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domingo, 15 de fevereiro de 2026

.: “A Baleia” desmonta o discurso fácil sobre compaixão e volta a ser o que era


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com. Foto: Ale Catan

O filme "A Baleia", dirigido por Darren Aronofsky, já era bom e foi injustamente patrulhado por uma crítica que parece ter alergia a qualquer obra que não venha embalada no manual do “politicamente correto performático”. Mas, no palco do Teatro Sabesp Frei Caneca até dia 1º de março, sob a direção de Luís Artur Nunes, o texto de Samuel D. Hunter respira melhor e parece ainda mais incômodo. Talvez porque o teatro não permita fuga: não há corte de câmera, não há trilha que manipule a lágrima: há somente atores diante do abismo e uma história a ser contada.

No papel que foi de Brendan Fraser no cinema, Emílio de Mello entrega algo que não se ensaia: doçura. O Charlie interpretado por ele não é um mártir e muito menos um monstro. É um homem que falhou tentando amar e que agora tenta amar falhando menos. No clássico "Moby Dick", escrito por Herman Melville, o capitão Ahab persegue a baleia como se quisesse matar o que não compreende. Em "A Baleia", Charlie é perseguido pelas escolhas que fez, como se fosse o Ahab de si mesmo. É apenas um homem que não se cansa de pedir desculpas e, quanto mais faz isso, mais revela a brutalidade da própria culpa.

O mar está para o espetáculo o tempo todo, seja como personagem, seja como pano de fundo: no som constante, na água como metáfora de limpeza, no dilúvio íntimo que sempre ameaça transbordar. E, inevitavelmente, nos amores líquidos apontados por Zygmunt Bauman como relações que escorrem pelos dedos antes que se aprenda a segurá-las.

O elenco atua com precisão. Luisa Thiré constrói uma amiga sobrecarregada, dividida entre o colo e o cansaço. A atuação dela é estupenda do início ao fim. Ela cuida, mas é enérgica; protege, mas explode; ama, mas está exausta da situação em que está inserida. Já Gabriela Freire, no papel da filha, tem a coragem de ser detestável enquanto personagem. A Ellie interpretada por ela oscila entre maturidade precoce e vulnerabilidade mal cicatrizada. Sádica, ela se vinga do pai com uma crueldade que nasceu do abandono, em uma vilania que não é gratuita. O jovem missionário vivido por Eduardo Speroni também se destaca. O traço dele é a hipocrisia que costuma se travestir de fé. A peça ainda presenteia o público com a participação especial de Alice Borges em uma cena decisiva.

A gordofobia e a homofobia coexistem em "A Baleia", mas o que se debate em cena é algo mais desconfortável do que essas temáticas: arrependimento e abandono. Com diálogos cortantes, é uma peça sobre o mal que se rebate com o bem, e erros que resultam em pequenas redenções, enquanto o caos acontece na vida que segue. No palco, "A Baleia" deixa de ser apenas a sombra de uma boa adaptação cinematográfica e volta a ser o que sempre foi: teatro em estado de graça.

Ficha técnica
Espetáculo "A Baleia". Texto: Samuel D. Hunter. Tradução e Direção: Luís Artur Nunes. Elenco: Luisa Thiré, Gabriela Freire e Eduardo Speroni. Participação especial: Alice Borges. Coordenação Artística: Felipe Heráclito Lima. Cenário: Bia Junqueira. Figurino: Carlos Alberto Nunes. Iluminação: Maneco Quinderé. Trilha Sonora: Federico Puppi. Visagismo:  Mona Magalhaes. Preparação Corporal: Jacyan Castilho. Preparação Vocal: Jane Celeste. Desenho Gráfico: Cadão. Fotografia: Ale Catan. Mídia Social: Lab Cultural. Assessoria de imprensa: Adriana Balsanelli e Renato Fernandes. Direção de Produção: Alessandra Reis. Coordenação de Produção: Wesley Cardozo. Produção Executiva: Cristina Leite. Lei de Incentivo: Natália Simonete. Produtores Associados: Alessandra Reis e Felipe Heráclito Lima.

Serviço:
Teatro Sabesp Frei Caneca
Temporada: 23 de janeiro até 1º de março 2026
Horário: Sextas e sábados às 20h e domingo às 19h.

Ingressos
Plateia Baixa – R$ 160 (inteira) / R$ 80 (meia-entrada)
Plateia – R$ 140 (inteira) / R$ 70 (meia-entrada)
Plateia Alta – R$ 120 (inteira) / R$ 60 (meia-entrada)
Plateia Popular – R$ 50 (inteira) / R$ 25 (meia-entrada)
Desconto Caixa Residencial: clientes CAIXA Residencial têm 50% de desconto na compra de até dois (2) ingressos. 
Desconto: Para clientes Caixa Residencial e Vivo Valoriza
Bilheteria: https://uhuu.com

Duração: 100 minutos.
Classificação: 14 anos. Menores de 18 anos, somente poderão entrar acompanhados dos pais ou responsáveis e crianças até 24 meses de idade que ficarem no colo dos pais, não pagam.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

.: Crítica: no teatro, "A Baleia" é humana pela culpa e busca de aceitação


Por
 Mary Ellen Farias dos Santos, editora e criadora do portal Resenhando.com

Em fevereiro

O cinema consegue emocionar visualmente, mas o teatro, quando reúne um elenco impecável, é capaz de ir além e criar uma ponte única de aproximação com o público para mexer com sentimentos diversos, além de lançar inquietações. Ao testemunhar o espetáculo teatral "A Baleia", em cartaz no Teatro Sabesp Frei Caneca, cada provocação reverbera semanas depois. 

Em vivências posteriores, reflexões sobre o rumo da história surgem na mente, gerando debates internos a respeito da humanização de cada personagem que no palco tornam a montagem do diretor Luís Artur Nunes inesquecível. Há no protagonista de Emílio de Mello o ponto de partida do desenvolvimento de toda a trama, assim como a escolha determinante.

A interpretação mansa e comovente de Mello entranha no público estabelecendo uma conexão com profundidade emocional sobre dependência e isolamento. Com empatia, o público é convidado a assumir o posto de Charlie (Emílio de Mello), em meio a seus erros e acertos diante de um grande chamado. 

Cada personagem que interage pessoalmente com o protagonista, é agregado a ele, como tentáculos. Todos distantes, mas unidos num único motivo. Importantes para o homem que optou se anular aos poucos, mergulhando na comorbidade e que abraça uma visão amorosa, totalmente questionável, de uma filha execrável, Ellie (Gabriela Freire). 

Portanto, recai para Ellie o retrato do desamor e asco, que mantém vivo pelo pai e, com atitudes, faz o público sentir o mesmo por ela. Mérito inquestionável de Gabriela Freire, que com categoria entrega a interpretação de uma filha necessariamente horrorosa a um pai que a acompanhou sempre distante, apesar da admiração.

A enfermeira e amiga, Liz (Luisa Thiré) representa o equilíbrio e a razão diante dos fatos, alguns extremamente absurdos, respingando um pouco desta postura para a ex-mulher, Mary (Alice Borges). Há ainda a interferência do missionário Thomas de Eduardo Speroni com imposições religiosas questionáveis que fazem refletir sobre as escolhas, mas também rir quando, no debate, percebe que a vida não é uma lista de atividades a ser cumprida.

Em "A Baleia" há muita poesia na produção. Seja a sonoplastia que funciona como que um chamado ou na leitura amorosa de uma pequena análise de "Moby Dick". No entanto, o que mais conta é a total entrega de um elenco magistral que rapidamente leva o público para mergulhar num temporal de sentimentos que encaminham a baleia a seu destino final. Imperdível!

Sinopse: Charlie é um professor de inglês com obesidade severa que vive recluso e busca redenção. Após a morte do namorado, ele tenta se reconectar com sua filha adolescente, Ellie, de quem se afastou, enfrentando culpa e busca por aceitação. 


Ficha técnica

Espetáculo "A Baleia". Texto: Samuel D. Hunter. Tradução e Direção: Luís Artur Nunes. Elenco: Luisa Thiré, Gabriela Freire e Eduardo Speroni. Participação especial: Alice Borges. Coordenação Artística: Felipe Heráclito Lima. Cenário: Bia Junqueira. Figurino: Carlos Alberto Nunes. Iluminação: Maneco Quinderé. Trilha Sonora: Federico Puppi. Visagismo:  Mona Magalhaes. Preparação Corporal: Jacyan Castilho. Preparação Vocal: Jane Celeste. Desenho Gráfico: Cadão. Fotografia: Ale Catan. Mídia Social: Lab Cultural. Assessoria de imprensa: Adriana Balsanelli e Renato Fernandes. Direção de Produção: Alessandra Reis. Coordenação de Produção: Wesley Cardozo. Produção Executiva: Cristina Leite. Lei de Incentivo: Natália Simonete. Produtores Associados: Alessandra Reis e Felipe Heráclito Lima.


Serviço:

Teatro Sabesp Frei Caneca

Temporada: 23 de janeiro até 1º de março 2026

Horário: Sextas e sábados às 20h e domingo às 19h.


