de dois amigos, Édouard Louis cruza com um homem atraente, que o aborda com insistência. Dividido entre o desejo e a vontade de ficar sozinho para ler, o narrador acaba cedendo e convidando o homem para sua casa.

Após uma madrugada de trocas profundas e íntimas, em que Reda compartilha histórias de sua infância e da origem de sua família, como a da chegada de seu pai da Argélia à França, ele saca um revólver e ameaça matar Édouard. Em seguida, o narrador é agredido, estuprado, e Reda foge. Traumatizado, Édouard dá entrada nos procedimentos burocráticos para prestar queixa e se depara, entre outras coisas, com as dificuldades desse tipo de denúncia quando se é um homem gay.

A partir desta experiência traumática, que o leva de volta à pequena cidade do interior da França, o autor realiza um audacioso exercício de catarse literária, não apenas para analisar e compreender os impulsos mais vis de que o ser humano é capaz, mas também para explorar as múltiplas facetas da violência. O resultado é uma narrativa hipnótica que se movimenta entre o passado e o presente, e que se alterna entre várias vozes, como a de Édouard, de sua irmã e de Reda, registrando não apenas o racismo e a homofobia da sociedade francesa contemporânea, mas também seus efeitos sutis nos relacionamentos afetivos e familiares. Um livro intenso e inesquecível, que confirma o lugar sem igual de Édouard Louis na literatura de hoje. Compre o livro "História da Violência", de Édouard Louis, neste link.


O que disseram sobre o livro
"Uma obra de autoficção contundente... History of Violence é um romance conciso, porém densamente urdido, que se inicia com uma urgência crua e visceral." (Johanna Thomas-Coor, The Time)

"Intenso e desconfortavelmente envolvente, o romance parte dos eventos lancinantes daquela véspera de Natal para um exame implacável de classe, raça e discriminação." (Tash Aw)

"Evocando o misticismo e o poder das tragédias antigas, o jovem autor confirma sua habilidade de encenar o real." (Télérama)

"Uma explêndida e dolorosa busca pela verdade." (Le Monde des livres)


Sobre o autor
Édouard Louis
nasceu em Hallencourt (França), em 1992. Em seus relatos contundentes, inscritos em uma tradição que remonta a Annie Ernaux e Didier Eribon, a homossexualidade e as injustiças de classe são retratadas através de uma escrita honesta e afiada, marcada por altas doses de crítica social e política. Dele, a Todavia publica também "Quem Matou Meu Pai" (2023), "Lutas e Metamorfoses de Uma Mulher" (2023), "Mudar: Método" (2024), "Monique se Liberta" (2024), "O Desabamento" (2025) e "O Fim de Eddy" (2025). Compre os livros de Édouard Louis neste link.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

.: A história real de um amor impossível que desafiou Auschwitz jà nas livrarias


Uma das histórias reais mais comoventes surgidas a partir do Holocausto chega agora ao público brasileiro. "Eles Se Amaram em Auschwitz", livro publicado pela Editora Planeta, narra a trajetória de Zippi Spitzer e David Wisnia, dois jovens que se conheceram e se apaixonaram dentro do campo de extermínio de Auschwitz, em meio ao período mais sombrio da humanidade. Escrito por Keren Blankfeld, jornalista especializada em reportagens investigativas, o livro apresenta uma história real que ecoa até hoje, convidando leitores e leitoras a refletir sobre memória, sobrevivência e a capacidade do amor de resistir mesmo nos cenários mais inimagináveis. A tradução é de Wélida Muniz.

O romance teve início quando seus olhares se cruzaram, dando forma a uma conexão improvável em um ambiente onde a vida era constantemente ameaçada. Enquanto enfrentavam fome, violência e incertezas diárias, Zippi e David encontraram um no outro um raro refúgio emocional - uma lembrança de que ainda existiam afeto, liberdade e futuro fora das cercas do campo nazista. O relacionamento, entretanto, precisava permanecer em absoluto segredo: ser descoberto significaria a morte.

Mesmo sob condições extremas e contra todas as probabilidades, os dois sobreviveram aos anos passados em Auschwitz. À medida que a guerra se aproximava do fim, ambos alimentavam a esperança de reconstruir a vida juntos quando fossem libertados. Antes de deixarem o campo, combinaram um reencontro - que só aconteceria sete décadas depois. Compre o livro "Eles Se Amaram em Auschwitz", de Keren Blankfeld, neste link.


