Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.
“Jogo da Morte” chega à plataforma de streaming Reserva Imovision carregando um peso que poucos filmes sustentam: a ausência do próprio protagonista. Lançado em 1978, cinco anos após a morte de Bruce Lee, o longa-metragem dirigido por Robert Clouse foi remontado a partir de material incompleto, dublês e decisões que ainda hoje dividem fãs e críticos. Na trama, Billy Lo (Bruce Lee), astro do cinema de artes marciais, recusa a proteção - e o controle - de uma organização criminosa. A resposta vem em forma de atentados. Para sobreviver, ele simula a própria morte e retorna às sombras, disposto a desmontar o esquema por dentro. O enredo do filme, cujo título original é “Game of Death” e em Portugal se chama “O Último Combate de Bruce Lee”, vai direto ao ponto e serve de trilho para sequências de luta que alternam vigor e improviso técnico.
A produção carrega marcas visíveis de uma produção conturbada. Lee havia iniciado o projeto em 1972, com uma ideia mais ambiciosa: um percurso filosófico e físico por uma torre, enfrentando adversários em cada nível - conceito que ficou célebre na sequência final. Com a morte repentina do ator, vítima de edema cerebral em 1973, o projeto foi interrompido. Coube a Clouse - que já havia dirigido o astro em “Operação Dragão” - finalizar o material com um novo roteiro, incorporando dublês, cenas de arquivo e até imagens reais do funeral de Lee.
Essa costura irregular aparece em cena. Em vários momentos, o rosto do protagonista é ocultado ou recriado de forma rudimentar, enquanto o corpo pertence a outro intérprete. Ainda assim, quando Lee de fato surge - especialmente no confronto com o gigante Kareem Abdul-Jabbar - o filme ganha outra atmosfera. São minutos que lembram por que o nome dele marcou a história do cinema.
Entre as curiosidades que cercam a produção, destaca-se o uso de mais de 30 minutos de material original filmado por Lee, além da participação de nomes próximos ao ator, como Dan Inosanto, seu colaborador nas coreografias. O icônico macacão amarelo com listras pretas, criado para o filme, se tornaria referência pop replicada em obras posteriores. Também chama atenção o fato de a versão final ter abandonado quase completamente a proposta filosófica original do artista, substituída por uma narrativa de vingança mais convencional. Há cortes bruscos, soluções apressadas e escolhas discutíveis. Ainda assim, resiste como documento de um projeto interrompido e de um artista que não chegou ao fim do próprio filme.
Ficha técnica
“Jogo da Morte” | “Game of Death” (título original) | “O Último Combate de Bruce Lee” (título em Portugal)
Gênero: ação / artes marciais. Duração: 94 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 1978. Idioma: inglês e cantonês. Direção e roteiro: Robert Clouse, Bruce Lee. Elenco: Bruce Lee, Colleen Camp, Robert Wall, Gig Young, Dean Jagger, Kareem Abdul-Jabbar. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.
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