Ingressos

Plateia Baixa – R$ 160 (inteira) / R$ 80 (meia-entrada)

Plateia – R$ 140 (inteira) / R$ 70 (meia-entrada)

Plateia Alta – R$ 120 (inteira) / R$ 60 (meia-entrada)

Plateia Popular – R$ 50 (inteira) / R$ 25 (meia-entrada)

Desconto Caixa Residencial: clientes CAIXA Residencial têm 50% de desconto na compra de até dois (2) ingressos. 

Desconto: Para clientes Caixa Residencial e Vivo Valoriza

Bilheteria: https://uhuu.com

Duração: 100 minutos.
Classificação: 14 anos. Menores de 18 anos, somente poderão entrar acompanhados dos pais ou responsáveis e crianças até 24 meses de idade que ficarem no colo dos pais, não pagam.


Agradecimentos de "A Baleia"


Leia+ 


terça-feira, 20 de janeiro de 2026

.: Crítica: "Dois de Nós" transforma reencontro em matéria viva de teatro


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.

Poucos espetáculos fazem tanto sentido quanto "Dois de Nós", em cartaz até dia 17 de maio, de sexta-feira a domingo, no Teatro Tuca. E não é pelo encontro histórico entre Christiane Torloni e Antonio Fagundes que a dramaturgia que promove - isso, por si só, já seria pouco diante da grandeza dos intérpretes dos protagonistas da novela "A Viagem"-, mas porque o espetáculo decide não tratar esse reencontro na arte como evento e, sim, como matéria viva. 

Ao acompanhar o mesmo casal em diferentes fases da vida, confinado em um quarto de hotel, entre confissões atravessadas pelo tempo, pequenas crueldades e humor que nasce da ousadia de rir de si mesmo, a peça percorre uma vida inteira sem precisar sublinhar passagens. Tudo acontece no detalhe, no que escapa, no que se diz quase por acaso, como costuma ser quando o passado resolve pedir a pedra para atirar, quem sabe, para um acerto de contas definitivo.

Christiane Torloni surge em estado de graça. Há uma linha tênue entre a atriz e a personagem, e não no sentido confortável da identificação, mas naquele ponto em que a biografia chega a virar tensão dramática. Quando ela afirma, no texto do espetáculo, que a tragédia credencia para a vida, não soa como diálogo decorado. Ali está alguém que já atravessou o incêndio e voltou sem pressa para o lugar que a pertence. Torloni domina o espaço com uma elegância que impõe silêncio e contemplação. Da comédia ao drama no ritmo das nuances da personagem, ela é magnética sem recorrer a truques, intensa sem excessos, e faz do palco um lugar onde o tempo parece obedecer apenas a ela.

Antonio Fagundes opta por outro caminho igualmente eficaz. O personagem dele carrega o cansaço de quem andou demais e ainda assim não perdeu o gosto pela conversa. Há charme, claro, mas há sobretudo uma escuta refinada em cena. Fagundes constrói um homem em suspensão, errante sem ser perdido, e conduz o público a uma catarse que não vem do grito, mas do reconhecimento. O riso, às vezes, aparece quase como defesa, até deixar de ser.

Thiago Fragoso e Alexandra Martins aparecem como forças próprias. Fragoso injeta intensidade e urgência no mesmo homem que Fagundes sustenta com contenção - o encontro das duas camadas é um dos achados mais inteligentes do espetáculo. Um complementa o outro em lados antagônicos. Alexandra, por sua vez, evita qualquer sombra de imitação. A personagem que divide com Torloni, na versão dela, tem outra temperatura, outra pulsação, e isso enriquece o jogo cênico em vez de simplificá-lo. O resultado é um mosaico que não se fecha em nostalgia, mas se expande em complexidade.

O texto de Gustavo Pinheiro confirma uma maturidade que já se espera dele. Depois de "A Lista", ele aprofunda o gesto de mergulhar na alma humana e paralisar o espectador. As situações se encadeiam com humor afiado, mas há no texto dele uma escrita que provoca sem alarde, que cutuca sem destacar o óbvio, e que deixa o público com aquela sensação incômoda e preciosa de ter sido arrebatado por algo que continua depois da última fala.

Sob a direção precisa de José Possi Neto, "Dois de Nós" evita o risco do conforto que poderia rondar um elenco tão consagrado. Nada é automático nesse espetáculo e tudo funciona muito bem. O palco é espaço de risco, de escuta, de confronto íntimo. Isso faz com que o espetáculo não termine quando as luzes se apagam. O público sai diferente porque sai melhor. "Dois de Nós" é teatro para a vida. Ensina a rir de si mesmo, a encarar as próprias tragédias sem solenidade, a entender que crescer não significa endurecer. Em tempos de espetáculos apressados em agradar, esse prefere ficar na memória.

Ficha técnica
Espetáculo "Dois de Nós"
Texto: Gustavo Pinheiro
Direção: José Possi Neto
Assistente de direção: Antonio Fagundes
Elenco: Antonio Fagundes, Christiane Torloni, Thiago Fragoso e Alexandra Martins
Figurinos e cenários: Fábio Namatame
Desenho de luz: Wagner Freire
Desenho de som: Labsom
Música original: André Abujamra
Produção: Antonio Fagundes
Produção executiva: Gustavo de Souza e Alexandra Martins
Assistente de produção: Vanessa Campos
Assessoria de imprensa: JSPontes Comunicação - João Pontes e Stella Stephany


Serviço
Espetáculo "Dois de Nós"
Teatro Tuca - Rua Monte Alegre, 1024 – Perdizes / SP   
Telefone: (11) 3670-8455
Horários: quintas e sextas-feiras, às 21h00, sábados, às 20h00, e domingos, às 17h00. Ingressos: R$ 200,00 e R$ 100,00 (meia). Vendas: www.sympla.com.br ou na bilheteria do teatro de terça-feira a sábado, das 14h00 às 20h00, e domingos, das 14h00 às 18h00, Capacidade:  672 espectadores. Acessibilidade: sim. Duração: 90 minutos. Gênero: comédia. Classificação: 12 anos. Temporada: até 17 de maio . Redes Sociais: @doisdenosteatro / @fafacultural



sábado, 22 de novembro de 2025

.: No musical "Titanique", Céline Dion assume o leme e vira furacão pop


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com
Foto: Caio Gallucci

Há algo deliciosamente profano em ver o mito do navio Titanic ser desmontado, reconfigurado e servido como um grande cabaré marítimo onde Céline Dion, diva absoluta do exagero emocional e dos hits românticos, transforma o naufrágio mais famoso do cinema em uma ópera pop de humor ácido, brilho extravagante e inteligência cênica. "Titanique - O Musical" zomba, com respeito, do clássico de James Cameron, para, paradoxalmente, homenageá-lo com mais amor do que reverência. 

Sob a direção lúcida e debochadamente precisa de Gustavo Barchilon, o espetáculo entende que o segredo do riso não está no pastelão gratuito, mas na consciência estética da própria precariedade. O exagero é método, o nonsense é linguagem e o camp é tratado como filosofia de palco. É besteirol? Sim. Mas do mais alto nível, como quem ri sabendo exatamente de onde vem a piada. Há glamour, deboche e genialidade.

No centro desse furacão pop está Alessandra Maestrini, simplesmente avassaladora como Céline Dion. Sua performance é um espetáculo dentro do espetáculo. Ela incorpora, ironiza e usa a potência vocal com precisão cirúrgica, sem jamais abandonar o timing cômico que a transforma em uma narradora tão divina quanto ridiculamente humana. Há elegância na caricatura dela, há humor sofisticado na diva que ela interpreta, e há classe até quando tudo parece desabar. É Céline Dion como você nunca viu e talvez como sempre imaginou, no fundo.

Ao seu lado, Giulia Nadruz constrói uma Rose que flutua entre a delicadeza romântica e uma ironia sutil absolutamente vital para o jogo cênico. A beleza delicada encontra na experiência brilhante do teatro musical uma camada extra de inteligência dramática. É uma Rose que sabe que está dentro de um delírio e se diverte com isso. Luis Lobianco, recém-saído da televisão como o controverso Freitas de "Vale Tudo", encontra nesse espetáculo outro campo fértil para o humor ferino. A Ruth de Lobianco é cruel, afetada e debochada na medida certa. Marcos Veras sustenta um Jack que talvez não seja o mais heroico, mas certamente é o mais autoconsciente. 

Musicalmente, "Titanique" passeia pelos grandes hits de Céline Dion com energia e irreverência - “My Heart Will Go On” está lá, em toda sua glória piegas e monumental - mas o espetáculo não se prende à nostalgia fácil. Pelo contrário: faz dela uma arma, uma piada, um gesto político queer que transforma o passado em festa, a tragédia em carnaval, o drama em delícia pop.

É impossível sair ileso. Não porque emociona apenas, mas porque desmonta a ideia de que o riso precisa ser raso. Aqui, rir é um ato sofisticado. É entender que a cultura pop também pensa, critica, ironiza e reinventa. O palco vira navio e nele o público se vê refletido na fome por exagero, por catarse, por um espetáculo que não pede desculpas por ser excessivo. "Titanique - O Musical" não afunda. Pelo contrário, ele boia, dança, desafia o iceberg do bom gosto conservador e transforma a tragédia em celebração. E se for para naufragar, que seja ao som de Céline Dion, com luzes, plumas e um público gargalhando em estado de puro êxtase.