Sobre a autora
Keren Blankfeld
é jornalista especializada em reportagens investigativas. Ex-editora da revista Forbes, já teve artigos publicados em veículos como The New York Times, Forbes, Reuters e The Toronto Star, entre outros. É professora de reportagem e redação na Escola de Jornalismo da Universidade Columbia e também lecionou na Escola de Pós-Graduação da Universidade de Nova York. Foi convidada em programas da CNN, BBC World News e E! Entertainment. Em 2013, atuou como executiva criativa na New Regency Productions, colaborando com roteiristas e dramaturgos no desenvolvimento de projetos para cinema e televisão. É formada em Relações Internacionais e Inglês pela Universidade Tufts e mestre em Jornalismo pela Universidade Columbia. Atualmente, vive em Nova York com o marido e os dois filhos. Compre os livros de Keren Blankfeld neste link.

Serviço
Lançamento do livro "Eles Se Amaram em Auschwitz"

Sessão de autógrafos com Keren Blankfeld
Dia 27 de fevereiro a partir das 19h00
Bibla: Praça Professora Emília Barbosa Lima, 58 - Vila Madalena, São Paulo - SP


Ficha técnica

"Eles Se Amaram em Auschwitz" 
Autora: Keren Blankfeld
Tradução: Wélida Muniz
ISBN: 978-85-422-3965-2
Páginas: 400
Editora Planeta

sábado, 7 de fevereiro de 2026

.: Finalista do Jabuti, romance resgata história do segundo teatro do Brasil


O romance “A Casa da Ópera de Manoel Luiz”, do escritor carioca Celso Tádhei, mescla ficção, história e reflexão artística. Finalista do Prêmio Jabuti 2025 na categoria Romance de Entretenimento, o livro resgata a memória do segundo teatro em atividade no Brasil, fundado no Rio de Janeiro do século XVIII, e de seu idealizador, o português Manoel Luiz Ferreira. No livro publicado pela Editora Mondru, com uma narrativa ágil e repleta de humor, Celso recria um período pouco explorado da cultura brasileira, trazendo à tona dilemas artísticos que permanecem atuais. Celso trabalhou por 23 anos na Rede Globo, onde foi roteirista-chefe de programas como “Zorra” (indicado ao Emmy Internacional) e “Isso É Muito a Minha Vida", com Paulo Vieira.

A obra se constrói a partir de uma premissa metalinguística: o próprio autor, assombrado pelo fantasma de Manoel Luiz, narra as peripécias do empresário e de sua trupe, composta em grande parte por artistas negros e mestiços, em meio aos bastidores do poder colonial. “Este livro já foi peça, roteiro de cinema e script de radioteatro. E também não foi nada disso, sem deixar de sê-lo”, revela o autor em um trecho que sintetiza o caráter labiríntico e inventivo da narrativa.

Entre cenas de bastidores, improvisos cômicos, intrigas palacianas e a relação com figuras como o Vice-Rei Lavradio e a cantora Lapinha, o romance aborda temas como a arte como resistência, o nascimento de uma cultura brasileira mestiça e o eterno dilema entre criação artística e sobrevivência financeira. “A arte como espaço onde a vida se expande para além do que é imposto, revelando ao criador e a quem assiste a dignidade de sua própria expressão”, define.

Celso Tádhei, carioca de Laranjeiras, traz em sua bagagem mais de duas décadas como roteirista na TV Globo, onde foi responsável por programas como “Zorra” (indicado ao Emmy Internacional) e “Os Caras de Pau”, além de peças teatrais e filmes. Essa experiência com a comédia e a dramaturgia transparece no ritmo do romance, estruturado em capítulos curtos e digressivos, que misturam pesquisa histórica, ironia e um olhar afetuoso sobre os personagens.

“Meu estilo é despojado, porém com um cuidado imenso com as palavras. A proposta foi bagunçar o fluxo narrativo para provocar um certo devaneio que tem tudo a ver com a estupefação do ato criativo”, comenta. O livro dialoga com influências que vão de Mário de Andrade e Machado de Assis até o humor de Kurt Vonnegut e a prosa fragmentada de Márcio Souza.

