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segunda-feira, 27 de julho de 2026

.: "Ulisses", na pioneira tradução de Antônio Houaiss, é relançado


Na véspera do Bloomsday, como é chamado o dia em que se passa a narrativa de "Ulisses", a editora Civilização Brasileira manda para as livrarias o romance monumental de James Joyce, na célebre e pioneira tradução de Antônio Houaiss, recuperando o projeto gráfico original do icônico designer Eugênio Hirsch, com texto de orelha de Augusto de Campos. A edição conta ainda com preparação de texto que recupera a versão aprovada por Houaiss, além de introdução e cronologia.

Joyce foi um dos maiores escritores do século XX, síntese do modernismo literário e de novas concepções de literatura. Considerada a obra-prima do escritor irlandês, "Ulisses" é uma reimaginação moderna da estrutura da "Odisseia" de Homero. O romance "Ulisses" acompanha algumas horas da vida do corretor de anúncios Leopold Bloom, ao longo do dia 16 de junho de 1904 e da madrugada seguinte: ele sai de casa pela manhã e retorna à noite na companhia de Stephen Dedalus. Em casa, sua esposa, a cantora Molly Bloom, já está deitada – após ter passado a tarde com o amante. Publicado em 1922, o livro foi divisor de águas na literatura. Por sua grande inovação, horrorizou e encantou leitores e críticos. Para T. S. Eliot“Joyce está seguindo um método que outros devem buscar depois dele”.

O intelectual Antônio Houaiss encarou o desafio de traduzir "Ulisses" para o português brasileiro em menos de um ano. O trabalho exigia não apenas conhecimento técnico, mas grande sensibilidade para as possibilidades do idioma. Sua tradução inaugurou no país a tradição de leitura e estudo de Ulisses, mantendo-se como referência quase cinquenta anos depois. Vitor Alevato do Amaral, um dos maiores especialistas em James Joyce no Brasil, estabeleceu o texto desta edição e organizou conteúdo para contextualizar o romance e sua segunda edição, revista por Antônio Houaiss e editada por Ênio Silveira. Compre o livro "Ulisses", de James Joyce, neste link.


O que disseram sobre o livro
“É indispensável conhecer essa obra para consciencializar suas conquistas e poder seguir à frente, no caminho do novo. Um escritor atual que não tenha lido Joyce, é mais ou menos como um físico que ignore Einstein ou um sociólogo que não tenha tomado conhecimento de Marx.” Augusto de Campos


Sobre o autor
James Joyce (Irlanda, 1882 – Suíça, 1941) é amplamente considerado um dos maiores escritores do século XX. Embora o romancista tenha vivido boa parte de sua vida expatriado de sua terra natal, sua identidade irlandesa foi essencial para a construção da ambientação e da temática de sua obra. Dos seus maiores títulos, a odisseia moderna Ulisses é publicada pela Editora Civilização Brasileira. Compre os livros de James Joyce neste link.

domingo, 26 de julho de 2026

.: Entrevista: Thiago Sobral, o homem que ousou matar o pai na ficção


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

No romance de estreia "O Pai, a Faca e o Beijo", escrito por Thiago Sobral, a conversa começa depois do que não tem volta: um filho diante do corpo do pai, tentando organizar a própria versão enquanto empurra todo o resto para fora do quadro. Não há espaço para testemunha, só para a fala que é despejada ali. A cidade observa de perto, como sempre, e o silêncio pesa mais do que qualquer grito.

O romance lançado pela Editora Patuá avança em cima de cortes secos, pistas falsas, desvios  e o leitor fica ali, insistindo, mesmo quando já entendeu o terreno em que está pisando. Ex-seminarista, professor, escritor estreante pela Patuá, o autor prefere o atrito à acomodação. Nesta entrevista exclusiva ao portal Resenhando.com, ele fala de desconfiança, linguagem, fé sem amparo e personagens que não buscam aprovação dos leitores, o que torna tudo mais interessante. Compre o livro "O Pai, a Faca e o Beijo", escrito por Thiago Sobral, neste link.


Resenhando.com - Seu romance parece sabotar o leitor o tempo todo: quando ele pensa que encontrou um afeto, ou quando espera redenção, você oferece outra coisa. Escrever, para você, é um gesto de desconfiança?
Thiago Sobral - Acredito, em partes, que sim. Desconfiança das verdades estabelecidas, das certezas inquebrantáveis. No caso de “O Pai, a Faca e o Beijo”, o leitor talvez pense que, por tratar da relação entre pai e filho, encontre alguma esperança ou possibilidade de redenção, como em tantas outras histórias que se constroem em torno disso, como a parábola do Filho Pródigo, por exemplo. Mas, na história de Santiago e Severo, temos um filho que sofreu muito com as várias violências praticadas pelo pai. Por conta disso, ele não consegue mais olhar para o lado, dialogar com as diferenças e que, por isso, busca, de todas as formas, justificar o parricídio que acabou de cometer. Nessa tentativa, ele conta a sua versão dos fatos. Versão essa que não deixa espaço para a interferência das outras personagens. Todas as possibilidades de construir um novo olhar, de se abrir a novos sentimentos e experimentar novos afetos são sumariamente ignoradas. A pergunta que surge é: Santiago age assim porque é fruto de tudo isso, ou porque escolhe se fechar a qualquer possibilidade de agir e ser diferente?


Resenhando.com - Santiago é um personagem que concentra contradições quase insuportáveis, já que encarna aquilo que combate. Em algum momento você temeu que ele se tornasse tão intragável a ponto de o público não torcer por ele?
Thiago Sobral - Eu quis construir um personagem que, de cara, fosse identificado como vítima e que, ao longo da história, oferecesse elementos capazes de justificar o seu crime e assim ganhasse a confiança do leitor. Justamente por isso, penso que, por mais que sinta vontade de abandoná-lo em seu próprio ódio e condená-lo pelo seu ato, o leitor ainda torce por ele, deseja que supere tudo aquilo e encontre o seu caminho. As possibilidades existem, alguns personagens tentam fazê-lo enxerga-las. E é por isso que o leitor, talvez, deseje, até o final, que tudo acabe bem.


Resenhando.com - No seu livro, a violência aparece como forma de cuidado, omissão e até desejo. Você diria que a forma mais cruel de agressão é aquela que consegue se disfarçar de amor?
Thiago Sobral - Ah, sem dúvida. Quase sempre, nas relações humanas das quais se espera o cuidado, a violência é justificada por quem a pratica. As surras, as palavras pesadas, as ofensas, os puxões de orelha são sempre dados na tentativa de se evitar que algo ruim aconteça. No caso do Severo, ele esperava livrar o filho de certos sofrimentos e, principalmente, de julgamentos morais. Ioiô, a mãe, tenta convencer o filho de que aquele é o jeito do pai e que, uma hora ele vai mudar. Os irmãos homens de Santiago reproduzem aquilo que veem em seu dia a dia. E o próprio Santi reproduz essa violência com seu amigo Davi, seja no ato sexual em si, seja com as palavras que dirige a ele em cada tentativa de afeto recebido. No fim, a violência aparece como parte natural da vida daquela família e como substituta do diálogo, que nunca acontece por completo, porque não são capazes de se abrir à experiência com o outro, ao universo do próximo. Cada um se fecha em suas próprias verdades. E quando não se dialoga, o que resta é a tentativa de impor ao outro as suas próprias convicções; e, por não haver palavra trocada, restam puxões de cabelo, tapas, socos e xingamentos.


Resenhando.com - Severo, o pai opressor, parece agir movido por uma lógica interna que, para ele, faz sentido. O que mais interessava a você ao construí-lo: denunciar a violência ou revelar o quanto ela pode ser racionalizada por quem a pratica?
Thiago Sobral - Na cabeça do Severo, aquela era a melhor forma de educar o filho. Não eram atitudes inconscientes ou impulsivas. Ele queria livrar Santiago de coisas que ele mesmo julgava conhecer bem. E é muito comum nos depararmos com pessoas que pensam assim. Em minha trajetória como professor, já me deparei com pais que pensam e agem dessa forma. Quantas e quantas vezes não já ouvimos a frase: “Isso é falta de surra!”? Ou “Dou uns tapas que aí vira homem rapidinho!”? Então, a violência, nesses casos, é racionalizada, revela-se como um método e é quase institucionalizada. Quanta polêmica não foi feita na época em que se debateu a “Lei da Palmada”? Muita gente pensa que é um direito dos pais corrigirem os filhos com violência, quando julgarem necessário. Tivemos um caso recente no Paraná, de um pai que chutou a filha de três anos. Então, além de denunciar a violência sofrida por muitos filhos, eu quis, sobretudo, mostrar que ela não é mero fruto do acaso. Antes, faz parte de uma estrutura, de um arranjo social muito antigo e que está aos poucos sendo questionado e combatido. Mas ainda é preciso que se faça muito mais nesse campo. Para tornar a reflexão ainda mais complexa, o livro quer propor mais uma reflexão: as violências sofridas por Santiago justificam o crime que ele cometeu?
 

Resenhando.com - A cidade de Cubatão não aparece apenas como cenário, mas como uma espécie de personagem que vigia, regula e rotula. Até que ponto a geografia, na sua escrita, é responsável pelo fracasso das relações?
Thiago Sobral - O espaço que se habita sempre exerce alguma influência sobre nós. O Determinismo, de Hippolyte Taine, ofereceu algumas ferramentas aos escritores naturalistas e estas exercem alguma influência sobre a minha literatura, embora não haja, de minha parte, uma adesão plena a esse pensamento. Mas todo cubatense compartilha, de alguma forma, um instinto bisbilhoteiro e comentador dos fatos cotidianos. Nossa geografia, espremida pela Serra do Mar, e bairros entrecortados por rios e mangues, nos aglutina de tal maneira, que, muitas vezes, temos a sensação de conhecer e saber alguma coisa sobre todo mundo. Além disso, temos as fábricas que ocupam parte significativa desse território, lançam muita fuligem no ar e esquentam a atmosfera, de modo que tudo parece sempre muito abafado. Morar em Cubatão é sufocante em boa parte do ano. E boa parte da vida, dos desejos e da personalidade de Santiago é também sufocada por ele em mesmo e pela vizinhança. Talvez por isso, a despeito da riqueza que a cidade arrecada com os impostos, seja, ainda hoje, um lugar que precisa se desenvolver e superar alguns fracassos do passado que insistem em nos marcar até os dias atuais.
 

