Bruna Martiolli revisita a própria formação como leitora, atravessa perdas e questiona o papel da literatura em um tempo que acelera tudo — inclusive a leitura. Imagem a partir de uma foto do acervo pessoal da autora, modificada por IA
Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.
Escritora, podcaster, professora e doutoranda, acompanhada por centenas de milhares de leitores nas redes sociais, ela estreia com o livro "É Tempo de Morangos - Reflexões Sobre Livros", publicado pela Editora Intrínseca, sem organizar a própria trajetória em linha reta. As memórias aparecem acompanhadas de leituras, mudanças de rota e perdas que ainda não se acomodaram. Bruna prefere ficar numa literatura que desestabiliza, erra junto, volta atrás e continua insistindo. Em entrevista exclusiva ao portal Resenhando.com, ela retoma esse percurso em primeira pessoa, entre livros, escolhas e aquilo que ficou pelo caminho. Compre o livro "É Tempo de Morangos", de Bruna Martiolli, neste link.
Resenhando.com - Você foi uma criança que brincava de dar aulas para suas bonecas. Em sua trajetória, os livros se tornaram não só companheiros, mas guias. Como você enxerga esse movimento de infância para a maturidade literária?
Bruna Martiolli - Sinto que esse movimento foi menos uma ruptura e mais um desdobramento natural, já existia ali um desejo muito genuíno de entender o mundo, as relações, as pessoas sobretudo. Os livros entraram nesse cenário quase como aliados silenciosos. Na vida adulta a leitura deixou de ser apenas uma atividade prazerosa e passou a ser uma ferramenta de investigação.
O que aconteceu entre esses dois momentos para que a leitura se transformasse em uma ferramenta tão poderosa para você?
Bruna Martiolli - Eu comecei a ler para compreender as pessoas, os conflitos, os silêncios e as contradições, inclusive as minhas. No fundo, acho que não sou muito diferente daquela criança que ensinava as suas bonecas, a diferença é que hoje entendo que, antes de ensinar, estou sempre aprendendo a ler o mundo.
Resenhando.com - O título do seu livro, "É Tempo de Morangos", evoca um tempo mais doce e nostálgico. Mas, ao mesmo tempo, a literatura que você aborda traz à tona reflexões profundas e dolorosas. Qual é a relação entre esses dois tempos na sua obra?
Bruna Martiolli - O título vem da última frase da “A Hora da Estrela” da Clarice, não posso explicar abertamente pois seria o maior spoiler sobre a Macabéa (protagonista do livro), mas, eu vejo esses dois tempos não como opostos, mas como camadas que coexistem. Existe ali uma nostalgia, sim, mas é mais um convite a lembrar que a vida é feita de instantes, fases, ciclos, mas que ela acaba e por isso é preciso viver os morangos, viver cada fase. Porque viver e, principalmente, olhar com atenção para a vida inevitavelmente nos coloca diante das complexidades, das dores, das ausências, das perguntas que não têm resposta fácil.
O que significa para você “morar” entre os morangos e as complexidades da vida?
Bruna Martiolli - “Morar” entre os morangos e as complexidades é, para mim, um exercício de equilíbrio e de honestidade. É entender que a doçura não anula a dor, e que a dor também não invalida a beleza. Eu não acredito em uma literatura que romantiza a vida a ponto de apagá-la, mas também não me interessa uma escrita que se fixa apenas no peso das coisas. O que me move é justamente esse "entrelugar" da Clarice, há sensibilidade suficiente para perceber o que é leve, mas também coragem para sustentar o que é difícil. Acho que os morangos me devolveram à vida, me ensinaram a aceitar que posso estar vivendo um momento bonito enquanto ainda carrego algo que dói. Eu amei o lançamento do livro no Rio e em São Paulo, principalmente por ter conseguido estar o máximo possível com as pessoas que amo. Mas ainda assim existe uma sensação de incompletude: a ausência da minha avó ali também doeu e é essa a vida que vou ter pra sempre.
Resenhando.com - Você fala da importância da literatura em momentos de desamparo, como foi no seu caso. Em tempos de crise, como o que todos estão vivendo, a literatura pode ser a cura ou só um paliativo?
Bruna Martiolli - Eu não sei se a literatura pode ser chamada de cura, e talvez a Martha Nussbaum me ajude a sustentar isso. Quando ela fala da importância das emoções na vida ética, ela não está dizendo que a arte resolve a dor, mas que ela nos educa sensivelmente para lidar com ela. A literatura, não elimina o sofrimento, mas amplia a nossa capacidade de compreendê-lo, de nomeá-lo, de reconhecê-lo no outro.
Qual é o papel da ficção no enfrentamento das nossas angústias contemporâneas?
