Durante mais de 20 anos, a Love Story foi um endereço que não cabia em rótulos. Mais do que uma boate, funcionou como ponto de encontro, refúgio momentâneo, lugar de fuga e, para muitos, espaço de pertencimento. Quem atravessava as portas da boate sabia que ali valiam outras regras, ou nenhuma. Agora, essa história ganha registro no livro "A Casa de Todas as Casas. Love Story", biografia não autorizada que se propõe a contar o que raramente ficou registrado sobre um dos símbolos mais controversos e fascinantes da noite de São Paulo.
Escrito pelos jornalistas Katia Simões e Roberto Prioste, o livro começou a ser elaborado a partir de um convite do empresário Luiz Paulo Fogguetti, personagem conhecido da cena paulistana e profundo conhecedor das memórias do centro da cidade. A proposta, desde o início, era clara: não se tratava de construir uma versão oficial nem de controlar o tom da narrativa. O convite foi justamente o oposto - mergulhar na história da Love Story sem filtros, sem censura e sem compromisso com idealizações.
O resultado é um livro-reportagem que cruza memória, jornalismo e comportamento urbano. A Love Story marcou épocas, costumes e contradições, localizada entre a Boca do Lixo e a Boca do Luxo, zonas que ajudam a entender o tipo de mistura que marcou sua trajetória. A narrativa se constrói a partir de mais de 25 horas de depoimentos. Estão ali artistas, empresários, jornalistas, personagens da noite, frequentadores anônimos e figuras públicas que circularam pela Love Story em momentos distintos, cada um carregando sua própria lembrança daquele espaço.
Os relatos revelam um lugar onde fama e anonimato conviviam de forma quase paradoxal. A atriz Luana Piovani lembra da casa como um raro espaço de liberdade musical e comportamental em meio à padronização da noite paulistana: “O Love era diferente porque tocava todo tipo de música. Era três degraus acima da loucura de qualquer trilha sonora de festa. Ali dava para se divertir de verdade”.
A chef Janaína Torres, hoje referência na gastronomia brasileira, fala da Love Story como um lugar onde hierarquias simplesmente não importavam: “Eu ia à Love para espairecer, dançar. Muitas vezes chegava direto do trabalho, com roupa de cozinheira, toda engordurada. E o tratamento era exatamente o mesmo”. Já a empresária Aritana Maroni associa a boate à mistura real de corpos, desejos e trajetórias: “Ali você entrava e via pessoas famosas escondidas, travestis, gente da noite, todo mundo junto. Era miscigenação de verdade”.
O livro também registra passagens discretas, quase cinematográficas, de figuras internacionais. O ator Chadwick Boseman passou uma noite inteira na Love Story sem ser reconhecido, protegido pelo acordo silencioso de discrição que a casa mantinha com seus frequentadores. O escritor Ari Behn, então marido da princesa Märtha Louise, da Dinamarca, chegou a gravar cenas de um programa europeu dentro da boate.
Essa relação delicada com a fama aparece também nos bastidores. Para preservar a privacidade de quem entrava, seguranças revistavam frequentadores e controlavam rigidamente o uso de câmeras. Alguns artistas, inclusive, evitavam o local com receio de virar pauta de colunas sociais. O cantor Thiaguinho é citado como alguém que preferia ir embora ao perceber que poderia ser exposto.








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