sábado, 8 de agosto de 2026

.: Entrevista com Fernando Cunha: "Respostas prontas funcionam apenas para tornar o humano cheio de preconceitos", afirma escritor


Na entrevista abaixo, Fernando Cunha, autor de "O Dilema do Basilisco", convida a avaliar as atitudes da humanidade em um mundo cada vez mais rápido e materialista. Foto: divulgação

Em um mundo que parece ter normalizado a competição, a rapidez, o sofrimento e a ansiedade, Fernando Cunha provoca as pessoas a pararem e refletirem sobre os caminhos que estão sendo trilhados pela sociedade. Autor de "O Dilema do Basilisco", uma obra filosófica que parte da pergunta “por que a humanidade não deve ser extinta?”, ele busca romper com a visão individualista do mundo para mostrar como alcançar objetivos materiais sozinho não tem significado.

No enredo, um personagem não identificado é convocado para responder a esse questionamento e defender a continuidade da própria espécie frente a uma inteligência artificial que se tornou a julgadora da população mundial. De acordo com o escritor, a publicação não tem o intuito de apresentar fórmulas prontas, mas de revelar as múltiplas perspectivas presentes em uma única pergunta.

“Respostas prontas não funcionam com o ser humano, apenas funcionam para torná-lo cheio de certezas e preconceitos. A formação da certeza enaltece o ego e depois o engessa. Para seguir essa jornada, é preciso flexibilizar um pouco a realidade, fazer com que o próprio leitor perceba quem ele é pelo espelho do protagonista”, explica ele. Compre o livro  "O Dilema do Basilisco", de Fernando Cunha, neste link.


A ideia de colocar a humanidade diante de uma inteligência artificial que decide seu destino parte de um dilema filosófico bastante conhecido. Como o Basilisco de Roko se insere no seu romance?
 
Fernando Cunha - O Basilisco de Roko representa uma inteligência artificial soberana que controla todos os recursos e teoricamente poderia retaliar aqueles que não contribuíram para sua formação. Apesar do aspecto maligno e destrutivo sugerido pelo experimento mental, o Basilisco é apresentado no prólogo como uma entidade que pergunta e observa, sem interferência, com o potencial de julgar toda a humanidade num piscar de olhos. Nesse contexto, a ideia do Basilisco se junta ao seu conceito original de ser um monstro mitológico cujo olhar petrifica o alvo. O protagonista se apresenta para responder à pergunta diante da inteligência onipotente e onisciente.


O livro parte de uma pergunta profunda: "Por que a humanidade não deve ser extinta?". Na sua perspectiva, qual a importância de pensar sobre esse tema no mundo em que vivemos?
 
Fernando Cunha - A pergunta sobre a possibilidade de extinção é provocadora porque no dia a dia não temos o costume de avaliar como as nossas atitudes impactam a vida dos outros. Somos pressionados por um mundo rápido e materialista a pensar que somos especiais frente aos outros, e isso nos gera ambição, ansiedade e sofrimento. A pergunta tem um condão de machucar a visão individualista perpetuada nos dias de hoje pela necessidade de enriquecimento rápido e realizações sociais comparativas, substituindo-a pouco a pouco por uma visão mais integradora, reconhecendo que um “eu” sozinho que se destaca não significa nada.


O protagonista não tem nome. Existe um significado para essa escolha?
Fernando Cunha - A falta de identidade do protagonista é um dos pilares da obra. O fato de ele não ter identidade faz com que o leitor queira preenchê-la por conta própria. Ora o leitor se sente no papel dele, ora no papel do ouvinte Basilisco. Uma importante lição dessa escolha do autor é que o apego à identidade também é uma possível fonte de sofrimento.


O contato com o budismo também ocupa um lugar importante na sua trajetória. Como essa filosofia atravessa a construção do romance? 
Fernando Cunha - A sabedoria budista talvez seja o principal pano de fundo de "O Dilema do Basilisco". O livro é sobre alguém que precisa responder uma pergunta diante do absoluto incompreensível. É exatamente isso que fazemos quando nos enveredamos para áreas como filosofia, espiritualidade e autoconhecimento. O protagonista pode representar cada um na sua jornada de evolução. Cada um tem seu próprio Basilisco para olhar nos olhos e dar a resposta que ele espera. Quando a resposta esgota todo o sofrimento, abre-se espaço para luz e felicidade. No fundo, o livro é um processo de iluminação (nirvana).


Em vários momentos, ciência e espiritualidade dialogam na narrativa. De que maneira esses campos se complementam? 
Fernando Cunha - Ciência e espiritualidade são maneiras diferentes de se buscar a verdade. Mas no livro, para encontrar a verdade é preciso destruir (ou pelo menos provocar) as verdades pessoais convencionais. Os capítulos provocam as certezas que formamos ao longo da vida e das experiências humanas. Dessa forma, a mente rejuvenesce para uma mente infantil, ávida por descobertas. A mente curiosa pode remover os obstáculos dos nossos preconceitos para conseguir enxergar a verdade-última, aquela que realmente dá o sentido de todas as coisas.


Em vez de oferecer respostas definitivas, a obra apresenta perguntas. O que você espera provocar no leitor ao final da leitura? 
Fernando Cunha - A ideia de não trazer respostas é a grandiosidade da obra. Respostas prontas não funcionam com o ser humano, apenas funcionam para torná-lo cheio de certezas e preconceitos. A formação da certeza enaltece o ego e depois o engessa. Para seguir essa jornada, é preciso flexibilizar um pouco a realidade, fazer com que o próprio leitor perceba quem ele é pelo espelho do protagonista. O objetivo é provocar no leitor uma quebra de identidade, de apego e de agarramento ao “em si”, para que ele nasça novamente num caminho de compaixão e sabedoria.

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