domingo, 30 de agosto de 2026

.: "Ran" coloca o poder em guerra e faz Kurosawa incendiar "Rei Lear"


Clássico de Akira Kurosawa transforma a tragédia de Shakespeare em um monumental drama de guerra sobre ambição, vingança e a ruína de uma família; filme chega ao Belas Artes À La Carte

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Dividir um império entre três filhos parecia, para o senhor feudal Hidetora Ichimonji, uma maneira razoavelmente sensata de garantir a continuidade de seu legado. O problema é que ele se esqueceu de um detalhe bastante inconveniente: filhos também podem querer o trono inteiro. É desse pequeno erro de cálculo que Akira Kurosawa ergue "Ran", um dos filmes mais grandiosos, ferozes e visualmente impressionantes da carreira dele, que chega ao streaming pela plataforma Belas Artes À La Carte.

Lançado em 1985, o filme japonês transforma "Rei Lear", de William Shakespeare, em uma tragédia ambientada no Japão feudal. Hidetora, interpretado por Tatsuya Nakadai, decide abandonar o comando de seus domínios e distribuir o poder entre Taro, Jiro e Saburo. O caçula, único dos três disposto a dizer ao pai aquilo que ele não quer ouvir, acaba banido. A partir daí, a promessa de união familiar se dissolve em traições, vinganças, mortes e batalhas.

O título "Ran" significa "caos", e Kurosawa leva a palavra a sério. A estrutura de Shakespeare permanece reconhecível, mas o diretor incorpora elementos da história japonesa, das lendas feudais e do teatro Nô para criar uma obra com identidade própria. A adaptação também troca as filhas de Lear pelos três filhos de Hidetora, deslocando a tragédia para uma sociedade marcada pela guerra, pela hierarquia e pela disputa territorial. A própria parábola das três flechas, associada ao senhor feudal Mori Motonari, serve como uma espécie de manual de família que ninguém no filme parece ter lido até o fim.

Kurosawa passou cerca de uma década preparando "Ran". Aos 75 anos, já com a visão bastante comprometida, desenhou centenas de pinturas e storyboards para planejar as cenas. O trabalho não era mero capricho de artista: as imagens serviram como mapas detalhados para a equipe durante a produção. O material revela a precisão com que o cineasta pensava cada enquadramento, cada deslocamento dos personagens e cada composição visual.

A produção também nasceu em escala gigantesca. O Festival de Cannes registra que a primeira versão imaginada por Kurosawa chegava a três horas e meia e acabou reduzida para cerca de duas horas e meia. O custo ficou em aproximadamente US$ 11 milhões, fazendo de "Ran" o trabalho mais caro da carreira do diretor. Centenas de figurinos foram produzidos especialmente para o filme, muitos deles durante anos de preparação.

O resultado é um filme em que a guerra raramente aparece como espetáculo glorioso. Kurosawa observa os exércitos à distância, deixa os corpos e as bandeiras ocuparem a paisagem e, em uma das sequências mais célebres, retira praticamente todos os efeitos sonoros da batalha para deixar a música de Tōru Takemitsu conduzir o horror. A estratégia torna a violência ainda mais desconfortável: os homens correm, os cavalos tombam, os castelos queimam e a música continua, como se o mundo tivesse decidido assistir à própria destruição.

Roger Ebert percebeu justamente essa força ao escrever sobre o filme em 1985. Para o crítico americano, a idade de Kurosawa parecia dialogar diretamente com a experiência de Hidetora, um homem que passou a vida acumulando poder e chega à velhice acreditando que ainda pode determinar o destino dos outros. Ebert também chamou atenção para os dez anos de preparação e para a dimensão excepcional da produção.

Anos depois, ao revisitar "Ran", Ebert foi ainda mais longe e relacionou o filme à própria trajetória de Kurosawa. Para ele, o cineasta havia colocado na história questões sobre envelhecimento, poder, decadência e a dificuldade de um homem que passou a vida inteira construindo algo perceber que já não consegue controlar o que virá depois. É uma leitura especialmente interessante porque Kurosawa tinha 75 anos quando dirigiu o filme, exatamente a idade de Hidetora.

Tatsuya Nakadai sustenta o centro dessa ruína com uma atuação marcada pela contenção. Seu Hidetora começa como um senhor poderoso, cercado por homens, cavalos e bandeiras, e termina vagando por uma paisagem devastada, desorientado diante das consequências de suas próprias decisões. Ao redor dele, Akira Terao e Jinpachi Nezu interpretam os filhos Taro e Jiro, enquanto Daisuke Ryū vive Saburo, o filho que paga caro por dizer a verdade.

Mieko Harada também merece atenção como Lady Kaede, uma das personagens mais perigosas da história. Movida pela vingança contra Hidetora e sua família, ela manipula os homens ao seu redor com uma frieza que transforma cada gesto em ameaça. A personagem acrescenta uma camada de crueldade particular à história e faz da disputa pelo poder um jogo ainda mais venenoso.

Visualmente, "Ran" permanece assombroso. Kurosawa utiliza grandes planos, paisagens abertas, cores cuidadosamente associadas aos diferentes exércitos e uma arquitetura monumental para transformar o Japão feudal em uma espécie de palco de proporções gigantescas. O diretor, que começou a carreira artística como pintor, compôs os enquadramentos com o rigor de quem sabia exatamente onde queria colocar cada figura.

O cuidado com os figurinos rendeu a Emi Wada o Oscar de Melhor Figurino em 1986. O filme ainda recebeu indicações ao Oscar de direção, fotografia e direção de arte. No BAFTA, conquistou os prêmios de Melhor Filme em Língua Estrangeira e Maquiagem. A produção também foi reconhecida por diversas associações de críticos nos Estados Unidos.

Em "Ran", Kurosawa não tenta suavizar Shakespeare. Pelo contrário: ele deixa a tragédia ganhar espadas, cavalos, canhões, castelos em chamas e uma quantidade pouco recomendável de problemas familiares. O resultado é uma obra monumental sobre um homem que acredita poder administrar o futuro depois de entregar o presente aos próprios filhos. A ironia é cruel. Hidetora passou décadas conquistando terras e destruindo adversários para construir um reino. Quando finalmente decide descansar, descobre que o poder tem memória curta e que seus herdeiros aprenderam muito bem as lições do pai. 

A entrada do clássico na Belas Artes À La Carte acompanha a disponibilização de "Os segredos de Ran", documentário de Chris Marker que registra Kurosawa durante a preparação de sua produção mais ambiciosa. Quarenta e um anos depois de sua estreia, "Ran" continua sendo uma experiência cinematográfica de escala rara. A família pode até começar reunida em torno de uma boa intenção. O problema é quando alguém decide repartir o reino. A partir daí, Shakespeare já avisava: a conta costuma chegar.

Ficha técnica
"Ran" | "Ran" (título original) | "Ran - Os Senhores da Guerra" (título em Portugal).
Gênero: drama, guerra e épico. Duração: 162 minutos. Classificação indicativa: 16 anos no Brasil. Ano de produção: 1985. Data de lançamento: 1º de junho de 1985. Idioma: japonês. Direção: Akira Kurosawa. Roteiro: Akira Kurosawa, Hideo Oguni e Masato Ide. Elenco: Tatsuya Nakadai, Akira Terao, Jinpachi Nezu, Daisuke Ryū, Mieko Harada, Yoshiko Miyazaki, Hisashi Igawa, Shinnosuke Ikehata, Masayuki Yui, Kazuo Katō, Hitoshi Ueki e Mansai Nomura. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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