Além de entreter, a obra cumpre um papel de resgate histórico. Personagens como a cantora Lapinha, o ator João dos Reis e o compositor Padre José Maurício ganham vida nas páginas, lembrando que a cena artística colonial era vibrante e plural, ainda que muitas vezes apagada pelos registros oficiais. “Manoel e, principalmente, tantos artistas brasileiros foram apagados da história da arte nacional. Está mais do que na hora de mudar isso”, reflete o autor.

O processo de escrita, que durou cerca de dois anos, foi marcado por uma virada criativa quando Celso decidiu incluir a si mesmo como personagem, lidando com as dúvidas da pesquisa e a pressão do “fantasma” de Manoel Luiz. “Isso não foi apenas libertador como iluminou o livro inteiro”, afirma. O resultado é um romance que, sem abrir mão do entretenimento, convida o leitor a refletir sobre as raízes da cultura nacional e os desafios perenes da criação artística. Compre o romance “A Casa da Ópera de Manoel Luiz”, de Celso Tádhei, neste link. 


Sobre o autor
Celso Tádhei é roteirista, escritor e professor, com formação em Artes Cênicas pela UNIRIO. Trabalhou por 23 anos na Rede Globo, onde foi roteirista-chefe de programas como “Zorra” (indicado ao Emmy Internacional) e escreveu clássicos como Sítio do Pica-Pau Amarelo" e "Chico Anysio - Cartão de Visitas". É autor de peças teatrais como “O Alienista” (Prêmio Cenym de Melhor Texto Adaptado) e “O Baterista”, além de de filmes como “Os Caras de Pau e o Misterioso Roubo do Anel”. Um dos fundadores da Escola de Roteiro Levante 42, ministra oficinas de escrita criativa e dramaturgia. “A Casa da Ópera de Manoel Luiz” é seu primeiro romance, finalista do Prêmio Jabuti 2025.

.: Editora Contexto traz ao Brasil livro sobre a cultura do autocuidado


Na próxima terça-feira, dia 10 de fevereiro, chega ao Brasil, pela Editora Contexto, o livro "O Culto do Bem-estar"fruto de ampla investigação da jornalista americana Rina Raphael, que já recebeu destaque em veículos como The New York Times, The Guardian e The Wall Street Journals. A obra investiga a cultura do autocuidado e os limites de um fenômeno sustentado por uma indústria global que movimenta trilhões de dólares.

Resultado de uma ampla apuração, o livro questiona a lógica que apresenta práticas individuais, rituais e protocolos como respostas suficientes para questões complexas de saúde mental e qualidade de vida. Com atenção especial à experiência feminina, Raphael mostra como as mulheres se tornaram o principal alvo de um mercado que transforma vulnerabilidade em falha pessoal.

Publicado originalmente nos Estados Unidos, O culto do bem-estar recebeu destaque em veículos como The New York Times, The Guardian e The Wall Street Journal. A edição brasileira traz prefácio da psicóloga e pesquisadora Ilana Pinsky, que aproxima o debate da realidade nacional. Compre o livro "O Culto do Bem-estar", de Rina Raphael, neste link.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

.: Livro de Joël Dicker é ode à literatura e ao poder de proporcionar diálogos


Democracia, igualdade e respeito às diferenças. Em novo livro, o autor best-seller Joël Dicker se baseia nesses três pilares para construir uma história que visa promover leituras conjuntas em família, além de refletir sobre a polarização ao tentar unir pessoas com pensamentos distintos. Em "O Supercatastrófico Passeio ao Zoológico", o autor suíço inova ao dar protagonismo à uma criança em uma narrativa, que embora seja breve, passa uma mensagem poderosa. O lançamento chega às livrarias brasileiras em fevereiro pela Intrínseca. A tradução é de Debora Fleck.

No enredo, o leitor acompanha Joséphine e seu grupo de amigos, formado apenas por crianças com características que as distinguem das demais crianças, em uma investigação sensível sobre o misterioso fechamento de sua escola após uma inundação. Elas estão convencidas de que não foi um acidente e não pouparão esforços para descobrir o verdadeiro culpado dessa pequena catástrofe. Enquanto isso, terão que frequentar a instituição de ensino do outro lado da rua, que acolhe um número grande de alunos. Do dia para a noite, as crianças terão que sair de suas zonas de conforto para conviver com pessoas diferentes e, no caminho, aprender conceitos fundamentais para todos.