"Titanique - O Musical" | Ficha técnica
Direção artística: Gustavo Barchilon 
Elenco: Alessandra Maestrini (Celine Dion), Marcos Veras (Jack), Giulia Nadruz (Rose), Luis Lobianco (Ruth - mãe da Rose), George Sauma (Carl), Wendell Bendelack (Victor Garber), Valéria Barcellos (Tina Turner), Talita Real (Molly Brown), Matheus Ribeiro (Marinheiro), Luiza Lapa, Marcos Lanza e Luan Carvalho.
Direção artística: Gustavo Barchilon
Direção de produção: Thiago Hofman
Direção musical | Arranjo | Orquestração: Thiago Gimenes 
Desenho de luz: Maneco Quinderé
Direção de movimento: Alonso Barros
Figurino: Theo Cochrane
Cenografia: Natália Lana
Visagismo: Feliciano San Roman
Design de som: João Baracho
Assistentes de direção: Talita Real e Gabi Camisotti

"Titanique - O Musical" | Serviço
Local: Teatro Sabesp Frei Caneca - Shopping Frei Caneca
Endereço: Rua Frei Caneca, nº 569 • 7° Piso I Consolação • São Paulo • SP
Temporada: 11 de outubro a 14 de dezembro de 2025
Sessões: Sábados às 17h e 20h e Domingos às 15h e 18h 
Duração: 110 minutos
Capacidade: 600 pessoas
Classificação indicativa: 12 anos 

Bilheteria do Teatro Sabesp Frei Caneca • Sem incidência de Taxa de Serviço
7º Piso do Shopping Frei Caneca
Rua Frei Caneca, nº 569 • 7° Piso I Consolação • São Paulo • SP
Horário de funcionamento: terça-feira a domingo, das 12h00 às 15h00, e das 16h00 às 19h00, e segunda-feira bilheteria fechada.

.: “Beetlejuice”: musical reafirma pacto com absurdo e encontra nova pulsação


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Se existe algo mais perigoso do que invocar Beetlejuice três vezes, é subestimar o poder de um elenco que entende o caos como linguagem e o grotesco como celebração. Na nova temporada paulistana, em cartaz até 30 de novembro no Teatro Liberdade, “Beetlejuice - O Musical” não apenas confirma o status de fenômeno premiado. O espetáculo se reinventa no detalhe, na troca de energia, no risco calculado de quem sabe que a morte - quando bem encenada - é uma forma superior de estar vivo.

Os críticos do portal Resenhando.com assistiram ao espetáculo com Fabrizio Gorziza, substituto de Eduardo Sterblitch, e o que poderia ser uma simples alternância transforma-se em afirmação artística. O Beetlejuice de Gorziza é menos caricatura e mais veneno cênico elegante: há um brilho perverso no olhar, um domínio vocal seguro e um timing cômico que beira o insolente. E ele não entra tímido nesse universo: chega como um mestre de cerimônias do além, confortável em sua irreverência e perigosamente magnético. Em cena, não sobra espaço vazio - tudo vibra sob a presença desse artista que sempre é outro a cada novo personagem.

E quando o espetáculo poderia se perder em sua própria grandiloquência visual, surge Pâmela Rossini como Lydia Deetz para lembrar que carisma não se fabrica, mas se sustenta. Com a bagagem de quem já foi Wandinha e Elphaba em musicais anteriores, Rossini imprime à personagem uma densidade rara: é gótica, sim, e nunca rasa. A voz dela é um acontecimento à parte - forte, expressiva, tecnicamente impecável - e a atuação dessa atriz cria um contraste delicioso entre melancolia e ironia. Lydia, nas mãos dela, é uma adolescente em luto que zomba da própria sombra. E brilha. Sempre.

Ivan Parente, como o fantasma Adam Maitland, é daqueles acertos que arrancam risos e aplausos sem esforço... aparente. Está impagável e lírico neste personagem. Há uma comicidade fina na composição dele, mas também um cuidado afetuoso que humaniza o absurdo de um homem que acabou de morrer e precisa assombrar a casa para afastar novos moradores. O talento dele irrompe em cena com naturalidade, como quem compreende que o humor mais inteligente não grita: seduz.

É importante sublinhar: “Beetlejuice - O Musical” não é um espetáculo para crianças. O texto brinca com duplos sentidos, palavrões e humor ácido - ainda bem. A obra respeita a própria inteligência e confia no espectador. Não higieniza o riso, não suaviza o grotesco, não pede desculpas pela ousadia. Pelo contrário: celebra e faz dela um manifesto festivo sobre a precariedade humana, sobre rir da morte para insistir na vida.

A direção de Tadeu Aguiar mantém a engrenagem afinada entre espetáculo visual e emoção sincera. Cenários, figurinos, luz entre o roxo e o verde e coreografias operam como um organismo pulsante que envolve a plateia numa estética de Tim Burton, que consagrou o personagem em duas produçoes cinematográficas, e não se limita à nostalgia: atualiza, provoca e expande. "Beetlejuice - O Musical” é sombrio, divertido, debochado e tecnicamente irrepreensível. Uma espécie de lembrete torto de que o teatro, quando se permite ser estranho, também se torna lendário. E que, às vezes, os mortos são muito mais interessantes do que os vivos.

Serviço
"Beetlejuice - O Musical"
Teatro Liberdade | Rua São Joaquim, 129 - Liberdade / São Paulo
Temporada: até dia 30 de novembro

Sessões
Quarta a sexta-feira, às 20h00 | Sábado, às 16h00 e às 21h00 | Domingo, às 16h00 às e às 20h30
*O elenco pode sofrer alterações sem prévio aviso.
Duração: 2h30m (com intervalo de 15m)
Classificação: 14 anos

Valores
Plateia Premium: R$350,00 (Inteira)  R$175,00 (Meia-entrada)
Plateia R$280,00 (Inteira)  R$140,00 (Meia-entrada)
Balcão A Visão Parcial: R$170,00 (Inteira)  R$85,00 (Meia-entrada)
Balcão A: R$240,00 (Inteira)  R$120,00 (Meia-entrada)
Balcão B : R$190,00 (Inteira)  R$95,00 (Meia-entrada)
Ingresso Popular*: R$42,36 (Inteira)  R$21,18 (Meia-entrada)
*Os ingressos populares são válidos em todos os setores, sujeito à disponibilidade

Vendas:
Internet (com taxa de conveniência): https://www.sympla.com.br/
Funcionamento de bilheteria física (sem taxa de conveniência)
Atendimento presencial: de terça à sábado das 13h00 às 19h00. Domingos e feriados apenas em dias de espetáculos até o início da apresentação.
Formas de pagamento: dinheiro, cartão de débito ou crédito.

.: Crítica: “Um Dia Muito Especial” revela o lado mais visceral de Gianecchini


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com
Foto: Priscila Prade

O que acontece quando Reynaldo Gianecchini e Maria Casadevall são colocados no mesmo palco, sob a direção sensível e precisa de Alexandre Reinecke, em plena Roma de 1938, com Mussolini e Hitler desfilando suas sombras ao fundo? A resposta é, de certa forma, simples e ao mesmo tempo devastadora: surge um teatro que lembra que a política, o amor e a humanidade não podem ser separados. “Um Dia Muito Especial” vai além da transposição de um clássico do cinema italiano para o palco brasileiro, é um ensaio sobre o que torna as pessoas vulneráveis e, ao mesmo tempo, extraordinárias. 

Maria Casadevall, no papel de Antonietta, dá vida a uma mulher submissa, esmagada pelo machismo e pela rotina doméstica, mas que consegue despertar afeto sem jamais se tornar apenas objeto de piedade. É impossível não se emocionar com cada gesto, cada pausa, cada olhar que ela entrega. É uma grande atriz que ficou conhecida na televisão em um momento impressionante da carreira, desta vez no teatro - lugar em que consegue elevar a arte dela a um patamar que beira o sagrado.

Gianecchini, por sua vez, está em um momento raro de visceralidade teatral. O Gabriele interpretado por ele, recém-demitido por ser homossexual, é alguém que faz o público confrontar os próprios preconceitos e, por vezes, a covardia. A química do ator com Maria Casadevall é elétrica, mas nunca óbvia. Eles conversam, trocam e, mais importante, tornam os espectadores cúmplices de um amor platônico que não precisa de cenas grandiosas para ser arrebatador. É. E ponto. 

Quando Gianechini berra em plenos pulmões, em uma cena tensa e ao mesmo tempo comovente, ele se coroa como ator de teatro, um lugar que sempre foi dele, mas que precisou ser conquistado e merecido. Essa consagração vai além do número de peças que ele vem apresentando desde que passou a ter autonomia para escolher os projetos que quer fazer, mas principalmente em relação às histórias que ele escolhe contar.

O espetáculo vai além do romance: desenha o fascismo, não com cartazes ou discursos, mas a partir da vida das pessoas comuns, dos pontos de vista conflitantes, das escolhas assumidas e das limitações apresentadas pelos personagens. É nessa tensão que o texto de Ettore Scola e Ruggero Maccari, traduzido por Célia Tolentino e adaptado por Reinecke, encontra seu respiro: cada diálogo é uma provocação.