Resenhando.com - Sua experiência como ex-seminarista aparece, de alguma maneira, no romance. Mas a fé que aparece ali não dá o conforto que as pessoas esperam de um ex-religioso. A literatura, para você, substitui a religião ou continua sendo uma forma de oração, ainda que sem resposta?
Thiago Sobral - Vejo a religião como uma institucionalização da fé. Por isso, não. A literatura não substitui a religião, embora muitos a coloquem num altar sacrossanto inalcançável. Gostei dessa ideia de ser uma forma de oração, sobretudo porque me faz pensar na experiência que orar proporciona ao que crê. É um ato de elevar o pensamento, vocalizar sentimentos e expressar desejos. A oração é a via-expressa utilizada por aquele que crê para se aproximar do Mistério Absoluto, do Totalmente Outro. Justamente por isso, nela não se encontra certeza, apenas se confia. A literatura também não nos dá certezas, antes, apresenta-nos caminhos, mostra possibilidades e, inclusive, nos permite viver aquilo que não cabe em uma única existência, podendo nos dar um gostinho de vida eterna. No livro, a religião surge como forma de opressão e de aprisionamento. Ainda que o personagem padre Jorge tente mostrar uma outra religião, aquela que se mantém fiel à “Inspiração da Boa Nova”, a que se sobrepõe é a “Instituição” religiosa. Essa coloca algemas no sacerdote, um peso sobre Severo e uma falsa convicção em Santiago. O que surge como outra possibilidade é o espírito artístico de Davi, o Pirueta, que, com sua dança e seus versos, nos deixa uma carta que se mostra quase como uma litania a Santi e um louvor ao amor e à vida.


Resenhando.com - Há ecos claros de Machado de Assis na sua ironia e no modo como você recusa absolver seus personagens. O que interessa mais a você nos diálogos que você escreve e nas tramas que constrói?
Thiago Sobral - Ao construir um personagem, é fundamental que ele tenha voz própria e que essa voz revele muito mais do que as palavras que ele diz. “O Pai, a Faca e o Beijo” é um livro que se constrói pelo que não é dito, mas que está ali; por aquilo que poderia ter sido, mas não foi. Assim, os diálogos pretendem revelar as intenções e a psicologia de cada personagem. Também busquei retratar a oralidade típica de muitas famílias cubatenses, que são formadas por migrantes nordestinos, como ocorre com a minha própria família. Para além disso, há lacunas frequentes nos diálogos entre Severo e Santiago, há insinuações, desconfianças, covardias e ironias que vão permeando as palavras ditas e não ditas. Os capítulos em que Santiago conversa diretamente com o cadáver do pai são carregados de sinceridade, ainda que esta seja calcada numa certa ilusão. Ao longo de praticamente toda a história, a forma como as falas do pai é apresentada traz quase que uma chave de leitura para todo o romance, mas que deixo para o leitor interpretar e decidir.


Resenhando.com - Em vários momentos, o leitor se vê torcendo pelo impossível, numa espécie de tentativa de salvar alguém que não está disposto a ser salvo. Você acredita que a literatura ainda pode operar algum tipo de redenção ou isso já é uma ilusão que o seu livro desmonta?
Thiago Sobral - A literatura, por si só, não opera nada. Ao mesmo tempo, a literatura pode tudo, desde que o leitor se coloque como cúmplice do que lê. Uma história só funciona realmente quando um pacto tácito e secreto é selado entre o narrador e o leitor. Feito isso, uma nova história nasce a cada leitura que se conclui de uma mesma narrativa. E é justamente essa nova história que pode operar tudo, seja uma redenção ou uma condenação. Meu livro pode levar a crer que não há redenção, mas isso ocorre por que as chances foram esgotadas, ou por que aquele que poderia redimir se recusou a olhar para os lados e enxergar outras possibilidades? Por fim, resta-nos pensar em quantas vezes não somos nós mesmos os culpados pelos fracassos e assassinatos metafóricos que cometemos ao longo da vida.


Resenhando.com - A ideia freudiana de “matar o pai” aparece como um gesto simbólico de liberdade. No seu romance, essa ruptura parece sempre incompleta. Existe liberdade possível sem destruição total?
Thiago Sobral - Essa é uma questão interessante, porque ela alcança o cerne do romance. Para escrever essa história, mergulhei no pensamento de Freud a partir dos escritos de “Totem e Tabu”. Essa ideia de matar o pai tirano para ocupar o seu lugar e assim gozar da liberdade e dos privilégios que tal posição lhe daria aparece frequentemente na conversa de Santiago com o pai defunto. Santi acredita piamente que todos os seus problemas decorrem de sua relação com o pai: o medo de que ele tenha certeza de sua orientação sexual, as surras que levou na infância e adolescência, a pele negra que ele tanto odeia e da qual se envergonha. Tudo isso forma a “herança maldita” à qual ele se refere ao longo da história e que alimenta seu discurso de ódio e preconceito contra os irmãos e contra si mesmo e que, inconscientemente, recai sobre Davi. Apesar de tudo isso, ele vai levando a vida, até que uma descoberta torna tudo insuportável para ele. É nesse momento em que seu complexo de Édipo invertido não superado se torna latente que ele passa a acreditar que o assassinato do pai será a via para a sua libertação. Porém, ao cometer o crime, se dá conta de que as coisas não são bem assim e tenta se convencer do contrário. No fim, ele destrói muita coisa, mas não destrói o principal, que está dentro de si mesmo. Por fim, não sei se é preciso destruição total para se alcançar a liberdade. Sei apenas que precisamos soltar a mão de certas coisas para que possamos ser aquilo que a nossa natureza pede de nós mesmos.
 

Resenhando.com - “O Pai, a Faca e o Beijo” termina sem oferecer catarse. Em um mercado editorial que muitas vezes aposta no conforto, você escolheu o incômodo. Escrever hoje é, para você, também uma forma de contrariar expectativas, um ato de indisciplina?
Thiago Sobral - Escrever exige, antes de tudo, constância e disciplina. Penso que justamente isso, constância e disciplina, seja uma forma eficaz de contrariar expectativas e fugir da “disciplina” adotada por muitos e, portanto uma “indisciplina” contemporânea. Esse paradoxo, acredito, perpassa o dia a dia de todo escritor, porque precisamos, muitas vezes, nos refugiarmos numa outra lógica, fora do tempo e do espaço que se constroem hoje. É como se a matéria de nossa dedicação (a palavra) precise ser buscada em lugares pouco frequentados. Não quero com isso dizer que o ofício do escritor seja algo elevado, superior. Muito pelo contrário. A palavra está na “vida ao rés do chão”, como disse o mestre Antônio Candido. Embora ele tenha usado essa expressão para se referir à crônica, penso que todo escritor precisa sentir a poeira da terra, “lamber o chão” para penetrar surdamente no reino das palavras e trazer à vida uma nova história. E isso é encarado como algo natural, ossos do ofício, pois não há nada de extraordinário na literatura. Ao mesmo tempo, ela é uma ação sublime capaz de dar ao leitor novas lentes para ver e decifrar o mundo.

sábado, 25 de julho de 2026

.: "Ontem Vi Meu Pai Chorar", o livro infantil de Luiza Romão


A primeira obra infantil da premiada autora conta com imagens criadas por Silvia Nastari, diretora de arte da editora Quelônio. Ilustrações digitais e elementos fotográficos se combinam em colagens originais. Foto: Duda Portella

"Ontem Vi Meu Pai Chorar" é o primeiro livro infantil da premiada escritora Luiza Romão. Publicada pela Editora Quelônio, a obra mergulha em memórias do futebol dos anos 1970. Na história, Gigi vê o pai chorando durante uma partida ouvida pelo rádio e decide investigar o que é esse tal de futebol que faz os homens se emocionarem. Com ilustrações e colagens de Silvia Nastari, o livro se inspira em documentos, cenários, fotografias e jornais da época.

O livro continua a parceria entre Luiza Romão e a Editora Quelônio, iniciada em 2022 com o livro de poemas detetivescos "Nadine". Já a nova publicação aborda vínculos familiares, o espaço escolar e o acesso de meninas e mulheres ao esporte. Indicado para crianças a partir de cinco anos em leitura compartilhada com um adulto, o livro também convida  leitores iniciantes do Ensino Fundamental. Apaixonada por futebol, Luiza Romão cresceu assistindo a jogos no Estádio Santa Cruz, em sua cidade natal, Ribeirão Preto. Depois de se mudar para São Paulo, passou a frequentar as arquibancadas do Palmeiras, seu time do coração. A vivência nos estádios foi fundamental para construir a história de Gigi: 

“No começo, a Gigi se espanta ao ver o pai aos prantos e tenta descobrir o que aconteceu. Não é muito fácil. Toda vez que ela tenta encontrar respostas, alguém diz que futebol 'não é assunto de menina'. Além disso, o livro também discute como nossa sociedade, desde muito cedo, ensina os homens a reprimir suas emoções. Isto está presente nas famílias, nas rodas de amigos, nos espaços de formação. Neste contexto tão enrijecido, o futebol se torna um dos poucos momentos em que é permitido chorar, se abraçar, gritar, etc. Assim, convidamos as leitoras e leitores a pensarem o quanto o futebol é ‘assunto de menina’ e como o choro não deve ser um tabu”, conta a autora.

Deste modo, o esporte fortalece o vínculo entre pai e filha e entre Gigi e outras meninas, agregando novos olhares para a masculinidade e as trocas afetivas na infância. Além disso, a obra traz à tona um fato histórico importante: a proibição do futebol de mulheres por quase quarenta anos no Brasil. Neste sentido, a orelha de Ontem Vi Meu Pai Chorar foi escrita por Aira Bonfim, historiadora, ativista e especialista na história social do futebol feminino brasileiro.

Outros trabalhos de Luiza também reforçam seu amor pelo esporte, como a co-curadoria da exposição "¡Cancha Brava! Futebol Sudamericano en Disputa", realizada pelo Museu do Futebol em 2025; a orelha de Rostos cobertos, corações à mostra: futebol, autonomia e luta zapatista (Editora Autonomia Literária); o prefácio da antologia de crônicas do Museu do Futebol (2024); e a publicação de textos sobre o esporte nas revistas Tinta Libre (Espanha), Revista E (SESC) e Quatro Cinco Um. Além disso, Romão desenvolve doutorado sobre futebol, voz e literatura latinoamericana na Universidade de São Paulo, com apresentações em importantes congressos da área. Na agenda da autora também consta participação na Feira do Livro do Pacaembu com uma mesa sobre as dimensões afetivas do futebol e a participação feminina no jogo tanto dentro das quatro linhas como na torcida e na literatura. Compre o livro "Ontem Vi Meu Pai Chorar" neste link.

