segunda-feira, 7 de setembro de 2026

.: Crítica: “Quando”, de Carla Madeira, mostra mãe depondo contra o filho


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico cultural, especial para o portal Resenhando.com

Existe uma tentação contemporânea de dividir o mundo entre vítimas perfeitas e culpados absolutos. Carla Madeira faz o movimento contrário em “Quando”, quarto e mais ambicioso romance dela, publicado pela Editora Record. Um livro que exige do leitor algo particularmente desagradável: examinar as próprias convicções. Em tempos de uma sociedade cada vez mais adoecida, em que um streamer aborda e ridiculariza um ator da TV Globo na saída do Rock in Rio por causa da roupa que ele vestia e depois justifica a atitude como entretenimento, o livro ganha uma incômoda atualidade.

A história gira em torno de Viridiana, costureira e mãe de Margarida, Valquíria e Tito. Ela vive cercada pelos pequenos rituais da família, pelos afetos domésticos e por uma espécie de fé na possibilidade de manter tudo no devido lugar. Até que uma tragédia desmonta a bolha em que vive. Depois de chamar a polícia e denunciar o próprio filho, passa a conviver com uma pergunta que nenhuma sentença judicial consegue resolver: o que fazer com o amor quando ele está do lado de alguém que fez alguma coisa imperdoável?

A partir dessa premissa, começa a se desenvolver uma história em que maternidade, culpa, violência, homofobia, preconceito e Justiça se confundem até o leitor perceber que talvez não exista personagem suficientemente inocente para ocupar o papel de juiz. O gesto de Viridiana é brutal porque é correto e, ao mesmo tempo, devastador. Ela denuncia Tito à polícia porque amar alguém não significa necessariamente protegê-lo das consequências de seus atos.

Denunciar ou proteger o próprio filho se transforma em uma pergunta moral sem uma resposta satisfatória. A escritora sabe colocar o dedo na ferida e escolhe um lugar particularmente dolorido: o ponto em que uma mãe descobre que amar um filho pode significar entregá-lo à Justiça. Carla Madeira chegou a um ponto raro na trajetória dela como escritora. Depois do impacto de “Tudo É Rio”, da estrutura de “Véspera” e da investigação íntima de “A Natureza da Mordida”, “Quando” confirma uma escritora interessada em testar até onde a literatura pode levar uma situação aparentemente doméstica.

Machado de Assis já havia colocado, no conto “Pai Contra Mãe”, a miséria humana diante de uma escolha em que o afeto e a sobrevivência se enfrentam. Carla Madeira parece inverter o espelho em “Quando”: a situação a mãe contra o filho e o conflito ganha uma camada ainda mais incômoda, porque Viridiana precisa escolher entre proteger quem ama e entregá-lo às consequências do que fez. “Quando” poderia ter sido escrito como uma história convencional sobre culpa, violência e reconciliação.

Carla Madeira prefere desmontar o relógio, embaralhar os pontos de vista e fazer o leitor pensar, já que o livro avança aos solavancos do tempo. Há horários, lembranças, conversas, capítulos chamados “Engramas”, mudanças de perspectiva e episódios que retornam como se a memória fosse uma casa em que ninguém tivesse encontrado ainda o interruptor. A estrutura reproduz a experiência de quem espera: o tempo passa, mas alguma coisa permanece no mesmo lugar.

Viridiana espera Tito durante horas, dias, meses, vinte anos. Carla Madeira entende que o tempo sabe envelhecer pessoas, mas definitivamente não consegue educar sentimentos. Alguns leitores podem estranhar o ritmo contemplativo, sobretudo quando a narrativa parece interromper a ação para permanecer algum tempo dentro de uma lembrança, de uma conversa ou de uma sensação. Essa escolha, porém, está profundamente ligada ao que o romance pretende investigar: a autora quer que o leitor permaneça dentro das consequências.

Também é particularmente feliz a decisão de não transformar Viridiana em uma santa de porcelana. Ela erra, julga, sente vergonha, arrepende-se, recorda episódios que preferia esquecer e tenta compreender as próprias covardias. Em determinado momento, a mulher que se julgava correta percebe que já havia escolhido não enxergar outras dores quando elas bateram à própria porta. A maternidade, então, ganha contornos menos confortáveis. Uma mãe também pode ser espectadora, cúmplice involuntária, mulher amedrontada, pessoa preconceituosa e alguém capaz de rever a própria história.

Tito, por sua vez, não é apenas o filho denunciado, também está representado pela ausência que reorganiza a família. A homofobia surge dentro desse mecanismo familiar em que os personagens orbitam. O preconceito aparece em casa, no constrangimento, na vergonha, na religião usada como argumento, no medo da opinião alheia e na tentativa de transformar a sexualidade de alguém em problema coletivo. O romance entende que a violência também pode morar numa frase dita à mesa de jantar.

Carla Madeira não trata a dor como uma obrigação de solenidade. Pessoas continuam com fome durante tragédias, brigam por coisas pequenas, fazem sexo, criam filhos, queimam carne, tomam decisões ruins, sentem desejo, falam besteira e riem quando deveriam chorar, afinal, a vida tem péssimo gosto para escolher momentos adequados. O livro também não transforma sofrimento em espetáculo. A autora conhece o apelo da tragédia, mas não parece interessada em entregar ao leitor o conforto de um melodrama convencional. Carla Madeira escreve sobre uma família, mas observa um país.

O Brasil dos anos 1980 aparece como cenário social de uma narrativa marcada por preconceitos que não ficaram confinados ao passado e ainda ecoam em 2026. Homofobia, violência doméstica e familiar, autoritarismo e a ideia de que educar um filho significa moldá-lo pela força aparecem como sintomas de uma sociedade que aprendeu a chamar brutalidade de correção. Dentro desse contexto, expõe-se a fantasia de que os monstros nascem prontos, mas a escritora se mostra interessada no processo contrário: em como uma pessoa se forma dentro de uma família, quando uma violência pode ser ensinada, reproduzida e naturalizada, em como uma criança pode aprender que humilhar alguém é uma forma aceitável de exercer poder.

“Quando” deixa de ser apenas um romance sobre uma família destruída e passa a ser uma história sobre aquilo que o tempo faz quando decide não curar ninguém. O relógio anda, as pessoas envelhecem, o mundo continua, mas determinadas coisas permanecem no lugar em que foram pausadas. O quarto romance de Carla Madeira confirma uma escritora que poderia facilmente repetir a fórmula que a transformou em fenômeno editorial, mas prefere complicá-la. Em vez de oferecer outra história devastadora apenas pela devastação, constrói uma narrativa sobre o que vem depois da tragédia. Compre o livro “Quando”, de Carla Madeira, neste link.

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