Tecnicamente, a montagem é impecável. Marco Lima e Cesar Pivetti transformam o palco em um mosaico de intimidade e história, enquanto Dan Maia, com a trilha sonora, consegue fazer a música dialogar com a dor, a esperança e o absurdo da existência. A iluminação, o figurino e o design gráfico completam o quadro de maneira tão sutil quanto necessária: nada rouba a atenção do que realmente importa - a conexão entre os personagens e, por extensão, com o público. A atriz Carolina Stofella tem uma participação singela, mas marcante.

Nesse duelo de talentos, os espectadores têm a chance de sair do Teatro Sérgio Cardoso diferente de como entrou. Mais atento, mais sensível, mais inquieto. Dizem que a marca dos grandes espetáculos é transformar quem assiste a partir de uma boa história. “Um Dia Muito Especial” convida a sentir com urgência. Se você acredita que o teatro é apenas entretenimento, ou quer assistir a uma história de amor "levinha", prepare-se para se surpreender. Nesse espetáculo, a política, o amor e a coragem se entrelaçam de maneira tão natural que, durante a apresentação, é possível que os espectadores se sintam participantes de um diálogo impossível de ignorar.


Ficha técnica
"Um Dia Muito Especial" 
Autor: Ettore Scola e Ruggero Maccari
Tradução: Célia Tolentino
Adaptação: Alexandre Reinecke
Direção Geral: Alexandre Reinecke
Elenco: Reynaldo Gianecchini, Maria Casadevall, Carolina Stofella
Direção de Produção: Marcella Guttmann
Produção Executiva: Tatiane Zeitunlian
Assistência de Produção: Erica Paloma
Assistência de Direção: Carolina Stofella
Design Gráfico: Victória Andrade
Iluminação: Cesar Pivetti
Cenários: Marco Lima
Fotografia: Priscila Prade
Trilha Sonora: Dan Maia
Hair Stylist e Visagismo: Robson Souza
Makeup Artist: Beatriz Ramm 
Figurino Masculino: Ricardo Almeida
Figurinos Femininos: Debora Ceccatto
Assessoria de Imprensa: Pombo Correio
Operação de Luz: Rodrigo Pivetti 
Produtores associados: Reynaldo Gianecchini e Alexandre Reinecke
Realização: Reinecke Produções Culturais Ltda.


Serviço
"Um Dia Muito Especial"
Direção Alexandre Reinecke com Maria Casadevall e Reynaldo Gianecchini
Temporada: até dia 30 de novembro, sexta-feira, às 20h00; sábado, às 17h00 e às 20h00, e domingo, às 17h00
Ingressos entre R$ 70,00 e R$ 200,00 | Sympla
Duração: 90 minutos 
Classificação etária:10 anos 
Local: Teatro Sérgio Cardoso | Rua Rui Barbosa, 153 – Bela Vista, São Paulo/SP
Capacidade: 827 lugares
Bilheteria: Aberta nos dias de espetáculos, das 14h00 até o horário da atração.
Contato bilheteria: (11) 3288-0136

sábado, 25 de outubro de 2025

.: Crítica: musical "Homem com H" reza o evangelho segundo Ney Matogrosso


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com. Foto: Adriano Doria

Alguns musicais nascem de uma ideia; outros, do fogo. “Ney Matogrosso - Homem com H” é dos que ardem e iluminam. A montagem da Paris Cultural, em cartaz no Teatro Porto até dia 7 de dezembro, não apenas homenageia um artista: celebra uma entidade em vida. Ney é invocado. O palco vira altar e arena, corpo e ferida, em um ritual em que o sagrado e o profano se misturam até perderem fronteira. Entre biografia musicada, liturgia do escândalo e exorcismo contra a caretice, o espetáculo vem lotando plateias e reafirmando o poder de quem transforma a própria existência em arte.

No palco, Renan Mattos é um corpo em combustão, em que arte, dor, prazer e liberdade se confundem. Nesse papel, ele está em estado de graça: o Ney Matogrosso que renasce em cena não é cópia, mas epifania. Há algo de místico no modo como o ator acende o palco - cada nota entoada por ele soa como oração pagã e os gestos dele se impõem como sacramento profano. Nesse espetáculo, o corpo do protagonista torna-se instrumento de fé e transgressão, a serviço de uma história que emerge da coragem de existir. É raro ver entrega assim, tão absoluta que parece abolir o limite entre ator e personagem, carne e mito. 

Renan Mattos canaliza o espírito de Ney Matogrosso como quem ergue um orixá: com respeito, intensidade e vertigem. Do menino tímido de Mato Grosso ao ícone que enfrentou a ditadura com o corpo nu e a voz em brasa; do amante que amou outro homem ao artista que reinventou o amor pelo pai e pela mãe; da sombra da Aids, quando tantos se apagaram, à luz de Cazuza, que começa como amante e termina como companheiro de fé. O espetáculo agrega tudo isso e faz da memória um espaço de comunhão. Cada canção é uma oferenda - não ao passado, mas ao que sobrevive dele, e também ao que restará de todos nós.

A encenação de Marilia Toledo e Fernanda Chamma é de uma inteligência cênica que não se rende ao deslumbramento. É grandiosa, mas não se perde na pirotecnia; é teatral, mas sem afetação. As diretoras compreendem que Ney é, por natureza, uma missa herética - e o espetáculo se estrutura como tal. O público assiste às transformações de figurino e maquiagem em cena como quem testemunha um milagre. Há algo de rito iniciático em ver o ator se pintar, despir-se, erguer-se e se reerguer diante de tantas camadas de si mesmo.

O texto costura vida e mito com ecos de Eduardo Galeano, autor de “As Veias Abertas da América Latina”. O Ney de “Homem com H”, intérprete de “Sangue Latino”, canta sem pudores  e sem reservas as veias expostas, as cicatrizes que não cicatrizam e o erotismo que resiste à moral. A trilha musical, conduzida por Daniel Rocha, é outro acerto. As canções - de “Pro Dia Nascer Feliz” a “Poema”, redescoberta no TikTok - reacendem o fogo de uma época que tentou ser silenciada e acabou virando mito. 

O musical entende que Ney nunca foi um sobrevivente, mas um transfigurador contrário à cultura do mais fácil. O figurino, as luzes e o uso do corpo coletivo do elenco convergem para um estado de celebração. “Homem com H” não se contenta em ser um retrato de uma biografia bem-sucedida: é uma experiência. Ney é o santo laico de uma geração que aprendeu que resistir também é um gesto estético. O espetáculo entende isso com devoção e insolência. É um musical que poderia se acomodar na reverência, mas prefere o risco de despertar a vontade de viver, mesmo quando o mundo insiste em morrer aos poucos. E é por isso que não é triste, mas profundamente vivo. "Homem com H" celebra um homem que caiu muitas vezes e, em todas elas, levantou-se maquiado, luminoso, inteiro, selvagem, livre e humano.


Musical "Ney Matogrosso - Homem com H"

Ficha técnica
Texto: Marilia Toledo e Emílio Boechat
Direção: Fernanda Chamma e Marilia Toledo
Coreografia: Fernanda Chamma
Direção musical: Daniel Rocha
Cenografia: Carmem Guerra
Figurinos: Michelly X
Visagismo: Edgar Cardoso
Desenho de som: Eduardo Pinheiro
Desenho de luz: Fran Barros & Tulio Pezzoni
Preparação vocal: Andréia Vitfer
Realização: Paris Cultural
Patrocínio: Porto Seguro
Produção geral: Paris Cultural

Elenco
Renan Mattos - Ney
Bruno Boer - Ney Cover
Vinícius Loyola e Pedro Arrais - Cazuza, Tonho, Cláudio Tovar e Romildo
Giselle Lima - Beíta, Renate Beija-Flor e Sandra Pera
Hellen de Castro - Rita Lee, Sylvia Orthof, Gilda e Yara Neiva
Enrico Verta - Gerson Conrad, Eugênio, André Midani e Frejat
Abner Debret - Vicente Pereira e Vitor Martins
Matheus Paiva - João Ricardo, Nilton Travesso e Marco de Maria
Dante Paccola - Ney Jovem, Mazzola e Paulnho Mendonça
Maria Clara Manesco - Luli, Lidoka e Fã
Tatiana Toyota - Elvira, Rosinha de Valença
Léo Rommano - Titinho, Moracy do Val, Luiz Fernando Guimarães e Arthur Moreira Lima
Ju Romano - Lena, Regina Chaves
Maurício Reducino – Ensemble
Valffred Souza - Ensemble
Vitor Vieira – Matogrosso e Guilherme Araújo
Oscar Fabião – Dódi e Grey

Banda
Teclado 1 e Regência - Rodrigo Bartsch
Teclado 2 e sub de Regência - Renan Achar
Bateria e percussão - Kiko Andrioli
Trombone, trompete, flugel - Renato Farias
Baixo elétrico, acústico e violão - Eduardo Brasil
Reed (sax tenor, clarinete, clarone, flauta) - Tico Marcio

Serviço
Temporada: 19 de setembro a 7 de dezembro de 2025
Sessões: sextas e sábados às 20h e domingos às 17h.
Duração do espetáculo: 3h (com 15 minutos de intervalo)

Ingressos
Plateia R$ 250,00
Balcão e frisa R$ 200,00
Preço Popular*: 50,00  *Obs. O ingresso PREÇO POPULAR é válido para todos os clientes e segue o plano de democratização da Lei Rouanet e está sujeito à cota estabelecida por Lei para este valor. O comprovante para compras ao valor de meia entrada é obrigatório e deverá ser apresentado na entrada do espetáculo.