Sobre Luiza Romão
Nascida em Ribeirão Preto, em São Paulo, em 1992, Luiza Romão é poeta, atriz e pesquisadora. É aautora de "Também Guardamos Pedras Aqui" (vencedor do Prêmio Jabuti 2022 nas categorias Melhor Livro de Poesia e Livro do Ano), "Sangria" e "Nadine". É bacharela em Artes Cênicas e mestra em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo, onde atualmente cursa doutorado. Investigou as relações entre literatura e performance no universo do poetry slam, e hoje, pesquisa voz e futebol na literatura latino-americana. 

Os trabalhos dela já circularam por importantes festivais no Brasil e no exterior, com apresentações na Argentina, Alemanha, Cuba, China, Espanha, Portugal, Suíça, Grécia, Holanda, México, Costa Rica, França e Uruguai, entre outros países. Além de sua atuação artística e acadêmica, também trabalha como curadora, co-assinando exposições como Gira da Poesia: 15 anos de slam no Brasil , realizada no Museu de Arte do Rio e no Instituto Tomie Ohtake, e "¡Cancha Brava! Futebol Sudamericano en Disputa", no Museu do Futebol. "Ontem Vi Meu Pai Chorar" é seu primeiro livro infantil. Compre os livros de Luiza Romão neste link.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

.: Thiago Vicente lança na Flip livro-carta sobre sobrevivência e recomeço


Em “Sobre.Viver”, Thiago Vicente transforma luto e reabilitação em narrativa autobiográfica escrita à mãe; sessões de autógrafos acontecem nos dias 24 e 25 de julho, no estande da com.tato 

A Flip - Festa Literária Internacional de Paraty recebe este ano um lançamento que promete tocar fundo em quem já enfrentou a dor da perda e a luta para se reerguer. Trata-se de “Sobre.Viver”, do artista visual, escritor e performer Thiago Vicente. O livro, que já está em pré-venda, chega à Flip em edição física e será apresentado ao público em duas sessões de autógrafos: uma no dia 24 de julho, às 16h00, e outra no dia 25, às 13h00, ambas no estande da com.tato, localizado na Casa Escreva, Garota!. Durante toda a festa, a obra estará disponível para compra no mesmo estande.

“Sobre.Viver” é um relato autobiográfico escrito em formato epistolar: cartas endereçadas à mãe do autor, Maria, que faleceu em seus braços durante um grave acidente de carro em janeiro de 2023. Com as duas pernas quebradas e presas nas ferragens, Thiago sobreviveu, mas iniciou uma longa e dolorosa jornada de reabilitação física e emocional. O livro nasceu como uma forma de lidar com o luto e com todas as perdas que se seguiram: a morte da mãe, a do pai dias depois, a do cão de apoio emocional Yuri, a da irmã Rosane, e a perda do Ninho, a casa na roça que ele mesmo construiu com as próprias mãos.

“O livro são cartas que escrevi para minha mãe, depois de sofrer um acidente de carro, quebrar as duas pernas e perdê-la em meus braços. Conto nas cartas como tem sido sobreviver, e voltar a viver mesmo em reabilitação (que já dura mais de três anos) e os aprendizados que tenho tido nesse renascimento”, explica o autor. O processo de escrita, segundo ele, levou cerca de dois anos e foi “doloroso, difícil, com muita alma e lágrimas”, mas também transformador.

A obra é guiada por temas como luto, superação, resiliência, força, amor e autoconhecimento. “Utilizei da escrita para aliviar o peso da história e as dores, físicas e emocionais. E transformar em algo bom, bonito, até mesmo poético - para me curar, e ajudar outras pessoas também”, afirma Thiago. O livro, que ele define como sua “maior herança”, é a materialização de uma busca diária por equilíbrio e paz de espírito.

Nas páginas de “Sobre.Viver”, o leitor acompanha não apenas a sequência dos acontecimentos, mas também as reflexões do autor sobre o silêncio, a solidão e a reconstrução da identidade após um trauma. Thiago fala abertamente sobre a tentativa de suicídio, a depressão profunda, as acusações injustas que recebeu da própria família e o longo processo de fisioterapia e cirurgias, incluindo o uso de um fixador externo (a “gaiola” de Ilizarov) que o acompanhou por meses. A narrativa, no entanto, não se resume à dor: é também um testemunho de como a arte, a escrita e a fé podem ser ferramentas de cura. “Este livro é a minha maior herança: a transformação de muita dor em palavras, amor e afeto. Como gosto de dizer: em cor”, aponta. Compre o livro "Sobre.Viver" neste link.


Sobre o autor

Thiago Vicente é artista visual, escritor, designer e performer. Graduado em Design e Fotografia e mestre em Design e Cultura Visual pelo IADE, em Lisboa (Portugal), sua trajetória atravessa as artes visuais, a literatura e a performance. Autor de livros infantis, desenvolve obras que unem produção editorial e artes visuais com sensibilidade e reflexão. Após o acidente e o longo processo de reabilitação, sua investigação artística passou a explorar com ainda mais profundidade temas como vulnerabilidade, silêncio e reconstrução. Residente em João Pessoa, na Paraíba, cria trabalhos que combinam instalação, performance, escrita e audiovisual. Na escrita livre, encontrou também um gesto de cuidado: uma forma de aliviar a alma e seguir colorindo a vida. Compre os livros de Thiago Vicente neste link.


Serviço | Agenda Flip 2026
Eventos: Sessões de autógrafos de Thiago Vicente com o livro “Sobre.Viver”
Dias 24 e 25 de julho (sexta e sábado, respectivamente)
Horário: no dia 24, às 16h00; no dia 25, às 13h00
Local: Estande da com.tato, na Casa Escreva, Garota! - Flip, Paraty (RJ)
Vendas durante a Flip: O livro estará disponível no estande da com.tato durante toda a festa, pelo valor promocional de R$ 50,00. 

.: Livro sobre cura coletiva e resistência feminina terá sessão de autógrafos


“Palco dos Que Sofrem”, de Letícia Ávila, investiga as marcas do patriarcado e propõe uma “ustopia” onde a cura e o apoio mútuo são a base de uma nova estrutura social. Foto: divulgação


A escritora e jornalista Letícia Ávila participa da programação paralela da Flip - Festa Literária Internacional de Paraty com uma sessão de autógrafos de seu romance de estreia, "Palco dos Que Sofrem". O encontro acontece neste sábado, dia 25 de julho, às 19h00, na Casa Pagã. O romance mergulha nas vivências de duas gerações de mulheres marcadas pelo autoritarismo masculino a partir da trajetória de busca pela verdade e autodescoberta da personagem Maria Beatrice. Guiada pelos escritos íntimos de sua mãe, encontrados muitos anos após seu falecimento, a jovem viaja até Conceição, cidade natal de sua matriarca, a fim de conhecer o passado de sua família. 

Com prefácio da professora e pesquisadora Priscilla Lima, a obra foi contemplada pelo ProAC/SP e propõe um exercício de imaginação política ao construir a cidade de Conceição como um espaço onde a estrutura social é pautada no feminino. Ao usar o conceito de ustopia, a autora levanta a questão: um mundo liderado por mulheres é perfeito (utopia) ou carrega novos e antigos tipos de sombras e desafios (distopia)? 

“O feminismo me ensinou que, antes de transformar a realidade, precisamos ser capazes de imaginá-la”, complementa. Escrever ficção permitiu a ela criar de um universo onde foi possível testar novas estruturas de poder e analisar como seriam as relações humanas se, de repente, elas passassem a ser fundamentadas no cuidado.

Ao sugerir a importância da cura e do acolhimento coletivo, a obra dialoga com o conceito de dororidade, criado por Vilma Piedade para nomear a irmandade que nasce especificamente da dor compartilhada entre mulheres negras, uma união forjada na intersecção do racismo e do machismo. "O tema central da trama não é a dor pela dor, mas como o fardo se torna mais leve quando compartilhado em uma rede de apoio", reflete Letícia. 

O diário da mãe é um elemento central na narrativa. Ele serve para revelar o passado e, principalmente, a verdadeira voz de Nianca, mãe de Maria Beatrice. Dessa forma, mãe e filha deixam de ser "vítimas" de narrativas impostas por homens (como o pai da protagonista) para se tornarem donas de suas próprias histórias. Segundo ela, o tema central do livro é o rompimento de ciclos. “É preciso investigar o passado para não repetir as mesmas dores no futuro, buscando uma linhagem baseada na verdade e no afeto, e não no silenciamento”, frisa. Compre o livro "Palco dos Que Sofrem" neste link.


Sobre a autora
Letícia Ávila
é escritora, jornalista e feminista. Nascida em Aracaju (SE), cresceu em São Paulo e atualmente vive em Ilhabela (SP). Formada em Jornalismo pela FIAM-FAAM FMU, atua desde 2012 no mercado de cinema e entretenimento, experiência que influencia o ritmo e a construção de suas narrativas. Após concluir o Curso de Formação de Escritores da Casa das Rosas (CLIPE), estreia na literatura com o romance "Palco dos que Sofrem", obra contemplada pelo ProAC PNAB. Em sua escrita, investiga temas como memória, trauma, redes de apoio e protagonismo feminino, entendendo a literatura como um espaço de acolhimento, cura e ressignificação. Compre os livros de Letícia Ávila neste link.


Serviço
Sessão de autógrafos - "Palco dos Que Sofrem"

Data: sábado. dia 25 de julho, às 19h00
Local: Casa Pagã – Rua Dona Geralda, 76 – Centro Histórico, Paraty (Rio de Janeiro)

quinta-feira, 23 de julho de 2026

.: Carolina Santos lança o premiado "Bocas Mestiças" na Flip 2026


Vencedor do 2º Prêmio Tato Literário, livro reúne contos escritos ao longo de 12 anos que transformam experiências íntimas em reflexão sobre o Brasil contemporâneo. Foto: divulgação


A Editora Orlando apresenta na 24ª Flip - Feira Literária Internacional de Paraty o lançamento de "Bocas Mestiças", da escritora e socióloga goiana Carolina Santos. Vencedor do 2º Prêmio Tato Literário na categoria Contos, o livro reúne narrativas interligadas que formam um mosaico sobre identidade, ancestralidade e resistência no Brasil. Com uma prosa que transita entre realismo, lirismo e elementos fantásticos, a obra coloca em cena personagens em conflito com as imposições de raça, gênero, classe e família. A autora lança a obra no dia 24 de julho, sexta-feira, às 15h00, em sessão de autógrafo no espaço da editora orlando na Casa Opera, no Centro Histórico de Paraty. Antes, às 14h, no mesmo local, participa da mesa de conversa “Classismo, Racismo e Ascensão Social na Literatura Brasileira”, com os autores Maurício Mendes, Marcelo Nery e Rafael Caneca.