Bruna Martiolli - A ficção, muitas vezes, abre espaço para vozes que foram historicamente silenciadas e, ao fazer isso, desloca o nosso olhar. Em tempos de crise, isso é fundamental, porque nos tira de uma experiência isolada da dor e nos coloca em relação. Então talvez a literatura não seja cura no sentido de apagar a angústia, nem apenas um paliativo que anestesia. Ela é uma forma de resistência num mundo que frequentemente simplifica, acelera e silencia o ser humano. A ficção nos obriga a demorar, a escutar, a sustentar ambiguidades, e isso muda a forma como habitamos e sentimos a vida. No meu caso, foi exatamente isso: a literatura não me salvou da dor, mas me deu condições de não me perder completamente dentro dela.
Resenhando.com - Clarice Lispector e Elena Ferrante foram influências marcantes na sua vida. Mas, se você pudesse resgatar um autor que considera fundamental para a sua formação literária e que talvez não tenha sido mencionado em suas reflexões, quem seria?
Bruna Martiolli - Tem um nome muito fundamental e que nem sempre aparece quando falo das minhas influências, eu diria Lima Barreto. A escrita dele tem uma urgência crítica, quase incômoda, que desmonta ilusões sobre o nosso país, sobre as nossas instituições e sobre a própria ideia de progresso. No "Triste Fim de Policarpo Quaresma" ele expõe o abismo entre o ideal e a realidade brasileira com uma ironia que ainda hoje é perturbadora. Lima me ensinou a encarar a estrutura histórica, racial e política que molda as nossas experiências.
Resenhando.com - Você traz uma relação íntima com a literatura de língua portuguesa, mas também abre espaço para reflexões sobre como ela pode estar sendo negligenciada, principalmente pelos jovens que consomem literatura através de plataformas como o BookTok. Qual é o risco que se corre ao não valorizar mais a literatura nacional em favor de tendências globais e rápidas?
Bruna Martiolli - Eu me baseio nisso pelo olhar sensível que Alfredo Bosi tinha para a literatura como forma de consciência histórica e digo que o risco é profundamente cultural. Quando a literatura de língua portuguesa passa a ser deixada de lado em favor de tendências globais rápidas, como as que circulam no BookTok, a gente não está só trocando um tipo de leitura por outro. A gente está, aos poucos, enfraquecendo a nossa própria capacidade de nos reconhecer enquanto sujeitos históricos, sociais e afetivos num país que fala a língua portuguesa. Bosi sempre defendeu que a literatura é uma forma de memória viva. Ela não é só entretenimento: ela carrega conflitos, linguagem, identidade, modos de ver o mundo. Quando o jovem leitor deixa de acessar autores nacionais, ele perde contato com experiências que dialogam diretamente com a realidade dele, seja ela urbana, periférica, rural, atravessada por desigualdades ou por afetos muito específicos do nosso contexto. O problema das tendências globais e rápidas não está necessariamente na sua existência, mas na lógica de consumo que as sustenta. Inclusive, eu também as leio e, gostando ou não, formo minhas próprias opiniões. São leituras frequentemente mediadas por algoritmos, por modas passageiras e por uma estética da velocidade que não favorece a profundidade. Isso acaba formando um leitor que consome mais do que elabora, que atravessa os textos sem, de fato, ser transformado por eles. E é aí que reside o maior risco: a formação de uma relação superficial com a leitura. Sem o contato com obras mais densas da literatura nacional, o leitor pode perder a oportunidade de desenvolver um olhar crítico mais refinado sobre as próprias vivências, além de uma sensibilidade mais complexa para a linguagem e para a realidade. Valorizar a literatura de língua portuguesa, dos nove países que falam a língua portuguesa, não é um gesto de resistência vazia ou de nacionalismo simplista porque “tô a fim”. É, na verdade, um modo de preservar a nossa capacidade de pensar a partir de nós mesmos. Porque, no fim, quando a gente abandona essas vozes, a gente também corre o risco de se tornar estrangeiro dentro da própria cultura.
Resenhando.com - Na sua obra, há uma relação direta entre livros e transformações de vida, como no caso da sua mudança para Portugal. Quais livros você recomenda para quem está passando por uma transição significativa, seja pessoal ou profissional?
Bruna Martiolli - Um livro que eu destacaria, sem dúvida, é "Sodade", da Ana da Cunha. É uma obra muito recente, mas que já nasce com essa força de tocar em algo muito íntimo: a sensação de ausência, de deslocamento, de viver entre lugares. O que me atravessa ali é a maneira como a saudade deixa de ser só um sentimento e vira quase uma estrutura de vida. Para quem está em transição, esse livro não oferece respostas fáceis, e isso é essencial, mas legitima o desconforto, a ambivalência, a incompletude. E, talvez trazendo mais para perto da nossa tradição, eu lembraria de "Dois Irmãos", do Milton Hatoum, que toca em questões de origem, memória e pertencimento dentro de um contexto marcado por heranças migratórias. É um livro que fala muito sobre como carregamos nossos lugares dentro da gente, mesmo quando tudo muda ao redor.
Resenhando.com - Você menciona como a "Tetralogia Napolitana" de Elena Ferrante se tornou dolorosa após o esmorecimento de uma grande amizade. A literatura tem o poder de refletir as vivências, mas até que ponto a ficção é uma extensão da realidade ou um escape dela?