Teatro Porto
Al. Barão de Piracicaba, 740 – Campos Elíseos – São Paulo.
Telefone (11) 3366.8700
Capacidade: 508 lugares.
Acessibilidade: 10 lugares para cadeirantes e 5 cadeiras para obesos.
Estacionamento no local: Gratuito para clientes do Teatro Porto.

O Teatro Porto oferece a seus clientes uma van gratuita partindo da Estação da Luz em direção ao prédio do teatro. O local de partida é na saída da estação, na Rua José Paulino/Praça da Luz. No trajeto de volta, a circulação é de até 30 minutos após o término da apresentação. E possui estacionamento gratuito para clientes do teatro.

sábado, 13 de setembro de 2025

.: “Uma Semana, Nada Mais” escancara o amor líquido com humor e inteligência


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com. Foto: Caio Gallucci
 

O palco do Teatro Uol abre espaço para uma comédia que, sob a leveza do riso, desnuda as contradições das relações contemporâneas. "Uma Semana, Nada Mais", versão brasileira da peça francesa de Clément Michel, dirigida por João Fonseca, é daquelas montagens que parecem conversar diretamente com o diagnóstico de Zygmunt Bauman sobre o amor líquido: vínculos frágeis, sujeitos que evitam o confronto e afetos que se desmancham ao menor sinal de turbulência.

Na trama, Pablo (Leandro Luna) arma um plano mirabolante para terminar o namoro: chama o melhor amigo, Martín (Beto Schultz), para morar com ele e Sofia (Sophia Abrahão) durante uma semana, na esperança de que a convivência insuportável provoque a separação. O que poderia ser apenas um pretexto para o humor físico e os mal-entendidos típicos da comédia de costumes acaba se transformando em um cenário incômodo, no qual o público ri e se vê diante de uma realidade brutal.

O elenco está afiado. Luna e Schultz formam uma dupla carismática, com excelente timing para o jogo cômico. É Beto Schultz, porém, quem merece um destaque especial: seu Martín é o catalisador das reviravoltas e o responsável pelas gargalhadas mais espontâneas da plateia. Sophia Abrahão, por sua vez, vai muito além da doçura inicial que sua personagem sugere. A Sofia interpretada por ela é uma mulher que, enquanto lida com a busca por trabalho e realizações pessoais, tenta manter em pé uma relação que desmorona diante da falta de diálogo com o homem com quem divide a casa.

Essa inversão - a mulher que age de modo prático e objetivo diante de dois homens perdidos em suas subjetividades - dá à peça uma camada crítica que a aproxima não só das reflexões de Bauman, mas também de Milan Kundera, em "A Insustentável Leveza do Ser". Afinal, o que pesa mais: o compromisso ou a liberdade? O riso, aqui, funciona como a superfície brilhante de uma pergunta muito mais densa.

Há momentos em que o espetáculo parece um filme francês transportado para o palco brasileiro: diálogos rápidos, dilemas sentimentais e uma atmosfera que mistura leveza e melancolia. João Fonseca acerta ao evitar exageros, deixando que a comicidade surja do desconforto natural das situações. A tradução de Priscilla Squeff, ajustada ao ritmo brasileiro, garante que o humor mantenha frescor sem perder a universalidade do texto original. "Uma Semana, Nada Mais" é, no fundo, sobre aquilo que todos já experimentaram: a dificuldade de comunicar o que se sente, o medo de perder e, paradoxalmente, a pressa em encerrar vínculos sem medir as consequências. 


Serviço
"Uma Semana, Nada Mais"
De 6 de setembro a 26 de outubro, sábados e domingos às 18h00
Teatro Uol – Shopping Pátio Higienópolis, São Paulo
Ingressos: R$ 100 (inteira) / R$ 50 (meia)

.: "Drácula: um Terror de Comédia" é um clássico extremamente debochado


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com. Foto: divulgação

Extremamente debochado e misturando o pop e o cult, o espetáculo "Drácula - Um Terror de Comédia" já chega aos palcos brasileiros com ares de clássico, mesmo sem ter essa intenção. A montagem, que estreou no Teatro Bravos, em São Paulo, e segue até dia 12 de outubro, é uma das produções mais inventivas e bem-acabadas dos últimos tempos, equilibrando humor inteligente, irreverência, sagacidade e um visual de tirar o fôlego. É teatro de primeira grandeza, desses que conquistam pelo riso, pelo cuidado e pelo talento dos artistas envolvidos.

Se Tiago Abravanel assume o papel do conde mais famoso da literatura com fina ironia e um gosto evidente pela liberdade que o teatro proporciona a ele, o elenco ao redor se revela uma engrenagem preciosa e muito bem escolhida. Abravanel poderia ter se acomodado na televisão, mas o palco parece ser o lugar em que ele se reinventa com mais força - e esse Drácula é, sem dúvida, libertador para ele.

O espetáculo também consagra Ludmillah Anjos como um grande nome dos musicais. Dona de uma trajetória construída tijolo por tijolo desde a visibilidade que ganhou no talent show em que estreou, ela mostra, mais uma vez, toda a versatilidade que tem e confirma que chegou ao patamar das estrelas, sem precisar provar mais nada a ninguém. Bruna Guerin, por sua vez, entrega uma mocinha nada óbvia, cheia de nuances, em um papel à altura da carreira sólida que construiu no teatro com espetáculos como "Natasha, Pierre e o Grande Cometa de 1812" e a própria Janet de "Rock Horror Show", que claramente é uma das fontes de inspiração dessa nova montagem de "Drácula".

Lindsay Paulino, na pele de Mina, também brilha. Além de provocar gargalhadas certeiras, ele capta todos os olhares para si, em um jogo de cena em que aparece bem à vontade. Visualmente deslumbrante, com uma trilha sonora moderna irresistível, "Drácula - Um Terror de Comédia" é esperto, sacaninha, sagaz, e inteligente sem jamais soar petulante e sem ter a pretensão de ser um novo clássico, mesmo já sendo. Um espetáculo memorável, daqueles que fazem rir, pensar e aplaudir de pé.


Serviço
"Drácula - Um Terror de Comédia"

Local: Teatro Bravos – Rua Corifeu de Azevedo Marques, 200 – São Paulo/SP
Temporada: até dia 12 de outubro de 2025
Horários: sextas, às 20h00; sábados, às 17h00 e 20h00; domingos, às 18h00
Ingressos: disponíveis na bilheteria do teatro e pelo site Sympla
Classificação etária: 12 anos

sábado, 23 de agosto de 2025

.: Crítica: “Memórias do Vinho”: duelo de talentos transforma palco em brinde


Por 
Helder Moraes Miranda, especial para o portal Resenhando.com. Foto: Roberto Setton

Em cartaz até dia 28 de setembro no Teatro Renaissance, o espetáculo “Memórias do Vinho” reúne diversas discussões em uma mesma taça. Com texto inédito de Jandira Martini - escrito em parceria com Maurício Guilherme e finalizado pouco antes da partida dela em 2024 - e direção precisa e sensível de Elias Andreato, a peça segue com as últimas apresentações com Herson Capri e Caio Blat em um verdadeiro duelo de talentos.

O enredo parece simples: pai e filho, distantes há anos, em um reencontro por necessidade. No entanto, a adega do patriarca, repleta de garrafas raras e um diário secreto de vinhos, abre espaço para revelações, mágoas não-verbalizadas e lembranças engarrafadas pelo tempo. No espetáculo, o vinho não é apenas bebida, mas metáfora da memória, do envelhecimento e do que se guarda, às vezes com zelo, às vezes por egoísmo. É justamente nessa simbologia que o espetáculo cresce.

A narrativa, que poderia descambar para o ressentimento, é transformada em uma crônica delicada sobre a passagem do tempo, a carência afetiva e a mágica de celebrar a vida em família, mesmo quando nunca se fala o que se tem a dizer. Herson Capri imprime a maturidade de quem coleciona experiências como quem coleciona rótulos raros; Blat, por sua vez, entrega a intensidade da juventude frustrada, mas ainda capaz de sonhar. O jogo de cena é bonito de se ver: não há vaidade, há partilha. Os dois passam a bola, provocam-se e se escutam - como se o palco fosse também uma mesa de jantar em que o brinde só faz sentido se for coletivo.

Elias Andreato conduz com a sobriedade de quem sabe que menos é mais. O cenário de Rebeca Oliveira é elegante sem exageros, deixando que os atores e o texto sejam a principal safra da noite. A iluminação de Cleber Eli contribui para a atmosfera intimista, quase etílica, em que o público se vê cúmplice daquele acerto de contas. “Memórias do Vinho” é um espetáculo agradável como um bom gole: provoca sorrisos, aquece a alma e convida à reflexão. Mais do que a história de um pai e um filho, é um brinde ao que fica - o amor, os gestos, os vínculos. No final, a peça deixa no ar uma pergunta saborosa: o que guardamos em nossas próprias adegas de lembranças? Nesse caso, cabe levantar a taça e brindar: à vida, ao vinho e ao teatro.