O título já anuncia o que o leitor encontrará: “Bocas mestiças é para quem não tem medo de sujar as mãos de terra, de leite, de sangue e de prazer. É para quem sabe que a guerra nunca terminou. E que a poesia e a literatura, muitas vezes, são as únicas armas que nos restam”. Mulheres, crianças e corpos dissidentes ocupam o centro da cena não como vítimas, mas como forças vivas que dançam, gozam, resistem e reinventam o mundo em meio ao caos.

O percurso de escrita do livro é também uma travessia pessoal e política da autora. “A diferença entre eles é de 12 anos, 3 eleições presidenciais e 3 copas do mundo”, conta Carolina Santos, referindo-se ao intervalo entre o primeiro conto escrito, “Colar Essencial”, e o último, “Sem Carne e Em Chamas”. “Eu comecei com a história de uma mulher jovem e solteira buscando sua revolução erótica e íntima, na defesa de uma solidão prazerosa e terminei com uma mulher que se vê empurrada de forma violenta e até mesmo trágica para uma revolução íntima e política”.

É nesse arco que o livro explora o que as feministas dos anos 1960 já anunciavam: o pessoal é político. A narrativa de abertura, que conduz o leitor das margens do rio Araguaia às periferias de Brasília, é um exemplo contundente dessa costura entre violência histórica e desejo de liberdade. Outros contos mergulham em Brasília como personagem — “cidade construída sobre a terra vermelha do Cerrado, promessa de futuro erguida sobre camadas de memória e violência” — e na boca como símbolo do lugar da palavra e do desejo, onde diferentes heranças se tornam mestiças.

“'Bocas Mestiças 'é um livro sobre corpos em disputa”, resume a autora. “Os contos abordam ancestralidade, raça, gênero, desejo, erotismo, afetos, espiritualidade, memória e território”. Ao lado de narrativas sobre colonialismo, mestiçagem e desigualdades sociais, o livro dedica atenção especial ao erotismo feminino e aos modos pelos quais mulheres e corpos dissidentes reivindicam autonomia sobre seus desejos. “O prazer aparece não como tema secundário, mas como força política, espiritual e transformadora”.

A escrita de Carolina Santos bebe de fontes diversas: Jorge Amado, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Mia Couto, Conceição Evaristo, Gloria Anzaldúa e María Lugones estão entre suas principais referências. “Aprendi com eles que território, linguagem, memória e corpo podem ser inseparáveis”. As epígrafes do livro — um trecho de María Lugones sobre a mestiçagem e outro de Jorge Amado — já anunciam esse diálogo.

A obra também reflete a trajetória da autora, que entrelaça literatura e ativismo. Formada em Ciências Sociais pela UFG e mestre em Literatura Pós-Colonial e Estudos de Gênero pelas universidades de Bolonha e Granada, Carolina Santos atuou por anos na defesa dos direitos das mulheres “Sinto como se eu estivesse constantemente viajando entre-mundos”, diz sobre uma escrita atravessada pelo Cerrado, pela experiência da mestiçagem e pelo deslocamento entre diferentes geografias e linguagens.


Sobre a autora
Carolina Santos é escritora e socióloga goiana, radicada em Brasília. Mestre em Literatura Pós-Colonial e Estudos de Gênero pelas universidades de Bolonha e Granada, escreve sobre corpo, desejo, memória e ancestralidade. Sua ficção dialoga com os feminismos, a colonialidade e as paisagens do Cerrado brasileiro. É vencedora de prêmios como o Agente Jovem de Cultura (2011), Expressões Culturais Afro-Brasileiras (2012) e o Tato Literário (2025), e foi finalista do Prêmio Sesc de Literatura em 2014.


Sobre a Orlando
A Editora Orlando, fundada pelos jornalistas Karol Lopes, Marcela Güther e Vincent Sesering (também sócios da agência de comunicação literária com.tato), nasceu para dar voz a escritores independentes com qualidade e profissionalismo. Com o lema “Histórias que desafiam o tempo”, oferece serviços completos de edição, revisão, design e divulgação, além de catálogos organizados em selos específicos: ziguezague (infantil), dobradura (poesia), espiral (ficção) e brecha (não ficção). Mais que publicar livros, aposta em estratégias de visibilidade para conectar autores e leitores. Saiba mais em editoraorlando.com.br e no Instagram @editoraorlando.


Lançamento na Flip: "Bocas Mestiças", de Carolina Santos
Data: 24 de julho, sexta-feira
Espaço da Orlando, na Casa Opera, no Centro Histórico de Paraty (RJ)
Horário: 14h00 (roda de conversa) e 15h00 (sessão de autógrafos)

.: Globo Livros na Flip com Valter Hugo Mãe, Rui Couceiro e Vitor Martins


Programação reúne debates com os autores e celebra os lançamentos de O século dos imbecis e Morro da Pena Ventosa

A Globo Livros marca presença na Flip - Festa Literária Internacional de Paraty com uma programação que reúne os escritores Valter Hugo Mãe e Rui Couceiro, publicados pela Biblioteca Azul, além de uma conversa sobre a adaptação cinematográfica de "Quinze Dias", de Vitor Martins, publicado pela Alt. O autor, que estava confirmado no evento, precisou cancelar sua participação por questões de saúde.

Um dos principais nomes da literatura contemporânea em língua portuguesa, Valter Hugo Mãe chega a Paraty para celebrar "O Século dos Imbecis", novo romance dele. Com humor, sátira e elementos de realismo mágico, o livro propõe uma reflexão sobre as contradições humanas. Durante a Flip, o escritor português participa de cinco encontros, ao lado de nomes como Carla Madeira, Alessandra Roscoe, Cris Gazotto, Rui Couceiro, Marcelino Freire e Fernando Rocha.
 
Também pela Biblioteca Azul, Rui Couceiro leva ao evento "Morro da Pena Ventosa", novo livro dele. No romance, o autor português constrói uma narrativa sobre memória, pertencimento e o poder da imaginação. Em Paraty, Couceiro participa de conversas sobre literatura, condição humana e o papel de livrarias e festivais literários na transformação dos territórios.

A programação também celebra a chegada de "Quinze Dias", de Vitor Martins, às telas. Em uma conversa promovida pela FlipZona, Paula Drummond, editora de aquisições responsável pelo livro na Alt/Globo Livros, reúne-se com profissionais da Conspiração Filmes e jovens do coletivo para compartilhar os bastidores do percurso da obra, desde sua publicação até o desenvolvimento do longa-metragem. O filme também será exibido no Cinema da Praça. Confira a programação atualizada:
 

23 de julho | Quinta-feira
10h00 - Casa da Arquitetura
"Quando o Século"
Com Valter Hugo Mãe e Carla Madeira
Endereço: Rua Dona Geralda, 351
 

24 de julho | Sexta-feira
15h00 - Casa de Portugal
"Quando os Livros Transformam Territórios - Livrarias e Festivais Literários"
Com Rui Couceiro, José Luiz Tahan, Pedro Matias e Ricardo Duque
Mediação: Ana Marta Cattani
Endereço: Rua Dona Geralda, 152
 
15h30 - FlipEduca | Mezanino do Cinema da Praça
"Morte e Vida na Literatura - Diálogos com a Escola"
Com Valter Hugo Mãe, Alessandra Roscoe e Cris Gazotto
 
17h00 - Caixa de Histórias
"O Que Nos Torna Humanos"
Com Valter Hugo Mãe e Rui Couceiro
Mediação: Guilherme Amado
Endereço: Rua Dona Geralda, 140
 
17h00 - Central Flipinha
"Quinze Dias que Chegaram Até Aqui"
Com Paula Drummond, Clarisse Goulart e João Abbade
Em diálogo com Chrystine, Naná e Pedro, da FlipZona


25 de julho | Sábado
14h00 - Casa da Arquitetura
"O Futuro Como Biblioteca: Palavras, Utopias e Distopias"
Com Rui Couceiro, Eliana Alves Cruz e Vivien Merciel Suarez
Mediação: Jorge Sobrado
Endereço: Rua Dona Geralda, 351
 
18h30 - Cinema da Praça
Exibição do filme "Quinze Dias"
 
19h00 - Casa Paratodos
"Afinidades Poéticas Transatlânticas"
Com Valter Hugo Mãe e Marcelino Freire
Mediação: Simone Paulino
Endereço: Rua Dr. Samuel Costa, 254
 

26 de julho | Domingo
10h00 - Casa da Arquitetura
"Todos os Séculos para a Cultura"
Com Valter Hugo Mãe e Fernando Rocha
Endereço: Rua Dona Geralda, 351

quarta-feira, 22 de julho de 2026

.: Flip: livro mistura terror, luto e crítica à ditadura em narrativa escatológica


Romance de estreia no terror do jornalista Lucas Limão aborda herança militar, violência política e a dificuldade de se livrar do que nos foi imposto


Com um título que já provoca estranhamento e curiosidade, "Helena Catarina, Não Faz Cocô e Tem Dor de Barriga" chega à 24ª Flip - Festa Literária Internacional de Paraty como uma das apostas mais ousadas da Editora Orlando para 2026. O romance de Lucas Limão - que o autor define como "escatológico, comovente e profundamente humano" - acompanha a jornada de Helena Catarina, filha de um militar de alta patente, que ao se mudar para uma casa próxima ao hospital onde o pai agoniza, descobre que o imóvel é assombrado por espíritos perversos. O castigo deles, no entanto, não é matá-la, mas algo muito mais cruel: impedi-la de fazer cocô. Lucas Limão fará uma sessão de autógrafos no dia 25 de julho, sábado, às 11h, no espaço da editora orlando na Casa Ópera, no Centro Histórico de Paraty.

O que começa como uma tortura intestinal se transforma em uma investigação sobre o passado do pai e os porões mais sombrios da ditadura militar. À medida que os dias passam e a constipação se torna uma tortura insuportável, Helena busca ajuda em uma pombagira. O que começa como uma luta contra os fantasmas da casa logo se transforma em uma investigação sobre o passado do pai. As responsabilidades que ele tentou transmitir à filha e aqueles seres que a atormentam têm uma origem comum. E ela está enterrada nos porões mais sombrios da ditadura militar.

