domingo, 14 de junho de 2026

.: Delicado, “Linda e Selvagem” revela Diane Keaton diretora e surpreende


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

O filme “Linda e selvagem” chega na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, como um daqueles achados que parecem sussurrados pela memória da televisão dos anos 1990. Dirigido por Diane Keaton, em uma incursão rara atrás das câmeras, o filme aposta na observação paciente de relações afetivas que nascem onde antes só havia isolamento. Baseado no livro "Alice", de Sara Flanigan - que também assina o roteiro -, o longa acompanha uma jovem surda e com crises epilépticas, mantida à margem da convivência social por um padrasto violento. A narrativa se passa em 1938 e ganha fôlego quando dois irmãos, vividos por William McNamara e uma ainda iniciante Reese Witherspoon, descobrem a existência da garota e insistem em romper o cerco de abandono que a aprisiona.

Patricia Arquette, em início de carreira, sustenta o filme com uma atuação de entrega física e emocional notável, evitando caricaturas e construindo uma personagem que se comunica pelo olhar, pelo gesto e pela resistência. Há algo de cru em sua presença, uma vulnerabilidade que nunca se rende ao sentimentalismo fácil. Ao redor dela, Beau Bridges e Susan Blakely ajudam a compor um ambiente familiar marcado por tensões e silêncios impostos - ainda que o filme prefira sugerir a violência a explorá-la de forma gráfica.

Diane Keaton conduz tudo com discrição. Sua direção não busca virtuosismo, e sim proximidade. A câmera se mantém atenta às relações, aos pequenos deslocamentos emocionais, aos instantes em que a confiança começa a nascer. Esse olhar encontra eco na fotografia de Janusz Kamiński, anos antes de sua consagração ao lado de Steven Spielberg, já demonstrando cuidado com luz natural e ambientação.

Produzido para a televisão e exibido originalmente nos Estados Unidos em 3 de dezembro de 1991, o filme carrega marcas desse formato - duração mais elástica, ritmo menos urgente -, mas transforma essas limitações em terreno fértil para o desenvolvimento dos personagens. Não por acaso, a obra conquistou duas premiações e acumulou indicações, consolidando-se como um título lembrado pela delicadeza com que aborda temas espinhosos.

Há também um charme adicional em revisitar “Linda e Selvagem” hoje: reconhecer, em estado embrionário, nomes que se tornariam centrais em Hollywood. Reese Witherspoon aparece aqui em sua estreia televisiva, enquanto Patricia Arquette já indica o alcance dramático que marcaria sua trajetória. O filme não tenta reinventar a roda. Prefere girá-la com cuidado, deixando que cada gesto, cada aproximação, construa um caminho possível entre brutalidade e afeto. 


Ficha técnica
“Linda e Selvagem” | "Wildflower" (título original) | "Uma Flor Selvagem" (em Portugal)
Gênero: drama, romance. Duração: 120 minutos. Classificação indicativa: não classificado. Ano de produção: 1991. Idioma: inglês. Direção: Diane Keaton. Roteiro: Sara Flanigan. Elenco: Beau Bridges, Susan Blakely, Patricia Arquette, Reese Witherspoon, William McNamara. Distribuição no Brasil: Não disponível comercialmente (filme para televisão). Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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