Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá.
Mamãe não carrega mais a carteira, mas carregava. Não qualquer carteira, mas uma toda sua, cheia de graça e charme. Comprida, com um fecho frontal dourado e espaçosa o suficiente para que pudesse sustentar o mundo. Papai também tinha a sua, que nunca deixou de carregar consigo. Ia sempre no bolso traseiro da bermuda ou da calça. Nunca saía sem ela. Às vezes, dormia com a nádega direita protuberante. O apego aumentou depois que começou a emprestar dinheiro a juros aos amigos da rua. Coisa pouca, porque papai nunca quis ser agiota. Em seus últimos dias, a carteira estava rechonchuda.
Já mamãe era pouco apegada à sua. Seus bolsos não davam conta do tamanho da carteira, de modo que restava o sovaco como alcova. Dia de feira?, carteira no sovaco; hora do mercado?, carteira debaixo do braço; domingo de Missa?, carteira na axila. Assim, a carteira ia e vinha, sempre que se fazia necessário. Depois, nada de bolsinha de moedas, nada de depósito de cédulas, nada de algibeira de sovaco. Era como se não existisse.
Existia, sim, nessa época, um cheiro todo particular de mamãe. Não há motivo, mas sempre que esse cheiro me vem à memória, vem junto a carteira. Era uma época difícil: alta inflação, produtos caros, preços mudando o tempo todo, recursos escassos. Até o trabalho às vezes faltava. Mas nunca, nunca, a carteira de mamãe deixou faltar. Ainda que não soubéssemos dela no dia a dia, na hora do vamos ver, carteira sob o sovaco e prato cheio na mesa.
O sustento da casa era provido quase todo por papai. Mas a bolseira era mamãe. Sabia a dose de tudo. Pingava dia a dia o custo do aluguel, o peso do frango, o pirulito do recreio. Também com suas mãos produzia o recheio da carteira. Mamãe era doceira. Com bolos e quitutes adoçava os lábios da clientela e abrandava os apertos do fim do mês. Talvez por isso o cheiro que associo à mamãe, quando me lembro da carteira, seja doce.
Hoje, a carteira de papai virou relíquia. Mamãe não carrega mais a sua sob o sovaco, porque mamãe ficou moderna: usa cartão de débito e crédito e está em processo lento de conversão ao Pix. Mas o cheiro doce ainda insiste na memória, a hora da missa ainda desperta minha lembrança, e os apertos do fim do mês não a afligem mais. Em certos aspectos, eles me alcançam, de modo que sonho em ter uma carteira para carregar debaixo da axila.
Assim, peço aos senhores e senhoras que me leem: façamos um esforço, unamo-nos em uníssono e peçamos ao Ministro que crie o Pix de carteira sob o braço, que se possa carregar nas horas de apuros. Certamente, as crianças se sentirão mais seguras e saberão que para tudo se dá um jeito. Uma carteira debaixo do braço pode garantir o sossego mundial.








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