Escrito ao longo de dois anos, o livro nasceu do primeiro processo de luto vivido por Limão na vida adulta - a morte do avô. O autor explica a metáfora que estrutura toda a narrativa: "A dor de estar perdendo um ente querido em uma cama de hospital, vê-lo definhar, é tão solitário quanto um infindável prisão de ventre, as pessoas até entendem o que você está passando, e podem até estar ao seu lado, mas isso não faz você se sentir menos só." A escatologia, para ele, não é gratuita: é a tradução visceral da desumanização vivida por quem acompanha um familiar em estado terminal.

A obra transita entre o terror sobrenatural e o horror real da história brasileira. Ao investigar a casa assombrada, Helena descobre que, durante a ditadura de 64, ali ocorreu um massacre em um terreiro de candomblé - e que seu próprio pai, o Major Tenente Coronel Afonso Catarina, foi o líder da operação. A trama expõe as engrenagens de uma organização golpista dentro das Forças Armadas, os Amarelistas, e coloca a protagonista diante de um dilema cruel: como amar alguém que cometeu atrocidades? "Odiar não te proíbe de amar. E amar não te proíbe de odiar", diz a pombagira que orienta Helena. "Você deve aceitar isso. E deve aceitar que não importa o certo e nem o errado quando se trata de amor e ódio".

O livro também é uma reflexão sobre herança e culpa. Criada dentro dos rigores da caserna, Helena carrega no sangue um passado que não escolheu e que a transformou em algo que ela mesma tem dificuldade de reconhecer. Em uma das cenas mais impactantes, ela confessa aos amigos ter cometido um crime, sob a orientação do pai. "Fico pensando o que teria acontecido se ele tivesse me pedido para não fazer aquilo, o que teria acontecido com a minha vida".

A religiosidade de matriz africana e indígena ocupa um lugar central na narrativa. Helena encontra acolhimento e respostas em uma casa de timbanda, onde uma pombagira a ajuda a expelir não apenas o que seu intestino retém, mas também o peso de uma herança feita de violência. O autor, que se identifica como umbandista, afirma que a obra "traz elementos das religiões de matriz africana e indígena brasileira, e coloca Helena para confrontar os paradigmas militares com os destas religiões". A música também é personagem: canções de Gal Costa, Rita Lee, Belchior, Ave Sangria e Tião Carvalho pontuam a trama e ajudam a construir o estado emocional da protagonista.

"Por trás desse título que é, no mínimo, 'peculiar', há uma história que é, sim, em partes engraçada, mas também comovente, sobre esses sentimentos conflituosos nas relações humanas", escreve Ramon Guilherme Gomes no prefácio. "Lucas tem esse dom de observar e encontrar beleza tanto no banal do cotidiano quanto no fantástico. Além disso, ele possui uma das habilidades que mais anseio: a de ressignificar sentimentos em momentos difíceis para criar algo belo".

Com uma protagonista complexa, o romance se dirige a leitores entre 25 e 35 anos, mas sua potência ultrapassa qualquer recorte etário. É uma história sobre o que herdamos, o que escolhemos carregar e o que, finalmente, conseguimos expelir.


Sobre o autor
Lucas Limão nasceu em São Paulo, capital, e aos 27 anos acumula uma trajetória tão diversa quanto sua escrita. Já foi motorista de uma oficina de tratores, repórter televisivo de um programa sobre a vida no campo, jornalista de economia e assistente de reportagem em um blog de economia. Aos 19 anos publicou seu primeiro livro, infantil, e atualmente trabalha como assessor de imprensa e repórter. Formado em comunicação visual pela Etec Tiquatira, ele se define como alguém que "gosta de dar corda para os doidinhos que vêm puxar papo na rua", hábito que alimenta sua observação do mundo e sua escrita. Não é cristão, mas seu personagem bíblico preferido é Jonas, "pois ele morou dentro de uma baleia".


Sobre a Orlando
A Editora Orlando, fundada pelos jornalistas Karol Lopes, Marcela Güther e Vincent Sesering (também sócios da agência de comunicação literária com.tato), nasceu para dar voz a escritores independentes com qualidade e profissionalismo. Com o lema “Histórias que desafiam o tempo”, oferece serviços completos de edição, revisão, design e divulgação, além de catálogos organizados em selos específicos: ziguezague (infantil), dobradura (poesia), espiral (ficção) e brecha (não ficção). Mais que publicar livros, aposta em estratégias de visibilidade para conectar autores e leitores. Saiba mais em editoraorlando.com.br e no Instagram @editoraorlando.


Lançamento na Flip: Helena Catarina, não faz cocô e tem dor de barriga, de Lucas Limão
Editora Orlando
Gênero: Terror / Romance
Páginas: 96
Onde: 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip)
Compre o livro no site da editora orlando: https://editoraorlando.com.br/produto/helena-catarina/

.: Livro "Iorubahia" reúne textos raros de Pierre Verger sobre a cultura iorubá


Em parceria, instituto Çarê e Fundação Pierre Verger publicam ensaios escritos pelo etnógrafo entre os anos 1950 e 1980. O livro será lançado em agosto, em Salvador, e em setembro, em São Paulo, com conversas com os pesquisadores Angela Lühning, Angela Fileno e Tiganá Santana


"Iorubahia - Escritos Raros sobre a Cultura Iorubá e as Relações entre Brasil e Golfo do Benim", publicada pelo selo editorial Letra da Cidade e pela Fundação Pierre Verger, reúne 12 textos de Pierre Fatumbi Verger (1902-1996), boa parte inédita em português, produzidos entre o fim dos anos 1950 e o início dos anos 1980. Parceria com a Fundação Pierre Verger, Iorubahia é uma publicação do Instituto Çarê, organização cultural sem fins lucrativos que se dedica a preservar e a fomentar manifestações culturais brasileiras de relevo. O livro nasceu do processamento do acervo da editora soteropolitana Corrupio, adquirido em 2003 pelo Çarê. Com organização de Angela Lühning, tem projeto gráfico de Oga Mendonça e posfácio de Tiganá Santana. 

Para marcar a chegada da publicação, o Instituto Çarê e a Fundação Pierre Verger promovem dois lançamentos públicos. Salvador recebe o primeiro encontro, no dia 8 de agosto, durante a programação da 10ª Flipelô, Festa Literária Internacional do Pelourinho. Em seguida, no dia 16 de setembro, o livro será apresentado em São Paulo, no auditório da Biblioteca Mário de Andrade. Nos dois encontros, os pesquisadores Ângela Lühning, Angela Fileno eTiganá Santana discutem a trajetória de Verger e os temas presentes na obra.

Resultado de pesquisas realizadas entre a África Ocidental, a Bahia e outros territórios da diáspora africana, os ensaios abordam temas que acompanharam Verger ao longo de décadas, como as relações históricas entre o golfo do Benim e o Brasil, a religião dos orixás, o transe, as plantas litúrgicas, o sistema de divinação Ifá e as tradições orais da cultura iorubá.

No período em que escreveu esses textos, Verger viveu entre Salvador e a Nigéria, pesquisou arquivos coloniais europeus e brasileiros, tornou-se doutor em estudos africanos pela Escola Prática de Altos Estudos, em Paris, foi pesquisador associado da Universidade de Ibadan e professor visitante da Universidade de Ilê-Ifé. Também percorreu cidades e vilas do território iorubá para acompanhar rituais e registrar relatos orais de babalaôs.

"Os textos reunidos em Iorubahia representam faces relevantes da trajetória multitemática e multiespacial do pesquisador Verger, que ele manteve em processo de construção constante, além da carreira do fotógrafo já consagrado", afirma Ângela Lühning. A coletânea está organizada em três eixos temáticos. O primeiro, Aspectos históricos das relações transatlânticas, dialoga com a pesquisa que deu origem à tese de doutorado de Verger sobre o tráfico de escravizados entre o golfo do Benim e a Bahia. O segundo, Religião iorubá: fundamentos e diáspora, aborda o papel da religião dos orixás na Nigéria e no Brasil e o fenômeno do transe religioso. Já Cultura, conhecimento e oralidade iorubá reúne reflexões sobre conhecimentos transmitidos oralmente, plantas litúrgicas e o sistema de divinação Ifá.

No posfácio, o pesquisador, curador e multiartista Tiganá Santana destaca a contribuição de Verger para os estudos africanos e afro-brasileiros e observa que sua obra rompe hierarquias entre o conhecimento produzido na África e na diáspora, propondo uma compreensão mais ampla das conexões culturais entre os dois lados do Atlântico. “Verger convoca que se esteja, seriamente, lá (em algum locus existencial do continente africano) e que se redimensione, por conseguinte, o que é nascer/viver cá”. escreve. “Em última análise, que se repense o ‘lá’ e o ‘cá’. Nada é simples em toda essa história; muito menos deve ser a nossa inserção nela, a nossa recepção dela”.

Inaugurada em 1979 por um grupo de mulheres liderado pela fotógrafa Arlete Soares, a editora Corrupio foi criada para editar a obra de Verger. Em quatro décadas, construiu um catálogo dedicado à presença negra na formação da cultura brasileira e às relações históricas entre o Brasil e a África. A aquisição desse acervo pelo Instituto Çarê possibilitou a retomada de manuscritos de Verger e deu origem a Iorubahia.


Sobre o autor
Pierre Fatumbi Verger  (Paris, 1902 – Salvador, 1996) iniciou sua trajetória profissional nos anos 1930, tornando-se conhecido como fotógrafo viajante. Em 1946, fixou residência em Salvador, onde trabalhou inicialmente como repórter fotográfico para a revista O Cruzeiro. Mais tarde, enveredou pela pesquisa documental e de campo nas áreas de antropologia, história, conhecimentos orais e botânica, conforme seu interesse se ampliava para questões históricas e culturais, e as tradições religiosas de matriz africana.

Em viagens constantes à África Ocidental, e em um período de doze anos vivendo na Nigéria, fez um mergulho pessoal na cultura iorubá, tendo sido iniciado como babalaô em 1953. Em 1966, tornou-se doutor em estudos africanos pela École Pratique des Hautes Études (EPHE), em Paris. É autor de obras referenciais para o estudo dos trânsitos culturais atlânticos e da presença iorubá na diáspora, como Orixás. Os deuses iorubás na África e no Novo Mundo e Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o golfo do Benim e a Bahia de Todos os Santos, dos séculos XVII a XIX.