Ficha técnica
Espetáculo "Memórias do Vinho"
Autores: Jandira Martini e Maurício Guilherme
Direção: Elias Andreato
Assistente de direção: Rodrigo Frampton
Cenário: Rebeca Oliveira
Contrarregra: Tico (Agilson dos Santos)
Figurino: Mari Chileni
Camareira: Gisele Pereira
Iluminação: Cleber Eli
Operação de luz: Ian Bessa
Operação de som: Eder Soares
Trilha: Elias Andreato
Fotos: Nana Moraes
Design e identidade visual: Rodolfo Rezende / Estúdio Tostex
Assessoria de imprensa: Pombo Correio
Produção Executiva: Elisangela Monteiro
Direção de produção: Fernando Cardoso e Roberto Monteiro
Realização: Mesa2 Produções


Serviço
Espetáculo "Memórias do Vinho", de Jandira Martini e Maurício Guilherme
Temporada: de 5 a 27 de julho - sábados, às 21h00, e domingos, às 19h00
Teatro Renaissance - Alameda Santos, 2233 - Jardim Paulista / São Paulo
Ingressos: R$ 150,00 (inteira), R$ 75,00 (meia-entrada)
Lotação: 432 lugares
Venda on-line pelo Sampa Ingressos: www.sampaingressos.com.br
Bilheteria (sem taxa de conveniência): aberta 2 horas antes das sessões.
Classificação: 12 anos
Duração: 70 minutos
Capacidade: 432 lugares
Acessibilidade: Teatro é acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida
Bilheteria (sem taxa de conveniência): aberta de sexta a domingo a partir das 14h até o início do espetáculo.
Acessibilidade: o teatro comporta 432 pessoas, sendo 412 poltronas numeradas e oito espaços para cadeirantes. Dentre os 412 lugares fixos, há oito poltronas “Assentos Obeso” e outras oito poltronas para deficientes visuais com espaço reservado para o cão guia.
* O comprovante de meia-entrada deverá ser apresentado na entrada do espetáculo.

sábado, 19 de julho de 2025

.: “A Mulher da Van” ou a sublime arte de não pedir licença, nem desculpas


Por 
Helder Moraes Miranda, especial para o portal Resenhando.com. Foto: Priscila Prade

Nathalia Timberg vai além da tarefa de atuar. Ela assombra. E, em "A Mulher da Van", ela retorna não como quem impõe presença, mas como quem finca uma bandeira no tempo e declara: “Estive aqui. E ainda estou”. Aos 96 anos, a Mary Shepherd dela não é somente uma personagem: é um meteoro encardido de humanidade atravessando o palco com odor de mofo e dignidade, acidez e ternura, malcriação e mistério. Tudo ao mesmo tempo. E melhor: sem pedir a opinião alheia sobre isso. É um exemplo para quem ainda se preocupa com a opinião dos outros.

Baseada no texto autobiográfico de Alan Bennett, adaptado com elegância por Clara Carvalho e conduzida com muita sensibilidade por Ricardo Grasson, a montagem brasileira assume o risco do desencaixe. Não tenta agradar, não se curva ao politicamente correto, tampouco oferece um consolo higienizado para o envelhecimento - ela o escancara, sem filtros ou nenhum tipo de botox narrativo.

Timberg encena uma mulher amarga e, às vezes, mal-agradecida com uma grandeza que beira o indecente. É a atriz em sua forma mais crua, esculpindo silêncios, vociferando feridas, desviando do sentimentalismo fácil com a precisão de quem conhece a anatomia da emoção por dentro. A atuação dela é tão pungente que desidrata o texto e o transforma em gesto, em presença viva, em legado performático. Mas ela não está sozinha nessa empreitada existencial. 

Caco Ciocler entrega um Alan comovente e sem vaidade. É doce, mas também melancólico. Já Nilton Bicudo, ao dividir o personagem com Ciocler, protagoniza uma rara parceria:  juntos, eles tecem uma coreografia afetiva que revela o jogo de espelhos e vozes internas do escritor/personagem, um homem partido entre o acolhimento e a culpa. Juntos, os dois dançam um balé emocional em que o ego se dilui para dar espaço ao outro.

Lilian Blanc, por sua vez, aparece com seu selo habitual de encantamento cênico - é como um bom perfume: não precisa de mais do que uma borrifada para deixar a própria marca. Roberto Arduin mostra sua versatilidade camaleônica ao saltar entre personagens com a leveza de quem sabe que o teatro é, antes de tudo, transformação. E o restante do elenco, formado por nomes como Noemi Marinho, Cléo De Páris, Duda Mamberti e Lara Córdulla, forma uma engrenagem rara: coesa, pulsante e generosa. Ninguém se atropela - todos se erguem para o exato momento em que cada um brilha.

A encenação de Grasson constrói um universo que não pede explicações: a van vira casa, o lar vira prisão, a rua vira espelho. Tudo transita entre o cômico e o trágico com a fluidez de um sonho. A direção é, ao mesmo tempo, respeitosa com o texto e atrevida com a forma. Talvez daí resida o maior acerto dessa produção. O público sai transformado? Talvez. Mas sai, no mínimo, cutucado - e isso já é mais do que se espera da maioria dos espetáculos. Porque o teatro, como bem sabe Nathalia Timberg, não existe para fazer carinho no espectador, mas para deixá-lo acordado. E, se possível, ligeiramente desconfortável.

“A Mulher da Van” é uma peça sobre o tempo. Mas não o tempo como calendário ou sentença - o tempo como abismo e bênção. Semelhante àquilo que escapa e, ainda assim, encaixa na vida do outro como algo que já não descola. É também uma fábula sobre encontros improváveis, sobre o cuidado que damos a estranhos enquanto negligenciamos os íntimos, sobre a beleza caótica da convivência. E é, sobretudo, uma carta de amor à arte de envelhecer com selvageria, e não com docilidade.


Ficha técnica
Espetáculo "A Mulher da Van"
Texto: Alan Bennett
Tradução: Clara Carvalho
Idealização: Nosso Cultural
Direção geral: Ricardo Grasson
Assistente de direção: Heitor Garcia
Elenco: Nathalia Timberg, Caco Ciocler, Nilton Bicudo, Noemi Marinho, Duda Mamberti, Lilian Blanc, Roberto Arduin, Cléo De Páris e Lara Córdulla.
Cenário: Cesar Costa
Desenho de luz: Cesar Pivetti
Trilha sonora e desenho de som: LP Daniel
Figurino: Marichilene Artisevskis
Visagismo: Simone Momo
Assistente de cena: Ligia Fonseca
Camareira: Beth Chagas
Diretor de palco: Victor Ribeiro
Contrarregra: JP Franco
Coordenação de comunicação: André Massa
Comunicação visual e animação: Kelson Spalato
Redes sociais: Gatu Filmes / Gabriel Metzner e Arthur Bronzatto
Estratégia digital: Motisuki PR / Régis Motisuki e Matheus Resende
Fotografia: Priscila Prade
Assessoria de imprensa: Pombo Correio
Direção de produção: Marco Griesi
Coordenação de produção: Bia Izar
Produção executiva: Diogo Pasquim e Tame Louise
Produção geral: Palco7 Produções


Serviço
Espetáculo "A Mulher da Van"
De 4 de julho a 3 de agosto de 2025
Sextas, às 21h00. Sábados, das 17h00 e 21h00. Domingos, às 18h00.
Teatro Bravos - Rua Coropé, 88 - Pinheiros / São Paulo
Ingressos: Plateia Premium - R$ 200,00 (inteira) I R$ 100,00 (meia). Plateia Inferior - R$ 160,00 (inteira) I R$ 80,00 (meia). Mezanino - R$ 120,00 (inteira) i R$ 60,00 (meia). Vendas: https://bileto.sympla.com.br/event/106647.
Classificação: 12 anos.
Duração: 100 minutos.
Capacidade: 611 lugares.
Acessibilidade: teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida.

quinta-feira, 10 de julho de 2025

.: Crítica: musical “Wicked” desafia a gravidade e as expectativas


Por 
Helder Moraes Miranda, especial para o portal Resenhando.com. Foto: divulgação/Jairo Goldflus

Existe um momento em que o teatro deixa de ser teatro e passa a ser transcendência, em que a arte deixa de apenas entreter e começa a transformar. “Wicked - A História Não Contada das Bruxas de Oz”, em cartaz no Teatro Renault, é exatamente isso: um salto entre o bom e o inesquecível. E se a palavra “clássico” já pairava sobre essa história nascida nos palcos da Broadway, o que se vê na terceira montagem brasileira é o nascimento de um novo patamar para o teatro musical no país.

Myra Ruiz não interpreta Elphaba - ela É Elphaba. E isso não é apenas um elogio, é um aviso. Prepare-se para testemunhar uma entrega artística de tirar o fôlego, que combina técnica vocal absurda, presença cênica hipnótica e uma força emocional que faz tremer a poltrona. Ver Myra “voar” - literalmente e metaforicamente - enquanto canta “Desafiando a Gravidade” é uma experiência de se guardar talismã verde-esmeralda. Em uma era de performances cada vez mais plastificadas, ela entrega verdade.