Bruna Martiolli - Eu acho que a literatura nunca é só uma coisa ou outra, ela não é puramente espelho, nem puramente fuga. Quando li a "Tetralogia Napolitana", não foi nada confortável, abandonei a cadeira na faculdade e fugi mesmo, não era momento. A ficção, pra mim, funciona como uma espécie de lente que me faz ver melhor e vendo melhor reorganiza o que já existe dentro da gente. Às vezes ela amplia, às vezes distorce, às vezes ilumina coisas que estavam ali, quietas, esperando uma linguagem.
Resenhando.com - Você já se deparou com momentos em que a literatura também a traiu, revelando mais do que você gostaria?
Bruna Martiolli - Sim, já senti que a literatura me traiu. Mas não no sentido de enganar, no sentido de expor. De colocar em palavras algo que eu ainda não tinha coragem de formular. É como se o texto dissesse: “olha, é isso aqui que você tá sentindo”, antes de estar pronta pra admitir. E aí não tem mais como fingir que não viu. Respondendo melhor: a vida trai mais do que a literatura, prefiro ela.
Resenhando.com - A literatura sempre teve papel central na sua vida, mas você também compartilha esse amor com uma grande audiência através das redes sociais e seu podcast "É Tempo de Morangos". Como você equilibra a pressão da visibilidade pública com a intimidade da sua escrita, que é, em essência, tão pessoal?
Bruna Martiolli - Eu sou filha única e vivo uma solidão que, apesar de boa, às vezes até assusta. A internet, pra mim, nunca foi sobre números, sempre foi sobre pessoas que, infelizmente, eu nunca esbarrei na vida. Tive poucas amigas que gostavam de ler, e acho que virei professora muito por essa necessidade de continuar falando sobre livros, de não deixar essa conversa morrer. Eu devo muito a eles: a vida que levo hoje, bem vivida, gostosa, calma, passa diretamente pela literatura. E eu nunca pensei “vou postar sobre livros nas redes sociais”. Eu falo de literatura onde eu estiver, na internet ou fora dela. Não existe uma separação tão rígida pra mim. Quando paro pra pensar no número de ouvintes, fico triste. Não quero saber quantas pessoas estão ali, isso é uma grande ilusão da nossa geração, o que me importa é ouvir essas pessoas. É por isso que gosto tanto dos comentários: é ali que descubro o que gostam, onde moram, vejo suas fotos, seus cabelos, suas famílias. As pessoas. Eu gosto de livros, mas gosto muito de gente. E a internet é só o que me aproxima delas. No fundo, não acho que o que eu digo seja pessoal. Pessoal, pra mim, é quem ouve, quem escolhe me dar um pedaço do próprio tempo de vida.
Resenhando.com - Se a literatura fosse uma pessoa, como você a descreveria em termos de identidade? Ela seria amiga, amante ou uma figura de autoridade?
Bruna Martiolli - A literatura é a formiga e ao mesmo tempo a cigarra. É o gato de Cheshire e a Alice, a literatura é a dúvida. É amiga e, ao mesmo tempo, é uma figura de autoridade. É uma pessoa, mas é aquela ideia do Fernando Pessoa de que em um cabem mil.
Resenhando.com - Você defende a ideia de que a boa literatura não precisa agradar à primeira vista. No entanto, as redes sociais e plataformas como o BookTok são movidas por emoções rápidas e “recompensas instantâneas”. Como é possível reconstruir um espaço literário que valorize o tempo de amadurecimento, sem se perder nas urgências da era digital?
Bruna Martiolli - Eu não acho que seja uma questão de disputar com a lógica das redes, porque a literatura nunca funcionou no tempo da pressa, e talvez nem deva tentar funcionar. O que dá pra fazer é criar pequenos desvios dentro desse fluxo. As redes sociais, operam muito pela reação imediata, pelo entusiasmo rápido, pela necessidade de sentir algo agora e isso não é necessariamente um problema, é só uma linguagem diferente. O risco está quando a gente começa a confundir intensidade com profundidade, como se o impacto imediato fosse o único critério de valor. Mas, reconstruir um espaço literário mais paciente, pra mim, passa por insistir em outras formas de presença. Falar de um livro que não “funcionou” de primeira, revisitar uma leitura depois de um tempo, admitir silêncios, dúvidas, mudanças de opinião. Mostrar que a experiência literária também é feita de demora, de estranhamento, de algo que vai se abrindo aos poucos. E, principalmente, confiar que existe gente disposta a isso. Porque existe. Nem todo mundo está buscando recompensa instantânea o tempo todo, muitas pessoas só não encontram com frequência espaços que legitimem esse outro ritmo. Acho que não se trata de desacelerar a internet inteira, o que seria impossível, mas de sustentar, dentro dela, um outro tempo. Um tempo em que o livro não precisa agradar de imediato para permanecer porque ele pode incomodar, escapar, e ainda assim continuar trabalhando em quem lê.








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