A organizadora
Ângela Lühning começou a trabalhar com Pierre Verger em 1988, momento da criação da Fundação Pierre Verger, em Salvador, e segue vinculada à instituição, como diretora e coordenadora do Espaço Cultural Pierre Verger. Realizou diversas pesquisas sobre Verger e sua atuação, que resultaram em uma série de artigos e outras publicações. Organizou os livros Pierre Verger: repórter fotográfico (2004) e Verger-Bastide: Dimensões de uma amizade (2002), ambos publicados pela Bertrand Brasil. É professora titular aposentada da Escola de Música da UFBA, tendo atuado na área de etnomusicologia da instituição de 1990 a 2025. Suas pesquisas abordam música, memória, história e oralidade na cultura afro-brasileira, além de experiências de educação social em bairros populares de Salvador.


Os editores
Letra da Cidade (https://institutocare.org.br/nucleos/livros/) é o selo editorial dos institutos Acaia e Çarê, duas organizações sem fins lucrativos sediadas em São Paulo e voltadas a promover a valorização e o acesso à educação e à cultura. Seu catálogo cobre áreas de interesse dos dois institutos, como educação, cultura jovem periférica, música e artes visuais. O Instituto Çarê, centro cultural aberto à cidade, tem como missão salvaguardar e difundir obras que marcaram pontos de inflexão na história da cultura brasileira, promovendo manifestações artísticas relevantes, que passam ao largo do radar do mercado cultural. A Fundação Pierre Verger (https://pierreverger.org) é uma instituição sem fins lucrativos criada em 1988 e sediada na casa onde Pierre Verger viveu, em Engenho Velho de Brotas, Salvador. Tem como missão preservar o acervo e a memória de Verger, além de propor atividades culturais e socioeducativas para a comunidade local.


Lançamentos:
Salvador - BA
Sábado, dia 8 de agosto, às 16h00
Casa do Olodum, Salvador (BA)
10ª Flipelô, Festa Literária Internacional do Pelourinho.
Mesa de lançamento: Ângela Lühning, Angela Fileno, Tiganá Santana e Teté Martinho (mediação).
Entrada: gratuita.

São Paulo - SP
Quarta-feira, dia 16 de setembro, às 19h00
Biblioteca Mário de Andrade (Auditório)
Mesa de lançamento: Ângela Lühning, Angela Fileno, Tiganá Santana e Teté Martinho (mediação).
Gratuita, com retirada de ingressos uma hora antes.

terça-feira, 21 de julho de 2026

.: Rafael Caneca transforma episódio da história brasileira em romance


Em entrevista, autor de "Não Volte Sem Ele" fala sobre construção narrativa, influências literárias e as escolhas que moldam sua estreia no romance; Foto: arquivo pessoal


Em “Não Volte Sem Ele”, o escritor cearense Rafael Caneca estreia no romance ao transformar um episódio pouco conhecido da história brasileira em matéria literária. Ambientada no Ceará da década de 1930, a obra parte da existência dos chamados campos de concentração criados durante a seca de 1932 para construir uma narrativa que investiga não apenas a violência histórica, mas também os modos como a literatura pode representar o trauma, o silêncio e a experiência humana em situações extremas.

A obra acompanha Tomás, jovem sertanejo enviado pelo pai em busca do irmão desaparecido, em uma travessia marcada por fome, deslocamento forçado e confinamento. Ao longo do percurso, o romance revela como essas estruturas funcionavam como mecanismo de contenção e segregação, transformando a experiência individual do personagem em expressão de uma lógica mais ampla de exclusão social.

Os temas centrais do livro atravessam tanto o plano histórico quanto o simbólico: memória e apagamento, violência de Estado, política de exclusão, seca e deslocamento, além da relação entre fé, esperança e sobrevivência em contextos extremos. Ao tensionar esses elementos, o romance questiona a ideia de que a esperança sustenta a travessia.

Nascido e residente em Fortaleza, Rafael Caneca é escritor, assessor jurídico e integrante do Coletivo Delirantes. Influenciado por autores como Machado de Assis, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz e José Saramago, desenvolve uma escrita interessada em aproximar conflitos sociais de experiências íntimas, investigando como as estruturas históricas e políticas atravessam a vida cotidiana de seus personagens. “Não Volte Sem Ele” marca sua estreia na narrativa longa e sinaliza um projeto literário voltado à ficção histórica e às formas contemporâneas de exclusão e violência.

Nesta entrevista, Rafael Caneca comenta o processo de transformação da pesquisa histórica em romance, discute suas escolhas narrativas e analisa como literatura, memória e imaginação podem dialogar para lançar novos olhares sobre histórias que permanecem à margem da memória oficial. Compre o livro "Não Volte Sem Ele", de Rafael Caneca, neste link.


Em “Não Volte Sem Ele”, você parte de um episódio histórico para construir uma narrativa ficcional. Em que momento essa investigação deixou de ser apenas pesquisa e se transformou em literatura?
Rafael Caneca A história já nasceu como ficção. Ela surgiu a partir de um projeto de livro de contos do Coletivo Delirantes, um coletivo de escritores de Fortaleza de que faço parte desde a sua criação. Durante um tempo, tive que me afastar do grupo; ao retornar, eles estavam produzindo uma coletânea de contos - ficcionais - sobre eventos históricos e ferrovias que ligavam o estado do Ceará de norte a sul. Como o livro estava em andamento, muitos dos temas que eles mesmos pensaram já haviam sido escolhidos, e um dos que ainda estava livre relacionava a ferrovia de Senador Pompeu, a seca de 1932 e os campos de concentração - de que eu tinha bem pouco conhecimento na época. Como eu sempre gostei de ler ficções históricas, de preferência sobre lugares não tão conhecidos, nem li as outras opções: essa chamou a minha atenção logo de cara. O conto foi escrito, mas eu achei que a história pedia mais: foi então que decidi transformá-lo em uma narrativa mais longa – foi aí que o romance nasceu.


O romance acompanha a travessia de Tomás em busca do irmão desaparecido. Como você construiu esse eixo narrativo sem recorrer à estrutura clássica da jornada de superação?
Rafael Caneca Eu comecei a escrever a história com algumas ideias já em mente. Claro que não tinha tudo escrito na cabeça – a história vai se desenvolvendo à medida que você senta e escreve, e muita coisa acaba mudando –, mas um dos aspectos que eu tinha decidido, antes mesmo de começar, era que eu não iria escrever uma jornada do herói. Nada contra quem goste, mas não é meu estilo – de escrita nem de leitura. Além disso, essa resolução tem tudo a ver com o espírito da obra que eu queria escrever, com a ideia que eu queria transpor para o papel.


Sua escrita aposta em um estilo direto, com poucas digressões, mesmo ao lidar com temas densos. Como essa escolha formal dialoga com a experiência de violência e escassez vivida pelo protagonista?
Rafael Caneca Procurei usar uma linguagem que refletisse o cenário: aridez e escassez no ambiente, aridez e escassez na escrita. A luta fundamental era pela sobrevivência na busca pelo irmão desaparecido, e no sertão, muitas vezes, a resistência era sinônimo de calar. Falar pouco para economizar até mesmo as palavras.


A narrativa é majoritariamente linear, mas atravessada por memórias e momentos de delírio. Como você trabalhou esses deslocamentos para aprofundar a interioridade do personagem?
Rafael Caneca Meu desejo, como escritor, sempre foi contar uma história. Sem maiores complicações, sem grandes rebuscamentos, apenas contar uma história. Isso resultou na minha escolha pela linearidade. Acontece que ninguém é 100% linear ao contar uma história, e por conta disso eu achei por bem inserir algumas digressões ao longo da narrativa – em momentos que considerei chave durante a escrita (e, consequentemente, durante a leitura). Os momentos de delírio estão demarcados no livro, e também trazem pontos importantes na narrativa.


A relação entre fé, esperança e sobrevivência aparece tensionada ao longo do livro. Como você traduziu narrativamente essa insuficiência da esperança diante da tragédia?
Rafael Caneca Eu busquei mostrar a esperança mais como mecanismo de sobrevivência do que como solução real. As personagens (principalmente o protagonista) rezam, fazem promessas e se agarram à ideia de que as coisas vão melhorar, mas a violência, a fome, o abandono e o descaso continuam avançando. A narrativa busca a todo momento ressaltar um choque constante entre a fé e a realidade material. Também me interessava trabalhar a ambiguidade da religião nesses contextos: ela consola e dá força, mas às vezes também produz resignação. Ou seja: em certos momentos, a esperança impede o desespero; em outros, impede a reação. Eu quis então mostrar justamente essa insuficiência da esperança diante de uma tragédia concreta e estrutural.


O romance lida com o silêncio e o apagamento histórico, mas também com silêncios íntimos dos personagens. Como você equilibrou essas duas dimensões na construção narrativa?
Rafael Caneca Quis aproximar o silêncio histórico do silêncio íntimo das personagens. O apagamento dos campos pelo Estado acaba se refletindo na dificuldade que os personagens têm de falar sobre o trauma, a violência e a culpa. Narrativamente, optei por fazer isso aparecer em memórias fragmentadas, diálogos interrompidos e palavras que permanecem não ditas. O silêncio funciona tanto como marca do trauma individual quanto como consequência de um apagamento coletivo.


Sua obra dialoga com tradições do romance social brasileiro, especialmente com autores como Graciliano Ramos. Em que medida essa influência se manifesta na sua escrita?
Rafael Caneca Ela aparece principalmente na tentativa de construir uma escrita mais seca, direta e humana, sem romantizar a miséria ou transformar o sofrimento em espetáculo. Graciliano Ramos me interessa muito pela forma como ele expõe a violência social a partir da vida cotidiana e dos conflitos internos dos personagens. Também existe uma preocupação em mostrar como estruturas de poder moldam subjetividades e relações humanas (no caso do meu romance, essas estruturas envolvem fome, Estado e desigualdade). “Vidas secas” foi uma grande referência não só para a escrita desse livro, mas na minha vida.


Ao mesmo tempo, há uma dimensão mais alegórica e reflexiva que remete a José Saramago. Como essas referências distintas convivem no seu processo criativo?
Rafael Caneca Acho que quando a gente tem referências dessa qualidade (Graciliano e Saramago, mas também Machado e Rachel), não custa nada usá-las, né? Aliás, é até feio fugir delas! Claro que não se trata de mera cópia, mas de inspiração. Utilizá-las é mais do que um tributo, mas se trata de aproveitar aquilo que convém à história que você quer contar.