À medida que a apuração avança, os pequenos são confrontados com vários desafios impostos pela mudança de suas rotinas. Mas, mesmo com os percalços, as crianças conseguem descobrir respostas com ajuda da avó de um deles, que, por ser fã de séries policiais, sabe tudo sobre como conduzir uma investigação. A partir daí, o grupo atravessa várias desventuras hilárias em busca da verdade, que culminam em um passeio caótico ao zoológico. Ao final, os amigos descobrem que as aparências podem enganar quando o caso toma um rumo totalmente diferente do que imaginaram.

O supercatastrófico passeio ao zoológico é um livro escrito com o desejo de fazer as pessoas lerem juntas. Como Dicker descreve na nota do autor, ao final do livro, o autor queria elaborar algo que “despertasse a vontade de ler e de fazer os outros lerem, sem distinção. E que fizesse a gente se reencontrar. De verdade”. Compre o livro "O Supercatastrófico Passeio ao Zoológico", de Joël Dicker, neste link.


Sobre o autor
Joël Dicker nasceu em Genebra, na Suíça, em 1985. É autor de "A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert", fenômeno mundial adaptado para série homônima, que foi finalista do prêmio Goncourt e vencedor do Grande Prêmio de Romance da Academia Francesa. São dele também "Os Últimos Dias de Nossos Pais", agraciado com o Prêmio dos Escritores de Genebra; "O Livro dos Baltimore"; "O Desaparecimento de Stephanie Mailer"; "O Enigma do Quarto 622"; "O Caso Alaska Sanders" e "Um Animal Selvagem", todos publicados pela Intrínseca. Foto: Anoush-Abrar. Compre os livros de Joël Dicker neste link.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

.: Com poemas, Adélia Prado enfrenta o tempo e a morte em "Miserere"


Reunião de poemas escritos na maturidade, "Miserere", oitavo livro de poesia de Adélia Prado, publicado originalmente em 2013, marca o retorno da autora aos temas que sempre estruturaram sua obra, agora atravessados por uma consciência ainda mais aguda da finitude. Ainda que permeado por leveza e humor, o livro se apresenta como um “pedido de socorro” - expressão que atravessa seus versos — diante do tempo que passa, dos pecados, dos males terrenos e das inquietações da alma. Trata-se de uma reflexão de vida inteira sobre o cotidiano, a intimidade e a experiência espiritual, na qual a relação com o sagrado se espalha por todos os gestos da existência, do rigor do fazer poético à mais prosaica receita culinária.

Dividido em quatro seções - “Sarau”, “Miserere”, “Pomar” e “Aluvião” -, o livro revela uma poesia cada vez mais econômica, marcada pela capacidade rara de dizer muito com pouco. A concisão, que sempre foi uma marca de Adélia, aqui se intensifica sem perder densidade emocional. Em poemas como “Uma pergunta”, a poeta traduz com precisão sentimentos complexos e dolorosos que pais e mães experimentam em algum momento da vida: “Vede como nossos filhos nos olham, / como nos lançam em rosto / uma conta que ignorávamos. / Não cariciosos, convertem em pura dor / a paixão que os gerou”. É nesse gesto de transformar experiências íntimas em matéria universal que Miserere encontra sua força mais duradoura.

Mesmo ao abordar a iminência da doença e da morte, Adélia Prado preserva um olhar bem-humorado e humano, capaz de arrancar da bruma onírica uma cena de graça inesperada. Em “Distrações no velório”, a poeta escreve: “Deus, tem piedade de mim. / Peço porque estou viva / e sou louca por açúcar”. O verso, aparentemente simples, condensa fé, fragilidade e desejo em uma única respiração poética, reafirmando a singularidade de uma escrita que nunca separa o corpo do espírito.

Livro após livro, a sensibilidade de Adélia Prado segue transformando o corriqueiro em matéria poética e espiritual. Dos tomates da feira ao quarto de costura, Miserere fala diretamente ao coração do leitor ao lembrá-lo de que o divino não está apartado da vida cotidiana, mas completamente imerso nela. A maturidade, aqui, não significa apaziguamento, e sim aprofundamento: a poesia continua sendo, para Adélia, forma de oração, de resistência e de escuta radical do mundo.

