segunda-feira, 8 de junho de 2026

.: Leitura Miau: a liturgia íntima da maternidade em versos


Por Cláudia Brino, escritora, ativista cultural e editora da Costelas Felinas

Em "PoeMaternos", a autora Diane Southier publicado pela Costelas Felina Editora oferece uma obra de rara densidade sensível, na qual a maternidade deixa de ser mero tema literário para converter-se em matéria viva, pulsante e visceral. Trata-se de um livro que não se limita a celebrar o materno sob lentes idealizadas; ao contrário, desnuda-o em suas contradições, em seus êxtases e esgotamentos, compondo uma cartografia emocional profundamente humana.

Com linguagem ora lírica, ora confessional, Southier transita entre a delicadeza e a crueza, entre o sublime e o terreno. Logo em Amar pureza, a poeta revela a ternura inaugural do vínculo materno ao escrever: “Pura é a pérola / Vocês estrelas / Eu, sentinela”. Há, nesses versos, a imagem da mãe como guardiã silenciosa, vigília amorosa diante do milagre cotidiano da infância.

Entretanto, a grandeza da obra reside justamente em não sucumbir ao romantismo simplório. Diane ousa adentrar em territórios poucos verbalizados da experiência materna. Em Amor e medo, sentencia: “A maternidade / É atravessada pelo medo.” Eis uma verdade frequentemente ocultada: amar intensamente também é temer intensamente.

No extenso e impactante poema "8 DE MARÇO": ser mulher e mãe no presente, a autora eleva sua voz ao campo social e político, denunciando o peso estrutural imposto às mulheres. Ao afirmar que “O verdadeiro incentivo é presencial e financeiro”, rompe com discursos vazios e expõe a materialidade das responsabilidades maternas. A poesia, aqui, torna-se instrumento crítico, sem jamais perder sua tessitura estética.

Ainda assim, entre as sombras, o afeto persiste como eixo central. Em "PoeMãe", lê-se: “Mamãe, eu te amo!” — frase singela, porém avassaladora em sua pureza. O livro demonstra que o amor materno não nasce necessariamente pronto ou idealizado; muitas vezes, ele se constrói, amadurece e se reinventa no convívio diário, nas exaustões e nas pequenas epifanias.

Seus poemas não pedem piedade nem aplauso; pedem escuta. PoeMaternos surge como obra necessária, corajosa e luminosa. Diane Southier não escreve apenas sobre ser mãe - escreve sobre ser mulher, ser corpo, ser memória e ser amor em estado de combate.

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