O livro evita oferecer consolo ou resolução clara para o leitor. Essa recusa de fechamento foi uma escolha consciente desde o início?
Rafael Caneca Sim! Essa foi uma das ideias que já estava na minha mente quando comecei a escrever a história. Claro que outras opções de finais apareceram ao longo da escrita, mas, na essência, a ideia sempre foi essa.


O personagem Tomás atravessa um espaço físico hostil, mas também um território simbólico marcado pela perda e pela ausência. Como você construiu essa relação entre espaço e subjetividade?
Rafael Caneca Meu objetivo foi fazer com que o espaço não funcionasse apenas como cenário, mas como extensão emocional do próprio Tomás. A seca, os deslocamentos, os campos e as paisagens degradadas refletem o estado interno dele: a sensação constante de perda, desenraizamento e vazio.


Como romance de estreia, o que “Não volte sem ele” revela sobre o seu projeto literário daqui para frente?
Rafael Caneca Acho que o romance revela o que comentei na primeira resposta: meu interesse por ficções históricas. Mas, para mim, essas ficções devem guardar uma característica fundamental, que é a de dialogar com problemas ainda presentes. Me interessa olhar para episódios do passado não como algo encerrado, mas como estruturas que continuam se repetindo de outras formas. Além disso, acredito que meu projeto literário passa por explorar a relação, muitas vezes violenta e injusta, entre o Estado e as populações mais vulneráveis, as desigualdades sociais, a violência, os apagamentos históricos e a forma como tudo isso se relaciona com a vida íntima das pessoas. A mim, não me interessa uma literatura meramente de tese, mas uma em que os conflitos sociais tenham peso real sobre os personagens.

.: "Compactos", coleção de bolso com curadoria, será lançada na Flip


Em edições leves e integrais, nova linha reúne títulos de ficção e não ficção, clássicos e contemporâneos que atravessam o tempo, com previsão de lançamento de obras inéditas 

O Grupo Editorial Record anuncia o lançamento de "Compactos", a sua mais nova coleção de livros de bolso desenhada para acompanhar os leitores em qualquer lugar. A partir de uma curadoria atenta, a linha reúne romances marcantes e ensaios fundamentais de grandes autores nacionais e internacionais. A proposta é oferecer edições leves, integrais e de alta qualidade, feitas para quem busca livros especiais, profundos e perenes. 

A coleção, que será apresentada em primeira mão na Flip - Festa Literária Internacional de Paraty, traz de volta ao público títulos de ficção e não ficção que já faziam parte do catálogo da Record, agora repaginados em um formato prático, ideal para a leitura em movimento - seja no metrô, no parque ou em viagens. São obras clássicas e contemporâneas selecionadas justamente por sua capacidade de fazer perguntas que continuam atuais e de permanecer vivas na mente dos leitores por muito tempo. Os primeiros livros são: "Memórias do Subsolo", de Fiódor Dostoiévski, "Não Contem com o Fim do Livro",  de Umberto Eco e Jean-Claude Carrière, "A Peste", de Albert Camus, e "A Família Medeiros", de Júlia Lopes de Almeida.

Livros que merecem replay: essa é a essência da coleção "Compactos"
Além de revisitar títulos essenciais, o projeto está em contínua expansão, com a previsão de lançamentos inéditos no país para os próximos volumes.  O cuidado com a coleção se estende também à identidade visual. Cada volume dos Compactos conta com um projeto gráfico exclusivo e capas assinadas por diferentes ilustradores. O conceito une a personalidade própria de cada obra a uma harmonia estética que valoriza a estante, despertando o desejo de colecionar histórias. 


Os primeiros títulos da coleção
"Memórias do Subsolo", de Fiódor Dostoiévski: o romance clássico que inaugurou uma nova forma de explorar as contradições da mente humana e apresentou ao mundo um dos mais marcantes e complexos anti-heróis da literatura mundial. Ilustração de capa de Hana Luzia. Compre o livro neste link.

"Não Contem com o Fim do Livro", de Umberto Eco e Jean-Claude Carrière: uma conversa brilhante, espirituosa e divertida entre dois grandes intelectuais sobre a história dos livros, a importância da leitura e as razões pelas quais o objeto impresso permanece indispensável. Ilustração de capa de Dedé Laurentino. Compre o livro neste link.

"A Peste", de Albert Camus: muito além do relato sobre uma epidemia isolada, a obra-prima de Camus oferece uma reflexão poderosa sobre a coragem, a responsabilidade coletiva e a solidariedade humana diante das maiores crises. Ilustração de capa de Deco Farkas. Compre o livro neste link.

"A Família Medeiros", de Júlia Lopes de Almeida: Um clássico indispensável da literatura brasileira que retrata com precisão a sociedade às vésperas da abolição da escravatura, revelando toda a força narrativa e a atualidade de Júlia Lopes de Almeida. Ilustração de capa de Belisa Bagiani. Compre o livro neste link. Os primeiros volumes da coleção Compactos poderão ser encontrados em breve nas principais livrarias de todo o país e nas lojas online.

.: Rafael Mininel mostra como a fantasia pode revelar os perigos do controle


Em "Crônicas das Brumas Densas" o escritor Rafael Mininel utiliza a fantasia sombria para refletir sobre temas como autoritarismo, violência de Estado, manipulação da memória e responsabilidade moral. Foto: divulgação

"Controlar narrativas pode ser tão poderoso quanto controlar exércitos", analisa escritor Rafael Mininel. Autor de "Crônicas das Brumas Densas" explica como construiu um universo que dialoga com a realidade e reflete sobre como a fantasia sombria pode revelar o autoritarismo. Inspirado por acontecimentos históricos, o escritor Rafael Mininel utiliza a fantasia sombria na obra "Crônicas das Brumas Densas" para discutir temas que ultrapassam a ficção, como autoritarismo, violência de Estado, manipulação da memória e responsabilidade moral. Na entrevista abaixo, o autor explica como construiu uma narrativa épica que convida o leitor a refletir sobre os limites da obediência, o poder das escolhas individuais e os mecanismos que sustentam regimes de opressão. Compre o livro "Crônicas das Brumas Densas" neste link.


Valek inicia a história como um soldado moldado para obedecer cegamente ao Império, até que um único episódio transforma completamente sua visão de mundo. O que despertou em você o desejo de contar uma história sobre o momento em que alguém decide romper com um sistema do qual sempre fez parte?
Rafael Mininel - A origem de Valek está em um episódio real da Guerra da Iugoslávia. Ao estudar o massacre de Srebrenica, fiquei inquieto com uma pergunta: o que acontece quando um soldado percebe que a ordem recebida destrói a própria humanidade? Quis explorar esse instante em que obedecer deixa de ser uma virtude e passa a exigir uma escolha moral. A fantasia me permitiu ampliar essa reflexão sem perder sua dimensão humana.


Embora seja uma fantasia sombria, o livro aborda temas muito atuais, como autoritarismo, violência de Estado, perseguição e apagamento da memória. De que forma você equilibrou a criação de um universo fantástico com reflexões sobre questões tão presentes na realidade?
Rafael Mininel - Nunca enxerguei a fantasia como fuga da realidade, mas como outra maneira de observá-la. O universo de Crônicas das Brumas Densas nasceu para discutir mecanismos de poder que atravessam diferentes épocas. Quando retiramos nomes e datas, permanecem as perguntas essenciais: como o autoritarismo se instala, por que pessoas comuns participam dele e qual é o preço de resistir?

O universo de Crônicas das Brumas Densas é marcado por figuras como o Arquivista Sombrio e a Primeira Voz, que tornam a memória e a linguagem elementos centrais da narrativa. Como surgiu essa mitologia própria e qual é o papel simbólico dessas entidades na história?
Rafael Mininel - Sempre me fascinou a ideia de que controlar narrativas pode ser tão poderoso quanto controlar exércitos. O Arquivista Sombrio representa esse perigo: ele se alimenta de versões conflitantes da realidade, dialogando inclusive com fenômenos contemporâneos, como a desinformação e as fakes news. Já a Primeira Voz simboliza a linguagem em seu estado original, anterior à manipulação, lembrando que preservar a memória também é preservar a verdade.


Com cerca de mil páginas, capítulos curtos e um grande número de personagens, o romance apresenta uma construção bastante ambiciosa. Como foi o processo de desenvolvimento desse mundo e quais foram os maiores desafios para manter a narrativa envolvente do início ao fim?
Rafael Mininel - O maior desafio foi equilibrar a escala épica com a experiência humana de cada personagem. Optei por capítulos curtos para manter o ritmo e permitir que diferentes histórias se cruzassem sem perder fluidez. Sempre procurei lembrar que, por maior que fosse o universo, o leitor continuaria acompanhando pessoas, não mapas ou cronologias.


Você transita por gêneros como fantasia sombria, terror psicológico e ficção especulativa, sempre explorando conflitos existenciais. O que espera que os leitores levem consigo após acompanhar a jornada de Valek e mergulhar nas brumas desse universo?
Rafael Mininel - Espero que o leitor termine o livro refletindo sobre a responsabilidade das próprias escolhas. O sacrifício de Led resume essa ideia: ele salva o mundo ao custo de ser completamente apagado da existência. Ninguém naquele universo lembra que ele viveu, mas o leitor lembra. Se essa memória permanecer depois da última página, então sua história continua existindo justamente onde ela mais importa.

Sobre o autor
Rafael Mininel é autor de narrativas intensas, existenciais e psicológicas que desafiam as categorias literárias tradicionais. Atravessando gêneros como fantasia sombria, terror psicológico e ficção especulativa, ele já publicou as obras “Crônicas das Brumas Densas”, “Geografia do Não”, “Exemplar de Segunda Mão” e “Quase Tudo que Eu Imaginei”. Além disso, tem contos em diferentes coletâneas e lançará os livros “Depois do Silêncio”, “A Torre que Sangra” e “Memórias Ressurgem”. Formado em Letras pela Universidade Federal de Uberlândia, graduado em Gestão de Negócios pelo Centro Universitário Moura Lacerda e com MBA em Finanças pela Edgard Abreu, o autor também trabalha como bancário. Compre os livros de Rafael Mininel neste link.

.: "Nascer É Uma Catástrofe" transforma dores invisíveis em reflexão social


Em “Nascer É Uma Catástrofe”, o escritor Vinicius Damasceno coloca o leitor diante de uma pergunta incômoda: quanto de uma trajetória é escolha - e quanto já estava determinado pelas condições de nascimento? Protagonizada por Igor, a narrativa percorre perdas, afetos, conflitos e decisões difíceis em uma realidade urbana na qual oportunidades não são distribuídas de forma igual. Pobreza, abandono, violência e sistema prisional aparecem não como cenário decorativo, mas como forças que atravessam a formação do personagem.