Bel Barros, como Glinda, na apresentação que substituiu Fabi Bang, encontra o tom exato entre o carisma solar e a frivolidade encantadora da bruxa boa. A química com Myra é mais do que uma parceria: é a prova de que antagonismos podem gerar beleza. Já Luisa Bresser, como Nessarose, mostra um domínio emocional raro para tanta juventude. A transição da atriz, de doce para amarga, é digna de nota - e, se o futuro da dramaturgia musical brasileira precisa de representantes, ela certamente já está convocada.

Hipólyto, como Fiyero, encontra mais um papel que o desafia e o valoriza. O Fiyero interpretado por ele tem charme, mas também tem camadas - algo raro nesse tipo de papel. E Cleto Baccic, como sempre, é a cereja do bolo: o Mágico de Oz dele destila cinismo com vulnerabilidade, lembrando a todos os espectadores que até o poder pode ser patético. Há algo que diferencia esta montagem das anteriores: ela ouve o tempo. 

Sob a direção de Ronny Dutra e com novos figurinos, efeitos visuais e sistemas de voo que parecem saídos de uma ficção científica glamurosa, o espetáculo conecta-se às angústias e urgências do presente. A mensagem de resistência, identidade e amizade feminina não poderia ser mais atual. “Wicked” não é apenas um musical: é uma alegoria queer, um manifesto feminista, uma crítica às narrativas oficiais. Tudo isso embalado em luz verde e rosa, plumas, vassouras e canções que colam na alma.

Além disso, o projeto extrapola os limites do palco. O leilão de figurinos em prol do GIV, as ações durante o Mês do Orgulho LGBTQIAPN+ e a participação ativa do elenco em iniciativas sociais mostram que esta produção entende o que significa “teatro vivo”. Se o teatro é um espelho, “Wicked” é aquele espelho mágico que nos mostra não só quem somos, mas quem podemos ser.

E que prazer vê-lo em cartaz justamente agora, quando a cultura brasileira parece, mais do que nunca, precisar de esperança, de empatia e de um pouco de feitiçaria também. Não é novidade que "Wicked" sempre será o melhor espetáculo do ano em todas as vezes em que estiver em cartaz. Mas, sem qualquer exagero, também é o melhor espetáculo que você terá a honra de assistir em toda a sua vida.


Serviço
"Wicked - A História Não Contada das Bruxas de Oz"
Quartas, quintas e sextas-feiras, às 20h00. Sábados e domingos, às 15h00 e às 19h30.
Teatro Renault - Av. Brigadeiro Luís Antônio, 411 - República/São Paulo.
Bilheteria oficial no Teatro Renault (sem taxa de conveniência): de terça a domingo, das 12h00 às 20h00 (exceto feriados). Site e app Ticket For Fun: ticketsforfun.com.br.
Temporada estendida até 10 de agosto de 2025.

domingo, 11 de maio de 2025

.: Crítica: "Rita Lee: Uma Autobiografia Musical" é um acontecimento histórico


Por 
Helder Moraes Miranda, editor do portal Resenhando.com. Foto: João Caldas F.º

Há espetáculos bons. Há espetáculos necessários. E há aqueles que, como um disco voador, tornam-se acontecimentos culturais inesquecíveis. "Rita Lee - Uma Autobiografia Musical", em cartaz até 15 de junho no Teatro Porto, é tudo isso e mais um pouco: é o melhor musical brasileiro em cartaz atualmente. Com direção precisa de Marcio Macena e Débora Dubois, roteiro de Guilherme Samora e direção musical de Marco França e Marcio Guimarães, o espetáculo transcende a homenagem biográfica e se transforma em um verdadeiro ritual de celebração da liberdade, da arte e da resistência. A vida de Rita Lee, tão rica em camadas, escândalos, poemas e ousadias, é contada com a mesma honestidade escancarada que fez do livro autobiográfico da cantora um marco editorial.

No centro disso tudo está Mel Lisboa, em um desempenho arrebatador que já lhe valeu o Prêmio Shell de Melhor Atriz - reconhecimento merecido e insuficiente diante da imensidão do que ela entrega no palco. Por vezes, o que se vê é tão potente que esquecemos que Mel Lisboa é Mel Lisboa. Ela se dilui completamente na persona de Rita Lee, tornando-se um big bang cênico: mística, explosiva, hecatômbica, avassaladora. A atriz, que já foi uma fã obsessiva em "Misery", esotérica em Helena Blavatsky e trágica em "Dogville", mais uma vez se reinventa - talvez como nunca - ao dar corpo, alma e voz a Rita Lee. Mais do que desfiar hits, ela encarna o espírito de uma época, passando o Brasil a limpo, especialmente em um momento em que o conservadorismo e os fantasmas da repressão parecem rondar novamente.

A montagem não poupa o espectador de emoção nem de crítica - Rita Lee não é retratada como santa, algo que nem ela gostaria. O texto resgata momentos cruciais da trajetória da artista que vão desde a infância ao Mutantes, do romance com Roberto de Carvalho à prisão durante a ditadura, do ativismo pelos animais à consagração como a maior vendedora de discos do país. Tudo é contado com irreverência e afeto, em um ritmo que costura música, memória e política com rara inteligência - e que não deixa o espectador perceber que o tempo está passando.

Outro destaque nesse mar de cultura é Fabiano Augusto, que surpreende o público ao se despir completamente da imagem de garoto-propaganda para entregar um Ney Matogrosso visceral, sensível e perfeitamente crível. É um momento de redenção artística que precisa ser aplaudido de pé - como tantas vezes acontece durante o espetáculo.

O elenco de apoio brilha em conjunto, trazendo à cena nomes marcantes da cultura nacional como Elis Regina, Gal Costa, Raul Seixas e Hebe Camargo com dignidade e presença cênica. Mas tudo orbita em torno da força gravitacional de Rita Lee - e de Mel Lisboa, que se consagra de vez como o nome artístico de sua geração. Como a própria Rita disse, e é repetido no espetáculo em alto e bom som, "seu maior feito foi fazer as pessoas felizes". E é isso que "Rita Lee - Uma Autobiografia Musical" faz: coloca o público para sorrir, cantar, chorar e dançar, como em um show de rock'n roll, mas também para pensar e se lembrar que liberdade, arte e coragem ainda são atos revolucionários.

"Rita Lee - Uma Autobiografia Musical" não é apenas um espetáculo. É um espelho do Brasil que fomos, somos e ainda podemos ser. Vá enquanto há tempo - e leve sua "ovelha negra" interior com você para que ela, para não ficar por baixo, "coloque as asas para fora".

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domingo, 19 de janeiro de 2025

.: Crítica: "Sweeney Todd", um musical de humor ácido e atuações de outro mundo


Por 
Helder Moraes Miranda, editor do portal Resenhando.com. Foto: Stephan Solan.

Os amantes do teatro musical têm um motivo especial para celebrar: o retorno triunfante de "Sweeney Todd - O Cruel Barbeiro da Rua Fleet" aos palcos paulistanos. Inspirado na obra-prima de Stephen Sondheim, e com a direção sempre inspirada de Zé Henrique de Paula, o musical combina terror psicológico, humor ácido, romance e uma narrativa arrebatadora de vingança que tem encantado plateias ao redor do mundo desde a estreia na Broadway. 

Com uma produção impecável e elenco encabeçado por Saulo Vasconcelos e Andrezza Massei, a montagem brasileira resgata todo o brilho e intensidade dessa história sombria, porém surpreendentemente leve. Apresentado no palco do Teatro Santander em curta temporada, esse espetáculo é um convite para mergulhar no universo vitoriano de Benjamin Barker, um homem consumido pela sede de vingança, e de Dona Lovett, uma confeiteira que transforma o que é nojento em lucro.

Apresentado no Teatro Santander por apenas três semanas, inspirada no livro "O Colar de Pérolas", publicado em 1846 pelos escritores britânicos Thomas Peckett Prest e James Malcom Rymer, a montagem é uma celebração do teatro musical. Com elenco de primeira linha, orquestra ao vivo e uma história inesquecível, o espetáculo oferece uma experiência que emociona, diverte e deixa o público reflexivo. É a oportunidade perfeita para se encantar com performances arrebatadoras, canções marcantes e o equilíbrio entre o sombrio e o cômico. Listamos os dez motivos para você assistir "Sweeney Todd", espetáculo que envolve tortas, vingança e canções de arrepiar.


1. Saulo Vasconcelos como Sweeney Todd: um momento histórico
Saulo Vasconcelos é um dos maiores nomes do teatro musical brasileiro, com uma carreira que inclui protagonizar sucessos como "O Fantasma da Ópera", "Les Misérables" e "A Bela e a Fera". Depois de 25 anos de trajetória, ele finalmente assume o papel de Sweeney Todd, uma interpretação que sempre esteve na lista de sonhos do ator. Saulo domina o palco com presença poderosa e entrega uma performance visceral e emocionante que faz jus à complexidade do personagem. A atuação dele é a espinha dorsal do espetáculo e traduz o tormento interno de Todd, transformando-o em um dos papéis inesquecíveis na galeria de personagens interpretados pelo ator.

