Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", a ser publicado pela Editora Patuá.
Era pra ser uma emoção de cinema a cada míssil lançado sobre o inimigo. Uma iluminação fraca; paleta de cores em tons terrosos - marrom, cinza e verde-musgo - pra parecer sujo, desgastado e caótico. Era pra deixar os músculos tensos, os olhos arregalados, a mandíbula cerrada e a respiração suspensa. Contemplar aviões em voos rasantes sobre cidades semidestruídas, com antigos belos prédios virando escombros, o que excita a mente do telespectador.
Era pra ter soldados com cara de herói enfrentando inimigos maldosos que queriam destruir a humanidade, mas foram barrados pela “Nação boazinha”. Isso nos causaria orgulho, mesmo que a tal “Nação boazinha” não fosse a nossa, afinal, no fundo, sempre desejamos imitá-la.
Era pra ser emocionante ver metralhadoras cuspindo fogo e acertando balas em homens com feições diferentes, a cara da maldade. Seus rostos seriam focados, ocupariam, em primeiro plano, toda a tela e arrancariam sorrisos de satisfação do público logo que visse um corpo inimigo tombando.
Era pra ser um exército inimigo causando repugnância nos olhos atentos de quem foi à pré-estreia. Todos teriam comprado seus ingressos antecipadamente, ansiosos por ver o monstro fundamentalista ser combatido pela “Nação dos sonhos”.
Era pra ver os inimigos opressores serem derrotados pela nação imperialista. Assim, os ânimos do mundo se acalmariam e, no final da sessão, todos aplaudiriam, porque, apesar do saldo de mortes, teríamos mais uma guerra pra preencher as páginas dos livros de história e inspirar cineastas.
Era pra ser um grupo extremista sendo exterminado, porque no mundo não há espaço pra fundamentalistas opressores. Diante deles, o povo que cruzou o deserto no passado teria o direito de matar e destruir e assim livrar os vizinhos de uma opressão. Os streamings liberariam a película de graça, na faixa – porque é justamente na Faixa que o sangue molha o chão – e, sim, há quem goste disso.
Era pra tudo isso repercutir nas redes sociais o sucesso que foi tal produção. Um campo aberto aos experimentos de novas tecnologias que agilizam a guerra, fazem mais vítimas, se enquadram bem nas tomadas de cena e criam mercados pra inúmeros releases e notícias bombásticas.
Era pra ser retratado um mundo em lutas e embates generalizados, passado distante, sonho dissonante, sobre o qual apenas se lê, ao qual apenas se assiste, e depois gera debates boquiabertos que não conseguem conceber como foram capazes de realmente fazer isso no passado… Chamaríamos de arte, pois seriam belos filmes, com belos atores que ganhariam prêmios disputadíssimos e permitiriam a nós percebermos o quão bons somos em retratar nossas mazelas já superadas.
Era pra ser…
Mas não é.
Não é porque não é filme. Não é porque não é série da Netflix. Não é porque não é novela da Rede Globo. Não é porque não é filme cult iraniano. Não é porque não é aquela aula de história sobre guerras do passado que mais parecem ficção e que nunca mais vão acontecer.
É a realidade que nos rodeia, devora e aflora em nós o sentimento de medo de que tudo aconteça novamente. Os personagens não mudaram muito. Os motivos também não. Talvez o público de agora seja um pouco diferente de antigamente, pois parece que acompanha os fatos como se fossem uma obra de arte. Há ainda os que torcem por algum lado, como se os que promovem a guerra fossem equipes esportivas ou agremiações de carnaval. E isso não é só triste…
Era pra ser um filme… mas não é.








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