As novas edições chegam às livrarias com projetos gráficos renovados, trazendo capas assinadas pelo premiado designer Leonardo Iaccarino a partir de obras do artista plástico Pedro Meyer. O cuidado estético dialoga com a permanência e a atualidade de uma obra que, mesmo escrita sob o signo da maturidade, permanece pulsante e inquieta. Aos 90 anos, Adélia Prado é reconhecida como uma das maiores escritoras brasileiras de todos os tempos, vencedora de prêmios como Camões, Machado de Assis, Griffin, Jabuti e Biblioteca Nacional. Em 2014, foi condecorada pelo Governo Brasileiro com a Ordem do Mérito Cultural.

Em recente entrevista ao podcast Casa do Livro, Adélia falou sobre sua relação com o mistério, elemento central de sua escrita: “Acho que eu vivo de mistérios, dou graças a Deus pelos mistérios existirem, desde o mistério da Santíssima Trindade ao mistério da encarnação de Deus, até a física quântica. Dá uma energia, esse mundo desconhecido, que eu não sei como é, o além, o depois disso”. Ao refletir sobre o passar do tempo e as mudanças no modo de fazer poesia, foi ainda mais reveladora: “Por dentro, ainda tenho as mesmas curiosidades, as mesmas dificuldades, os mesmos sofrimentos, as mesmas perguntas de quando eu tinha 18”.

Declarações como essas ajudam a compreender Miserere não como um livro de encerramento, mas como um gesto de continuidade. Um livro em que Adélia Prado reafirma, com humildade e rigor, que a poesia — assim como a fé — nasce da dúvida, do espanto e da vida comum. Compre o livro "Miserere", de Adélia Prado, neste link.


Sobre a autora
Adélia Luzia Prado de Freitas nasceu em 13 de dezembro de 1935, em Divinópolis, Minas Gerais, cidade onde vive até hoje e que se tornou cenário recorrente de sua obra. Começou a escrever versos aos 15 anos, após a morte da mãe, experiência que marcaria profundamente sua relação com a palavra e com o sagrado. Formou-se no Magistério em 1953 e iniciou a carreira como professora em 1955. Em 1958, casou-se com José Assunção de Freitas, com quem teve cinco filhos.

Antes do nascimento da filha caçula, Adélia e o marido ingressaram no curso de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis, formando-se em 1973, um ano após a morte do pai da escritora. Poucos anos depois, enviou seus poemas ao crítico e escritor Affonso Romano de Sant’Anna, que os submeteu à leitura de Carlos Drummond de Andrade. Impressionado, Drummond classificou os textos como “fenomenais” e recomendou sua publicação ao editor Pedro Paulo de Sena Madureira, da Editora Imago.

O resultado foi o lançamento de "Bagagem", em 1976, no Rio de Janeiro, em um evento que reuniu nomes como Antônio Houaiss, Rachel Jardim, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Affonso Romano de Sant’Anna e Nélida Piñon. Desde então, a obra de Adélia Prado consolidou-se como um dos pilares da literatura brasileira contemporânea, abrangendo poesia, contos, romances, livros infantis e teatro - sempre marcada por uma escrita que une o sagrado e o profano, o cotidiano e o absoluto, o riso e a dor. Compre os livros de Adélia Prado neste link.


quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

.: "Solte os Cachorros", estreia de Adélia Prado na prosa, volta às livrarias


"Solte os Cachorros",
livro que marca a estreia de Adélia Prado na prosa e no qual a poeta mineira se apresenta como uma narradora feroz, consciente de sua voz e sem receio de se impor para retratar a vida das mulheres de sua geração, volta às livrarias pela Editora Record. Quase 50 anos após a publicação original, o livro permanece surpreendentemente atual, não apenas pelos temas que aborda, mas pela liberdade com que Adélia encara o corpo, a fé, o desejo e o tempo.

A nova edição traz capa assinada pelo premiado designer Leonardo Iaccarino, a partir de obras do artista plástico Pedro Meyer, reforçando o diálogo entre literatura e artes visuais e atualizando o livro para novos leitores. A narrativa que dá título ao livro apresenta uma mulher “na metade da vida”, figura central na obra de Adélia. Amparada pela experiência, ela observa o mundo com alguma contundência, mas sempre com afeto. A voz da personagem se alterna conforme o assunto - ora reflexiva, ora divertida, ora desesperada ou esperançosa - compondo um retrato complexo e profundamente humano da mulher madura.