Com linguagem direta e acessível, o romance preserva a identidade cultural dos personagens e evita tanto o julgamento fácil quanto a romantização da miséria. A obra não pretende absolver escolhas, mas ampliar o campo de visão do leitor sobre as circunstâncias que antecedem cada decisão. A história acompanha Igor desde uma infância marcada por escassez e medo até as consequências adultas de escolhas feitas em um território de possibilidades estreitas. O cárcere integra a narrativa como ponto de chegada e também como lugar de revisão: é ali que o personagem tenta compreender o que viveu, o que escolheu e o que lhe foi imposto.

Questões estruturais presentes na sociedade brasileira - pobreza, abandono, ausência de oportunidades, violência cotidiana e encarceramento - aparecem pela experiência humana, sem transformar os personagens em estatísticas. “Durante 20 anos de trabalho voluntário em uma ONG, convivi de perto com realidades sociais duras, muitas vezes invisíveis para grande parte da sociedade. A obra traz uma ficção sobre desigualdade, identidade, pertencimento e o preço humano de nascer à margem”, afirma Vinicius Damasceno.

O romance se interessa pelas contradições: culpa e contexto, responsabilidade e abandono, afeto e brutalidade. Em vez de oferecer respostas simples, provoca questionamentos sobre empatia, responsabilidade social e as consequências de um sistema que frequentemente deixa parte da população fora do quadro. 

Segundo o autor, a ideia surgiu em um dia de terapia, ao revisitar sentimentos, dúvidas, desilusões e inquietações acumuladas ao longo da vida. A criação também foi atravessada por duas décadas de trabalho voluntário e contato direto com realidades sociais frequentemente ignoradas. “Eu não busco explicar a dor dos personagens: eu quero aproximá-la do leitor. Como quem acende uma luz pequena num corredor escuro e pergunta, em silêncio: até quando passarei reto? Até quando a sociedade vai passar reto?”, questiona Vinicius Damasceno. Compre o livro "Nascer É Uma Catástrofe" neste link.


Sobre o autor
Vinicius Damasceno  nasceu em São Paulo, é pai de Clara e do Benício, casado com Vanessa e construiu sua trajetória profissional na tecnologia até ocupar cargos de liderança em gestão de TI. Hoje atua como CIO, prestando consultoria e gestão por meio de sua empresa, a Dunker IT. Mas foi longe das telas - levando comida a pessoas em situação de rua nas madrugadas do centro de São Paulo e como voluntário em visitas a famílias da Vila Brasilândia - que ele aprendeu outra linguagem: a da urgência humana. “Nascer É Uma Catástrofe”, seu primeiro livro, é uma ficção atravessada por memórias e sentimentos. Nasce do atrito entre dois mundos: o da ordem e o do abandono; o da eficiência e o da fome; o das métricas e o das pessoas invisíveis. Na trajetória de Igor, o autor reúne dores, escolhas e destinos muitas vezes decididos antes mesmo do primeiro passo. Mais do que narrar uma história, Vinicius escreve como quem faz um pedido: que o leitor enxergue o que costuma ficar fora do quadro - e saia diferente de como entrou. Compre o livro "Nascer É Uma Catástrofe", de Vinicius Damasceno, neste link. 

segunda-feira, 20 de julho de 2026

.: Ana Paula Tavares vem à Flip para lançar "O Sangue da Buganvília"


Atração oficial da Flip 2026, escritora angolana conquistou o Prêmio Camões de Literatura em 2025 e publica novo livro no Brasil. Foto: divulgação

Nem tudo o que um povo sabe cabe nos livros. Parte desse conhecimento vive nas histórias contadas pelos mais velhos, nas palavras da língua materna, nos provérbios, nas receitas, nos gestos e na maneira de olhar o mundo. É desse saber coletivo que nasce "O Sangue da Buganvília", lançado pela Pallas Editora, novo livro da escritora angolana Ana Paula Tavares, 73 anos. Reunindo mais de 70 crônicas, a vencedora do Prêmio Camões de Literatura 2025 aproxima poesia, história e tradição oral para mostrar como uma cultura continua sendo transmitida entre gerações.

Publicados originalmente na década de 1990 para a RDP África e agora reunidos em livro, os textos percorrem assuntos como língua, patrimônio, tradição oral, guerra, infância, culinária e literatura. Mas o que une essas crônicas é, sobretudo, o olhar da Ana Paula. Historiadora e antropóloga de formação, ela encontra nas pequenas experiências do cotidiano um caminho para entender Angola de um modo abrangente, sem separar o íntimo do coletivo nem a poesia da História.

Ana Paula virá ao Brasil na próxima semana para se juntar à constelação de escritores na Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip 2026. No sábado, 25 de julho, às 15h00, a escritora vai brilhar na mesa 'O boi é só. O boi é só. O boi', na qual conversará com o público presente sobre a sua carreira na literatura e a sua poesia, ambas marcadas pela história de Angola e da luta pela emancipação feminina. Falará também a respeito da sua ligação com o Brasil, a partir dos laços que unem os dois países. 

Nas crônicas deste livro, um provérbio pode dialogar com Virginia Woolf (1882-1941), uma receita tem o poder de revelar tanto sobre um povo quanto um documento de arquivo e uma buganvília é capaz de explicar melhor um país do que qualquer estatística. Em suas páginas, a tradição oral e as vozes dos que chegaram antes deixam de ocupar um lugar periférico para assumir o centro da narrativa. É ali que a autora encontra aquilo que mais a interessa: as formas pelas quais uma cultura continua viva.

Para além de recordar o passado, Ana Paula escreve como quem recebe uma história para passar adiante. A sua literatura recusa a ideia de que a história de um país possa ser contada apenas pelos grandes acontecimentos, aqueles que saem no jornal. Ela também está na língua materna, nos mercados, nas árvores, nos objetos cotidianos, nas mulheres que preservam saberes ancestrais e nas histórias que circulam de uma geração à outra. 

Não por acaso, a planta dá nome ao livro. Na crônica que inspira o título, a buganvília floresce apesar do vento, da seca e do tempo. A imagem costura silenciosamente toda a obra e acaba se confundindo com a própria escrita de Ana Paula Tavares, que insiste em florescer onde muitos enxergariam apenas ruínas. Pela Pallas, Ana Paula já publicou "Amargo como os Frutos - Poesia Reunida" (2010) e participou de "Verbetes para Um Dicionário Afetivo" (2021), ao lado de Manuel Jorge Marmelo, Ondjaki e Paulinho Assunção. Agora é a vez de "O Sangue da Buganvília", que confirma algo que a autora vem construindo há décadas: escrever também pode ser uma forma de cuidar. Cuidar das palavras, da memória e das pessoas que fazem a História existir antes mesmo de chegar aos livros. Compre o livro "O Sangue da Buganvília" neste link.

.: Plácido Berci aborda saúde mental, relações familiares e envelhecimento


"Louca Normalidade" mescla suspense psicológico e drama familiar, inspirada na figura do pai do autor, e chega às livrarias pela Editora Mondru


O jornalista e escritor Plácido Berci lança seu primeiro romance ficcional, “Louca Normalidade”, pela editora Mondru. A obra mergulha em temas profundos como saúde mental, laços familiares e a passagem do tempo, narrando a história de Francisco Solano, um jornalista investigativo aposentado com um quadro psiquiátrico misterioso que, após sofrer um AVC, passa a registrar tudo em blocos de notas para preservar sua memória.

A trama ganha contornos de mistério quando Francisco acorda com uma anotação enigmática sobre uma mulher, uma praia e uma sequência de letras e números. Entre flashbacks, sonhos e investigações solitárias, o protagonista tenta decifrar se testemunhou um crime ou se sua mente fragilizada criou realidades paralelas. A narrativa alterna entre a terceira pessoa e as anotações íntimas de Francisco, recurso que aproxima o leitor do confuso universo mental do personagem. “Meu objetivo foi gerar reflexão sobre o preconceito em relação a quem é visto como fora dos padrões por questões ligadas à saúde mental”, comenta Plácido.

Inspirado na figura de seu pai, Pedro Berci Filho, o autor começou a escrever o livro em 2018, observando o hábito paterno de anotar tudo após um AVC. “O personagem principal, Francisco Solano, é praticamente todo inspirado no meu pai, fisicamente e, principalmente, em termos de comportamento e personalidade”, revela. A morte do pai durante o processo de escrita acrescentou novas camadas emocionais à obra, tornando-a também um exercício de luto e elaboração.

“É uma história sobre reflexão, aceitação e libertação; para o personagem, para o autor e, porque não, para o meu pai também”, define. Com cinco anos de escrita e mais dois até a publicação, “Louca Normalidade” dialoga com referências cinematográficas de diretores como Alfred Hitchcock e Martin Scorsese, e literárias de autores como Daniel Galera e Raphael Montes.

Além do suspense, o romance aborda com sensibilidade dinâmicas familiares complexas, especialmente a relação entre avô, filho e neto. “O livro também filosofa sobre outros temas como a brevidade da vida, luto, solidão, amor e saudade”, completa o autor. A obra chega com projeto gráfico cuidadoso e já desperta interesse para adaptações audiovisuais. “Acho que o livro tem potencial para um filme ou uma minissérie. Procurei escrever cenas detalhadas e visualmente ricas com a intenção de transportar o leitor para o Rio de Janeiro colapsado de Francisco Solano”, adianta Plácido, que atua como repórter e apresentador esportivo da TV Globo em São Paulo. Compre o livro "Louca Normalidade", de Plácido Berci, neste link.

Sobre o autor
Plácido Berci
, 36 anos, é jornalista formado pela PUC-Campinas e atua como repórter e apresentador da editoria de esporte da TV Globo desde 2015. Natural de Araraquara e criado em São Carlos, já morou em cidades como Campinas, Rio de Janeiro, Manchester (Inglaterra) e Nairóbi (Quênia), onde foi o primeiro correspondente esportivo brasileiro. É autor dos livros “Paixão: uma viagem pelo futebol inglês” e “Nuvem de terra: relatos do primeiro correspondente esportivo brasileiro no Quênia”. “Louca normalidade” marca sua estreia na ficção e é publicado pela editora Mondru. Compre os livros de Plácido Berci neste link.

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