quarta-feira, 26 de agosto de 2026

.: “O Filme de Oki” embaralha tempos e desejos no cinema de Hong Sang-soo


Filme de Hong Sang-soo, lançado originalmente em 2010, acompanha uma estudante de cinema dividida entre um professor e um jovem realizador e transforma diferentes pontos de vista em matéria-prima

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

O cinema de Hong Sang-soo costuma encontrar grandes confusões em situações aparentemente banais. Em “O Filme de Oki”, que chega ao streaming Belas Artes À La Carte, o diretor sul-coreano acompanha uma estudante de cinema envolvida com dois homens e reorganiza a história em quatro capítulos, cada um acrescentando uma perspectiva diferente ao mesmo relacionamento. O filme acompanha Oki, interpretada por Jung Yu-mi, uma estudante de cinema que se aproxima de Jingu, vivido por Lee Sun-kyun, um jovem realizador e ex-aluno da universidade, e do professor Song, papel de Moon Sung-keun. O triângulo amoroso ganha contornos particulares porque os personagens pertencem ao mesmo ambiente: o cinema. As relações pessoais, as frustrações profissionais e as próprias tentativas de compreender o que aconteceu acabam se misturando.

A estrutura é um dos principais atrativos da produção. Os quatro segmentos podem ser vistos como episódios independentes, mas, juntos, reorganizam acontecimentos, tempos e perspectivas. O primeiro acompanha Jingu em um momento de crise; os capítulos seguintes recuam e apresentam situações anteriores; no último, Oki assume a posição de autora e transforma suas experiências em filme. A mudança de ponto de vista altera a percepção sobre os mesmos personagens e acontecimentos. A própria imprensa especializada chamou atenção para essa construção: o “New York Times” classificou o trabalho como uma realização de narrativa engenhosa, próxima de uma reunião de contos literários.

A relação entre cinema e vida é ainda mais evidente porque os protagonistas vivem dentro do universo cinematográfico. Jingu tenta se afirmar como realizador, enquanto Oki também experimenta a posição de cineasta. O filme dentro do filme funciona como uma espécie de espelho, colocando em dúvida até que ponto uma lembrança reproduz o que aconteceu ou reorganiza os fatos segundo quem os recorda. Hong Sang-soo trabalha com economia visual e situações cotidianas, apostando em conversas, encontros, refeições, caminhadas e bebedeiras para revelar inseguranças e vaidades. 

A produção também ocupa um lugar particular na filmografia do diretor. “O Filme de Oki” foi selecionado para os festivais de Veneza, Toronto e Nova York em 2010, ampliando a circulação internacional de uma obra que já apresentava algumas das características recorrentes do cinema de Hong: relações amorosas complicadas, personagens ligados à produção cinematográfica, consumo excessivo de álcool e uma narrativa que deixa o espectador montar as peças.

Outro detalhe interessante está no elenco. Lee Sun-kyun, que interpreta Jingu, alcançaria projeção mundial anos depois como parte do elenco de “Parasita”, de Bong Joon-ho. Sua parceria com Hong Sang-soo, porém, já fazia parte de sua trajetória no cinema sul-coreano. Jung Yu-mi e Moon Sung-keun completam o trio central de uma produção que depende bastante das pequenas diferenças de interpretação entre uma versão e outra da mesma história.

O último segmento, que dá nome ao filme, desloca o centro da narrativa para Oki. Ela refaz cinematograficamente dois passeios pelo mesmo lugar com os dois homens e compara as experiências. O procedimento transforma o romance em uma espécie de exercício de memória: as pessoas podem ser as mesmas, os caminhos podem ser parecidos, mas a percepção muda conforme quem observa.

A escolha de “Pomp and Circumstance”, de Edward Elgar, especialmente da célebre “Marcha nº 1 em Ré maior, Op. 39”, acrescenta uma camada de ironia à produção. Tradicionalmente associada a cerimônias acadêmicas e formaturas, a música acompanha uma história ambientada no ambiente universitário, em que os personagens discutem arte, talento, carreira e fracasso enquanto enfrentam relações pessoais bem menos solenes. É uma oportunidade de conhecer uma fase particularmente inventiva da carreira de Hong Sang-soo. O filme pode provocar estranhamento por não entregar uma cronologia convencional. Em compensação, oferece ao espectador o prazer de desconfiar das próprias certezas e rever mentalmente aquilo que acabou de assistir. 


Ficha técnica
“O Filme de Oki” | “Oki's Movie” (título original)
Gênero: drama/comédia. Duração: 80 minutos. Classificação indicativa: 14 anos no Brasil; M/12 em Portugal. Ano de produção: 2010. Data de lançamento original: 16 de setembro de 2010. Idioma: coreano. Direção: Hong Sang-soo. Roteiro: Hong Sang-soo. Elenco: Lee Sun-kyun, Jung Yu-mi, Moon Sung-keun, Seo Young-hwa, Baek Jeong-rim, Lee Chae-eun e Um Tae-goo. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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