Na segunda parte do livro, em um exercício de concisão que denuncia a origem poética da autora, Adélia flerta com o miniconto. São narrativas enxutas, de linguagem coloquial e ritmo preciso, que expõem a beleza e a musicalidade do português falado, transformado em matéria literária de alta voltagem. "Solte os Cachorros" é, assim, uma celebração de uma língua inventada por Adélia Prado - ao mesmo tempo doméstica e metafísica - e do universo que ela criou para retratar a mulher de meia-idade, que, apesar do mundo, do tempo e das interdições, não desistirá de desejar.

Aos 90 anos, Adélia Prado segue reconhecida como uma das maiores escritoras brasileiras de todos os tempos, vencedora de prêmios como Camões, Machado de Assis, Griffin, Jabuti e Biblioteca Nacional. Em 2014, foi condecorada pelo Governo Brasileiro com a Ordem do Mérito Cultural, coroando uma trajetória que uniu rigor literário, espiritualidade e profunda escuta do cotidiano.

Em recente entrevista ao podcast Casa do Livro, Adélia falou sobre sua relação com o mistério, elemento central da obra dela. “Eu vivo de mistérios, dou graças a Deus pelos mistérios existirem, desde o mistério da Santíssima Trindade ao mistério da encarnação de Deus, até a física quântica. Dá uma energia, esse mundo desconhecido, que eu não sei como é, o além, o depois disso”, afirmou. Ao refletir sobre o passar do tempo e as transformações no modo de escrever, foi ainda mais contundente: “Por dentro, ainda tenho as mesmas curiosidades, as mesmas dificuldades, os mesmos sofrimentos, as mesmas perguntas de quando eu tinha 18”. Compre o livro "Solte os Cachorros", de Adélia Prado, neste link.


Sobre a autora
Adélia Luzia Prado de Freitas nasceu em 13 de dezembro de 1935, em Divinópolis, Minas Gerais, cidade onde vive até hoje e que se tornou cenário recorrente de sua obra. Começou a escrever versos aos 15 anos, após a morte da mãe, experiência que marcaria profundamente sua relação com a palavra e com o sagrado. Formou-se no Magistério em 1953 e iniciou a carreira como professora em 1955. Em 1958, casou-se com José Assunção de Freitas, com quem teve cinco filhos.

Antes do nascimento da filha caçula, Adélia e o marido ingressaram no curso de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis, formando-se em 1973, um ano após a morte do pai da escritora. Poucos anos depois, enviou seus poemas ao crítico e escritor Affonso Romano de Sant’Anna, que os submeteu à leitura de Carlos Drummond de Andrade. Impressionado, Drummond classificou os textos como “fenomenais” e recomendou sua publicação ao editor Pedro Paulo de Sena Madureira, da Editora Imago.

O resultado foi o lançamento de "Bagagem", em 1976, no Rio de Janeiro, em um evento que reuniu nomes como Antônio Houaiss, Rachel Jardim, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Affonso Romano de Sant’Anna e Nélida Piñon. Desde então, a obra de Adélia Prado consolidou-se como um dos pilares da literatura brasileira contemporânea, abrangendo poesia, contos, romances, livros infantis e teatro - sempre marcada por uma escrita que une o sagrado e o profano, o cotidiano e o absoluto, o riso e a dor. Compre os livros de Adélia Prado neste link.



terça-feira, 27 de janeiro de 2026

.: Entre fios, fé e desejo, "Filandras" reúne o universo feminino de Adélia Prado


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.

Relançamento da Editora Record, o livro "Filandras", escrito por Adélia Prado, reúne 43 contos curtos que se debruçam sobre a vida cotidiana de mulheres comuns, aquelas que aprendem a se mover, sonhar, desejar e sofrer no espaço íntimo da casa, entre as obrigações miúdas de todos os dias e os anseios acumulados ao longo de uma existência inteira. São narrativas que nascem do aparentemente banal, mas que revelam, pouco a pouco, a densidade emocional, moral e espiritual de personagens femininas atravessadas pelo tempo, pelo corpo e pela fé. Ao traçar múltiplos retratos dessas mulheres, os contos se interligam e constroem um contexto maior, formando um painel delicado, íntimo e profundamente humano da experiência feminina.

