Clássico italiano de 1971 antecipa o slasher, coleciona mortes criativas e deixa "Sexta-Feira 13" com uma dívida considerável
Antes de Jason Voorhees aparecer para atormentar adolescentes em acampamentos, Mario Bava já tinha descoberto que uma propriedade isolada, um punhado de pessoas gananciosas e uma quantidade generosa de sangue poderiam render uma bela carnificina. É nesse território que chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte o filme "Banho de Sangue", produção italiana de 1971 que permanece como uma das obras mais influentes do cinema de horror.
Dirigido por Bava, o filme parte de uma premissa simples: a morte da condessa Federica Donati abre uma disputa pela propriedade situada em uma baía isolada. O que poderia render uma briga familiar, algumas reuniões de herdeiros e um processo judicial ganha contornos muito mais definitivos quando os interessados começam a morrer um atrás do outro. Bava não entrega ao público um assassino único, metódico e interessado em construir uma carreira. A cobiça movimenta praticamente todos os personagens, e cada um parece carregar uma razão particular para eliminar quem estiver no caminho. A matança vira uma reação em cadeia, como anuncia um dos títulos originais do filme, "Reazione a Catena".
O título original, porém, é "Ecologia del delitto", algo próximo de "Ecologia do Crime". E a escolha faz algum sentido: naquela baía, gente, dinheiro, natureza e propriedade estão envolvidos numa espécie de cadeia alimentar em que a espécie dominante costuma ser aquela que consegue matar primeiro. Com Claudine Auger, Luigi Pistilli, Laura Betti, Claudio Camaso, Isa Miranda, Leopoldo Trieste, Brigitte Skay e outros nomes do cinema italiano, Bava monta um elenco de personagens pouco preocupados com princípios. Auger, conhecida internacionalmente por "007 Contra a Chantagem Atômica", vive Renata Donati, uma das figuras diretamente envolvidas na disputa pela herança. Pistilli interpreta Alberto, enquanto Claudio Camaso aparece como Simon, personagem ligado aos mistérios da propriedade.
O roteiro reúne Mario Bava, Giuseppe Zaccariello, Filippo Ottoni, Dardano Sacchetti e outros colaboradores, com uma trama que mistura elementos do giallo - um subgênero do cinema italiano, especialmente popular entre as décadas de 1960 e 1970, que mistura mistério policial, suspense, terror, investigação e violência gráfica - e aquilo que posteriormente seria reconhecido como a cartilha do slasher. O Museu de Arte Moderna de Nova York, ao apresentar o filme em sua programação, destacou precisamente essa importância histórica: luvas pretas, assassino anônimo, jovens imprudentes e objetos cortantes transformados em instrumentos de morte aparecem entre os elementos que ajudaram a estabelecer as convenções do subgênero.
A influência sobre "Sexta-Feira 13" é particularmente evidente. A famosa sequência em que dois amantes são mortos juntos por uma lança durante o ato sexual reaparece em "Sexta-Feira 13 - Parte 2". A comparação entre as duas cenas é recorrente em estudos e textos sobre a genealogia do slasher. Bava também contou com um nome que se tornaria lendário em outro campo do cinema: Carlo Rambaldi, responsável pelos efeitos de maquiagem. Décadas depois, o italiano ganharia três Oscars, incluindo os prêmios por "Alien, o Oitavo Passageiro" e "E.T. - O Extraterrestre". Em "Banho de Sangue", o trabalho dele ajudou a transformar as mortes em atrações próprias, com direito a machadadas, facadas, decapitações e empalações.
São 13 mortes em uma sucessão que transforma o assassinato em espetáculo visual. O curioso é que a violência não elimina a ironia. Pelo contrário: Bava parece se divertir com a ideia de colocar seus personagens uns contra os outros até que praticamente ninguém reste para reivindicar a propriedade. A abertura já dá o tom. Uma condessa é assassinada e o crime é montado para parecer suicídio. Pouco depois, o homem responsável pela morte também vira vítima. A partir daí, a lógica convencional do suspense começa a escorregar pelo ralo. Quem mata quem? Quem está interessado na herança? Quem pretende explorar comercialmente a baía? Quem apareceu ali por acaso e quem já chegou com a faca escondida?
Essa estrutura ajuda a explicar por que o filme é frequentemente apontado como precursor fundamental do slasher. O próprio material reunido sobre a produção registra a quantidade de títulos internacionais que recebeu, entre eles "A Bay of Blood", "Twitch of the Death Nerve", "Bloodbath" e "Carnage". O IMDb identifica "Ecologia del delitto" como título original e registra duração de 1h24. Outro detalhe saboroso é que Bava, além de dirigir, assumiu a fotografia. A câmera acompanha a paisagem da baía com interesse quase tão grande quanto dedica aos corpos que vão surgindo pelo caminho.
O resultado cria um contraste curioso: a beleza do cenário e a brutalidade dos assassinatos convivem no mesmo quadro. O filme consegue ser visualmente elegante enquanto seus personagens fazem coisas que dificilmente seriam recomendadas por qualquer manual de boa convivência. A produção foi filmada na região de Sabaudia, ao sul de Roma, incluindo a casa de praia do produtor, segundo registros sobre a obra.
O orçamento modesto não impediu Bava de apostar em soluções visuais bastante inventivas, uma característica que ajuda a explicar por que "Banho de Sangue" envelheceu como referência cinematográfica, mesmo quando sua narrativa parece disposta a testar a paciência de quem tenta acompanhar todas as relações de parentesco, interesses imobiliários e planos criminosos.
O filme sabe o que quer entregar: atmosfera, mortes inventivas, humor ácido e uma sucessão de reviravoltas. Bava parece olhar para a ganância de seus personagens com uma sobrancelha levantada. Para quem conhece "Halloween" e "Sexta-Feira 13" antes de chegar aos seus ancestrais italianos, "Banho de Sangue" funciona como uma visita à árvore genealógica do horror. Para quem já conhece Mario Bava, é uma oportunidade de rever um cineasta que transformava limitações de produção em invenção visual.
Ficha técnica
"Banho de Sangue" | "Ecologia del delitto" (título original) | "Baía Sangrenta" (título em Portugal). "A Bay of Blood" (título internacional)
Gênero: terror, giallo, slasher. Duração: 84 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1971. Data de lançamento: 8 de setembro de 1971, na Itália. Idioma: italiano. Direção: Mario Bava.
Roteiro: Mario Bava, Giuseppe Zaccariello, Filippo Ottoni, Dardano Sacchetti, Franco Barberi e Gene Luotto. Elenco: Claudine Auger, Luigi Pistilli, Claudio Camaso, Laura Betti, Leopoldo Trieste, Isa Miranda, Anna Maria Rosati, Brigitte Skay, Chris Avram, Paola Montenero, Nicoletta Elmi, Renato Cestiè, Guido Boccaccini, Roberto Bonanni e Giovanni Nuvoletti. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming para quem ama cinema de verdade
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.








0 comments:
Postar um comentário
Deixe-nos uma mensagem.