2. Andrezza Massei: a alma de Dona Lovett
Nenhuma atriz no Brasil poderia dar vida a Dona Lovett com tanta perfeição quanto Andrezza Massei. Premiada pela entrega que sempre faz em montagens anteriores, Massei equilibra a personalidade excêntrica e oportunista de Lovett com uma vulnerabilidade comovente. Ela domina tanto os momentos cômicos quanto os mais sombrios, criando uma personagem complexa e irresistível. O público ri e se encanta com a brilhante performance da atriz, que é um dos pilares desta montagem.


3. Mateus Ribeiro em um desafio transformador
Conhecido por papéis icônicos como Peter Pan, Bob Esponja e o mexicano Chaves, Mateus Ribeiro agora encara Tobias Ragg, o papel mais desafiador da carreira. Tobias é um jovem cheio de camadas emocionais, oscilando entre a inocência e os traumas que carrega. A entrega de Mateus é comovente, a voz, impecável, e a capacidade de expressar a fragilidade e a intensidade do personagem tornam as cenas que envolvem o ator um dos pontos altos do espetáculo. Mateus Ribeiro cativa o público em cada cena, demonstrando uma maturidade artística impressionante.


4. Romance e química inegável no meio do caos
O romance entre Anthony, vivido por Pedro Silveira, e Johanna, interpretada por Caru Truzzi, é uma luz de pureza em meio à narrativa sombria que se estabelece em todo o espetáculo. Ambos trazem frescor ao musical, com atuações que transbordam emotividade e paixão. As vozes cristalinas e a química entre os personagens criam momentos de tirar o fôlego, transportando o público para um amor genuíno e esperançoso, mesmo em um cenário de tragédia e vingança.

5. Humor inteligente que equilibra o terror
Apesar de ser uma história densa e carregada de tragédia, "Sweeney Todd - O Cruel Barbeiro da Rua Fleet" surpreende pela habilidade de arrancar risadas do público. O texto espirituoso de Stephen Sondheim ganha vida nas mãos da direção inspirada de Zé Henrique de Paula, o talentoso elenco, especialmente Pedro Navarro, que interpreta o hilariante Adolfo Pirelli. A performance cômica desse artista é um respiro necessário na narrativa e prova como o espetáculo mistura gêneros com maestria.


6. Rodrigo Mercadante: um vilão memorável
Como o cruel Juiz Turpin, Rodrigo Mercadante traz à vida um dos personagens mais desprezíveis e intrigantes da história. A performance dele transborda autoridade e malícia, criando um antagonista que provoca indignação no público. Ao lado de Davi Novaes, que interpreta Bedel Bamford com competência, Mercadante compõe uma dupla de vilões que dá força à trama.

7. Fabiana Tolentino: o magnetismo de um talento único
Fabiana Tolentino se destaca com uma presença magnética e irresistível em todos os espetáculos que atua. Em "Sweeney Todd - O Cruel Barbeiro da Rua Fleet", como ensemble, a energia em cena da atriz é inconfundível. É impressionante como ela capturando todos os olhares, mesmo quando não está em evidência, provando que sua contribuição é essencial para a grandiosidade de qualquer espetáculo. Ter Fabiana Tolentino em cena é um luxo - e sempre garantia de qualidade e impacto. Ou seja, um presente para o público.

8. Orquestra ao vivo: uma trilha inesquecível
A trilha sonora de "Sweeney Todd", composta pelo gênio Stephen Sondheim, é um espetáculo à parte. Com uma orquestra ao vivo composta por nove músicos, cada canção ganha ainda mais força e emoção. A direção musical de Fernanda Maia é precisa e eleva a experiência sonora a um patamar extraordinário, envolvendo o público em cada nota. Também contribui para que o espetáculo não fique cansativo em nenhum momento.


9. Produção brasileira de nível internacional
Essa montagem de "Sweeney Todd" é um exemplo do quanto o teatro musical brasileiro evoluiu nos últimos anos. Reconhecida com prêmios e aclamação da crítica, a produção combina figurinos luxuosos, cenários impressionantes e uma direção que respeita a essência da obra original, mas adiciona toques únicos e criativos. É uma demonstração do talento e da paixão dos profissionais brasileiros.


10. Uma história sombria, mas cheia de camadas emocionais
O equilíbrio entre o sombrio e o leve é uma das maiores qualidades de "Sweeney Todd - O Cruel Barbeiro da Rua Fleet". O musical mistura terror, comédia, drama e romance em uma narrativa que prende a atenção do público do início ao fim. O talento do elenco e a direção garantem que, mesmo com cenas intensas e temas pesados, o espetáculo seja divertido e envolvente.

Ficha técnica
"Sweeney Todd - O Cruel Barbeiro da Rua Fleet"

Criativos
Música e Letras: Stephen Sondheim
Libretto: Mark Wheeler
Direção geral: Zé Henrique de Paula
Versão e direção Musical: Fernanda Maia
Preparação de elenco: Inês Aranha
Assistência de direção e ensemble: Davi Tápias
Assistência de direção musical e preparação vocal: Rafa Miranda
Cenografia: Zé Henrique de Paula
Assistência de cenografia: Cesar Costa
Ilustrações: Renato Caetano
Figurino: João Pimenta
Assistência de figurino: Dani Kina
Equipe de figurino: Everton Monteiro (auxiliar de corte), Magna Almeida Neto (piloteira), Marcia Almeida (contramestra), Neide Brito (piloteira), Noel Alves (piloteiro) e Wesley Souza (pintura de tecidos)
Visagismo: Dhiego Durso e Feliciano San Roman (peruca Dona Lovett)
Design de luz: Fran Barros
Design de som: João Baracho, Fernando Akio Wada e Guilherme Ramos 


Elenco completo do espetáculo
Sweeney Todd - Saulo Vasconcelos
Dona Lovett - Andrezza Massei
Tobias Ragg - Mateus Ribeiro
Juiz Turpin -Rodrigo Mercadante
Anthony - Pedro Silveira
Johanna - Caru Truzzi
Bedel Bamford - Davi Novaes
Lucy Barker - Amanda Vicente
Adolfo Pirelli - Pedro Navarro
Ensemble - Bel Barros
Ensemble - Paulinho Ocanha
Ensemble - João Attuy
Ensemble - Fabiana Tolentino
Ensemble - Fred Silveira
Ensemble - Vanessa Espósito
Ensemble - Samir Alves

Músicos
Regência e piano: Fernanda Maia
Teclado: Rafa Miranda
Violino 1: Thiago Brisolla
Violino 2: Bruna Zenti
Violoncelo: Leonardo Salles
Contrabaixo: Pedro Macedo
Flauta transversal e flautim: Fábio Ferreira
Flauta e clarinete: Flávio Rubens
Oboé: André Massuia


Técnica
Camareira: Larissa Elis
Perucaria e maquiagem: Feliciano San Roman (Perucas).
Assistência e operação de iluminação: Tulio Pezzoni
Operação de som: Guilherme Ramos
Microfonista: Káthia Akemi
Direção de palco: Diego Machado
Assistência de direção de palco: Matheus França
Contrarregra: Leo Magrão
Cenotécnica: All Arte Cenografia (cortinas e cadeira da barbearia), Armazém, Cenográfico (forno e moedor de carne), Ateliê Thiago Audrá (tortas cênicas), Fabin, Cenografia (pintura de arte), T.C. Cine Cenografia (montagem)


Produção
Produção geral: Del Claro Produções
Gerente de produção: Douglas Costta
Produção executiva:  Laura Sciulli
Assistente de produção: Renato Braz
Financeiro / Administrativo: Pedro Donadio
Diretora comercial: Simone Carneiro
Criação e direção de arte: Gustavo Perrella
Assessoria de Imprensa: Agência Taga e Augusto Tortato
Redes sociais: Felipe Guimarães
Fotografia: Ale Catan e Stephan Solon
Realização: Del Claro Produções e Firma de Teatro


Serviço
"Sweeney Todd - O Cruel Barbeiro da Rua Fleet"
Sessões: curta temporada
Temporada de 9 a 26 de janeiro de 2025 

Quintas: 20h00
Sextas: 20h00
Sábados: 16h00 e 20h00
Domingos: 16h00 e 20h00
Local: Teatro Santander
Endereço: Complexo JK Iguatemi – Av. Pres. Juscelino Kubitschek, 2041
Capacidade: 1.084 pessoas
Classificação Etária: 16 anos
Duração: 120 minutos (com intervalo de 15 minutos)
Gênero: Teatro Musical
Ingressos: de R$ 21,18 a R$ 300,00
Bilheteria on-line (com taxa de conveniência): https://bileto.sympla.com.br/event/98254/d/278337
Bilheteria física (sem taxa de conveniência): Teatro Santander. Horário de funcionamento: Todos os dias das 12h00 às 18h00. Em dias de espetáculos, a bilheteria permanece aberta até o início da apresentação. A bilheteria do Teatro Santander possui um totem de autoatendimento para compras de ingressos sem taxa de conveniência 24h por dia. Endereço: Av. Pres. Juscelino Kubitschek, 2041.

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