Publicado originalmente em 2001, o livro traz para a prosa os temas mais caros à obra de Adélia Prado: a religiosidade cotidiana, o amor vivido entre culpa e entrega, o desejo feminino muitas vezes silenciado, a inocência, a morte e a consciência aguda da finitude. Tudo aparece entrelaçado por fios finíssimos, como sugere o título do livro, mas fios que podem, a qualquer momento, se estreitar em nós fatais. É dessa tessitura sensível que se constrói o universo ficcional da autora, capaz de transformar histórias aparentemente pequenas em verdadeiros épicos da vida comum.

Entre as personagens, estão Ester, deprimida em meio às transformações físicas e emocionais da menopausa; Calixtinha, que engravida após um namoro secreto com Otavianinho; e a jovem sonhadora que vê no casamento com um funcionário da rede ferroviária a promessa de “solidez e conforto”. São mulheres impactadas por expectativas sociais, desejos íntimos e frustrações silenciosas, sempre narradas com empatia, humor contido e uma profunda compreensão da condição humana. A nova edição traz capa do premiado designer Leonardo Iaccarino sobre obras do artista plástico Pedro Meyer.

Enquanto boa parte dos grandes contistas brasileiros da segunda metade do século XX voltou seu olhar para as mazelas da urbanização acelerada e da vida nas grandes metrópoles, Adélia segue na direção oposta. O foco dela está no interior, no microcosmo da pequena cidade, onde os grandes dramas se revelam nas miudezas. É ali que o humano se manifesta com mais nitidez. Personagens como Dona Ceres, Olinda e Célia, recorrentes na obra da escritora, andam de ônibus de linha, trocam conselhos na calçada, receitam remédios caseiros, emprestam açúcar a quem bate palma diante do portão. Gestos simples que, sob a escrita da autora, ganham espessura simbólica e poética.

O livro também resgata figuras emblemáticas, como Dona Doida, personagem que remete à peça encenada por Fernanda Montenegro nos anos 1980. Aqui, ela surge como uma mulher humilde e cômica, levada ao hospital por causa do “istrés”, termo que, em sua deformação popular, revela tanto humor quanto fragilidade. A linguagem de Adélia Prado, aliás, valoriza essas falas imperfeitas, esses deslizes do idioma que dizem muito sobre quem fala e sobre o mundo que as cerca.

No plano estilístico, "Filandras" se destaca tanto pela força do que é dito quanto pela potência do que permanece em silêncio. A escrita é contida, precisa, mas profundamente sugestiva. Em uma “terra de donasmarias”, a visão católica se manifesta não como doutrina rígida, mas como angústia metafísica, dúvida existencial e tentativa permanente de conciliação entre o corpo e o espírito. O mundo que emerge dessas narrativas, como define uma das narradoras do livro, é simultaneamente “maravilhoso e imperfeito”- definição que poderia servir de síntese para toda a obra de Adélia Prado. Compre o livro "Filandras", de Adélia Prado, neste link.

Sobre a autora
Adélia Luzia Prado de Freitas nasceu em 13 de dezembro de 1935, em Divinópolis, Minas Gerais, cidade onde vive até hoje e que se tornou cenário recorrente de sua obra. Começou a escrever versos aos 15 anos, após a morte da mãe, experiência que marcaria profundamente sua relação com a palavra e com o sagrado. Formou-se no Magistério em 1953 e iniciou a carreira como professora em 1955. Em 1958, casou-se com José Assunção de Freitas, com quem teve cinco filhos.

Antes do nascimento da filha caçula, Adélia e o marido ingressaram no curso de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis, formando-se em 1973, um ano após a morte do pai da escritora. Poucos anos depois, enviou seus poemas ao crítico e escritor Affonso Romano de Sant’Anna, que os submeteu à leitura de Carlos Drummond de Andrade. Impressionado, Drummond classificou os textos como “fenomenais” e recomendou sua publicação ao editor Pedro Paulo de Sena Madureira, da Editora Imago.

O resultado foi o lançamento de "Bagagem", em 1976, no Rio de Janeiro, em um evento que reuniu nomes como Antônio Houaiss, Rachel Jardim, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Affonso Romano de Sant’Anna e Nélida Piñon. Desde então, a obra de Adélia Prado consolidou-se como um dos pilares da literatura brasileira contemporânea, abrangendo poesia, contos, romances, livros infantis e teatro - sempre marcada por uma escrita que une o sagrado e o profano, o cotidiano e o absoluto, o riso e a dor. Compre os livros de Adélia Prado neste link.
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